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Alan Rodrigues (PSOL) é mais um candidato a deputado estadual em Minas Gerais. Morador de Belo Horizonte (MG) e recepcionista, ele tem 28 anos e é gay.  O jovem conversou com o Gay Blog BR e falou sobre sua trajetória política e propostas para o especial “Eleições 2022“.

Alan Rodrigues, candidato a deputado estadual pelo PSOL de MG (Foto: Divulgação)

O candidato conta que decidiu entrar para a política após entender que só a luta mudaria sua vida. “Não tolero injustiças sociais e falta de representação em lugares de lideranças. E sei que não mudarei isso sozinho, e que precisamos fazer isso juntes nas urnas e nas ruas”, pontua ele.

Já em relação a sua campanha, o mineiro destaca que o mote principal é o “Programa Fica Viva Permanente. “Estar vivo não basta, é preciso condições para que tenhamos uma vida digna, sem violência, com direitos e acessos de qualidade a cultura, a educação, ao lazer, ao esporte, ao emprego”, afirma o candidato.

“Não trago uma proposta específica para nós LGBTQIA+, mas todas as propostas são transversalizadas e comprometidas com nossa população. Desde o acesso de qualidade à saúde, ao emprego e renda, ao combate da intolerância e LGBTfobia, e a oportunidade de alcançar qualquer que seja de nosso interesse. E reafirmo que, a prostituição deve ser apenas uma opção, e não uma condição de sobrevivência imposta pela sociedade”, acrescenta Alan.

Alan Rodrigues (Foto: Divulgação)

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Alan Rodrigues: Ensino superior incompleto. Estudante de Direito com matrícula trancada no momento. Faço parte de um grande número de estudantes trabalhadores, periféricos, e no meu caso gay, que luta e nada contra a maré pra conseguir estudar. O correto mesmo é que existissem vagas em universidades públicas para todes que quiserem seguir nos estudos. Essa é uma das nossas lutas!

GB: O que o motivou a se candidatar?

Alan: Percebi que a eleição é um momento importante para construir com gente que pensa como a gente. Entendi há tempos que só a luta muda a vida, a luta coletiva. Não tolero injustiças sociais e falta de representação em lugares de lideranças. E sei que não mudarei isso sozinho, e que precisamos fazer isso juntes nas urnas e nas ruas. Sobretudo, reforço minha indignação com o sistema opressor, LGBTfóbico, racista e machista que opera no Brasil e no mundo, oprimindo e explorando nosso povo.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser um candidato abertamente LGBTQ+?

Alan: São vários, sobretudo numa conjuntura da política do ódio, comandada pelo governo Bolsonaro e seus aliados, inclusive aqui em Minas Gerais.  A dita “família tradicional” é acionada quando pretendem desqualificar outras formas de amor e de laços afetivos construídos. Na verdade, pretendem manter a hipocrisia, a falsa ideia de perfeição, justamente porque temem a ousadia de pessoas que como eu – resolveram lutar para ter o direito de existir. Não aceitamos o canto da sala, o canto do mundo. Nos queremos viver.

Neste sentido, os desafios são vários, um deles diz respeito ao acesso,
que muitas vezes nos é negado. Ou seja, vários debates, encontros e discussões que eu poderia me fazer presente, nem convite recebo. Outro, e que talvez seja ainda pior, é acreditar que saibamos falar apenas sobre as pautas LGBT. Não somos apenas uma sigla, somos um povo que deveria ter acesso livre como qualquer espaço e pessoas que se identificam cis e hétero. Eu entendo que nos limitam por total preconceito, e certamente por se sentirem ameaçados de alguma forma, porque uma candidatura LGBT é geralmente uma denúncia a tantos casos de LGBTfobia que o Estado legitima. E para que eles não sejam apontados enquanto agressores, tentam nos silenciar. Se apoiam num Deus que eu desconheço.

A mim, enquanto pessoa pública, não me convidam a vários debates, mas a população de modo geral, é na exclusão social, no não enfrentamento aos crimes que vemos acontecer diariamente, e a não garantia de nossos direitos. Por essas e outras razões que precisamos de mais LGBTs em todos os espaços, para denunciar, questionar e propor um mundo que nos caiba. Meu desafio fica ainda maior, porque além de LGBT sou negro e socialista, já que entendi que muitos antes de mim lutaram e continuam lutando para romper com a engrenagem que produz tudo isso: este ódio, opressão e exploração. Eu costumo falar que não basta ser negro e LGBT, precisamos saber de que lado estamos da luta, e eu estou do lado de todos que são explorados e oprimidos, sem negociação!

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBTQ+?

Alan: O mote da nossa campanha é o ‘Programa Fica Viva Permanente’. Estar vivo não basta, é preciso condições para que tenhamos uma vida digna, sem violência, com direitos e acessos de qualidade a cultura, a educação, ao lazer, ao esporte, ao emprego. Defendemos uma educação pública gratuita, universal, de qualidade, que seja antirracista, antifascista, antimachista, antiLGBTfóbica. Defendemos vagas para todes nas universidades, a revogação da reforma do ensino médio e a não militarização das escolas públicas e a continuidade da política de cotas. Defendemos o SUS, e que ele produza dados que quantifiquem a situação de saúde da população negra e LGBTQIA+. Defendemos a construção de restaurantes públicos e ampliação dos já existentes para que atendam todas as regiões de Minas Gerais. Defendemos o combate ao racismo institucional, estrutural e a responsabilização dos racistas, e o combate a LGBTfobia em todas as suas vertentes. Defendemos a vida digna do nosso povo preto e LGBTQIA+ Não trago uma proposta específica para nós LGBTQIA+, mas todas as propostas são transversalizadas e comprometidas com nossa população. Desde o acesso de qualidade à saúde, ao emprego e renda, ao combate da intolerância e LGBTfobia, e a oportunidade de alcançar qualquer que seja de nosso interesse. E reafirmo que, a prostituição deve ser apenas uma opção, e não uma condição de sobrevivência imposta pela sociedade.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Alan: Primeiro, precisamos atender que devemos dar a batalha para construir um novo modelo de sociedade, que não se alimente da violência, da opressão e da exploração dos nossos corpos. E devemos construir isso desde já, o que significa agir em várias frentes: na educação, na esfera da segurança pública, na jurídica, dentre outras. Precisamos lutar pelo cumprimento de leis que já foram aprovadas, aprimorar o que já foi elaborado até aqui e, avançar em todas as medidas possíveis para que seja capaz de nos assegurarmos vivas, com dignidade e liberdade. Depois de haver regulamentações, deve acontecer a devida aplicabilidade, e os transgressores devem ser devidamente responsabilizados. Devemos inclusive denunciar o pacto existente hoje, entre agressores e os mecanismos que deveriam nos assegurar, exemplo lamentável do atual governo Bolsonaro. Devemos lutar por uma educação libertadora, anti-opressora, que ajude nossas crianças a lidarem como diferença, como potência e não como problema. Por isso, não subestimamos o peso das nossas representatividades em todos os âmbitos. Ao mesmo tempo que sabemos que não basta. Precisamos estar nos espaços de poder, impor nossa voz, mas a partir de um programa que dialogue com os problemas da maioria de nós: trabalhadoras, periféricas, que lutam pela vida e sobrevivência. Ampliar e criar oportunidades para a população LGBTQIAPN+, contribuirá para que menos pessoas estejam em condições ainda mais vulneráveis. Como a prostituição, por exemplo, que na maioria dos casos está longe de ser uma opção, se revelando como uma condição de sobrevivência.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Alan: Precisamos desmistificar o uso da PrEP, para não ficar num lugar de que apenas profissionais do sexo, ou a população LGBTQIAPN+ são vulneráveis ao vírus do HIV. Contudo, deve haver uma ampliação em debates, divulgação e distribuição dele. Sempre acompanhado de informações. Como por exemplo, de que a PrEP impede que o HIV se estabeleça e se espalhe pelo organismo, mas não previne outras infecções sexualmente transmissíveis, e que por isso, deve ser combinada com outras formas de prevenção. De todo modo, importante dizer que deve se tratar de uma política pública, de acesso universal, garantida via SUS e que, portanto, depende de investimentos, informação e promoção da saúde, também do contexto da educação sexual e saúde!

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Alan: Trata-se de um governo de extrema direita, tendo como alicerce milícia, os ultraneoliberais e liberais, somado aos fundamentalistas/fascistas.  O governo Bolsonaro foi e é responsável por retirar do esgoto tudo que há de pior na sociedade, e legitimar ações e agressões aos setores oprimidos socialmente. Não apenas a nós LGBTQIAPN+, mas mulheres, negros e negras, indígenas e todos os que não são brancos heteronormativos e burgueses.  Vale precisar que ataca o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras retirando direitos conquistados. O governo Bolsonaro expressa um projeto genocida. Onde viabiliza e cultiva os discursos de ódio e intolerâncias. Se resta alguma dúvida, vale olhar o número de mortes da pandemia covid-19, que poderiam ter sido evitadas: com vacina, auxílio emergencial, e medidas protetivas. Neste bloco, a população não branca, foi duramente mais atingida.

GB: Qual a importância de se afirmar como um candidato gay, negro e socialista?

Alan: Significa compreender que este modelo de sociedade só se sustenta porque a ampla maioria é duramente explorada e oprimida. Nós, negros gays periféricos, sabemos bem quantas batalhas diárias temos que travar, e mesmo assim, muitas vezes “morremos na praia”. E isso não tem relação com nosso talento, empenho, esforço, mas com um tipo de sociedade que precisa conseguir nos convencer de que não somos bem-vindos, que não somos capazes, e com isso conseguir nos controlar, produzir riquezas etc. Sabemos que a luta coletiva, junto com os nossos, é o que nos faz fortes. As sementes de Marielle Franco, reforçam isso! Mas sabemos que juntas, juntos e juntes teremos que superar este modelo, construir saídas e isso não tem nada de ultrapassado, isso é vida! É a possibilidade de construção de uma vida plena, que não seja mediada pelo lucro. Por isso sou socialista, e se ser radical é ir à raiz das questões: Eu irei, nós iremos, e é essa convicção nos mantém fortes!

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)