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Camila Marins (PT), de 38 anos, concorre a deputada federal no Rio de Janeiro. Mulher negra e lésbica, a jornalista nasceu em Santa Rita do Sapucaí (MG). Na faculdade, teve o primeiro contato com o movimento sindical e atua como assessora de comunicação nessa área há mais de 12 anos. 

Camila Marins, candidata a deputada federal pelo PT do RJ (Foto: Divulgação)

De acordo com a jornalista, sua candidatura foi um chamado dos movimentos de lésbicas do Rio de Janeiro. “Durante uma reunião na Casa das Pretas, no Rio de Janeiro,  seu nome foi indicado para ser uma candidatura que  venha a representar a força dessa coletividade no Congresso Nacional. E foi Virginia Figueiredo, primeira candidata lésbica do Brasil nos anos 1990, que liderou esse movimento de me convocar para me candidatar“, conta Camila.

Queremos ocupar nosso espaço como voz ativa dentro da reconstrução do país e dar ao orçamento público a nossa cara: de mulher negra e lésbica. Entendemos que, no Brasil de Marielle Franco, já passou da hora de nós, lésbicas negras, colaborarmos para avanços sociais na saúde, educação, assistência social e direitos humanos com o nosso olhar, através das nossas lentes”, acrescenta a candidata.

Entre suas propostas, Camila diz que pauta o enfrentamento à fome, a miséria e o desemprego. “Vamos pressionar para que o orçamento público seja voltado para o povo. Hoje, o orçamento está estagnado pela Emenda Constitucional 95 que precisa ser revogada para que possamos fazer da construção do orçamento um debate público e participativo de toda a sociedade“, pontua Camila, que é um das entrevistadas do especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Camila Marins (Foto: Reprodução/ Facebook/ Bleia)

Confira na íntegra a entrevista com Camila Marins

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Camila Marins: Nasci no município de Santa Rita do Sapucaí (MG). Em busca de melhores condições de vida, minha família migrou para o Rio de Janeiro, onde passei parte da infância, vivendo no bairro de Jacarepaguá, zona oeste. Na adolescência, a família mudou-se novamente para Campinas, onde cursei, com bolsa, a faculdade de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2005) e entrei na vida política, tendo sido assessora de Comunicação da vereadora Marcela Moreira do PSOL. Fui operadora de telemarketing, babá e secretária para garantir melhores condições de vida

Atuo como assessora de comunicação sindical há mais de 12 anos. Foi na faculdade que eu me encontrei com o movimento sindical. Assisti a uma palestra e me pré-sindicalizei ao Sindicato dos Jornalistas da cidade. Fui até Brasília de ônibus lutar pela manutenção do diploma.

Vim para o Rio de Janeiro em 2010 para fazer uma entrevista de emprego. Estava desempregada e em uma viagem da Brigada de Solidariedade a Cuba, conheci uma jornalista que indicou para um emprego aqui. Continuei minha trajetória aliada aos sindicatos e aos movimentos sociais, principalmente na comunicação popular.  Em 2013, fui eleita diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Estive à frente da greve da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) em defesa da comunicação pública e dos profissionais de comunicação.

Conheci Indianarae Siqueira, uma das maiores lideranças da história dos movimentos de travestis e transexuais do Brasil na organização da I Marcha das Vadias no Rio de Janeiro em 2013 e me engajei ao trabalho voluntário como assessora de imprensa voluntária do Projeto PreparaNem que oferece à população trans um preparatório de ingresso no vestibular.

A luta pelos  Direitos Humanos me aproximou do legislativo. Fui uma das lideranças convidadas a contribuir no projeto do Dia da Visibilidade Lésbica apresentado por Marielle Franco na Câmara de Vereadores do Rio. Infelizmente, o projeto sofreu forte retaliação da bancada fundamentalista e acabou derrotado por apenas dois votos. Como resposta, fundamos a Ocupa Sapatão, que acontece todos os anos na Cinelândia e este ano foi na Casa das Pretas. 

Desde 2016, passei a me organizar em coletivas lésbicas para construção dos eventos relacionados ao 29 de agosto, dia da Visivilidade Lésbica. Na coletiva Sapa Roxa, fui uma das criadoras da página de facebook Indique uma Sapa, espaço de fortalecimento da economia solidária entre mulheres lésbicas. 

Em 2018, no contexto governo ilegítimo, enfrentamento ao Golpe à Presidenta Dilma, avanço do conservadorismo racista, machista e lesbofóbico e do silêncio ensurdecedor do Estado Brasileiro à pergunta “Quem mandou matar Marielle Franco?”, fundei, junto com minha esposa Roby Cassiano, e as amigas e companheiras de luta Laila Maria, Cris Furtado e Luísa Tapajós lança a Revista Brejeiras um periódico escrito por e para mulheres lésbicas, que tornou-se um grande movimento nacional e internacional de organização política de mulheres lésbicas. Pela primeira vez, fui para a Europa, na Alemanha para lançar a Revista Brejeiras e também articular uma internacionalização dos movimentos de resistência ao fascismo e à militarização da vida. Por este trabalho, a revista recebeu diversos títulos e moções de louvor e aplausos. 

Em 2021, eu iniciei o mestrado no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro e recebi o convite para trabalhar como coordenadora da equipe de Gênero da mandata Quilomba da Deputada Monica Francisco, onde fui a idealizadora do Projeto de Lei Luana Barbosa 4364/2021 que pretende tornar 13 de abril o Dia Estadual de Enfrentamento ao Lesbocídio no Rio de Janeiro e também uma das formuladores sobre a discussão do orçamento do estado a partir de uma intersecção de classe, gênero e raça. Também sou revisora do dossiê sobre a situação dos direitos humanos da população LGBTI negra no Brasil, produzido pela Race & Equality , Instituto Internacional sobre Raça, Igualdade e de Direitos Humanos no Brasil.

GB: O que motivou a se candidatar?

Camila: Eu digo que, mais que uma decisão, foi um chamado dos movimentos de lésbicas do Rio de Janeiro. Estávamos em uma reunião na Casa das Pretas, espaço de ancestralidade na cidade, quando o meu nome foi indicado para ser uma candidatura que  venha a representar a força dessa coletividade no Congresso Nacional. E foi Virginia Figueiredo, primeira candidata lésbica do Brasil nos anos 1990, que liderou esse movimento de me convocar para me candidatar. Trago comigo a força do feminismo negro que foi onde formei a minha identidade.

Tenho um orgulho enorme de ter sido apontada pelos movimentos sociais de lésbicas do Rio de Janeiro para representá-los nessa corrida eleitoral, que é a mais importante da nossa história desde a redemocratização do país. Esta candidatura é uma reação ao apagamento que nós, mulheres lésbicas negras, sempre sofremos dentro da política.

Queremos ocupar nosso espaço como voz ativa dentro da reconstrução do país e dar ao orçamento público a nossa cara: de mulher negra e lésbica. Entendemos que, no Brasil de Marielle Franco, já passou da hora de nós, lésbicas negras, colaborarmos para avanços sociais na saúde, educação, assistência social e direitos humanos com o nosso olhar, através das nossas lentes. Nossa estreia na política nacional virá com cuidado especial às populações periféricas, transexuais e travestis, com a luta dos trabalhadores e dos profissionais de comunicação e contra o genocídio da população negra e o lesbocídio.

Apesar de – e justamente por causa de – tudo que ainda se coloca entre nós e os espaços decisórios e de governo, decidimos ousar e lutar pela nossa representação nesse espaço que nos é de direito.

Esta é a eleição mais importante da nossa geração. O país irá escolher entre um projeto de democracia, respeito às liberdades individuais e coletivas ou de barbárie.  Diante deste momento tão delicado, eu decidi assumir a tarefa de ser uma força no Congresso Nacional em defesa da população LGBTQIA+, das mulheres, da população negra, das jornalistas e dos jornalistas. Somente com uma bancada numerosa e forte do campo de esquerda, o presidente Lula terá condições de reconduzir o Brasil a um rumo de luta por respeito e mais direitos para quem mais precisa. Eu me sinto pronta para ser uma deputada federal  sapatão, feminista negra e jornalista em Brasília.  A primeira sapatão eleita no Congresso Nacional.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Camila: As candidatas e candidatos LGBTs que forem eleitos no próximo mês assumirão o desafio de chegar a Brasília depois de uma legislatura eleita na esteira do fenômeno Bolsonaro e da criminalização da esquerda em 2018. O entendimento geral é que o Congresso que temos hoje é o mais conservador desde a redemocratização: mais liberal na economia, mais conservador nos costumes e mais atrasado em relação aos direitos humanos e ao meio ambiente.

O Brasil de Bolsonaro foi construído sobre ataques constantes à população LGBT que, segundo o presidente, “destrói as famílias”. Como fez em campanha, no Governo, Bolsonaro seguiu atacando nossas pautas, categorizadas por ele como “ideologia de gênero”, um termo esvaziado de sentido que o bolsonarismo usa para agrupar qualquer iniciativa ou debate que passe pela sexualidade, expressão de gênero ou educação sexual. Nossas lutas por direitos foram amplamente usadas como alvo fixo para uma base religiosa fundamentalista que sustenta o atual governo. Os avanços no parlamento foram paralisados, festivais temáticos tiveram o financiamento negado etc.  No Supremo, o ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro, foi sorteado para tratar dessas matérias. O presidente comemorou, dizendo que isso era “sorte para a família tradicional”. A população LGBT foi retirada das diretrizes de direitos humanos.

Estamos trabalhando muito para garantir que tenhamos um Congresso plural, com maioria no campo progressista. O presidente Lula precisará disso para implementar as mudanças necessárias para tirar o país da lama, como a revogação do teto de gastos e a volta de investimentos nas populações mais vulneráveis. O papel das candidaturas LGBTQIA+ nesse cenário é muito importante.

Desde 2018, parte da esquerda passou a reproduzir uma narrativa que coloca pautas identitárias como algo que confunde a luta contra o capitalismo e o neoliberalismo. No entanto, o feminismo negro produziu a síntese entre gênero, raça e classe que desmonta essa falta oposição e propõe a interseccionalidade.

Também diria que a precariedade econômica, a falta de garantia de nominata e a LGBTQIfobia institucional são desafios que precisamos enfrentar cotidianamente nas instâncias partidárias mesmo antes da confirmação das candidaturas. Precisamos lutar, e muito, para garantir um financiamento digno, tempo de TV e rádio e condições materiais para fazer a campanha. 

Esse desafio é também o motivo da candidatura: precisamos ocupar nosso espaço na política, porque só nós falaremos por nós.    

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Camila: Meu programa tem propostas para o enfrentamento à fome, a miséria e o desemprego, que são  tragédias enfrentadas por  pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo a população LGBTQIA+ que mais precisa.  Vamos pressionar para que o orçamento público seja voltado para o povo. Hoje, o orçamento está estagnado pela Emenda Constitucional 95 que precisa ser revogada para que possamos fazer da construção do orçamento um debate público e participativo de toda a sociedade. Vamos propor uma lei federal que garanta o transporte público gratuito a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Hoje, apenas alguns estados adotam esta medida. Vamos fazer com que este benefício atenda a todas e todos os brasileiros que precisam.

Sou mulher, feminista negra e sapatão e trago as marcas e vivências do que tudo isso representa. Por isso,  tenho um programa extenso e profundo para o enfrentamento da LGBTQIAfobia e pressionar pela qualificação e produção de dados e estatísticas acerca de nossa população. Não sabemos, por exemplo, quantas pessoas da nossa população foram impactadas pela COVID. Por isso, é urgente a inclusão de marcadores sociais de identidade de gênero e orientação sexual nos prontuários de saúde, cadastros de políticas públicas etc.  Uma das propostas é a nacionalização da Lei Luana Barbosa de enfrentamento ao lesbocídio, projeto que sou idealizadora no Rio de Janeiro e que está avançando em Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas em todo o Brasil.  Precisamos qualificar o atendimento à nossa população na rede pública de saúde que acaba fazendo as pessoas deixarem de procurar tratamentos preventivos a doenças graves.  Defendo a adoção de um protocolo de atendimento para a população LGBTQIA+ no SUS a ser seguido por todas e todos os profissionais de saúde e para isso precisamos de orçamento tanto para a formação dos trabalhadores como para a execução de campanhas.  Defendo, ainda, a ampliação das licenças-maternidade e paternidade. Como jornalista, combato as fake news e, para isso, é fundamental uma regulação social e econômica das plataformas digitais que construam um Fundo de Fomento às Mídias Populares e Comunitárias; além da defesa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e dos direitos dos jornalistas em defesa de um piso nacional. Também defendo a formulação de políticas públicas de enfrentamento à gordofobia, uma vez que pessoas gordas maiores sequer conseguem atendimento nos hospitais ou mesmo realizarem exames ou estudar já que os móveis dos equipamentos públicos não são inclusivos. Ademais, precisamos incentivar a ciência e a pesquisa. Vou dar um exemplo: existem pesquisas no Brasil de combate à gordofobia que poderiam ser base de uma política pública de incentivo à indústria têxtil plus size, gerando emprego e renda.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Camila: Além da Lei Luana Barbosa, defendo que o enfrentamento a LGBTfobia deve começar nas escolas. E a Lei Maria da Penha já prevê o ensino de gênero nas escolas, mas não é cumprida. Pelo contrário, enfrentamos um momento de criminalização do debate de gênero. Ensinar gênero nas escolas significa conscientizar jovens sobre direitos, consentimento e orientar em casos de violência, além de constituir uma consciência de empatia. É com um projeto  real de educação para a diversidade que vamos conseguir combater o preconceito, a discriminação e a violência física e psicológica que sofre nossa população LGBTQIA+. Defendo ainda ampliação da rede de proteção às pessoas LGBTQIA+, o respeito ao direito do nome social para pessoas trans; casas de acolhimento e abrigamento e estímulo à economia solidária LGBTQIA+. Em todo o estado do Rio de Janeiro, existe apenas uma  delegacia especializada em crimes de intolerância, a Decradi, que fica na região central da capital fluminense e precisa ser interiorizada e ampliada.  Também é urgente fomentar o debate nas mídias privadas e públicas e também direcionar orçamento para as mídias específicas LGBTQIA+ que fazem conteúdo de excelente qualidade. A comunicação é uma política estruturante que precisa ser disputada em seu modelo e narrativa. O enfrentamento a LGBTQIAfobia deve ser um projeto do Estado brasileiro.

GB:O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Camila: A PrEP é fundamental para a prevenção do HIV. Na Europa e nos Estados Unidos o número de infecções está caindo drasticamente com a adesão ao Truvada, nome comercial da medicação. Porém, no Brasil, nós criamos dois tipos de adesão ao medicamento. Quem pode pagar, vai a uma farmácia e compra o medicamento sem nenhuma exigência. Quem não pode, passa por uma triagem que determina se você pode ou não aderir ao tratamento. Hoje, se uma pessoa chegar à triagem numa unidade de saúde e dizer que sempre usou camisinha, esta triagem elimina a possibilidade de acesso ao PrEP. Mas todos nós sabemos que basta apenas um caso de exposição ao HIV para uma infecção pelo vírus. Amanhã, essa pessoa que até hoje não teve uma exposição, pode vir a se infectar. Por isso, nós defendemos o fim dessa divisão entre quem tem ou não dinheiro. Defendemos a PrEP para todas as pessoas que queiram ter acesso ao tratamento preventivo e a retomada de investimento público nas políticas que foram sucateadas pelo governo Bolsonaro. É com orçamento que vamos ampliar a distribuição de medicamentos. 

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Camila: Como um desastre que nós não merecíamos. A educação sofreu cortes que colocaram em perigo o ensino superior público e a nossa ciência, paralisada, assistiu a maior fuga de cérebros dos últimos tempos. A violência contra a população negra e periférica cresceu enormemente, bem como o feminicídio e a LGBTQIfobia, cada vez mais recorrentes após a facilitação progressiva à compra de armas e munições. A gestão criminosa da pandemia, o desmatamento desenfreado da Amazônia e o uso político de fundamentalismo são exemplos da tempestade perfeita que vivemos nos últimos anos. Precisaremos de um bom tempo para recuperar o que perdemos nesses quatro anos e para isso precisamos de todo mundo. Não temos tempo a perder. É urgente que cada um e cada uma de nós converse com amigues, colegas, contatinhos para elegermos Lula no primeiro turno e uma bancada LGBTQIA+ de esquerda para o Congresso Nacional.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)