Palco de discussões acaloradas e de temáticas super contemporânea da sociedade, a Arena #SEMFILTRO da Bienal do Livro Rio encerrou seus trabalhos, na noite do último domingo, ao melhor exercício do que propôs festival: valorizando a cultura, a democracia e a diversidade, em um bate-papo sobre a literatura trans.

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Mulher Pepita. Foto: divulgação

Luisa Marilac, Pepita, Tarso Brant, Nana Queiroz e Natália Travassos, mediados pelo autor e roteirista Felipe Cabral, conversaram sobre os processos de transição sexual, as dificuldades enfrentadas, a aceitação e a superação – temas detalhados em suas obras -, que inspiram e ajudam não só as pessoas que vivem essas situações, mas também a gerar empatia social.

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Luisa Marilac. Foto: divulgação

Luisa Marilac reforçou que o movimento LGBT precisava fortalecer e “unir a diversidade dentro da diversidade”. “Quando me questionam sobre a minha militância, eu digo que ela significa lutar por direitos ininterruptamente, praticar o bem e viver dignamente. Eu luto pela nossa causa todos os dias, mesmo que eu não concorde com tudo. Tenho uma forma de ver a vida diferente, e isso está no meu livro. Entendo que discordar é saudável, desde que feito com respeito. O movimento LGBT não pode ficar só dentro dele mesmo. Eu posso ter opiniões diferentes e coexistir no movimento”, destacou ela, cuja história está retratada em “Eu, travesti”.

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Foto: divulgação

Referência no ambiente acadêmico, no qual trava batalhas diárias contra o preconceito, Amara Moira reforçou as vitórias de sua vida pessoal e também dos homossexuais, bissexuais e  transgêneros. “Eu sou uma das primeiras pessoas trans doutoras, mas sonho com o dia em que eu não consiga contar quantos nós somos”, disse a autora de “E se eu fosse puta”, muito aplaudida pelo público. Ela criou um modelito especial para a Bienal, que mandava um recado para os governantes e líderes sociais: “Minha roupa é feita de saco de lixo e de coisas descartáveis, mas eu sou professora e sou uma das únicas a ter esse privilégio no mundo em que me marginalizam. Eu sou muito além do que me veem. Hoje eu ensino, eu sou a doutora”.

Tarso Brant, um dos primeiros homens trans do Brasil, contou à plateia que seus textos buscavam compartilhar sentimentos. “Eu traduzo o que eu penso, que é a mensagem de que quanto melhor formos, melhor será a nossa sociedade. E acredito que a nossa arte precisa extravasar, porque quando isso acontece, a gente deixa um legado e é isso que importa”, sentenciou.

Ao fim do encontro, Pepita roubou a cena quando os escritores foram questionados por Gabriel, um trans negro que estava na plateia, a respeito dos desafios para se ver retratado nos livros e nos debates: “Não temos a discussão sobre raça no movimento. Nessa mesa não tem um trans negro. Sofremos duas vezes, por sermos trans e por sermos negros. Queria saber como podemos fazer para mudar isso”, questionou o jovem. Ela não teve dúvidas: “A gente vai começar a mudar isso agora. Senta aqui no meu lugar”, convidou, cedendo seu lugar a ele para que tivesse voz de destaque no encontro, provando que o movimento LGBT está vivo e mais ativo do que nunca.

Foto: divulgação

A psicanalista Nana Queiroz, que integra o Grupo Arco-Íris de cidadania LGBT, salientou que embora o Brasil seja o país onde mais se mata LGBTs, o empoderamento dessa comunidade era inegável e crescente. “Essa Bienal foi invadida pelo poder público sob uma justificativa absurda. Mas esse debate, com esse espaço lotado, é uma prova da força do movimento. Os retrógrados podem tentar, mas não vamos ceder, aliás, vamos fortalecer a luta”, frisou.

A Bienal Internacional do Livro Rio é, há 38 anos, um espaço para a promoção da leitura, cultura e discussão sobre os mais diversos temas que permeiam a sociedade. Por isso, é reconhecida como o maior evento literário do Brasil. Este ano, se tornou também um símbolo da resistência da livre expressão artística e literária. E, acima de tudo, do direito de cada cidadão escolher o que deseja ler. “O que a nossa população precisa é de educação para fazer suas próprias escolhas. Essa é a bandeira da Bienal”, afirma Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da comissão do festival.

Durante dez dias, mais de 300 autores nacionais e internacionais e dezenas de artistas, acadêmicos, filósofos, cientistas, lideranças religiosas, movimentos sociais, ativistas e youtubers, dedicaram horas de suas vidas para estar junto aos 600 mil visitantes do festival, discutindo temas contemporâneos – dos mais corriqueiros aos mais densos e polêmicos.

“A Bienal é e continuará sendo plural. O maior evento de conteúdo do país não termina neste domingo (8/9). Ele seguirá com cada um que visitou ou trabalhou nesta edição histórica”, destaca Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal.

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