Em 1984, Marquinho está em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, à espera de uma notícia que já parece ter chegado antes de ser dita. Fernando, seu companheiro, morre em decorrência de complicações relacionadas à AIDS em um período em que a doença ainda era cercada por desinformação, medo e isolamento. Quarenta anos depois, outro homem entra em um teatro em ruínas para tentar contar uma história que também ficou tempo demais sem nome.
É desse encontro entre tempos que nasce “Dois Palitos”, solo de autoficção que estreia em 16 de junho no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, em São Paulo. A montagem tem direção de João Pedro Madureira, atuação de Gabriel Borsatto e dramaturgia assinada pelos dois. A temporada segue até 8 de julho, com sessões às terças e quartas-feiras, às 20h.

A peça acompanha Gabriel, um jovem ator que ocupa um teatro em ruínas para revelar um segredo. Em paralelo, apresenta Marquinho, personagem livremente inspirado em um poema da plaquete “Língua Pele Áspera”, do escritor curitibano Francisco Mallmann. O primeiro vive no presente. O segundo está nos primeiros anos da epidemia de AIDS no Brasil, quando o diagnóstico vinha acompanhado de silêncio social, culpa atribuída às vítimas e afastamento.
O ponto de partida surgiu há quatro anos, quando Borsatto entrou em contato com a obra de Mallmann. A partir daí, veio o desejo de elaborar experiências pessoais pela cena. O encontro com Madureira transformou essa investigação em dramaturgia, sem reduzir a peça à confissão nem à reconstituição histórica.
“Existe um momento em que a proximidade da morte produz também uma percepção muito radical da vida”, afirma João Pedro Madureira. “Sinto que a peça fala desse susto que a gente leva ao perceber que está vivo diante da possibilidade da morte.”
O espetáculo olha para o HIV a partir da memória, não apenas da biologia. Interessa menos explicar o vírus do que observar o que ela produziu nas relações, nos corpos e no vocabulário afetivo de diferentes gerações. Em 1984, Marquinho espera a morte do companheiro. No presente, Gabriel tenta entender por que certas histórias continuam agindo mesmo quando parecem arquivadas.
A imagem que dá nome à peça vem de dois fósforos queimados, grudados um ao outro. Não há metáfora escondida. Há um resto material de fogo, contato e perda. O palco segue essa lógica. A encenação ocupa um espaço empacotado por uma grande lona plástica translúcida e dezenove cadeiras. A cenografia de Lize Borba e Romy Pocztaruk, ao lado do figurino de Mila Cavalcante, cria um ambiente de ruína e espera, em que o corpo do ator e a palavra sustentam a travessia.
“O que me interessa é que essa combustão vire ação”, comenta Gabriel Borsatto. “Pode ser ligar para alguém, ir a um lugar que você está adiando, parar cinco minutos e sentir o que está sentindo. Dois Palitos não é sobre como as coisas acabam. É sobre perceber que elas ainda não acabaram.”

Madureira é ator, diretor, dramaturgo e psicanalista. Nascido em Porto Alegre e radicado em São Paulo, formou-se pelo TEPA, fez complementação em cinema pela PUCRS e especialização em psicanálise pelo CEP-SP. Fundou a vai!ciadeteatro e tem trajetória ligada à autoficção e à criação cênica, com trabalhos como “Carcaça” e “Garçonete”.
Borsatto tem formação continuada em teatro desde 2007, com passagens pela Casa de Teatro de Porto Alegre, UERGS e Núcleo Experimental de Artes Cênicas do SESI/SP. No cinema, atuou em curtas e longas-metragens, entre eles “Depois da Meia-Noite”, de Mirela Kruel. Na TV, integra o elenco de “Oráculo das Borboletas Amarelas”, da TV Brasil.
Serviço
Espetáculo: “Dois Palitos”
Direção: João Pedro Madureira
Atuação: Gabriel Borsatto
Classificação: 14 anos
Duração: 60 minutos
Local: Espaço Parlapatões
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158, Consolação, São Paulo, SP
Temporada: de 16 de junho a 8 de julho de 2026
Dias e horários: terças e quartas-feiras, às 20h
Observação: não haverá sessão em 24 de junho por conta da Copa
Ingressos: R$ 90, inteira, e R$ 45, meia-entrada
Vendas: Sympla
Ficha técnica
“Dois Palitos”
Livremente inspirado em um poema da plaquete “Língua Pele Áspera”, de Francisco Mallmann
Direção: João Pedro Madureira
Dramaturgia: Gabriel Borsatto e João Pedro Madureira
Ator: Gabriel Borsatto
Assistência de direção: William Moreira
Direção de movimento: Natália Karam
Cenografia: Lize Borba e Romy Pocztaruk
Figurino: Mila Cavalcante
Iluminação: Bruno Polidoro
Trilha sonora original: Frederico Santiago
Provocação dramatúrgica: Júlia Portes
Designer e identidade visual: Gilmar Filho
Mídias sociais e gestão de tráfego: Nathália Alves
Direção de produção: Mariana Leme
Divulgação
Direção criativa de mídias: Amauri Neto
Fotografia: Igor Melo
Assistente de fotografia: Bia Garbieri
Direção de fotografia e edição: Denys Costa
1º assistente de câmera: Sergio Alcantara
2º assistente de câmera: Gabriel Cézar
Registro de making of analógico: Sofia Hage
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