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Intérprete da icônica personagem Vera Verão, o ator e bailarino de 1,98m, Jorge Luiz de Souza Lima, conhecido artisticamente como Jorge Lafond, nos deixou há 19 anos, em 11 de janeiro de 2003. Em 2000, Lafond definiu-se : “Um negro homossexual, pobre, que veio do subúrbio do Rio de Janeiro, da Vila da Penha, e que hoje conseguiu esse estrelato que, pra mim, é uma coisa legal. Consegui realizar todos os objetivos que tinha na vida”.

Lafond alegre em sua casa noturna, a Freedom, em 2002. Foto: Vidal Cavalcante / Estadão
Lafond foi sócio da boate LGBT Freedom, em SP. Foto: Vidal Cavalcante / Estadão (2002)

Lafond começou a carreira na televisão no início dos anos de 1980 e acumulou participações em novelas e filmes antes de atingir o ápice do sucesso na emissora de Silvio Santos. O sobrenome artístico foi adotado em homenagem à atriz Monique Lafond, que recebeu um pedido de autorização informal do ator para usá-lo.

EEEEEEEPA!
EEEEEEEPA!

Jorge nasceu em 29 de março no ano de 1952, em Nilópolis, região metropolitana no Rio de Janeiro. Segundo ele, aos seis anos já tinha consciência de que era gay. Filho do bombeiro hidráulico Theodoro de Souza Lima Filho e da telefonista Diamantina Nogueira Lima, Lafond disse que Clodovil foi importante em seu processo de aceitação junto à família: “O Clodovil, quando tinha seus programas estilo ‘TV Mulher’, foi o responsável pela aceitação junto à minha família. Ele fez a cabeça do pessoal lá em casa. Eu fazia minha família sentar na sala para ver que a b1ch4, o v14d0 de que tanto falavam, não era aquela coisa… Que poderia transmitir uma grande verdade”, lembrou em entrevista.

Ironicamente, em 1992, quando já tinha cerca de 40 anos, Lafond foi ao programa “Clodovil Abre o Jogo”, na TV Manchete, e reagiu às alfinetadas do apresentador. A produção chegou a alegar a Jorge que houve “problemas técnicos” e que gravação não iria ao ar. “Eu admirei Clodovil até o dia em que fui fazer ‘Clodovil Abre o Jogo’. A entrevista foi ironia atrás de ironia. Depois recebi um bilhete do diretor, junto com flores que não acabavam mais: ‘Jorge Lafond, infelizmente sua entrevista não pôde ir ao ar por problemas técnicos’. Foi a b1ch4 que tentou me arrasar, mas comigo não deu! Foi pau a pau! Ela fez aquela linha de quem não é b1ch4, mas eu já sou a b1ch4 mesmo”, comentou certa vez.

Jorge Lafond em outubro de 2002, cerca de três meses antes de sua morte. Foto: Vidal Cavalcante / Estadão
Jorge Lafond em outubro de 2002, cerca de três meses antes de sua morte. Foto: Vidal Cavalcante / Estadão

Lafond começou a trabalhar aos 10 anos em uma oficina mecânica, onde ia três vezes por semana e, aos finais de semana, trabalhava com a mãe em parques de diversões. Iniciou balé clássico aos nove anos no Teatro Municipal do Rio e passou a dar aulas de dança em academias do subúrbio carioca um pouco depois. Já na vida adulta, se formou em teatro pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e também ingressou no curso de História, chegando a dar aulas em um colégio público na Vila da Penha, zona norte do Rio de Janeiro.

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Jorge Lafond como “Vera Verão – Reprodução

Jorge começou sua carreira artística se apresentando em boates e cabarés do Rio de Janeiro como dançarino. Aos 17 anos, foi convidado por Haroldo Costa a se apresentar fora do país e foram 10 anos fazendo shows nos Estados Unidos e Europa. No entanto, fazia viagens frequentes ao Brasil, pois desde 1974, integrava o corpo de bailarinos do Fantástico, na Rede Globo.

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Jorge Lafond – Reprodução

Em 1981, já morando no Brasil definitivamente, começou a fazer participações em quadros humorísticos no Viva o Gordo”, com Jô Soares, e Os Trapalhões, com Renato Aragão. Já sua primeira novela foi “Sassaricando”, em 1987, onde interpretava o garçom Bob. “Um personagem que atacava, literalmente, os galãs da novela. Pensei que seria uma catástrofe, fiquei até com medo de sair de casa. Mas as pessoas adoraram e isso me deu uma motivação para continuar”, afirmava. Já em “Kananga do Japão”, da TV Manchete, deu vida a Madame Satã, personagem que também interpretou no teatro.

No cinema, Lafond participou de “Rio Babilônia” (1982) como bailarino, “Bar Esperança” (1983), “Bete Balanço” (1984), “Rock Estrela” (1986), “Leila Diniz” (1987) e “Sonhei com Você” (1988).

 Lafond ao lado de Marcelo Padula, seu empresário, e outro amigo. Foto: Imagem cedida por Marcelo Padula
Lafond ao lado de Marcelo Padula, seu empresário, e outro amigo. Foto: Reprodução/Marcelo Padula

E foi no final da década de 1980 que o ator ganhou popularidade, no programa “Os Trapalhões”, no papel de um soldado afeminado. De lá, migrou para o SBT para dar vida à Vera Verão no humorístico “A Praça É Nossa”, que interpretou até a sua morte. A sua esquete sempre seguia um mesmo roteiro: Carlos Alberto de Nóbrega, ou Charles Albert, como dizia Lafond em cena, conversava com alguns personagens, até que aparecia Vera Verão, sempre com maquiagem carregada e roupas espalhafatosas. Após uma bem-humorada discussão, algum personagem lhe chamavam de “bicha”, de forma ofensiva, e a resposta vinha com o clássico bordão: “Êêêpa! Bicha não!”.

Na década de 1990, Lafond explicou a origem do personagem: “A Vera Verão surgiu no meu primeiro convite do Wilton Franco nos “Trapalhões”, em um quadro que era o bingo do Mussum e o empresário do Michael Jackson. Eu fazia um personagem que saiu do morro da Mangueira e foi para os Estados Unidos, super machão. Quando voltava, era todo desmunhecado. Quando eu abria a porta do apartamento, o Mussum falava: ‘Zecão! Zecão! O que aconteceu com você, Zecão?!’. Aí eu gritava: “Zecão, não, meu amor! Meu nome agora é Vera Verão! Depois, a gente apagou, porque veio outras coisas. Quando veio o convite do Carlos Alberto pra ir pro SBT, ele falou que queria um personagem assim e assado. Falei: ‘Posso dar um nome?’. Ele falou: ‘pode’. Eu disse: ‘Vera Verão’. Ele achou meio ‘assim’, mas conclusão: já há 10 anos que o Brasil inteiro grita esse nome [por] aí afora!”, prosseguia.

 Vestido como Vera Verão, Lafond ao lado de Buiú, o Azeitona. Foto: Imagem cedida por Buiú da Praça
Vestido como Vera Verão, Lafond ao lado de Buiú, o Azeitona. Imagem cedida por Buiú, da Praça

Envolvido em diversas polêmicas, Lafond lançou a biografia “Vera Verão: Bofes & Babados“, ameaçando dizer o nome de várias personalidades famosas que teriam saído com ele “no sigilo”. Marcelo Padula, amigo e empresário contou ao jornalista André Carlos Zorzi, do Estadão, que “Lafond era aquilo que você via. […] era uma pessoa de um gênio muito difícil, temperamental, seguro de si. Era autoritário, exigente, detalhista. Não tinha muitas amizades, principalmente no meio artístico, com ninguém. Conhecia todo mundo, falava, brincava, mas ninguém frequentava a casa dele. Pouquíssimas eram as pessoas que tinham um nível de intimidade com ele”. Em vida, o humorista explicava: “Procuro cultivar amizades que foram desde o meu início. Não tenho muita relação com o pessoal do meio artístico. Eu consigo contar realmente nos dedos. É uma vida normal, tranquila. Sempre fui assim. Nunca fiz parte daquela chamada ‘panela’, entende? Para você conseguir alguma coisa ou papel, tem que estar ao lado do fulano 24 horas por dia, puxar saco… Nunca tive dessas coisas. Se eu tiver que vencer, vou vencer pelo meu talento”. 

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Jorge Lafond – Reprodução

O empresário também lembra o cotidiano do humorista: “Lafond andava com uma camiseta regata do Flamengo enorme, uma bermuda, um chinelo de dedo, cara lavada e mais nada. Era um extraordinário marqueteiro. Ele usava a camisa de cada time conforme a conveniência e o interesse. Em São Paulo, ele usava camisa do Corinthians, do São Paulo, e no Rio era do Fluminense e Flamengo. Ele tinha uma grande simpatia pelo Fluminense. Um dos seus carros tinha um adesivo gigante do Fluminense e outro da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense”.

 Lafond descaracterizado de Vera Verão, em fila no Aeroporto de Congonhas. Foto de 21 de maio de 1998. Foto: Maurilo Clareto / Estadão
Lafond descaracterizado de Vera Verão, em fila no Aeroporto de Congonhas. Foto de 21 de maio de 1998. Foto: Maurilo Clareto / Estadão

Sobre a homofobia que sofria, o ator dizia que “resolvia a situação” na hora, mas sabia que não era todo LGBT+ que conseguia se proteger: “Não dou pelota para isso, quero que cada um cuide do seu lado. Mas sei que pra outras pessoas, se torna uma coisa pesada. Já é difícil encarar duas situações; para mim, seriam três, porque além de negro e homossexual, sou artista. Não é aquela coisa que caminhe tranquilamente. Pro negro, ser gay é uma coisa meio fechada, a nivel de não poder se declarar abertamente, porque tem aquele preconceito: ‘Ai, tá ‘estragando’ a cor’… Comigo ninguém fala, que já meto logo a mão na cara, acabo logo o barraco e tudo bem, tiro de letra. Agora, paras outras pessoas, sei que é complicado”.

Jorge Lafond como 'madrinha de bateria' da Unidos de São Lucas, em 2002. Foto: Armando Favaro / Estadão
Jorge Lafond como ‘madrinha de bateria’ da Unidos de São Lucas, em 2002. Foto: Armando Favaro / Estadã

O carnaval também era uma das paixões de Lafond e um de seus momentos marcantes foi em 1990, como destaque da Beija-Flor, que trazia o enredo “Todo Mundo Nasceu Nu“. Em cima de um vulcão, sambou sem roupa pela avenida.

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Jorge Lafond era presença marcante nos carnavais cariocas, causando polêmica quando certa vez desfilou nu em um carro alegórico (Reprodução)

Em seu último carnaval, em 2002, desfilou pela Unidos de São Lucas, no inusitado posto de rainha de bateria.

CRISE HIPERTENSIVA

Em 10 de novembro de 2002, durante uma participação no programa “Domingo Legal”, na época apresentado pelo Gugu Liberato, um episódio o deixou magoado. Caracterizado de Vera Verão, ele foi retirado do palco pela produção a pedido do padre Marcelo Rossi, que se apresentaria logo em seguida. Após a participação de Rossi, os produtores queriam que Lafond voltasse ao palco, mas ele não voltou.

Uma semana após o episódio, no dia 17 de novembro de 2002, Jorge Lafond foi internado com diagnóstico de crise hipertensiva. Depois de várias internações e retornos para a casa, ele faleceu no dia 11 de janeiro de 2003, vítima de um infarto fulminante.

Milhares de pessoas acompanharam o enterro do humorista no cemitério do Irajá, no Rio de Janeiro. Agnaldo Timóteo, Alcione, Emílio Santiago, Pepê e Neném, entre outros artistas, estavam no local, que contou até com escolta policial na porta. “Quando cheguei lá, o Rio de Janeiro inteiro estava no cemitério. As pessoas estavam penduradas pelos muros, em cima das lápides, vieram helicópteros. O programa do Gugu, na época “Domingo Legal”, fez uma transmissão ao vivo do enterro dele”, lembrou seu ex-empresário.

Uma verdadeira multidão foi ao enterro de Lafond no cemitério do Irajá, no Rio de Janeiro. Foto: Alaor Filho / Estadão
Uma verdadeira multidão foi ao enterro de Lafond no cemitério do Irajá, no Rio de Janeiro. Foto: Alaor Filho / Estadão
Até mesmo policiais militares precisaram participar da escolta do caixão do humorista. Foto: Alaor Filho / Estadão
Até mesmo policiais militares precisaram participar da escolta do caixão do humorista. Foto: Alaor Filho / Estadão

O momento gerou um emocionado desabafo de Carlos Alberto de Nóbrega, que foi ao ar à época: “Vai ser difícil eu falar, mas vou falar porque você merece. Você nunca participou de festas na minha casa e nunca foi nos nossos jantares de fim de ano. Mas você nunca deixou de ser meu amigo. Duas vezes na vida, tive problemas sérios e precisei de ajuda espiritual. Foi com você que contei. Em respeito a esses dois momentos na minha vida, eu não vou participar do show da sua morte, Lafond. Sei o que estou falando e muita gente sabe. Nesse show vocês não vão me ver”.

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