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Não era amor, era cinismo – Diogo de Castro Gomes

A partir da fricção com “Uma noite e 1/4”, o psicanalista Diogo de Castro Gomes reflete sobre como o amor se transforma em obediência quando passa a operar segundo a lógica dos números

COLUNISTA

Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

Chamamos de amor aquilo que já era outra coisa.
Chamamos de cuidado o que era cálculo.
Chamamos de proteção o que era controle.

Não foi ingenuidade.
Foi adesão.
O aceno de cabeça.

O “faz sentido” dito sem pensar.
A assinatura no rodapé.

Hoje, quase todo mundo sabe
que o discurso não fecha,
que a promessa não se cumpre,
que o sistema falha.

E, ainda assim, continua.
Não porque acredita —
mas porque funciona.

Existe um tipo de crença que não depende da fé.
Ela sobrevive mesmo depois do descrédito.
É a crença de quem diz: eu sei – e segue.
Segue trabalhando.

Segue a mando.
Segue exigindo.

Como se o saber fosse apenas
mais um detalhe administrável.

O amor deixou de ser encontro.
Virou investimento.

Ama-se aquele que rende.
Ama-se aquele que responde.
Ama-se aquele que repete.
O gesto certo.
A opinião certa.
O silêncio certo na hora certa.

Quando o amor passa a exigir utilidade,
ele já não sustenta o desejo.
Ele o substitui.

Há uma violência aí que não grita.
Ela sorri.
Ela orienta.

E diz, com doçura:
você é o problema.
Depois diz:
é para seu bem.

Na família, esse cinismo aprende
a falar a língua do cuidado.

A frase vem pronta.
À mesa.
No carro.
Antes de dormir.

Não é ódio.
É pior.

É abandono organizado.

Aprendemos a chamar de maturidade
a desistência.
Aprendemos a transformar o fracasso em prova de caráter.

Aprendemos a rir da diferença
antes que ela nos exponha.

O cinismo não é ignorância.
É uma forma de gozo.

Goza-se da própria submissão.
Goza-se de ver o outro submetido.
Goza-se de sobreviver
ao custo de se apagar.

Por isso é preciso dizer com clareza:
não era amor.
Era cinismo.

A psicanálise começa em outro lugar.

Quando o sujeito reconhece que amar
não é gerir,
não é calcular,
não é exigir retorno.
Amar é dar o que não se tem
a alguém que não o quer.

E isso — justamente isso —
não serve para nada.

Por isso é tão difícil.




Diogo de Castro Gomes
Diogo de Castro Gomes
Psicanalista, Doutorando em Psicanálise pela UERJ e Formação Psicanalítica pela ELF (CRP 05/31652)📍Contato para atendimento online ou presencial: diogo@gay.blog.br

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