Em 1972, o diretor John Waters filmou Pink Flamingos, que veio a ser um ícone do cinema underground daquela época. O roteiro contava a história da drag queen Divine, uma figura peculiar, capaz de causar ojeriza com as suas atitudes bizarras.

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No Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, havia também uma versão carioca da Divine: Laura de Vison, sucesso nas décadas de 1970, 1980 e 1990 como transformista.

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Nascido em 1939, no subúrbio do Rio de Janeiro, Vison durante o dia lecionava história e moral e cívica em escolas públicas com seu nome de batismo, Norberto Chucri David. À noite, era a conhecida Laura de Vison, que chamava atenção por onde passava. Além de dublar, prendia a atenção do público interagindo com a plateia em uma época que não existia stand up comedy ainda, com as suas performances antológicas e ao mesmo tempo bizarras, por isso era comparada a Divine.

Norberto Chucri David
Norberto Chucri David – Reprodução

Laura era a musa do underground carioca, o nome surgiu ainda nos anos 60 quando desfilava no carnaval do Rio usando apenas um biquíni e casaco de pele. Na década seguinte foi presa simplesmente por ser gay, onde ficou 10 dias encarcerada. Mas o reconhecimento viria mesmo nos loucos anos oitenta quando era presença constante no extinto bar Boêmio no centro da cidade. Se fosse em São Paulo, Laura com sua essência profana e exótica, seria talvez a cara do Madame Satã.

Não era apenas o público que vibrava com suas apresentações pitorescas, quando dublava a canção Vaca Profana, esguichava leite nas pessoas usando as enormes tetas, ou mesmo ficava completamente nua no palco que costumava reunir 600 pessoas. Era aplaudida também por intelectuais, antropólogos, sociólogos, artistas e até celebridades internacionais como estilista Jean Paul Gaultier. 

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Após quase 20 anos trabalhando como professor, recebeu demissão ao responder  perguntas dos alunos sobre o vírus HIV e por assumir a eles sua homossexualidade. Na época que lecionava, costuma usar uma cinta e roupas largas para disfarçar os enormes peitos; entretanto, o paletó e a gravata certa vez deram lugar a uma fantasia de Cleópatra quando foi dar uma aula sobre a História do Egito, causando um enorme rebuliço na escola.

Seu talento e versatilidade a levaram também para experiências artísticas no cinema e na televisão. Na tela grande, atuou em filmes como Cazuza – O Tempo não pára (2004) fazendo uma pequena participação, também fez Memórias Póstumas (2001), Brás Cubas (1985) e No Rio Vale Tudo (1987 com Roberta Close). Laura de Vison também foi tema de um curta-metragem sobre sua vida intitulado Laura, Laura (2005).

Na televisão, fez um episódio do Você Decide (1999), a minissérie Incidente em Antares (1994) e O Fantasma da Ópera na extinta Rede Manchete, em que comeu quase 300g de carne crua em uma cena, aliás, assim como Divine, Laura de Vison causava espanto e aversão quando em suas apresentações podia tanto comer miolo cru, como retirar objetos fálicos do ânus em encenações quase teatrais.

Prêmios

Laura de Vison também recebeu alguns prêmios ao longo da carreira, ganhou a Medalha de Ouro no Festival du Court-Métrage de Bruxelas na Bélgica pelo seu trabalho em Os Bigodes da Aranha (1991). Em Mamãe Parabólica (1989), foi agraciada com o Candango de Ouro em Brasília, e o Sol de Prata no Fest Rio como melhor ator. Também era presença constante nos programas da TV Manchete, como o Documento Especial que mostrava o lado B da sociedade e outros programas do gênero e no entretenimento também.

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Cult, não culta

Laura era uma figura cult na noite gay carioca, por isso mesmo, não era muito bem-quista por algumas transformistas da época que não gostavam do seu estilo trash, tanto que ela sofreu boicote de algumas casas noturnas quando o bar Boêmio fechou. De certa forma, as transformistas representavam o oposto de Laura, enquanto elas dublavam músicas clássicas usando vestidos de gala, esbanjando glamour e luxo, Laura seguia o caminho oposto, indo do bizarro ao grotesco, não sendo assim considerada culta por algumas pessoas da noite.

Desbocada e libertina, declarou certa vez que durante uma noite de carnaval teve 49 relações sexuais. Os prazeres deça não era apenas o sexo, mas estar no palco levando alegria e diversão para as pessoas.

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Fim nos palcos

Laura faleceu em 2007, aos 67 anos, vítima de insuficiência cardiorrespiratória devido a complicações de uma cirurgia para tratamento de problemas de hérnia. Ela estava pesando 150 quilos e seu último trabalho foi na peça Dei a Elza em Você em 2006. Vivia sozinha em um apartamento duplex na Glória, zona sul carioca, onde mantinha um acervo imenso de figurinos com quase 100 vestidos, muitas perucas, chapéus e botas.

Como não tinha herdeiros, deixou seus bens para uma fiel companheira que trabalhava em sua casa. Em 2018, a escola de samba Mangueira fez um carro alegórico comsua imagem, até porque Laura de Vison também era a cara do carnaval carioca.

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