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Em 2005, a Câmara de São Paulo aprovou o projeto do deputado Carlos Apolinário, do PDT, que criava o “Dia do Orgulho Heterossexual”. A data faria parte do calendário oficial da cidade de São Paulo para “estimular, conscientizar e resguardar a moral e os bons costumes”, assim como fazer frente aos “excessos e privilégios dos homossexuais e da Parada Gay”. Embora tenha conseguido maioria dos votos dos parlamentares paulistas, o projeto foi integralmente vetado pelo então prefeito, Gilberto Kassab. Mas era impossível ignorar o fato de que a maior parte dos representantes eleitos pela população concordava com o discurso homofóbico da proposta. Isso indignou uma das figuras mais populares e queridas da noite paulistana. “Eu me candidatei como ato de protesto”, relata Salete Campari, que decidiu se filiar ao PDT para confrontar Carlos Apolinário.

Pensei: eu vou me filiar e me candidatar nesse partido, e toda vez que ele falar mal eu vou mostrar o que é o LGBT  de verdade, o que a gente passa. E toda vez que eu fazia essa fala, eu era aplaudidíssima.

Como uma boa hostess, Salete sabe entrar e sair de saias justas com muita habilidade. Uma mistura de ingenuidade e charme, algo que era também característica da musa que ela homenageia, Marilyn Monroe. Francisco Sales começou a se montar cedo, mas sua carreira despontou quando foi escalada para substituir outra drag caracterizada como a falsa loira mais glamourosa do mundo. O ensaio foi um sucesso, e o cachê melhor ainda. Sales fez as contas e largou o emprego como professor de matemática para trabalhar na noite. “A Miss Biá me disse: se você fizer tudo direitinho dá para viver bem disso”. Hoje, com 36 anos de carreira, tem uma vida estável construída com muito equilíbrio em cima de um salto alto.

Salete Campari – Reprodução

“Ela te falou que o cheque do primeiro sapato que ela comprou na minha loja voltou?”, brinca Fernando Pires. “Mas foi um erro da loja, viu, ela sempre me pagou direitinho!”. Os sapatos meia pata de cristal do designer eram símbolo de status, um objeto de desejo entre performers na década de 1990. “Todas tinham pelo menos um modelo meu, ela (Salete), Dimmy Kieer, Paulette Pink, a Nany (People), e a Claudia Raia, que é madrinha da minha loja”. A amizade entre o estilista e a drag queen dura mais de três décadas e sobreviveu ao grande teste dos últimos anos, a política. Fernando Pires é bolsonarista. “A gente brigou. Ficamos meses sem nos falar”, conta Salete. “Ela é minha bestie, a gente sabe tudo da vida um do outro, nos falamos quase todo dia. Ela é a pessoa mais engraçada que eu conheço e nós sempre temos outros assuntos”.

Salete Campari e Fernando Pires – Foto: André Stefano/Divulgação
Salete Campari e Fernando Pires – Foto: André Stefano/Divulgação

Francisco de Sales Rodrigues nasceu em Araruna, no semiárido da Paraíba. Ficou órfão cedo e veio para São Paulo morar com um irmão 26 anos mais velho. “Ele estava esperando chegar um cabra macho e eu sempre fui muito pintosa”, conta. Embora a região Nordeste registre o maior número de violências contra a população LGBT+, foi em São Paulo que o adolescente Francisco sentiu  a intolerância, não apenas por ser homossexual, mas principalmente por ser nordestino. “Eu sofri muito bullying na escola, na rua, por ser gay e dentro da comunidade pelo meu sotaque”.

Salete Campari e Fernando Pires – Foto: André Stefano/Divulgação
Salete Campari e Fernando Pires – Foto: André Stefano/Divulgação

Aos 17 anos, Sales encontrou um grande amor. Um homem mais velho, de um meio conservador, que lhe proporcionou uma vivência familiar. “Foi a melhor coisa da minha vida. Eu faria tudo de novo, minha vida foi antes e depois dessa pessoa. Eu aprendi a me organizar, a ter metas, a querer coisas boas. Fiz faculdade, tudo eu devo a ele”. A união foi feliz por 15 anos, porém Salete foi deixada com o coração partido. “Ele queria ter filhos”.

Salete Campari – Reprodução

Mas a noite já era parte importante de sua vida. Foi nesse universo que Salete encontrou uma mãe, Miss Biá. “Ela fazia roupas iguais para nós duas sairmos de mãe e filha”, conta Salete. Eduardo Albarella era costureiro, maquiador e confidente de Hebe Camargo. Como costureiro, foi um dos melhores de sua geração, tendo ganhado um prêmio importante, a Agulha de Ouro. E como Miss Biá, homenageava a apresentadora. “E se você é amiga da Hebe, você entra pro jet set, mas a Biá não gostava do blá blá blá. Eu sim, então ela me botou pra dentro e eu comecei a ser chamada para toda parte”. Muitas portas se abriram para Salete Campari. Tornou-se uma das rainhas mais requisitadas do audiovisual. Era presença constante nas tardes de fofoca e nos programas de auditório da TV aberta da virada do milênio. Teve, inclusive, uma participação importante no filme “Carandiru”, de Hector Babenco. Na noite, ela era dona das portas mais disputadas. Trabalhou em todas as casas que fizeram história em São Paulo: Gent’s, NostroMondo, Massivo, Disco Fever, Salvation, até que a Danger se tornou o seu lugar. “Eu sou de uma boate só, acho importante ser a cara da casa. Faz 22 anos que eu sou hostess lá.” Por fora, o contato com assessores como Alicinha Cavalcanti fez de Salete Campari uma das drags mais influentes de sua geração. “Sempre quis estar em todo lugar, no meio hétero, em outros meios, não sou de gueto, acho que drag não deve ficar contida num nicho”.

“A noite me deu muitas coisas, mas também é uma fábrica de monstros”. É a visão crua da experiência de quem há mais de três décadas cuida de uma porta de balada. “Aparece de tudo, gente com todo tipo de energia, gente que chegou na cidade hoje, que terminou relacionamento, e eu pego tudo, é muito carregado. E eu preciso estar bem para receber bem as pessoas”. E para recarregar, Salete vai para o meio do mato, um sítio que comprou há alguns anos. “Ela tem isso de ser uma bicha rural”, debocha Nany People, a atriz e humorista que também integra o núcleo duro das amizades de Campari. “É pra essa pessoa que eu ligo quando as coisas dão certo, e também quando dão errado”, relata Nany. “Tenho poucos amigos, mas bons”, conta Salete. “Hoje, de amigo do meio, conto com a Nany People, eu comecei a me montar na casa dela”.

Quando Salete completou 15 anos de carreira, deu uma festa prestigiada por uma lista grande de celebridades (dá para achar o material no Youtube, fica a dica). Dessa vez, a hostess era a dona da festa e quem fez a porta foi uma Miss Biá felicíssima. Recebeu os jornalistas dizendo: “Eu sou a mãe da debutante”, tal era a ligação entre as duas. Em 2020, durante a pandemia, Salete decidiu se isolar no sítio e insistiu para que a amiga, que já estava com 80 anos, fosse com ela. Mas Biá não quis. Num Brasil ainda sem perspectiva de vacina, Miss Biá faleceu vítima da Covid-19.

Bloco da Salete - Reprodução
Bloco da Salete – Reprodução

Vestida de enfermeira, apontando uma seringa gigante de maneira ameaçadora para um ator caracterizado como Bolsonaro, Salete Campari foi destaque do desfile de 2022, na escola de samba Mancha Verde. Era performance, mas também um protesto. O Carnaval também faz parte do seu ativismo. O Bloco da Salete, que começou junto à Parada LGBT+, hoje tem vida própria e se tornou uma das grandes atrações do Carnaval de rua de São Paulo.

A vida inteira da gente é Política. Quando saio de casa de peruca todo dia, isso é uma atitude política

Depois de se posicionar dentro do PDT e perder a eleição, Salete Campari encabeçou a criação do Movimento LGBTQIA+ internamente e deixou o partido. A verdade é que o cargo de Deputado Estadual nunca foi o objetivo ali. Anos depois, foi quadro da prefeitura de Fernando Haddad, na Coordenadoria de Políticas Públicas de Diversidade na Zona Leste. E voltou a se candidatar, mais duas vezes, a uma cadeira na Câmara de São Paulo, pelo Partido dos Trabalhadores.




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Jornalista, diretora, roteirista e escritora. Criadora do #DEUMATCHMTV!