GAY BLOG BR by SCRUFF

O ator, dublador e professor Daniel Ávila, começou cedo na carreira artística: aos 6 anos já estava na novela “Ana Raio e Zé Trovão” (1990), da extinta TV Manchete. Mas a consagração veio quatro anos depois, quando deu vida ao carismático Dudu, na novela “A Viagem”. Logo vieram séries, teatro, novelas e também cinema.

Atualmente, aos 36 anos, Ávila se dedica ao teatro, onde há 14 anos que faz parte de uma companhia teatral que faz arte pública, mantendo um contato direto com o povo.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram

Há poucos meses, o ator foi notícia em vários portais após postar fotos ousadas usando salto alto, maquiagem e trajes femininos, gerando comentários do público acostumado a vê-lo em personagens diferentes.

Bastante comunicativo, o artista fala sobre os mais diversos assuntos nessa entrevista, por vezes filosofando sobre a vida profissional e sua paixão pelo ofício.

Daniel Ávila – Reprodução
  • Você conheceu o sucesso cedo, ainda criança na extinta TV Manchete, depois veio o êxito em “A Viagem”. Considera prejudicial a fama precoce?

Daniel Ávila: Nada que é precoce é legal. Mas eu já tive na minha cabeça que o ‘ser precoce’ era legal, não sei se foi após dar aula, de entrar em várias perspectivas minhas… Nada que é precoce é bom, as coisas tem o seu tempo. Eu não sei como foi essa questão de fama, porque eu fui um dos primeiros da minha geração. Claro que houve outros antes, mas começaram a entrar a parte jovem trabalhando. Na minha época tinha sim uma celebrização, você se tornava mais popular, mas ainda não era esse negócio de celebridade, de fama, de números, de engajamento, não era isso. Então, acho que esse mundo pode ser muito prejudicial pra gente (risos), principalmente quando você é artista e está com a psique, com as suas emoções em exposição. Você tem que tomar muito cuidado com essas coisas que te cercam. Eu acho que a fama tem um viés muito interessante que é a popularidade. A televisão me encanta muito por isso. Vários outros trabalhos me encantam porque eu, realmente, gosto de falar com o público popular, por isso fui para rua, porque você pega diversos tipos de pessoas. Agora, com a internet, você tem os seus problemas… mas tem gente nos vendo de todo lugar no mundo, então eu acho tudo muito bom, mas deve-se tomar o devido cuidado.

  • Após “A Viagem”, você fez algumas novelas, séries, filmes. No ano passado, você fez um desabafo sobre os desafios de ser ator no Brasil. Você estava se referindo á ausência de trabalho em função de algum padrão imposto pela TV?

Daniel: Não, como eu trabalhei muito anos com TV, desde muito pequeno e essa imagem ficou forte, acho que as pessoas fazem uma relação de tudo que eu falo a TV. Eu sou um artista, um ator, um intérprete. Eu trabalho com isso há 30 anos, comecei aos 6. Trabalhei em todas as emissoras, mas fiz muito teatro, conheci muitos diretores. Me formei em cinema, estudei em Cuba, trabalho na rua há 14 anos com o Amir (Haddad), dublo, faço obra (risos), ando de patins. Essa matéria saiu como um desabafo – e foi, não propriamente dito a nenhum tipo de questão da televisão, que de fato também existe. Eu acho que não só a TV, mas a gente tem um público muito conduzido a falta da brasilidade, ao consumismo. Coisas que eu acho para uma nação como a nossa tão rica e culturalmente tão diferenciada, a gente se perde copiando coisas que não dão mais certo.

Eu, quando me referi a essa matéria, nós estávamos vivendo um momento de pandemia, muito forte, e pós toda essa pressão popular, toda essa questão absurda que tem de falar que os artistas são corruptos, a Lei Rouanet, “ah, o PT! Ah, você é de esquerda!”. Então, a coisa cultural, política, pessoal ficou muito complicado. Os artistas foram tidos como um problema e, logo com a pandemia, as pessoas puderam perceber como a arte é importante. Eu fiz esse desabafo de como é difícil. Eu conheci atores que não estão mais entre nós, mas que trabalharam desde o início da arte, mais aqui propriamente dita no Brasil, e a reclamação é sempre a mesma. O artista sempre teve uma profissão de risco nesse sentido, não pela falta de trabalho, porque trabalho não falta. Eu trabalho bastante graças a Deus. Mas, às vezes, essa questão com a sociedade, a monetização, o respeito, as aberturas, a arte não é só uma coisa burguesa, capital, estética.

A arte, ela é… falando da TV, não dizendo que ela em todo contexto é isso, mas em muitos casos, ela trabalha com essa superficialidade. Ela tem o comercial, ela precisa vender produtos, ela precisa ter essas articulações; não estou condenando, mas às vezes nós perdemos a criação desse público inteligente, desse público observador, que compõe junto, que está evoluindo. A gente viveu um momento de desgraça no Brasil; sempre vivemos. Tivemos ditadura, tivemos várias questões aqui, e é mais um deles a luta pela democracia, pela liberdade, pelos afetos, então foi um pouco disso. Não foi um desabafo a televisão, não foi um desabafo a falta de trabalho, foi um desabafo que realmente eu quero. Vou ser e sempre fui artista nesse país. Posso lhe dizer que a tarefa não é fácil, não sei se nos outros são mais tranquilos, mas neste país nunca foi fácil. Eu acho que tem que ser visto melhor, porque muitos artistas nos deixaram agora com a pandemia. A história deles são marcantes, mas tem muitas pessoas que não conseguiram alcançar, que não tiveram acesso… Então, a gente perde esse Brasil que ainda vai acontecer. Um Brasil que ainda está na utopia.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Há 14 anos você faz parte de uma cia teatral “Tá na Rua”, trabalhando com arte pública, em contato direto com as pessoas. Como funciona este trabalho que é tão diferente do ‘glamour’ da TV? E você sente saudades da TV?

Daniel: O ser humano é uma figura né?! Tudo pode virar uma glamourização, um distanciamento, uma falta de contato. Eu conheci o Amir há mais de 15 anos em uma peça (“Bodas de Sangue”) e eu estava em crise. Eu tinha feito SBT, tinha feito novela, aquele personagem bem característico, aquelas gravações uma atrás da outra; mas eu estava um pouco em dúvida do que eu queria, pra onde eu ia, o que me importava nessa profissão. Encontrei o Amir nesse momento de fragilidade, de recomposição. Ele me ajudou a compor, e entender uma nova perspectiva do que é o meu discurso, do que é a minha função como artista. Nós somos artistas que estamos ali nos exibindo, falando sobre alguma coisa, levantando algum aspecto emotivo, social, sociológico, mas também somos da sociedade.

Eu sou povo, eu também tenho uma função complexa que, às vezes, não é vista, não é abastada, não é alimentada. Agora quando me colocam do lado do rei é uma coisa… se eu faço acordo com a corte – mais ainda, aí eu sou um artista da corte. Quando você se coloca na rua, de frente para a população sem estratificação social, sem distinção, para espaços abertos, desde o mendigo ao empresário, as crianças, ao pombo que passa na rua (risos), você faz para o seu país, para a sua comunidade. Você está em contato horizontal, direto, simples. Essa discussão, essa parte da saúde pública, terapêutica, educacional, de convivência política, da ocupação de espaço, isso tudo quem me trouxe foi o teatro de rua. E eu acho que quem faz teatro de rua recupera a ancestralidade, sabe operar em qualquer sistema, em qualquer janela, em qualquer plataforma. Nós somos contemporâneos, nós somos os artistas de todos os tempos.

Saudades da televisão? Saudade é uma palavra que eu acho linda. Sim, sinto saudades de muitas coisas, coisas que vivi, coisas que não vivi, coisas que eu nem faço ideia se vivi daquele jeito. Saudade me alimenta. Eu tenho muita vontade de fazer televisão várias vezes, a minha vida inteira. Acho que terei um encontro com isso em algum momento. Mas agora eu estou muito satisfeito com o que eu estou fazendo. Se esse discurso do ‘meu artista’ que eu recuperei for necessário para qualquer lugar, seja o meio televisivo, em qualquer comunidade, um presídio, no hospício, eu estarei. Minha responsabilidade é com o meu público, seja em qualquer plataforma que existir pra gente poder se expressar, se comunicar e continuar o sentido dessa vida. É a arte que dita a vida, é a arte que aponta para um futuro melhor, humano.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Em abril desse ano, você foi notícia em vários sites/jornais devido a um ensaio ousado, usando maquiagem e salto alto. Aquilo foi uma forma de desconstruir a sua figura masculina?

Daniel: Eu tenho muita técnica, estudei bastante, mas eu acho que como eu convivi com isso durante muito tempo, a coisa já é inerente ao meu ofício; e o meu ofício é ousar, é provocar. Eu sou um grande provocador e tenho orgulho de ser assim. Acho que faz parte. Tem que ter inteligência, acidez, tem que levantar questões sérias, tem que ter estudo. Os Dzi Croquettes eram ousados, aqueles homens com aqueles saltos, aqueles rostos coloridos, as plumas, aquela vitalidade, aquele vigor físico. Olha o mundo como está? Ousado talvez seja qualquer tipo de personagem que eu faça, todos eles são difíceis, todos eles exigem uma preparação. Eu tive vontade de fazer uma pessoa mais montada, e tenho um amigo que se monta. Eu ando muito bem de salto… Eu machuquei as minhas costas e nós temos um número do Dzi Croquettes, eu até ficava meio longe de fazer o número de salto por causa da minha coluna. E um dia eu botei o salto. Encontrei um salto do meu tamanho, 43. Inclusive, se alguém tiver pra doar, pelo amor de Deus, eu quero, porque é difícil 43 maneiro. Eu botei o salto e acho que por conta do que eu já faço pra sustentar a minha coluna sem ter dor, eu já subi nas tamancas mandando ver (risos). E eu tive essa vontade de fazer, eu percebi que eu tenho um aspecto muito amplo, o meu artista é muito amplo, e eu quis trabalhar esses extremos. No ensaio, uma amiga minha fez também um boyzinho. Ela montou um cara assim da Lapa, mais malandro, mais mexicano, e esse amigo montou essa coisa mais queer, mais drag, eu não sei muito como são essas nomenclaturas. Eu não tenho muito lugar de fala, mas eu vou tentando aqui do meu jeitinho. Tenho muito respeito, admiração a todas essas questões. Mas eu acho que as pessoas se provocam, porque o ser humano é ousadia, tudo é uma grande ousadia. Acho que o povo fica feliz, alguns se incomodam, mexem em pontos mais difíceis, outros se sentem entusiasmados.

Eu não sei o que seria desconstruir em mim. Como eu já trabalho como ator, eu já faço isso, provavelmente, há muito tempo, porque fora de mim eu uso o meu corpo, os meus aspectos, eu empresto as minhas emoções. Eu fui formado nesse país machista, com várias questões, ‘homem é isso, mulher é aquilo’, com várias separações. Graças a Deus, fui criado nesse meio artístico, em camarim, com pessoas. Nós não temos essa coisa com o corpo. Ficar nu é apenas mais uma roupa, é mais um personagem, talvez seja a primeira roupa que todo mundo possui (risos). E você bota uma maquiagem que eu adoro… eu faço maquiagens de circo, eu trabalho também com palhaçaria, eu gosto de me maquiar, na própria faculdade de cinema eu gostei muito disso.

Nós estamos muito envolvidos nesse processo de desconstrução. Eu me sinto muito feliz em desconstruir qualquer coisa. O meu artista, ele vai em todos os seres humanos. Ele fala com todos os públicos, ele entra em todos os lugares. Mas o Brasil é complexo, eu acho que isso é muito complicado mesmo, porque dá na cara de um monte de questões. O Brasil é cheio de dogmas, cheio de ‘é ou não é’. Eu sou girafa, acabou! Eu sou um cachorro hoje, acabou! E me deixem em paz, eu quero criar! eu acho que se eu nascesse em outro momento, talvez eu seria ainda mais aberto nesse lugar. Basicamente, eu estou fazendo sempre arte, e horizontalmente com o meu público.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Como foi a reação do público? Questionaram a sua orientação sexual por causa disso?

Daniel: Você é o meu público, está vendo uma experiência, uma performance, uma peça, vocês acham que estão me vendo – e estão, mas eu estou vendo vocês muito, até porque eu faço isso há anos. Dou aulas, vejo as pessoas… então, quando eu faço uma proposta, maliciosamente eu já tô “olha o que eu vou fazer”, para ver a reação da pessoa, e eu vou ali, nos olhos dela. Quero vê-la nas coisas que ela mais esconde; às vezes, a reação da plateia, aquele “ahhh”, é um negócio que ela sente, que você consegue pegar, que cria magia e é maravilhoso. Então, a reação do público é muito maravilhosa. É claro que tem muita falta de respeito, ainda mais com rede social, as pessoas se sentem invisíveis ou ausentes, não sei o que dá, mas a falta de respeito e abuso nos meios virtuais talvez é maior que na vida pessoal. Às vezes você está dando tanto com o seu artista, mas a pessoa está de olho na sua vida privada, querendo saber das suas fofocas, está querendo saber até o que você faz na sua cama. Eu não estou dizendo só do público não, às vezes as pessoas nem tem tanta liberdade em chegar, conversar. Entendo que nesse país as pessoas têm vergonha, as pessoas não têm tanta educação com a questão sexual. Acho que elas veem o artista… acho que tem uma sexualização a mais ou um interesse que não é genuíno no artista. Então, às vezes, eu não respondo porque não interessa. Eu tô fazendo o meu trabalho, na minha vida me interessa as pessoas que eu amo. Eu não seria de maneira nenhuma diferente a minha expressão de acordo com a minha orientação sexual. Isso é uma coisa que eu também tenho dos meus pais, sempre fui desse jeito, sempre trabalhei com poesia, arte, sempre fui tudo o que eu queria.

Eu acho isso feio, às vezes, ficar olhando para a pessoa e ficar querendo saber a orientação sexual dela, a não ser que vocês criem intimidade. Nesse ensaio, as pessoas pararam de questionar ou duvidar – elas agora já têm certeza! Não sei o quê, mas alguma coisa que está na cabeça delas tem certeza. Mas você não pode ser homem, você não pode ser a sua orientação sexual e fazer um boyzinho e fazer uma drag? Como o Nelson (Rodrigues) falava, “Toda nudez será castigada”. Não sei se provoca alguma questão religiosa, cristã, não sei o que é, mas as pessoas deveriam estar mais interessadas na sua sexualidade. Vamos ser livres, vamos transformar tudo em purpurina. Mas eu queria isso também, não sabia que seria dessa forma… Tive alguns incômodos sim, também estou trabalhando, ganhando a minha experiência. Eu dou aula de teatro. O teatro tem a ver com o ser humano, com a expressão, a sexualidade está embutida. O ser humano tem a sexualidade dele que não é o sexo, o corpo… é outra coisa, é o nosso néctar o que faz a gente criar essa rede e ser tão interessante. Não tenho o menor problema com sexualidade, eu tenho problema com pessoas um pouco taradas às vezes.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Como é a sua relação com a comunidade LGBTQIA+?

Daniel: Eu trabalho com televisão, teatro, cinema desde os 6 anos, e vi diversos tipos de pessoas, diversos assuntos, textos, abordagens. Eu não sei, mas eu conheci tudo isso criança, quando tinha, por exemplo, os maquiadores e cabelereiros no set, pessoas que davam shows também, tinham personagens, se apresentavam. Para mim, todo ser humano é artista, então eu convivi com toda essa alegria, liberdade, com toda essa gente que fazia o que queria. Eu não sei quando isso se deu, mas deve ter sido tão sutil que eu nem me lembro. Acho que a minha relação com a comunidade começa há muito tempo, acho que era GLS, eu sabia que S era simpatizante e achava essa palavra ótima, porque eu simpatizo. E agora eu vejo que existem outras formas, acho isso essencial para todo mundo se entender, pra gente como sociedade, e pensar em nossos aspectos de gênero, sexuais, todas as formas. Nós vivemos em sociedade, então é importante tentar incluir o máximo de pessoas possíveis, não deixar ninguém a margem.

Eu tenho uma troca no teatro tão grande, com as pessoas no curso, com o público, com abraço e “te amo”, é um carinho. É muito legal essa catarse que eu já vivi através da minha arte. Eu sou de peito aberto e afeto escancarado, então eu acho que por qualquer tipo de comunidade ao qual eu me relaciono, eu vou estar sempre muito bem relacionado porque eu só quero compor e projetar, manifestar, incluir aquilo que o ser humano precisa. Então, os assuntos da comunidade LGBTQIA+ são muito bem-vindos e criam plataformas, histórias, personagens, formas de vida, evoluções. É tão bom estarmos em um tempo em que podemos falar abertamente da nossa multiplicidade seja ela de qualquer área, acho que a coisa do ator é ser múltiplo. Tudo que é do bem não tem mau nenhum.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Recentemente, temos vistos a classe artística mais aberta sobre essa questão sexual, atores comentando que possuem uma sexualidade fluída, pansexual, assumindo romances LGBT+; estão mais à vontade para falar sobre. Como você vê isso? E como você se identifica?

Daniel: O meu ator deve ser queer. Pelo que entendo, minhas relações normalmente são héteras, acho que é assim que fala, mas essa palavra às vezes vem atribuída de toxicidade. Eu acho que me identifico com a pluralidade mesmo. Acho que o ser humano hoje se orienta de uma forma, amanhã se orienta de outra. Amanhã ele pode se identificar assim, pode voltar tudo, pode desistir, se reconstruir, é múltiplo. Eu me identifico na possibilidade, o ser humano ele tem que ter a possibilidade de ser plural e viver várias vidas em uma só, o que for bom pra você. O futuro melhor é esse, onde as pessoas possam ser respeitadas, possam se identificar sua fonte de prazer, sua forma de ser e poder expressar isso livremente em harmonia.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Você comentou ser fã do Dzi Croquettes, de onde vem esse fascínio pela arte deles? Eles influenciaram no teatro que você se dedica hoje?

Daniel: Quem me apresentou os Dzi foi o Amir Hadadd, meu mestre, diretor do meu grupo de teatro Tá na Rua. Não vivi essa época, mas pude entender a arte, o momento, o movimento político que eles fizeram, quem eles eram, como eles trabalhavam. Tem um documentário maravilhoso sobre eles, o grupo como foi formado, aonde eles chegaram, o que representava aquilo naqueles tempos, o que é ter opinião. É impressionante. E essa arte meio cabaré, com ancestralidade, que tem uma base muito bonita, o burlesco, eu sou apaixonado por tudo isso. Eu gosto muito dessa expressão de rua, são coisas que eu pesquiso bastante, os espetáculos de revista, vai muito por esse caminho também, eu trabalho na rua e isso me orienta bastante. E a gente já teve isso no Brasil. Às vezes nós temos uma expressão tão tóxica do que é ser homem, hétero, cisgênero, e se você for ver o Dzi, você vê a outra possibilidade ali, e com um discurso político. Aqueles homens vestidos daquela maneira, enquanto a gente tinha uma ditadura completamente violenta, genocida, no nosso país como estamos tendo agora de uma outra forma. O Brasil vive isso historicamente sempre. Acho que eles são revolucionários, provocadores, mexem na sexualidade do brasileiro.

foto
Daniel Ávila – crédito: reprodução Instagram
  • Como você analisa o Governo no que diz respeito a cultura no país?

Daniel: O que nós temos? Eu não sei falar sobre o que temos, desde a presidência à secretaria de cultura, a política pública do Brasil, toda a política de saúde… Como vou falar de cultura se a gente tem uma situação dessas? Nós estamos incorrendo em todos os equívocos, questão de jurisprudência, eleitoral, a falta de respeito. A gente vive uma oportunidade, talvez, de recomposição. Não sei como, não sei se isso é utópico, mas a gente precisa de uma reforma política já. Nós precisamos de uma reforma nos nossos ritos. É uma reforma cultural que precisamos. Eu não consigo analisar o que se tem, porque o que se tem – não se tem, e o que se tem está aí para rir da nossa cara, para dizer que somos um bobo da corte, um idiota, porque o bobo da corte ainda tem representatividade.

É muito triste, me desculpe, eu não consigo terminar essa última pergunta em um tom melhor, menos triste, desolador. A cultura nesse país é tão maravilhosa. O que eu já tive de oportunidade de viajar, de fazer teatro em diversas partes do Brasil, achar que estava levando cultura e tomar um banho de cultura, de nacionalidade. E tem essas pessoas aí que ficam ditando coisas que elas nem sabem o que é cultura. Querem determinar uma social família, marcha da família cultural, o que é isso, meus amores? Vamos dar a cultural ao povo, olhar de baixo pra cima, de dentro pra fora, potencializar a nacionalidade. Eu como artista falo: todo ser humano é artista. A gente tem muita coisa para criar a partir da arte, não a partir do controle, da violência, da decadência, do genocídio… dessas pessoas que, sinceramente, tem que voltar atrás e plantar uma árvore, ver uma flor nascer, ter amor no coração, pra depois poder pensar em política, para depois poder pensar em seres humanos, em lugares tão excelentes que essas pessoas estão e fazem absurdos como esse. Eu tenho muita densidade para falar sobre essas questões, precisa construir futuro, precisa se ajudar, temos muito trabalho a fazer. Como vou falar de cultura se temos uma sociedade que esta contra a vida? A gente tem que ficar a favor da vida, se não, não vamos sobreviver, não vamos viver bem.

Junte-se à nossa comunidade

Mais de 20 milhões de homens gays e bissexuais no mundo inteiro usam o aplicativo SCRUFF para fazer amizades e marcar encontros. Saiba quais são melhores festas, festivais eventos e paradas LGBTQIA+ na aba "Explorar" do app. Seja um embaixador do SCRUFF Venture e ajude com dicas os visitantes da sua cidade. E sim, desfrute de mais de 30 recursos extras com o SCRUFF Pro. Faça download gratuito do SCRUFF aqui.