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O empresário Bruno Sodré (34) conhece bem os altos e baixos da vida. Hoje dono de um salão de luxo no shopping Morumbi Town, em São Paulo, Sodré relembra com sabor de vitória as dificuldades do passado, quando a pizzaria de seus pais faliu e eles se viram em dificuldades financeiras. A determinação do jovem fez com que ele transformasse a lavanderia de casa em um salão improvisado, que logo cresceu a passos largos conquistando uma clientela fiel e transformando os seus sonhos em realidade.

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Acervo pessoal: Bruno Sodré

Em uma entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, Bruno Sodré conta um pouco mais sobre a sua surpreendente história de superação.

Você é do Capão Redondo? Como foi a sua infância? 

Na verdade, eu nasci no bairro do Jabaquara e nós nos mudamos para o Capão Redondo, onde meus pais tinham um comércio. Meus pais tinham uma pizzaria no Capão e eu morava lá. Morei ali na região, depois morei um pouco mais longe. Depois voltamos para o Capão. Eu não tive uma infância carente, na verdade meus pais eram até bem sucedidos. Eu estudava em colégio particular, um dos mais caros da região, mas meus pais infelizmente não souberam lidar muito bem com dinheiro e nem com gestão dessa pizzaria e faliram. A gente ficou sem nada, eu saí do colégio, meus pais venderam o carro, a gente ficou sem ter para onde ir. Meus pais também levaram alguns golpes, eles não conseguiam olhar tudo na empresa, então acabaram levando alguns golpes financeiros e a gente foi morar de favor na casa de um tio no Capão Redondo. Minha mãe era doméstica e meu pai entregador, aí de novo eles reformularam toda a nossa vida e construíram uma casa ali no terreno da minha avó no Capão Redondo em 2000. E aí eu fui criado de 2000 para cá, há 21 anos, eu devia ter 13 anos por aí, mas fui criado no Capão Redondo.

Em que ano você criou o seu salão ainda no Capão Redondo? Como era o movimento, a clientela lá?

Em 2012/13 foi quando eu comecei a atender, eu já tinha sido assistente de cabeleireiro antes, mas em 2013 comecei a atender na cozinha da minha casa. Comecei a divulgar bastante no Facebook e comecei a receber uma clientela. Indicação também, fazia na casa da cliente. E aí eu comecei a guardar dinheiro e pedi para os meus pais se podia reformar a lavanderia (porque tinha uma lavanderia inutilizada lá na minha casa). Eles deixaram. Eu reformei a lavanderia e postei no Facebook que eu tinha reformado e tal.

De uma lavanderia para um salão altamente luxuoso em uma área nobre é uma jornada e tanto. Como se deu essa virada?

Eu não lembro de ter usado algum tipo de estratégia, fui muito junto com que era para ser. Conforme a demanda vinha, eu ia aumentando. Eu estava na lavanderia de casa, eu trabalhava bastante, já tinha feito bastante dinheiro ali. Já tinha funcionário, porque chamei minha vizinha para me ajudar e quando eu vi já tinha empregado três pessoas ali na lavanderia de casa, com salário fixo e tudo; e aí foi pela demanda. Divulgava no Facebook, fazia post pago, fazia link patrocinado, pagava Google Ads e foi assim que eu fui dissipando o meu trabalho. Eu acho que foi também um trabalho diferenciado, uma forma de vender diferenciada para época, onde quase ninguém postava foto de  “antes e depois”. Hoje em dia já fazem. Então como, eu consegui fazer isso numa época que ninguém fazia, você consegue ficar conhecido por aquilo primeiro. E aí quando você é reconhecido primeiro, você consegue meio que durar para sempre (risos), entendeu? Você fica meio notório por aquilo, então, por isso que hoje em dia tem bastante cabeleireiro fazendo a mesma coisa.

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Acervo pessoal Bruno Sodré

Você se inspirou em alguém ou em algum negócio para criar o seu próprio salão? 

Eu nunca tive nenhum tipo de inspiração para modelo de negócio. Me inspirei nos salões onde eu já tinha trabalhado, tipo no Jacques Janine, Studio W etc. São salões que eram bonitos, uma coisa bem moderna. Então, mesmo na lavanderia de casa, se você olhar a foto era um espaço bem bonito, bem feito. Não precisa ser caro se você souber ter um bom gosto você consegue deixar um ar luxuoso. Mas não me inspirei em uma pessoa ou marca.

Soubemos que você tem planos de lançar uma linha de cosméticos e tratamentos capilares. Seria algo voltado para a diversidade e minorias? 

Eu acredito muito numa venda universal, mas com certeza será uma marca muito inclusiva. Muitas marcas agora já estão entendendo pois elas têm que ser assim. A forma como isso será divulgado e vendido, aí sim eu tenho vários projetos em mente, várias campanhas inclusivas, tanto para nós quanto para pretos. Eu tenho muita vontade de colocar todo tipo de pessoa no meu merchandising, então, com certeza, a minha marca vai ser muito inclusiva. Fora formular, que é uma coisa que eu amo. Eu não formulo porque eu não estudei para isso, mas eu trabalho com cabelo há 17 anos, então falar para alguém o que eu preciso em um produto é divertido para mim. Além disso, eu tenho uma veia criativa muito legal em questão de imagem e som, então eu gosto muito das nossas músicas no sentido gay, o batidão da boate sabe? Essas coisas. Assim eu quero muito criar uma imagem que relembre isso dos meus tempos de boate. Mas eu prezo bastante para que todo mundo se sinta muito confortável, porque acho que isso que é o gostoso né.

Acervo pessoal: Bruno Sodré

A sua equipe é formada por pessoas LGBT e negras, como surgiu essa ideia?

Sobre a minha equipe, eu nunca projetei ter gays ou não, é uma coisa de capacidade e oportunidade. Quando eu marco uma entrevista não pergunto se essa pessoa é gay, bi ou trans. Ela simplesmente é convidada a fazer um teste no salão e, nesse teste, a gente vê se ela sabe fazer o que é proposto a ela fazer – e fazendo bem, ela é contratada. Isso não importa a cor da pele ou o gênero. Enfim nada, calha de nós gays nos darmos muito bem com o cabelo, graças a Deus a gente arrasa: gays, trans enfim… todos. Todo mundo tem talento, mas todo mundo sabe que as bee arrasam – e aí sim eu dou oportunidade. Eu faço questão de que ela saiba que não sou eu que dei a oportunidade, mas que ela se deu essa oportunidade, porque eu também não gosto desse heroísmo do tipo “eu dei oportunidade para uma trans”, “eu dei uma oportunidade para um gay”. Eles se deram a oportunidade, eu acreditei somente. Só que o problema por aí é que as pessoas não acreditam e não dão uma oportunidade. Isso é muito triste, eu sei porque eu já ouvi histórias e já vi com meus olhos e, enfim, é muito triste. Eu não gosto de ter uma coroa na minha cabeça por isso, a coroa tem que ser deles por estar trabalhando bem. Não sou muito fã de que eu seja um herói porque eu erro e quando eu errar não quero que a pessoa fiquem com essa impressão “ah tá vendo ele era perfeito, agora ele não é mais”.

A trans que trabalha comigo, ela tá fazendo teste para colorista, ela era minha assistente. Mas ela tá em fase de teste agora. Ela saiu do salão e depois pediu para voltar. Viu que o mundo lá fora tá babado (risos) aí ela pediu para voltar. Eu deixei, porque eu sou muito bonzinho… tô brincando (risos). Mas é verdade, ela saiu, quis sair, e eu falei “tudo bem!”. Ela saiu, viu como tá lá fora e voltou, pediu desculpas e uma segunda chance. E eu dei, ela trabalha muito bem, não guardei mágoas, ela voltou até com os peitos.

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Acervo Pessoal Bruno Sodré

E você esteve em outro país, foi para Dubai… Um país não muito gay friendly. Teve receio de sofrer algum tipo de preconceito lá? 

Dubai é um lugar bem receptivo para turismo, eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito lá. Eu acredito que sabendo aonde você tá indo e respeitando o lugar onde você vai, nada vai te acontecer. Eu sempre fui muito respeitado lá, pelo contrário. Eu procuro saber me portar no lugar onde eu estou, assim como eu gostaria que as pessoas se portassem onde eu estou também. É tudo uma questão de respeito, então eu gosto bastante de lá. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Dubai é um lugar turístico que tá aberto para o mundo.

E você consegue arrumar tempo para namorar? 

Estou solteiro. Eu namorei durante seis anos o Victor, foi um namoro bem legal, aprendi muito, ele aprendeu muito. Eu conheci ele quando ele tinha 18 anos, hoje ele tem 25, era um menino tal. Hoje nos tornamos melhores amigos. Nós terminamos na pandemia, faz uns 7 a 8 meses e por ele ter feito parte da minha vida de uma forma muito importante e ter me ajudado a chegar onde eu cheguei indiretamente, porque a gente chega pelos nossos méritos, mas tem pessoas que estão ali nos apoiando. Como ele sempre me acompanhava, morava comigo e me acompanhava no salão também (trabalhava comigo, me ajudava no salão), mesmo a gente terminando, eu mantive ele no cargo. Nós somos hoje melhores amigos e hoje ele é gerente do salão lá no shopping Morumbi Town. Se você for lá você vai ver que o gerente é o meu ex-namorado e a gente separa isso muito bem. Eu não sei se ele está vendo alguém ou não (risos), também não é da minha conta. Mas o nosso amor como irmãos permanece, o amor de respeito permanece. O amor de namorado talvez já tivesse ido embora há um tempo, já tivesse se desgastado. Ele é um menino muito novo, tem muito que viver e aprender nesse aspecto, então eu quero muito tê-lo para sempre como amigo e ele sabe disso.

Você já deve ter realizado vários sonhos, mas qual deles ainda falta?

Eu costumo falar que eu não fico sonhando muito não. Eu continuo sendo grato pela oportunidade de estar vivo e vivendo as experiências pelas quais eu vivo, então eu não consigo falar assim: “ah eu realizei os meus sonhos”. Meu próximo sonho a se realizar é essa linha de cosméticos, ela vindo em minhas mãos estarei muito feliz. Se ela não vier agora, ou se nunca vier, também está tudo bem. O importante é que nós estejamos sempre bem com nós mesmos, então eu sou bem tranquilo com sonhos.

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