Reflexões profundas com o ator, modelo, influenciador, dramaturgo e fotógrafo gaúcho Carmo Dalla Vecchia, 52, foram abordadas em episódio inédito do podcast do Gay Blog Br. Casado com João Emanuel Carneiro e pai de Pedro, o multiartista, que foi vencedor de três troféus “Poc Awards”, compartilhou sua trajetória de vida e carreira oferecendo um olhar crítico sobre a representatividade LGBTQIA+ nas artes cênicas e na mídia em geral.
O artista carazinhense, que atualmente possui 1,4 milhão de seguidores no Instagram, discutiu os desafios enfrentados por atores de novela em diversificar seus papéis, a necessidade de personagens queer realistas na TV e a experiência de ser um pai gay, usando sua plataforma para educar e influenciar sobre aceitação e diversidade. Ele também refletiu sobre como sua visibilidade ajudou pessoas a se aceitarem e a importância de enfrentar o preconceito dentro e fora da comunidade LGBTQIA+.

Na entrevista, mediada pelo gestor cultural Maurício Kino e com a presença do editor-chefe Vinícius Yamada, Carmo Dalla Vecchia relembrou sua carreira como modelo antes de mergulhar no mundo da atuação, onde encontrou portas mais abertas para expressar sua arte. O ator refletiu sobre os estereótipos frequentemente associados a personagens gays na dramaturgia brasileira, questionando a falta de papéis que refletem a diversidade e a realidade da comunidade LGBTQIA+.
Relembrando sua participação em obras como a novela infantil “Chiquititas” e o filme “Cronicamente Inviável”, de Sérgio Bianchi, Dalla Vecchia destacou como essas experiências moldaram sua visão sobre a indústria e o tipo de personagens que emergem nesse contexto. Ele criticou o preconceito sub-reptício que ainda permeia a sociedade, mesmo entre aqueles que afirmam apoiar a diversidade.

Além de sua carreira nas telas e palcos, Carmo também falou sobre sua vida pessoal, incluindo o impacto de revelar publicamente sua homossexualidade e como isso afetou sua interação com o público e a mídia. Ele discutiu o poder da representatividade, destacando como sua visibilidade ajudou outras pessoas a enfrentarem seus próprios preconceitos e a viverem mais autenticamente.

Sobre novos trabalhos, o artista mencionou um projeto em que mistura poesias de Augusto dos Anjos com histórias recebidas através de seu Instagram, revelando as camadas complexas de experiências compartilhadas por seus seguidores. Nos palcos, Carmo Dalla Vecchia estreará o espetáculo “Todo Chapéu Me Lembra Você”, no próximo dia 17, em São Paulo.
Leia alguns trechos da entrevista:
Você se considera um protagonista da sua própria história hoje?
- A maior tristeza do mundo, eu acho, é você não ser protagonista da sua própria história, mas sim da história dos outros, né? Porque, de alguma forma, na sua existência, você é o protagonista, pois é você com você mesmo. Agora, você ter que viver uma vida inteira para agradar as pessoas ao seu redor e para cumprir o que os outros esperam de você e desejam de você, Ddve ser uma vida muito triste. Eu não gostaria de passar por isso nunca.
E como a atuação entrou na sua vida?
- Eu tinha sido modelo, né? Um ex-modelo. Na verdade, eu brinco que eu fui um modelo que não deu certo e, como não deu certo como modelo, tive que me tornar ator, porque todas as dificuldades que encontrei na minha carreira como modelo, na minha carreira como ator, foram portas abertas. Assim, o que aconteceu foi que eu saí do Rio Grande do Sul quando eu deveria ter uns 18 ou 19 anos de idade e vim morar em São Paulo para ser modelo. Mas todos os trabalhos que geralmente eu pegava eram comerciais para televisão, com texto. Então acho que a coisa já foi sendo direcionada para ali. E quando eu fui lá no ano de 93, exatamente em 93, eu tinha 23 anos. Quando já tinha vindo para São Paulo. Não tinha dado muito certo como modelo. Eu voltei para o Rio Grande do Sul e então fui para o Rio de Janeiro para trabalhar como ator. Toda a escola que fiz, todo o meu trabalho que fiz com Maduro, acabou acontecendo de uma maneira mais tranquila, mais fácil na minha vida. Então eu acho que minha história era essa mesmo. Eu acabei tendo a chance, a oportunidade de me relacionar muito melhor com essa profissão, colhendo as dificuldades, as alegrias de ter vindo de um histórico de modelo, mas muitas dificuldades de me conectar com o que realmente importava na arte da interpretação, que não era completamente diferente do que vinha até aquele momento na minha carreira como modelo.
Nos anos 2000, você participava da novela infantil “Chiquititas” e também fez o filme de Sérgio Bianchi, “Cronicamente Inviável”. Você sempre gostou de viver esses mundos distintos, personagens tão opostos e contraditórios.
- Eu acho que não tinha a ver com a minha escolha naquele momento da minha vida. Não tinha muito a ver com as coisas que apareciam na minha carreira. Acho que às vezes as pessoas têm uma imagem dos atores que cria uma certa fantasia em torno deles. A carreira de ator é muito difícil no Brasil. Você está feliz da vida quando tem a oportunidade de trabalhar com o que ambicionou ser e nossa realidade não é fácil. Naquele momento eu tinha feito teste para fazer o filme do Sérgio Bianchi e acabei pegando um personagem que não era o principal da história, o Dan Stulbach, que acabou pegando o personagem, mas é parecido. E a gente é muito parecido. Aliás, eu tenho duas pessoas que me confundem muito, que são o Dan, Marcello Antony, outro que me confunde bastante, e Eduardo Moscovis. Sempre me confundem com esses três. Uma vez eu fiquei careca, inclusive por culpa do Marcello Antony, porque eu faço um espetáculo e o diretor insistiu que meu cabelo deveria ser curto e liso, então eu fui ao salão. A menina passou um produto no meu cabelo, olhava para mim e dizia assim: “Nossa, você é a cara do Marcello Antony, né? “Seus olhos são iguais aos do Marcello Antony”. E nisso o produto foi ficando no meu cabelo, até que ela resolveu lavar meu cabelo, mas deixou tempo demais. Acho que de tanto tempo que ela ficou encantada, lembrando o Marcello Antony olhando para o meu rosto, que quando ela foi lavar meu cabelo, metade dele caiu junto com o produto. Então uma vez eu encontrei Marcello, eu disse: “Por sua culpa, eu quase fiquei careca”. Foi o que aconteceu. Mas eu nunca vou esquecer da minha fala no filme: “Cada um entende os fatos do jeito que pode. Agora, se vocês vão ficar aqui, pelo menos têm a dignidade de assumir a postura de quem oprime, não de quem é oprimido”. É engraçado, não sei se você sabe disso, quem escreveu esse roteiro também foi colaborador desse roteiro muitos anos antes de eu conhecer, foi meu marido.
Vocês e seu marido conheceram no filme?
- Eu não conhecia, não sabia quem era, não tinha nada a ver. Eu fui por coincidência. A gente foi se casar, sei lá, mais de 10 anos depois. E a propósito, ele era um dos caras que tinha escrito esse roteiro junto com o Sérgio Bianchi. E hoje, no meu casamento, de vez em quando, quando tem alguma questão dentro de casa e a gente diverge, eu só olho para a cara dele e digo: “Cada um entende os fatos do jeito que pode”. E eu jogo a própria fala dele na cara dele. É uma brincadeira nossa”
Você tem alguma lembrança dessa época do filme? E você acha que mudou muito desde então? Digo, no cenário cultural cinematográfico, tanto de produção quanto para atuação.
- Cara, eu nunca fui um cara que teve muita oportunidade no cinema, não. Eu me lembro que na época foi muito gostoso de fazer o filme e ter experimentado isso. Depois eu fiz algumas outras coisas no cinema, mas geralmente eu fiz muita, muita, muita novela, né? Esses dias eu estava olhando o número de novelas que eu fiz e é meio absurdo assim. A cada um ano ou dois anos fazia uma novela, eu fiz muita novela na minha vida. Eu acho que as pessoas tem um certo preconceito com atores de novela, porque realmente, quando você fica ali trabalhando durante oito meses, nove meses no ar com aquele personagem, muito do que está ali é a própria pessoa. E aí, às vezes, talvez seja difícil para um diretor de cinema enxergar você e ver que você talvez possa fazer alguma coisa diferente, porque muito do que está numa novela é o próprio ator. Não tem como você dizer que todas as cenas que foram feitas em uma novela, considerando o número de cenas que são feitas, foi um trabalho que você meticulosamente pensou na ação que você ia fazer. Muito do que escapa lá e as pessoas acabam enxergando é muito de você mesmo. Então eu acho que quando a gente faz muita novela, talvez a gente como artista, para algumas pessoas, fica meio “lavado”. É importante, às vezes, as pessoas demorarem para ver você de novo. Eu fiz muito teatro na minha carreira e muita televisão. A minha carreira, se você olhar, tem tanto o número de teatro que eu fiz com um número de televisão. Quando eu comecei a carreira, eu pensei: “Ah, todo ator faz teatro”. Depois eu fui observando, ao longo dos anos, quando eles foram passando, e eu vejo: “Não. Tem muitos atores que não transitam nas duas praias, mesmo porque são ofícios quase completamente diferentes. Assim, tecnicamente completamente diferentes”.

Você se define “viado da família brasileira” em suas redes e dá para ver as micro-histórias que você conta, e claro, é a sua história, sua verdade, né? Para você, por que você acha que o beijo gay entre homens ainda é um tabu na grande mídia?
- Porque eu acho que é mais fácil para as pessoas dizerem que elas apoiam atividades que vão contra o preconceito, mas na hora de mostrar isso, realmente, é que são elas. As pessoas talvez ficam com medo de perder algum benefício, ou talvez por um próprio preconceito pessoal ou religioso que as envolve. Eu acho que é isso. É um grande tabu. É claro que é um grande tabu, ainda mais vindo de dois homens que têm uma passabilidade entre o universo heteronormativo. A coisa mais triste que eu vejo é que a gente não tem personagens gays, como eu, na dramaturgia. A gente tem personagens, geralmente… Eu não vou dizer que são estereotipados, porque existem gays dos mais variados tipos no mundo e todos devem ser respeitados. Então, quando eu falo isso, eu tenho que tomar um cuidado muito grande para não ser preconceituoso com tipos que realmente existem. E eu não estou falando isso indo contra eles, mas parece que o gay, geralmente, só pode ser ou aparecer se ele for engraçado, divertido e me fizer rir. “Se você for engraçado, se você for divertido, se você me fizer rir, eu permito que você exista, mas mesmo assim você não vai beijar na boca não, tá? Beijar na boca não pode”. E eu acho também que entre as mulheres tem uma aceitação maior, porque é a fantasia do homem ver duas mulheres juntas se beijando, também passa mais perto da fantasia dele. Então, até aí tudo bem, tudo pode. Quando botam uma boca de um homem com a boca do outro homem, e se eles tiverem cara de macho, eu acho que deve dar muito medo nessas pessoas de pensar: “Não, pera aí, eu sou parecido com ele. Será que eu sou? Será que vão achar que eu sou?” Talvez dê problema com as esposas que vão olhar para o seu marido: “Não? Mas pera aí, esse cara que está beijando o outro, eu vi o tempo inteiro fazendo um galã? Ele é masculino até na televisão. Será que meu marido é viado também e eu não sei?” Eu acho que assusta as pessoas dessa forma. Deve ser. Eu acho que é isso que deve assustar. Eles ficam com medo e na verdade isso é preconceito. Não mostrar o beijo não ajuda em nada à nossa comunidade, só colabora para que exista mais preconceitos. Não me venha com o papo de que a dona de casa não está preparada ainda para isso, porque se ela não está preparada, cabe a nós ajudarmos ela a estar preparada e não simplesmente tirar o beijo. Eu acho triste as pessoas terem que discutir sobre esse assunto. Eu acho que daqui a pouco, inclusive, daqui a muito pouco tempo, as pessoas vão perceber o quanto elas foram mesquinhas, não colaborando para que o preconceito fosse diminuído.

Em 2022, em uma entrevista concedida aqui ao GAY BLOG BR, você comentou: “Acho uma pena não termos no Brasil personagens gays à altura das nossas histórias. Será que em algum momento teremos a chance de ter um Brokeback Mountain na TV?”. Você acha, após esses anos, que já temos?
- Não, claro que não. Nós não temos as histórias. Me conte uma. Me cite um exemplo. Se você fala de dramaturgia, televisão e desse tipo de dramaturgia que está me perguntando hoje, estou tentando lembrar aqui. Lembro de alguns personagens assim. Lembro de personagens maravilhosamente feitos, como o Marcelo Serrado, meu amigo, que fez o Crô, e que é divertidíssimo a história dele. Ele é um ator brilhante, excelente, maravilhoso, não tiro o mérito nenhum, mas é um personagem que entra dentro dessa postura de: “Vamos criar o viado para rir”. Aí nós temos aquele outro personagem que era o antagonista, né? Também maravilhoso. Mas acho que não é representativo muito de histórias como as minhas. Assim, eu tenho tanto amigo que é parecido comigo. Vejo tanto viado igual a mim por aí. Eu nunca vi uma história de dois homens sem que necessariamente você tenha que falar sobre a questão sexual, sobre ser viado. Ou podia ser a história de dois homens em uma vida, que as questões fossem outras. A gente vê muito isso no preconceito racial. Isso já está anos-luz na nossa frente, né? Anos-luz na nossa frente, quando a gente fala sobre preconceito racial, e que maravilha que está. Eu não estou falando isso reclamando, muito pelo contrário. Que maravilha que eles estão anos na frente, que está tudo certo. Mas nós não chegamos nem aos pés, nesse sentido, é uma pena. Nós não temos esse personagem. Isso não sou eu que estou dizendo, não é minha opinião. Basta você fazer uma pesquisa fácil no Google. Temos personagens? Não temos. E quando temos é aquele beijinho no escuro, escondido atrás de uma trepadeira, quase para não agredir a dona de casa, né? Não temos.
No seu Instagram a gente tem isso. É você que roteiriza e edita, cria esses conteúdos, essas micros histórias e as macros de histórias? A gente pode esperar você fazer roteiro para o cinema, para a novela?
- Eu faço quase tudo sozinho. Eu tenho um grande amigo que se tornou grande amigo meu. Como eu tinha conversado com vocês antes, eu faço grandes amigos através da mídia social. Eu fiz já na minha vida grandes amigos que saltaram da mídia social para minha vida particular, e uma dessas pessoas me ajuda a editar os vídeos. Quem faz tudo sou eu. Não existe um câmera, o câmera sou eu mesmo. Eu que faço tudo. Geralmente, as ideias vêm todas de mim. Ele, como faz isso há muito tempo e me ajuda nisso há muito tempo, começou a dar ideias também, e muitas das ideias dele são sensacionais, foram aprovadíssimas e o povo ama, porque ele acabou já entendendo o tipo de coisa que eu faço, então ele consegue. Mas sou geralmente eu que crio, eu que adapto, eu que invento, ou eu que pesquiso para fazer alguma coisa parecida com alguma coisa que já foi feita, ou tento fazer a minha versão daquilo, mexendo um pouco no começo. No fim, eu acabo consumindo muito Instagram e, no ato de consumir Instagram, eu vejo muito o que outras pessoas estão fazendo. Aquilo me estimula, dá ideias e é algo que eu tive um prazer muito grande de falar. Foi um meio pelo qual eu tive uma felicidade muito grande de poder exercitar meu lado de ator e, ao mesmo tempo, falar sobre um tema que eu acho importante de ser falado, que ajuda, eu acho, muitas pessoas a diminuírem o preconceito. Você sabe que, inclusive, hoje, eu acho que eu sou muito mais conhecido através dos meus vídeos que eu faço pelo Instagram do que pela minha carreira inteira como ator. Eu sou parado na rua hoje, em todos os lugares que eu vou, por pessoas que vêm me agradecer. Mães, muitas mães que vêm agradecer pela representatividade que eu estou trazendo aos filhos delas. Muitas pessoas que chegam diretamente a mim me agradecendo, dizendo: “Olha, eu quero te agradecer porque meu pai e minha mãe só me aceitaram por sua causa”. Eu já recebi muitas mensagens lindas através do meu Instagram. E você perguntou agora se eu já pensei em algo dramatúrgico relacionado a isso. Eu estou fazendo exatamente isso. Nesse momento, eu estou escrevendo um espetáculo baseado em relatos de pessoas que eu recebi, através do Instagram, que me contaram as histórias delas, misturadas com a minha própria história e com poesias do Augusto dos Anjos também. E eu estou exatamente nesse processo de produção disso, porque, de uma maneira muito feliz, eu acabo juntando o meu trabalho com algo que eu acho que eu tenho um lugar muito potente de fala, de falar sobre essas questões. Porque está em mim, está no meu corpo, está na minha voz, no preconceito que eu sofri, está na clareza que hoje eu tenho para tentar encarar esse assunto de uma maneira que possa trazer a outras pessoas mais sabedoria, mais clareza, mais iluminação, menos sofrimento. Eu acho que eu fico muito feliz de poder ter ajudado algumas pessoas a olharem para mim e dizer: “Pera aí, o cara está certo. Ele é viado, ele tem família, ele tem trabalho, ele parece ser legal, ele está ali e está tudo bem. Ele não tem vergonha de falar. Então eu posso não ter vergonha de falar também”. E eu tenho histórias muito bonitas que eu colecionei dentro do meu Instagram, de pessoas que vieram me agradecer. Histórias lindas.

Sobre sua fala em outro podcast: “Eu tento através disso, mostrar que existem vários tipos de gays no mundo e que todos devem ser aceitos da forma como eles são. Você tem o que dá mais pinta, você tem o que dá menos pinta, você tem a lésbica, você tem o trans, você tem os assexuais. Você tem uma camada de pessoas que pensam sua sexualidade de uma forma diversa da sua, e seja lá a forma como ela pensa a sua sexualidade, ela deve ser respeitada também.”
- Eu acho que talvez isso tenha trazido respeito. As pessoas ficam pensando: “Olha, o viado. Vou chamar ele de viado. Mas para quê, se ele próprio já disse que é viado? Vou ofender um cara que já diz que é viado chamando ele de viado. Tem que chamar de outra coisa, sei lá, mau caráter, bandido, feio, velho, sei lá. Mas viado não vai significar”. E eu acho que as pessoas tem que entender, porque tem um lado triste dentro da nossa comunidade: a gente mesmo tem preconceito com a gente mesmo, né? As pessoas são diferentes, existem todos os tipos, existe o que dá pinta, existe o que não dá pinta, existe o quê? Sei lá. Às vezes o ato de não dar pinta, e talvez essa seja a minha história, seja, inclusive, uma cicatriz de quem você era. Você sabe que aconteceu uma coisa engraçada comigo depois que eu resolvi falar muito sobre esse assunto?! Eu resolvi fazer coisas que eu não fazia antes, como pintar as unhas de vez em quando, como usar saias. E aí eu comecei a comprar vários tipos de saias e eu gosto de usar isso, porque durante muito tempo você cresceu e você teve a referência dos outros, ou do que te falaram que era certo, ou que era errado. E quando você vê, na minha idade, uma das coisas mais tristes é que você não sabe quem você é, porque você não teve a chance de experimentar. Então, tem vezes que eu pinto a minha unha do pé inteira de verde, outras vezes eu pinto de rosa, outras vezes eu pinto a mão. Agora eu estou fazendo peça e não estou podendo pintar nada. Aí eu resolvi ir em um lugar em que é uma coisa que é mais tradicional, como a festa de aniversário do casamento do meu tio: eu coloco uma saia e vou para festa. “Você está fazendo isso para afrontar? Não, eu estou fazendo isso como um ato de liberdade, até para eu entender quem eu era e para mostrar para as pessoas que a gente pode ser diferente. É só isso. Eu tentei ver em mim o que eu tinha, porque eu acho que eu fiquei, com o tempo, um viado masculino demais. Deixa eu ver o que eu posso fazer daqui. Dá uma pinta, está tudo certo. As pessoas tem medo de dar pinta, né? Parece que você vai denotar que você é viado. Mas e se denotar que você é viado, mas não é viado mesmo? Gente, está errado ser viado? Então qual o problema de você dar pinta? Deixa dar pinta que eu quero. Você sabe que nesse nesse lado tem pessoas que cercam a minha vida, ou que já cercaram a minha vida, e nesse sentido entra o que eu falei sobre o preconceito subreptício, um preconceito que logo de cara não mostra, mas quando você vai ver é. Tinha uma pessoa que eu gostava muito, eu trabalhava a voz com a pessoa e estava fazendo um musical. Eu chego para essa pessoa e digo assim: “Você acha que essa nota que estou dando aqui está mais aguda? Será que estou fazendo isso porque eu sou viado?” A pessoa diz: “Não, é por isso que eu gosto de você. Você não é viado, você é homossexual. Mas quando a gente olha para você, não dá para perceber que você é homossexual”. Quando ela me falou isso, eu arregalei o olho, porque quando você vê, você percebe o preconceito, a pessoa te diz. Você percebe que existe um preconceito gigantesco ali na frente da outra pessoa. Era preconceito puro que ela estava falando para mim. Ou quando alguém chega para mim e diz assim: “Que legal, você tem filho. Mas eu só penso no Dia das Mães, como é que vai ser?” A pessoa está botando o preconceito dela para fora. Bom, começando que na escola do meu filho não tem Dia das Mães, tem “Dia da Família”. Mas isso você está vendo sobre o ponto de vista, sobre um preconceito, sobre um medo que é seu. Não corresponde à história do meu filho nesse mundo. Pelo menos não correspondeu até hoje, ele tem 4 anos e meio. Nunca passei por situação nenhuma ao lado dele que fosse embaraçosa. Vivo em uma bolha, não posso negar isso. Claro que eu vivo numa bolha, mas na bolha também existe muita gente que pode ter preconceito, né? O preconceito está aí, né? Nunca passei por nada dele não. Esse preconceito acho mais “escrotinho”. Quando a pessoa olha para você, diz: “Não, não sou preconceituoso”. Mas nas entrelinhas vêm loucuras que dão a curva e que você tem que ter, talvez, os anos que eu tenho de psicanálise, olhar para a pessoa e dizer: “Você está sendo preconceituoso”. “Não, eu não sou de jeito nenhum. Minha filha é gay”. “Ah é?! Sua filha é gay? Me conta essa história”. Aí você vai descobrir que por trás da filha gay essa mulher sofreu muito na vida dela, e que o vizinho, uma reunião de condomínio, disse: “Tua filha é sapatão”. E é por isso que hoje ela tem preconceito com orientação. Outra que eu detesto: “Eu tenho medo que meu filho sofra”. Geralmente “eu tenho medo que meu filho sofra”, você pode contar que 70, 80% disso é só preconceito. Se seu filho tiver uma boa estrutura familiar e se for realmente amado dentro de casa, ele vai saber se defender disso muito bem. Ele vai saber o lugar que ele pode ir, se é perigoso, se não é, ele vai saber disso tudo. O seu filho vai sofrer mais se ele sentir preconceito dentro de casa. Um preconceito que não dá o seu nome. Porque esse é o pior tipo de preconceito. A mãe que diz que ama, mas tem medo do que pode acontecer lá fora, e na verdade não é isso. Na verdade, ela tem preconceito mesmo, porque ela cresceu no universo que era preconceituoso, em que a avó já era, imagina, no tempo dela era pior do que os dias de hoje. Mas só entenda, é preconceito sim. Não disfarce ele com um “eu tenho medo que você sofra”. A pessoa sofre quando não tem afeto, quando não tem amor, quando não tem carinho, quando não tem cuidado. Criança, principalmente, sofre desse jeito. Não vai sofrer tanto por preconceito assim não. Se tiver um lar forte, vai ser lindo na vida dela. Pode ficar tranquilo.
Você tem uma coluna na revista Crescer. Como é para você ocupar este lugar de formador de opinião a partir das suas vivências?
- Eu acho que é extremamente importante, principalmente para nossa comunidade, um viado falando e dando opinião sobre desenvolvimento infantil sadio, eu acho que é uma conquista para todos nós. Eu acho que isso é muito importante. É um trabalho que eu levo muito a sério. Eu falo de uma maneira clara sobre experiências que eu já passei com meu filho e talvez, pelo fato de eu ser homem e dentro do universo masculino, a gente não é educado para ser mãe ou pai, né? A gente nasce aquela criança ali, geralmente num casamento heterossexual, mas o pai não sabe ali o que vai fazer, porque geralmente é responsabilidade da mulher, né? Não sabe trocar uma fralda, não sabe dar banho, não sabe falar com a criança sobre abuso e sobre tomar cuidado. Como é que se introduz isso de uma maneira que também vai ser fácil, que não vai traumatizar a criança? Enfim, tudo que se refere à educação infantil. A papinha, deu febre, sentiu dorzinha abaixo do joelho… Acabou acontecendo uma coisa muito bonita comigo que quando vou em algum jantar com meu marido, acontece uma coisa engraçada. Eu digo eu sou a mulher da relação, né? Quando a gente vai em um jantar, eu me grudo com as mulheres e ele geralmente se gruda com os homens. Eles falam de economia, eles falam de história. Eu começo a falar sobre educação infantil. Às vezes elas arregalam os olhos para mim e dizem: “Como que esse menino sabe disso que eu não sei ainda, né?” Eu brinco que eu tenho que ser muito viado para ter melasma na gravidez. Eu tive melasma de gravidez né, gente? Quando meu filho nasceu eu tinha um melasma no meio da testa. Só quem tem melasma é mulher. Ou seja, hormonalmente eu criei alguma coisa no meu corpo que eu fui tão viado, mas tão viado, que eu desenvolvi um hormônio que geralmente só desenvolve em mulheres que nem minha irmã que teve filho teve, eu tive durante a gravidez. Eu posso dizer que eu sou um pai muito presente na vida do meu filho em todos os aspectos de dar banho, dar educação, de ter uma febre, de olhar para cara dele e dizer: “Esse menino está estranho, deixa eu ver se está com febre”. Então eu acho que as mulheres me olham fazendo e falando sobre educação infantil e dizem: “Puxa vida, por que meu marido não me ajuda? Puxa vida, por que meu marido não é assim? Puxa vida, por que meu marido não é presente? Por que não entende minimamente sobre educação infantil? Por que ele não tem uma relação respeitosa com essa criança? Por que diabos ele acha que toda a responsabilidade de um filho tem que cair em cima de uma mulher?” Eu acho que quando as mulheres me olham, elas pensam isso. Eu tenho um fenômeno interessante no Instagram: 80% são mulheres. Essas mulheres quando me seguem, eu acho que talvez por conta desses assuntos, talvez por conta desse universo. E olha que eu sou apimentado, né? Para uma pessoa que já acessou o Instagram sabe que vai de A a Z ali. Vai eu fazendo comédia com o Kaysar, mais picante, comigo falando bobagem para caramba, comigo defendendo uma bandeira, comigo falando mal do prefeito de Santa Catarina. Vai de A a Z porque ele representa ali muito a minha vida, a minha história, quem eu sou. Não tem muita dissimulação ali. Mas eu acho que talvez eu preencha muito nesse universo feminino, delas olharem e dizerem: “Caramba, o que custava meu marido fazer isso? O que custava meu marido dar um banho? O que custava meu marido se preocupar no aniversário do coleguinha e comprar um presente?” Porque geralmente o homem é mais burocrático, né? Paga as contas da casa. Acabou, né? Acabou. Não precisa fazer mais nada, né? Chega em casa, olhou a criança, dá um beijinho, dá o chocolate antes do jantar, atrapalha na hora de comer, e foi.
E nunca fala sobre essa função paterna, né?
- Nunca fala, minimamente, sobre o cuidado que tem que ter com aquela criança, né? Sobre a educação daquela criança, né? E eu acho que talvez essa admiração que venham das mulheres, talvez esse fascínio com viado seja porque o viado tem a sensibilidade mínima que talvez elas desejassem que os maridos tivessem.

Sabemos que você tem como referência artística e influência também o poeta pré-Modernista Augusto dos Anjos.
- “Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, a mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija!” É lindo, né?
A mão que afaga é a mesma que apedreja?
- Ah é, claro que é. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Faz parte da vida. A mão que afaga é a mesma que apedreja, dependendo do momento. É bom, às vezes, você ter pessoas ao seu lado que não vão te apedrejar, mas que vão ser sinceras o suficiente, que você vai sentir como um apedrejamento, mas que vão te falar a verdade, que vão te ajudar a crescer. Nem sempre passar a mão na cabeça do seu amigo é a melhor coisa do mundo, né? Eu sou apaixonado por Augusto dos Anjos, talvez por eu gostar dessa parte da biologia dele, da medicina. “Toma, Dr., esta tesoura, e… corte minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa todo o meu coração, depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa. A criptógrama cápsula se esboroa”. Eu acho lindo ele, acho lindo demais. Esse espetáculo que eu estou fazendo tem poesias dele. Antigamente, eu tinha vontade de fazer um espetáculo só com poesias dele, mas eu pensava: “Eu tenho que dar um dicionário para as pessoas, né? Ou eu vou ter que explicar, talvez explicar termo a termo o que é”. Mas eu acho lindo, acho lindo.
E você tem algum projeto em vista?
- Eu vou estrear uma peça agora no dia 17, “Todo Chapéu Me Lembra Você”, com direção do Vitor Rocha e texto dele. É um menino tão talentoso que eu vi um espetáculo dele aqui em São Paulo. Eu e outro ator, chamado Theo Nogueira, a gente está fazendo esse espetáculo com uma temática LGBT, que vai ser feita aqui no Centro da Diversidade, no Teatro da Diversidade, aqui em São Paulo, e a gente estreia no dia 17 de maio. É uma das primeiras vezes que eu estou tendo a chance e a oportunidade de trazer, dentro de um menino jovem, com 26 anos de idade, trazendo uma dramaturgia que contempla homens como eu. Coisa rara. Então, só dando esse recado, chamando outras pessoas que que puderem assistir à produção da Viva Cultural, do Leandro Luna também, que é um ator que está produzindo ess espetáculo maravilhoso, Eu tenho certeza que as pessoas vão gostar. Um espetáculo lindo.
SERVIÇO
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Carmo Dalla Vecchia e Theo Nogueira estreiam ‘Todo Chapéu Me Lembra Você’ em SP
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