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Há pouco mais de um ano, em julho de 2021, Carmo Dalla Vecchia, de 50 anos, tomou a decisão de tornar pública a sua orientação sexual. Durante participação na “Super Dança dos Famosos”, da TV Globo, ele pediu a palavra ao apresentador Tiago Leifert, a fim de fazer uma homenagem ao marido João Emanuel Carneiro e ao filho do casal, Pedro, e alertar sobre o alto índice de assassinato de pessoas trans no Brasil.

De lá pra cá, a vida do ator, natural de Carazinho (RS), mudou bastante. Mas até chegar a decisão de contar em rede nacional que era gay, Carmo precisou amadurecer essa ideia dentro de si.

Precisei descobrir que mesmo compondo uma letra da sigla LGBTQIAPN+ eu poderia ter um preconceito cultural arraigado na minha própria cabeça. Acho que minha decisão acompanhou um movimento meu e ao mesmo tempo um momento que o mundo está passando”, explica ele em entrevista ao GAY BLOG BR.

Carmo Dalla Vecchia (Foto: Victor Hugo Cecatto)

Ao longo da infância, sofreu alguns episódios de homofobia na escola e, ao se entender gay aos 13 anos, Carmo passou a se sentir “deslocado, perdido e sozinho”. ”Me sentia diferente. Não tinha referência de pessoas iguais a mim. […] Você sofre e apanha calado na escola e volta pra casa se perguntando o que vai ser da sua vida quando crescer”, afirma o ator.

Hoje não sofro preconceito nenhum no ambiente familiar, acho até que se orgulham bastante de mim. Mas me tornei um homem feliz e independente e isso certamente ajudou a me aceitarem”, acrescenta ele. Carmo também conta que passou a receber muito carinho após falar publicamente sobre sua sexualidade, além de diversas mensagens de pessoas agradecendo o seu ato.

Me tornei um homem mais respeitado e acarinhado por milhares de pessoas que chegam até mim e que costumam me agradecer pelo que fiz. Hoje sou um gay público e isso me encheu de alegria. Digo isso porque tenho muito orgulho por ter sido corajoso ao ocupar um espaço que era meu e hoje me sinto pertencendo a aquilo que eu realmente sou”, conta.

No entanto, quando se diz respeito a sua profissão, Carmo teve receio de tornar público que era gay e chegou até a ser advertido. “[…] Eu achava que ao me expor poderia ter problemas. Fui claramente advertido quanto a isso algumas vezes, mas o desejo de me posicionar foi mais forte. Para mim foi muito claro que se o preço que eu teria que pagar para trabalhar seria me ausentar de quem eu era, esse valor eu já não estava mais disposto a dispor”, revela o ator.

Após um ano da sua fala na “Super Dança dos Famosos”, atualmente Carmo está na novela “Cara e Coragem” (TV Globo), onde vive o ilustrador Alfredo, casado com Pat, interpretada por Paolla Oliveira. Se antes havia algum receio por conta da sua sexualidade, nada mudou no seu trabalho.

Fico muito feliz porque na TV Globo, pessoas como eu estão sendo respeitadas. Atualmente me sinto assim, mesmo nunca tendo visto um personagem parecido comigo com relevância numa trama. Mas quem sabe isso muda logo. Acho que preconceito como esse serão ridículos num futuro próximo. O tempo dirá”, afirma.

Apesar de já ter interpretado um personagem gay no filme “Onde Andará Dulce Veiga” (2008), Carmo também deseja viver isso em uma novela. Acho que vai rolar. Mas nós atores, gostamos antes de tudo de bons personagens. Sejam eles o que forem”, diz Carmo.

“Acho uma pena não termos no Brasil personagens gays a altura das nossas histórias. E elas são lindas, poderosas, românticas, histórias muitas vezes de heróis que precisam provar que seu amor é legítimo. Será que em algum momento teremos a chance de ter um Brokeback Mountain na TV? Tomara. Seria lindo”, admite o ator.

Carmo como Alfredo em “Cara e Coragem” (Foto: Divulgação/ Globo/ Fábio Rocha)

Militância e internet

Recentemente, Carmo passou a ser mais ativo nas redes sociais, onde propõe algumas reflexões sobre a população LGBTQIA+ em seu perfil no Instagram. Em alguns vídeos, ele traz dados sobre o número de mortes causadas pela LGBTfobia, explicações sobre termos usados pela comunidade, além de interpretar alguns relatos.

O ator utiliza as suas redes sociais como uma rede de apoio: “Muitas vezes choro lendo as mensagens que recebo. São pessoas que passaram por grandes dificuldades de aceitação e que levarão cicatrizes eternas em suas vidas. Pessoas que confiaram em mim e me cederam suas histórias para serem contadas. Nunca fui tão grato e nunca ouvi tantos agradecimentos em toda a minha vida. São caminhões de afeto e carinho que tenho recebido diariamente”, comenta ele.

No entanto, esse espaço de diálogo, que recebe inúmeras mensagens de afeto, tem recebido alguns ataques. No último mês, Carmo expôs um ataque homofóbico contra ele e seu filho de 3 anos.

Um advogado amigo meu que mora em São Paulo me ligou e pediu para me defender. Ele e um ex-juiz, atualmente advogado em Brasília, compraram suas passagens e vieram ao Rio de Janeiro, me buscaram na minha casa e me levaram para a delegacia, quase de mãos dadas, sem me cobrar nada porque são seres humanos fantásticos que se sensibilizaram com a causa. […] Fiz isso como um ato cívico de denúncia, para dar exemplo a outros e mostrar que não é tão fácil assim você se esconder atrás de uma máquina e falar o que bem entende”, conta o ator.

E quando se fala em LGBTfobia no Brasil, Carmo se diz envergonhado com as falas de Jair Bolsonaro. “Como diz Maquiavel: ‘Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal’”, pontua ele. “Há pouco tempo me escreveram uma mensagem no Insta, foi algo tipo: ‘De gaúcho para gaúcho. Eu se fosse você deixaria de ter essa inclinação esquerdista identitária, para o seu próprio bem’. Me senti quase ameaçado e sem entender direito. O que o fato de eu falar sobre a comunidade gay e defender ela, tem a ver com ser de esquerda ou direita?!’, questiona o ator.

Penso eu que podemos nos manifestar politicamente de várias formas e escolher a que acharmos mais efetiva. Depois de ter sido pressionado tantos anos por ser gay não vou aceitar pressão política no atual momento da minha vida. Eu tenho todo o direito de escolher as batalhas que quero travar”, afirma Carmo entrevista ao GAY BLOG BR.

Em 2021,  Carmo foi o vencedor do troféu Poc Awards na categoria “Ator“. Na disputa, ele recebeu 36% do voto do público. “É o prêmio mais importante que eu poderia receber! É o que mais bonito poderia ter acontecido na minha vida. Ter o poder, a chance, a coragem de dizer que esse sou eu. […] Se pudesse escolheria ser gay de novo e de novo e de novo. E esse sou eu“, agradeceu ele em uma publicação no Instagram, feita em fevereiro deste ano.

Carmo com o troféu “Poc Awards” (Foto: Reprodução/ Instagram)

Confira a entrevista na íntegra

GAY BLOG BR: Em entrevista ao jornal O Globo, você disse que aos 13 anos já se entendia como gay. Como foi esse período de descobertas? Você levou algum tempo para abrir a sexualidade à sua família?

Carmo Dalla Vecchia: Me sentia diferente. Não tinha referência de pessoas iguais a mim e me sentia deslocado, perdido e sozinho. Quando somos muito jovens, a casa e a família costumam ser o abrigo, mas quando a questão é você ser gay, isso pode não acontecer. Então você sofre e apanha calado na escola e volta pra casa se perguntando o que vai ser da sua vida quando crescer. Muitos infelizmente sucumbem nessa fase e é uma pena essa falta de informação e de empatia que podemos ter dentro de casa e na escola, afinal deveriam ser os lugares que nos protegeriam. Hoje não sofro preconceito nenhum no ambiente familiar, acho até que se orgulham bastante de mim. Mas me tornei um homem feliz e independente e isso certamente ajudou a me aceitarem.

GB: Neste mês de julho, fez um ano que você se declarou gay durante a “Super Dança dos Famosos”. O que mudou de lá pra cá? Você sentiu alguma mudança em relação a como as pessoas te tratam?

Carmo: Me tornei um homem mais respeitado e acarinhado por milhares de pessoas que chegam até mim e que costumam me agradecer pelo que fiz. Hoje sou um gay publico e isso me enche de alegria. Digo isso porque tenho muito orgulho por ter sido corajoso ao ocupar um espaço que era meu e hoje me sinto pertencendo a aquilo que eu realmente sou.

GB: Você já tem mais de 20 anos de carreira na televisão e só resolveu trazer a público a sua orientação sexual no último ano. Por que a decisão? Teve algum receio para não falar sobre o assunto mais cedo?

Carmo: Precisei amadurecer isso comigo. Precisei descobrir que mesmo compondo uma letra da sigla LGBTQIAPN+ eu poderia ter um preconceito cultural arraigado na minha própria cabeça. Acho que minha decisão acompanhou um movimento meu e ao mesmo tempo um momento que o mundo está passando. E as mídias sociais colaboraram muito com isso. Existe atualmente uma facilidade gigantesca das pessoas se conectarem através de diversas plataformas e quando todos começaram a conversar, acabaram se dando conta que o sentimento que os tumultuava pertencia a muitos e que não estavam sozinhas. Aí, a família brasileira teve que começar a falar sobre esses temas na mesa do jantar. Mas quanto ao meu trabalho, é óbvio que eu achava que ao me expor poderia ter problemas. Fui claramente advertido quanto a isso algumas vezes, mas o desejo de me posicionar foi mais forte. Para mim foi muito claro que se o preço que eu teria que pagar para trabalhar seria me ausentar de quem eu era, esse valor eu já não estava mais disposto a dispor. Atualmente estou gravando uma novela com o mesmo tipo de personagem que sempre representei e a princípio no meu trabalho nada mudou. Fico muito feliz porque na TV Globo, pessoas como eu estão sendo respeitadas. Atualmente me sinto assim, mesmo nunca tendo visto um personagem parecido comigo com relevância numa trama. Mas quem sabe isso muda logo. Acho que preconceito como esse serão ridículos num futuro próximo. O tempo dirá.

GB: Nos últimos meses, você tem usado o seu Instagram para falar de algumas pautas LGBTQIA+ e também explicar alguns termos usados na comunidade. Como tem sido a recepção do público que te acompanha?

Carmo: Muitas vezes choro lendo as cartas que recebo. São pessoas que passaram por grandes dificuldades de aceitação e que levarão cicatrizes eternas em suas vidas. Pessoas que confiaram em mim e me cederam suas histórias para serem contadas. Nunca fui tão grato e nunca ouvi tantos agradecimentos em toda a minha vida. São caminhões de afeto e carinho que tenho recebido diariamente.

GB: Mais ativo nas redes sociais, você também tem recebido alguns ataques e, recentemente, expôs alguns deles. Como você tem lidado com esses discursos de ódio? Essas situações ficam restritas ao virtual ou já ocorreu de forma presencial?

Carmo: Dois casos solitários, foi o que foram em meio a milhares de outras mensagens de amor. Um advogado amigo meu que mora em São Paulo me ligou e pediu para me defender. Ele e um ex-juiz, ex-delegado, atualmente advogado em Brasília compraram suas passagens e vieram ao Rio de Janeiro, me buscaram na minha casa e me levaram para a delegacia, quase de mãos dadas, sem me cobrar nada porque são seres humanos fantásticos que se sensibilizaram com a causa. Na delegacia fui tratado com  muito cuidado. Me colocaram numa sala e calmamente pediram para eu contar o ocorrido. Fiz isso como um ato cívico de denúncia, para dar exemplo a outros e mostrar que não é tão fácil assim você se esconder atrás de uma máquina e falar o que bem entende.

GB: Ao falar sobre sua sexualidade na TV Globo, você pontuou que o Brasil é o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo – e, há mais de 10 anos, o país segue com esse alto índice. A que você atribui esses dados?

Carmo: Ignorância, pobreza que consequentemente acaba apontando a ignorância, falta de livros nas estantes, falta de empatia, de escolas, machismo e principalmente impunidade. É absurdo mas não temos nem uma lei que nos proteja. Não é inacreditável? Apenas lembrando também que o Brasil é o país que mais consome vídeos de pessoas trans e travestis e também é o que mais mata a população transexual em todo o mundo.

GB: Além desses altos números de assassinatos de pessoas LGBTQIA+, há Bolsonaro que já deu diversas declarações LGBTfóbicas. Qual a sua posição em relação às falas de Jair?

Carmo: Sinto vergonha, tristeza, mas ao mesmo tempo tudo isso me ajudou a falar. Acho que momentos extremistas como esse nos estimulam a ter mais coragem. Como diz Maquiavel: ‘Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal’.

GB: Neste ano, teremos eleições e muito se fala sobre artistas se posicionarem politicamente. O que você pensa disso? E o que você espera dos nossos futuros representantes para os próximos quatro anos?

Carmo: Uma das coisas mais bonitas que aprendi com a minha prática budista, é que uma discussão apenas vale a pena se servir para chegarmos num lugar melhor com ela. Se for apenas para botar sua ira para fora, teria sido melhor ficar calado. Quando alguém grita o outro fecha o coração para não ouvir. Sinto que a maioria dos posicionamentos virtuais terminam em discussões estéreis. Não tenho gosto de bater boca. Há pouco tempo me escreveram uma mensagem no Insta, foi algo tipo: “De gaúcho para gaúcho. Eu se fosse você deixaria de ter essa inclinação esquerdista identitária, para o seu próprio bem”. Me senti quase ameaçado e sem entender direito. O que o fato de eu falar sobre a comunidade gay e defender ela, tem a ver com ser de esquerda ou direita? Penso eu que podemos nos manifestar politicamente de várias formas e escolher a que acharmos mais efetiva. Depois de ter sido pressionado tantos anos por ser gay não vou aceitar pressão política no atual momento da minha vida. Eu tenho todo o direito de escolher as batalhas que quero travar.

GB: No filme “Onde Andará Dulce Veiga” (2008), você protagonizou um beijo com o ator Eriberto Leão. Após declarar publicamente sua sexualidade, tem desejo de interpretar um personagem gay em alguma novela?

Carmo: Tenho. Muito. E acho que vai rolar. Mas nós atores, gostamos antes de tudo de bons personagens. Sejam eles o que forem. Acho uma pena não termos no Brasil personagens gays a altura das nossas histórias. E elas são lindas, poderosas, românticas, histórias muitas vezes de heróis que precisam provar que seu amor é legítimo. Será que em algum momento teremos a chance de ter um Brokeback Mountain na TV? Tomara. Seria lindo.




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

1 COMENTÁRIO

  1. […] “Precisei descobrir que mesmo compondo uma letra da sigla LGBTQIAPN+ eu poderia ter um preconceito cultural arraigado na minha própria cabeça. Acho que minha decisão acompanhou um movimento meu e ao mesmo tempo um momento que o mundo está passando. Me tornei um homem mais respeitado e acarinhado por milhares de pessoas que chegam até mim e que costumam me agradecer pelo que fiz. Hoje sou um gay público e isso me encheu de alegria. Digo isso porque tenho muito orgulho por ter sido corajoso ao ocupar um espaço que era meu e hoje me sinto pertencendo a aquilo que eu realmente sou”, disse o ator em entrevista ao “Gay.blog”. […]