A entrevista do jornalista brasileiro Marcelo Bechler com o jogador Gerard Piqué é um dos vídeos mais compartilhados no Twitter – e é muito bom de assisti-lo toda vez que aparece na timeline, geralmente sendo usado pelos internautas para exemplificar o sentimento de “tensão sexual”.

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Morando em Barcelona há cinco anos e meio, o mineiro de Belo Horizonte conta que o vídeo viralizou por outro motivo antes de povoar a imaginação dos gays brasileiros. Em entrevista exclusiva ao GAY BLOG BR, Bechler, que também escreve um blog no portal Lance!, contou curiosidades acerca do célebre momento e revela que não é baixinho como aparenta ser no vídeo (ele possui 1,80m de altura!).

Camp Nou (FC Barcelona) – Reprodução

Aquela entrevista foi em qual ano? Você tinha qual idade naquela época?

Foi em novembro de 2018, em Eidhoven, na Holanda. Barcelona 2×1 PSV. Eu tinha 32 anos (e 1.80m hahaha).

Foi a sua primeira grande entrevista? Qual era o contexto para você estar tão nervoso e empolgado?

Não foi! Sempre fazemos entrevistas pós-jogo com os personagens da partida. Já tinha feito Coutinho, Neuer, Harry Kane, Neymar, Zidane, Van Dijk, Alisson e outros. O nervosismo é porque trabalho sozinho e tem muita coisa acontecendo em volta. Ajustar a câmera, o equipamento do ao vivo, falar com a produção. Após os jogos do Barça eu sempre peço Piqué e Messi, mas eles falam poucas vezes e nunca tinham vindo para mim. Nesse dia, o Piqué veio não tive tempo de me preparar. Havia pedido outros jogadores baixinhos (Malcom, Coutinho e Lozano) e já deixei a câmera na altura adequada. Veio Gerard com 1.94m e, enquanto esperava eu ajustar, dei boa noite a ele em catalão. E aí começou tudo.

O público adora fazer “fanfic” sobre o que pode ter acontecido após a entrevista. O que aconteceu? Você conversaram sobre mais alguma coisa? Viraram amigos?

Não conversamos. Algumas vezes, depois dos jogos, nos cumprimentamos. Curiosamente, o Piqué é um dos poucos jogadores do Barcelona que vivem a cidade, a maioria vive dentro de suas casas e não vai a rua como “pessoa normal”. Já o encontrei em um shopping e ele tinha uma hamburgueria na rua de trás de onde eu moro, mas não cheguei a vê-lo ali.

Nos vemos depois dos jogos, na área de entrevista, mas normalmente é um momento que eles estão com adrenalina muito alta pelo jogo e nós com muitas coisas pra resolver também. Não é um ambiente convidativo pra conversar e tal.

Já o entrevistei outra vez, mas em uma entrevista coletiva, com muita gente ao redor. Estamos negociando uma entrevista com mais calma, mas aqui os jogadores falam muito pouco.

Quando viralizou, qual foi sua reação? Ficou constrangido, chateado, achou engraçado? Hoje em dia, como você se sente ao ver esse vídeo sendo compartilhado toda semana no Twitter?

Foi curioso, porque aqui na Catalunha ele viralizou pelo idioma. Como o catalão pode unir, em vez de separar as pessoas. Há um contexto político forte por trás da língua e eles valorizam muito o estrangeiro que tenta aprender. Fiquei muito surpreso com a reação do público porque nem havia percebido essa “tensão”. Mas eu acho muito engraçado e adoro ler o que falam. Todos me respeitam muito, são comentários positivos, engraçados e fazendo elogios. Bem melhor que o meio tóxico do futebol e o tipo de mensagem que recebemos a maioria das vezes.

Reprodução / Instagram @marcelobechler
Reprodução / Instagram @marcelobechler

Você é heterossexual, certo? É possível ser heterossexual quando se está frente a frente com o Piqué?

Sou hétero, sim! Mas nenhum problema em admitir que ele é muito bonito. Não tenho atração ou vontade de fazer qualquer coisa, mas impacta quando você olha.

Sabe se o Piqué é simpático assim nas entrevistas ou acredita que pode ter tido um interesse dele em você?

O fato da entrevista ter triunfado tanto é porque Piqué é muito diferente da maioria dos jogadores. Ele é muito inteligente, é um empresário de sucesso, inclusive. Quando começou a ter que se dedicar ao futebol, sua mãe queria que ele deixasse tudo para ser médico. Vem de uma família de classe alta de Barcelona. E ele domina muito bem as câmeras e as palavras. Então é muito curioso que ele se desarme tanto e até esqueça da pergunta, porque normalmente é um terreno que ele está confortável.

Acho que não teve nenhum tipo de interesse. Aqui é normal que os homens héteros se toquem, se olhem e riam. Em alguns lugares até se cumprimentam com beijos. Não existe uma fragilidade quanto a isso como em outros lugares, ou medo de algo parecer gay (no sentido pejorativo).

E que característica que mais te chamou mais atenção, ele tinha bom hálito, usava perfume, tinha pés grandes? Uma vez você comentou no Twitter que você não era baixo, ele que era alto demais.

Ele é muito alto, mas não me lembro de nenhum cheiro. Já comentei alguma vez que os jogadores costumam ser muito cheirosos, porque eles saem do banho e passam muito perfume. Como ganham milhões de euros, compram os melhores e mais caros perfumes do mundo. Uma vez o Paulinho apertou minha mão depois de uma entrevista e ela ficou com o cheiro até o dia seguinte. E o Piqué é muito alto. Tem 1.94 e é muito magro, acho que parece ser mais alto ainda.

Quais personalidades você gostaria de entrevistar? Ou já entrevistou todos os seus ídolos?

Tenho muita vontade de entrevistar Messi e Guardiola. E de fazer uma entrevista mais longa com Piqué. Aprendi a falar o catalão porque moro aqui e acho que é um sinal de respeito às pessoas e ao local, mas também para falar com Pep e Gerard, dois ídolos, no idioma deles.

Reprodução / Instagram @marcelobechler
Reprodução / Instagram @marcelobechler

E quais os maiores perrengues do jornalismo esportivo? Ego de atletas? Pessoas suadas? Jogadores que não sabem se expressar?

Ego do atletas e dificuldade de se expressar são dois bons pontos. Fazer perguntas mais duras e que eles não levem para o lado pessoal é difícil. A boa entrevista é a que gera boa resposta e nunca sabemos o que vamos encontrar do outro lado. Ter que lidar com muitas coisas ao mesmo tempo e fazer tudo sozinho, também não é fácil.

Como você enxerga a presença de jogadores gays no futebol? Ainda é tabu ou é tranquilo nos bastidores e é apenas escondido do grande público?

É um grande tabu. Um time de futebol tem entre 25 e 30 jogadores. Eu vejo impossível que não haja nenhum gay em cada time. E os jogadores não se assumem pelo típico: é um meio muito machista, retrógrado e eles têm medo de perder o respeito da torcida, do clube e patrocinadores. Acredito que um dia será algo normal. Mas hoje eles precisariam levantar uma bandeira para mostrar que podem ter voz e não é nada condenável. Infelizmente parece que seguimos longe disso.

marcelo bechler
Reprodução / Instagram @marcelobechler

Você recebe muitas cantadas? Já recebeu investidas de jogadores? E como você reage às cantadas do público no Twitter?

Recebo mais cantadas de homens que de mulheres, sem dúvidas. No Instagram muita gente me manda mensagem elogiando, algumas pedradinhas curiosas e engraçadas. Eu levo 100% numa boa, porque é bom que te achem bonito e atraente. E nenhum me faltou com respeito. Algumas colegas jornalistas costumam ter problemas com homens héteros que enviam nudes ou são grosseiros e vulgares ao falar com elas. Comigo isso nunca aconteceu e jamais me incomodou nenhuma fanfic ou algo assim.

E você, leitor, acha que o Gerard Piqué deve seguir o Marcelo Bechker nas redes sociais? Poste no Twitter e no Instagram:

“Hola, @3gerardpique, porfa sigue al periodista @marcelobechler!”

 

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