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Stella Rocha (45) trocou o Brasil pela França em busca de liberdade para viver a sua transexualidade. Filha de um delegado com uma católica fervorosa, e sentindo-se presa em um corpo masculino, ela deixou o país aos 18 anos.

Rumo à capital francesa, ela foi atrás de um dos seus sonhos: ser atriz. Antes de conquistar os holofotes, teve várias profissões bem menos glamourosas, como trabalhar na construção civil, mas jamais desistiu de suas ambições.

Há quase 30 anos na França, Stella conseguiu construir uma carreira artística sólida com passagens pelo cinema, teatro e televisão, além de uma participação polêmica no Festival de Cannes. A atriz, que possui dupla cidadania, afirma ter realizado todos os seus sonhos, e lamenta a transfobia no Brasil, como o país que mais mata transexuais no mundo.

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Stella Rocha (Foto: Acervo Pessoal)

Como foi o seu passado em Belém do Pará antes de ganhar o mundo?

Stella: Minha mãe deu à luz em casa. Meu pai sonhava ter um filho homem para seguir o legado dele na polícia. Eu já tinha duas irmãs mais velhas. A parteira que fez todos os partos da minha mãe, aquelas senhoras das antigas que só de tocar na barriga da gestante já sabe o sexo do bebê, disse que seria uma menina, para a frustração de meu pai. Quando nasci, veio a surpresa: um menino. Todos disseram que pela primeira vez a parteira havia errado, meu pai estava orgulhoso com o filho homem que seguiria a carreira dele, mas a parteira estava certa, desde o início.

E como foi a sua infância?

Stella: Fui criada em um lar onde havia muito amor. Sempre fui uma boa aluna, jogava voleibol na escola e não sofria preconceito ou bullying. Conforme fui crescendo, fui notando que eu era diferente das minhas irmãs. Não me aceitava naquele corpinho de rapaz, não me aceitava fisicamente, e eu não podia falar isso em casa com uma família conservadora. Na escola, meus amigos eram todos homossexuais e conversava sobre isso com eles.

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Stella Rocha – crédito: acervo pessoal

E como ocorreu a saída do armário?

Stella: A bomba explodiu quando eu participei do Miss Universo Gay na minha cidade. Teve esse concurso e eu representei o Brasil e ganhei; tinha 14 anos. A partir daí, a minha família descobriu e foi muita confusão. Eles estavam preocupados, na verdade, sobre o que os vizinhos iam dizer: ‘O filho do delegado é viado’ – essa mentalidade machista que o Brasil tem. Mas eu tive sorte, porque quando a minha família descobriu, eles não me expulsaram de casa, mas me fecharam de tudo. Não podia ver meus amigos, porque tudo veio à tona. Tudo foi descoberto… que os meus amigos eram homossexuais, as minhas namoradas eram lésbicas. Mas tive uma infância muito boa, tinha tudo, nunca me faltou nada. Fico feliz que a minha família me aceitou do jeito que eu sou, mesmo não conhecendo o assunto (transexualidade), eles se informaram, fizeram pesquisas, foram compreendendo aos poucos.

E como foi essa descoberta da transexualidade?

Stella: Na verdade, eles tiveram dois choques [ao mesmo tempo]: quando eu disse que gostava do sexo masculino, ocorreu aquela coisa ‘ah então você é gay!’, e eu disse: ‘Não, eu quero ser mulher, eu não me aceito no corpo que eu tenho’. Mas graças a Deus, eles entenderam muito bem e ainda bem que o meu irmão caçula nasceu, porque hoje em dia ele é policial, realizando o sonho do meu pai de ter um filho na polícia.

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Stella Rocha – crédito: acervo pessoal

Antes de viver na França, você morou na Guiana Francesa, como aconteceu isso?

Stella: Eu sempre amei a língua francesa, mas nunca imaginei que um dia fosse morar aqui na França. Após esse concurso, que eu ganhei do Miss Universo em Belém, teve aquela confusão toda; a bomba explodiu, e nesse período, o meu pai além de delegado, tinha também uma empresa de segurança, e ele recebeu uma proposta para se instalar durante dois anos na Guiana Francesa, que é uma colônia francesa que tem na Amazônia. Ele aceitou, até porque estava aquele clima pesado e fomos para lá. Minhas irmãs logo arrumaram marido e já foram embora, e eu, meus pais e meu irmão menor ficamos. Depois o contrato dele terminou e ele voltou pra Belém com a minha mãe e irmão, eu não queria voltar. Eu queria viajar para a França, Paris, mas lá na Guiana eu já comecei a estudar o francês, aí terminei os meus estudos lá.

E como surgiu a chance de você ir para a França?

Stella: Aos 16 anos, eu já não aguentava mais, queria ir pra França. Minhas irmãs já viviam aqui há tempos, mas eu não podia ir por causa da idade. Aos 18, tirei meu passaporte e finalmente pude ir – cheguei em maio de 1993, era primavera. O início foi um pouco difícil, como sempre é com todos os estrangeiros quando chegam aqui. Embora minhas irmãs já morassem aqui e me deram muita assistência, eu já falava francês, e isso me ajudou muito. Quando a gente deixa o nosso país para viver em outro, temos que dominar o idioma. Primeiro fui para Toulon, no sul da França, e depois para Paris, em busca dos meus sonhos – ser atriz. O começo foi complicado em termos de estabilidade, estava na casa da minha irmã, mas foi um período de muito aprendizado, eu queria trabalhar, fazer a minha vida. Me inscrevi em um curso para aprimorar meu francês e entrei para a universidade para estudar dramaturgia, eu queria seguir a carreira artística.

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Stella Rocha – crédito: acervo pessoal

Qual foi a maior motivação para deixar o Brasil?

Stella: Eu quis sair do Brasil para ter a minha liberdade, essa foi a minha grande motivação. Eu queria ser a dona da minha vida, porque eu sei que na França: Liberdade, Igualdade e Fraternidade (lema da Revolução Francesa), são três palavras muito importantes. Meu sonho era morar na França e ter essa liberdade, porque pra mim a França é um país gay, e eu tinha certeza que eu ia me dar bem, que seria tudo legal, que não ia ter preconceito, esse tipo de coisa que no Brasil infelizmente acontece muito. O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo, mas também é o que mais consome, tem essas duas coisas contraditórias, mas que é uma grande realidade, então eu deixei o Brasil para ter a minha liberdade.

E foi difícil o início?

Stella: Quando eu cheguei aqui, eu disse que ia trabalhar no que desse, nunca tinha trabalhado na minha vida, não tinha necessidade e eu fui trabalhar. Vou contar algo que nunca contei pra ninguém: o meu primeiro trabalho aqui foi como pedreiro, mesmo toda hormonizada, porque eu comecei a tomar hormônio ainda na Guiana Francesa. Já cheguei aqui na França com um peitinho, toda menininha, 18 anos, cabelo no ombro, uma garota. Então, meu primeiro trabalho foi na construção civil, em um prédio que estava sendo construído. Depois eu trabalhei em restaurantes, lavando pratos, faxineira. Foi complicado, mas tudo isso eu fiz, realmente, para ter o meu próprio dinheiro e não depender das minhas irmãs e, também, para eu poder pagar a minha faculdade, os cursos que eu fiz e que eram caros, então eu tinha que trabalhar para pagá-los. A prostituição veio também, não vou negar, não vou mentir, não vou cuspir no prato que comi, mas foi algo passageiro, e somente para arrecadar dinheiro para pagar essas formações e cursos e deu tudo certo.

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Stella Rocha – crédito: acervo pessoal

Você chegou a sofrer preconceito na França?

Stella: Eu sempre fui uma pessoa muito discreta, então já hormonizada aqui França, toda feminina, não tive muitos problemas com preconceito. Claro que a gente encontra esses babacas na rua que te chamam de ‘monsieur’ ao invés de ‘madame’, mas isso pra mim passava longe. Nunca dei bola pra esse tipo de pessoa.

Você inclusive participou de um documentário brasileiro muito interessante que mostrava a rotina das mulheres trans em Paris…

Stella: Sim, O Voo da Beleza. Esse documentário mostra muito bem uma realidade que temos aqui na França. No período que fiz esse documentário, eu trabalhava como diretora artística de uma casa de shows, veio várias artistas do Brasil para se apresentar aqui como a Marcinha do Corinto, Dimmy Kieer, Silvetty Montilla, era uma casa muito badalada. Nessa época, eu morava em um prédio que se chamava ‘Balança mas não cai’, só morava transexuais. Tinha trans que trabalhavam na rua etc, tinha de tudo nesse prédio. Foi nesse período que eu fiz o documentário. As meninas contando as histórias que acontecia com os clientes, as histórias pessoais delas, foi muito interessante.

É muito comum recorrer a procedimentos estéticos, você fez muitos?

Stella: Quando eu cheguei aqui na França, após as minhas condições terem melhorado, fiz os seios em 1995, botei as próteses mamárias. Eu não tenho muitas cirurgias, tive sorte, a mãe natureza foi uma mãe para mim. As únicas cirurgias que eu tenho são dos seios e fiz uma feminização do rosto. Eu sou 100% francesa em tudo (risos).

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Stella Rocha – crédito: acervo pessoal

Para muitas mulheres trans a redesignação sexual é algo fundamental…

Stella: No passado, pensei em fazer a redesignação sexual, mas percebi que estou realizada como sou. A transexualidade está na nossa mente e não no sexo, mas sei que para muitas isso é um sofrimento e para outras menos. Eu estou feliz com o meu corpo e minha alma, e isso é o mais importante para mim.

Sua família apoiou a sua carreira?

Stella: Meus pais vieram aqui pra França em 2009, quando eu estava no teatro em Paris, no Palais Royal, que é um teatro tombado pelo patrimônio histórico da Unesco, e nós ficamos em cartaz durante um ano. Eles vieram aqui me ver, então isso foi um sonho pra mim, porque, no passado, minha família tinha aquele conceito ‘ah vai virar travesti, vai virar puta’, aqueles rótulos que nos tacham. Então, quando eles vieram aqui me ver no teatro era algo como: ‘Tá vendo? Tô aqui, neste palco, neste teatro que tem uma história incrível, e estou aqui trabalhando com arte e não aquela mentalidade que vocês pensaram que eu ia virar’. Foi um tapa sem mão que eu quis dar, entende? Graças a Deus foram muitos sonhos realizados.

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Stella Rocha – crédito: reprodução

E como foi a sua estreia como atriz?

Stella: O primeiro filme que eu fiz foi em 2002, ‘L’ ex-femme de ma vie’. Ele foi importante na minha carreira, pois durante as filmagens conheci um diretor de uma agência de casting (elenco) e a partir dali, tudo foi acontecendo. Atuei em vários filmes, como ‘Depressão entre Amigos’ que já passou no Brasil. Fiz teatro, televisão e participei até do Miss Internacional Queen 2010 na Tailândia, onde ganhei o prêmio de Miss Simpatia. No ano passado, venci como ‘melhor atriz transexual’ da Europa na premiação ‘Melhor do Brasil na Europa 2020’.

E como surgiu a polêmica participação no filme “Love” (2015)?

Stella: Em 2015, teve o teste para fazer o filme “Love”, eu não sabia qual era a personagem quando fui para o casting. O diretor, que é argentino (Gaspar Noé), quando cheguei lá, estava filmando uma cena no interior de um sexshop, e eu entrei – não estava sabendo que estava acontecendo uma filmagem ali, uma das cenas do filme onde o casal protagonista está olhando as fitas. Fiquei ali esperando, aí demorou um pouco e ele veio me chamar. Ele notou que eu tinha um sotaque, falei que era do Brasil e ele comentou que era argentino, e tivemos uma sintonia muito bacana. Aí ele disse pra secretaria dele encerrar o casting, pois já havia achado a pessoa que ele queria. Eu fiquei super feliz na hora. No dia da filmagem quando me explicaram a cena, eu fiquei nervosa, eu nunca tinha feito nu na minha vida, mas ele foi super bacana e atencioso. Nessa nossa cena de nudez, nós estávamos em um quarto de hotel que foi alugado para fazer a filmagem, eram quase 30 pessoas dentro de um quarto de aproximadamente 25m2, e pra fazer a cena nua. Quando nós chegamos no hotel, primeiro nós conversamos, ele deixou um clima bem legal entre mim e os atores. Tinha um frigobar no quarto com umas 10 garrafas de vinho e começamos a beber, a beber… e quando ficou todo mundo bem ‘alto’, ele disse ‘bom, agora vamos rodar’. O ator disse que o que ele pudesse fazer para me ajudar ele faria, lindo ele. Então, essa cena foi muito engraçada, porque depois que a gente estava meio bêbados, né, aí a cena rolou legal e tudo em 3D. Nossa! Foi muito divertida essa cena. Nós somos amigos até hoje, a gente se fala, e lembra da cena… e sem saber da repercussão que ia ter depois.

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Stella Rocha em Lado Selvagem (2004) – crédito: reprodução

E como você foi participar do Festival de Cannes?

Stella: Eu recebi uma ligação da produção do filme dizendo que ia me mandar a passagem e o hotel pra Cannes e, eu disse ‘como assim?’, e ela me respondeu que o filme havia sido selecionado para o Festival de Cannes. Era outro sonho meu – pisar naquele tapete vermelho, foi um sonho realizado. Quando cheguei no hotel, no quarto, havia um vestido belíssimo de Jean-Paul Gaultier, que estava lá pra mim, todo de renda, transparente, eram três peças na realidade, um vestido de renda por cima, outro cor da pele por baixo e umas joias por cima. Eu fiquei muito feliz, à noite estava marcado um coquetel para nós irmos antes de ir para o palácio. No coquetel, o diretor me disse que eu estava muito coberta, muito vestida e perguntou se não poderia deixar o vestido mais sexy, e eu retirei a parte cor da pele; só que nesse coquetel as luzes eram fraquinhas, não dava pra ver bem. Quando saímos do hotel, em direção ao festival, um curto caminho a pé, havia vários jornalistas ao nosso redor entrevistando, fotógrafos e eu notei que quanto mais eu me aproximava do tapete vermelho, mais eu parecia estar pelada. Pensei: ‘meu Deus, mas já tô aqui, vamos lá, cabeça erguida e não deita’. Foi o que aconteceu e, quando chegamos no red carpet, foi aquele impacto né, porque eu estava praticamente nua por baixo. Foi o que mais chamou atenção neste dia do festival. Aconteceu por acaso, um olhar que o diretor teve. Falaram mais do meu vestido do que do filme. No dia seguinte, foi aquele ‘auê’ de jornalistas do mundo inteiro com matérias ao meu respeito, e foi muito legal e gratificante. Uma das coisas mais incríveis que aconteceram na minha vida.

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Stella Rocha – crédito: reprodução

E como foi o pós-Cannes?

Stella: Trabalhei bastante. Fui chamada por um diretor brasileiro e fui para o Brasil para fazer o filme ‘Calvário’, sobre discriminações sociais no país. Esse filme deve sair em breve, e foi devido a essa aparição no Festival de Cannes.

O cinema costuma mostrar a transexual sempre como profissional do sexo, isso não te incomoda?

Stella: A França é muito rica no que se refere a cinema, história… Na verdade, todas as vezes que tinha uma personagem trans em um filme, obviamente eles já colocavam como prostituta. Tem prostituição? Então coloca a gente. Eu sempre batalhei para mudar isso, de tirar esse rótulo da gente. Por que toda vez que pensam em nós, pensam como prostituta de rua? Por que não pensar em nós como uma professora, advogada, dançarina etc? Eu sempre lutei para tirar esse estigma do cinema francês com a gente, e consegui no filme da diretora Josiane Balasko. Eu iria fazer o papel de uma prostituta, aí eu conversei com ela: ‘Por que vocês pensam em nós nesse lado prostituição? Por que não uma mulher que limpa a rua, a casa?’ E ela respondeu dizendo que eu tinha razão e trocou a minha personagem. Isso pra mim foi muito gratificante, desde então, eu batalho sempre para tirar esse rótulo clichê, nem todas as vezes a guerra é ganha, mas o que eu tento fazer é tirar isso, esse estigma de ator/atriz trans de prostituição.

Você se considera uma pioneira no cinema francês como atriz trans?

Stella: Eu fui uma das primeiras trans a trabalhar no cinema francês, porque na minha época não existia esse espaço de trabalho no cinema; digo, a comunidade trans não estava indo para esta direção. Eu fui a primeira a começar a estudar teatro para poder atuar em cinema e televisão. Inclusive fui diretora de casting para encontrar as figurantes trans para o filme ‘Tiresia’ (2003). Eu tinha um papel nesse filme também, e como eles não conheciam outras transexuais, me escalaram como diretora de casting para pôr as meninas no filme, e eu coloquei todas as minhas amigas trans. A partir daí, as meninas começaram a ter interesse em fazer cinema e, ao mesmo tempo, o cinema começou a dar oportunidades para nós transexuais.

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Stella Rocha – crédito: reprodução

Planos de um dia viver no Brasil?

Stella: Apesar de ter cidadania francesa, meu coração é brasileiro, mas a maior parte da minha vida foi aqui na França. Amo o Brasil, mas prefiro continuar vivendo aqui. O país precisa evoluir mais, a mentalidade do povo brasileiro ainda é muito arcaica e machista. É um absurdo o Brasil estar no ranking mundial de assassinatos contra transexuais. É o país que mais mata e o que mais consome transexuais, por isso vivo aqui, para ter a minha liberdade. Eu espero que a nossa comunidade (trans), que é a menor que existe, possa viver livremente como qualquer pessoa, afinal, nós somos iguais a todos, e que nós possamos ser felizes sendo nós mesmos.

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Stella Rocha – crédito: reprodução

Se considera uma mulher realizada?

Stella: Eu me sinto uma pessoa realizada devido a todo meu percurso e chegar hoje ao status que eu cheguei aqui na França, de ser uma pessoa respeitada, uma pessoa bem situada na sociedade francesa.

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