Durante muitos anos, Luana Rocha (22) achou que fosse gay. Ela não sabia o que era transexualidade. Natural de Itabaiana, no norte do Espírito Santo, na adolescência, chegou a pesar 112 kg. A jovem sempre teve vontade de conhecer outros lugares, ir além da sua cidade. Aos 20 anos, deixou tudo para trás e foi morar com uma amiga também trans em Curitiba (PR), o lugar mais distante para onde já viajou.

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Luana Rocha Reprodução

Luana prefere não revelar o seu nome de batismo: “É difícil explicar isso, não faz mais parte de mim, hoje sou uma pessoa totalmente diferente, uma nova pessoa”. Na verdade, ela nem precisa, pois todos os seus documentos e até os cartões de crédito estão com o seu nome social. A jovem quebrou todos os paradigmas da moda, quando se lançou como modelo por obra do caso, e desde então, vem trilhando um caminho diante das lentes fotográficas, mesmo que alguns possam achá-la fora dos padrões de beleza do mundo fashion.

Como você se tornou modelo?

Eu comecei a modelar por meio de uma amiga minha, porque todos diziam que eu era muito bonita, diferente, e que chamava atenção com o meu cabelo. Aqui em Curitiba, tem um grupo no Facebook e essa amiga achou um fotógrafo que estava procurando mulheres morenas, negras, com cabelo crespo, independente de ser: cis, lésbica e trans. E ela me mandou o link desse grupo. Então, começaram a aparecer uns trabalhos. Fiz um, dois aí eu fui fazendo. Comecei a ser modelo de maquiador, de escolas/cursos de beleza e começou assim. Eu não sou aquela modelo expert, até porque eu não tenho aquele certificado que as modelos têm que ter (DRT – Delegacia Regional do Trabalho).

E você exerce alguma outra profissão além de modelo?

Além de trabalhar como modelo, eu também trabalho como operadora de telemarketing aqui em Curitiba, para conciliar e eu conseguir me manter. Ninguém me ajuda financeiramente, na verdade eu divido casa com dois amigos, então vou me virando.

Você fez um ensaio com o Francisco Albuquerque (pedreiro modelo), como foi essa experiência?

Eu fiz muitos trabalhos. Não foram trabalhos grandes, mas foram trabalhos pequenos mas de muito amor.  Eu fiz um trabalho com o Francisco. Foi maravilhoso. É um dos ensaios que eu fiz que foi maravilhoso. As fotos ficaram maravilhosas. O Francisco é uma pessoa maravilhosa. Quem conhece ele pessoalmente, sabe a pessoa que ele é, o carinho que ele tem com a gente.

Luana Rocha Reprodução

Sabemos que o mundo da moda é um meio bastante competitivo, já passou por alguma situação desagradável em relação as outras modelos?

Em relação à competitividade com outras modelos, eu, graças a Deus, ainda não passei por isso. O que eu mais vejo é com relação aos fotógrafos. Eles gostam muito daquelas modelos perfeitas, aquelas modelos gostosas, com corpão, peito… enfim você sabe como é.

Eu entrei em depressão. Tive crises. No mês de maio, antes de eu tirar férias, eu comecei a trabalhar de home office e isso piorou mais ainda. Eu ficava muito em casa. Não saia pra nada e depois entrei de férias. Logo no início de junho, eu tinha um ensaio para fazer, e já estava tudo certo, maquiador etc. O maquiador viu no meu Instagram que eu era uma mulher trans e desmarcou do nada, e aquilo acabou comigo. Ele falou um monte de coisas para mim, coisas absurdas, e eu não consegui dar uma resposta. Não consegui fazer nada. Eu desapareci totalmente. Eu acabei não indo nesse encontro (ensaio), aí os fotógrafos ficaram chateados comigo.

Eu estava esperando o momento para poder falar, porém na época tinha um grupo no WhatsApp de modelos e fotógrafos, e um dos profissionais que estavam nesse ensaio, estava nesse grupo. Ele começou a falar sem saber que a modelo era eu, e eu no grupo lendo tudo. Ele disse várias coisas da modelo que não compareceu. Eu sou meio estressada. Então, eu comecei a falar um monte de coisas pra eles, que acontece comigo até os dias de hoje envolvendo fotógrafos.

Eu já fiz ensaios com fotógrafos como se fosse uma troca. Eu sou a modelo dele, e em troca, ele me dá as fotos editadas do ensaio, e já teve casos em que eu fiz isso, e até hoje não recebi nenhuma foto, mas eu não ligo em relação a isso. Tem fotógrafos também que fizeram ensaios comigo, e não postaram as minhas fotos, sendo que ele havia feito vários ensaios, com várias modelos diferentes, e postou as fotos delas, e não as minhas. Não sei se é o meu perfil, se é preconceito, não sei o que é de fato. Quanto às modelos, elas são super carinhosas comigo. São modelos maravilhosas. Tem uma modelo que eu a conheci em um ensaio, que ela me inspira também, ela é uma mulher cis, chama-se Cacau. Ela é tudo pra mim e muito bonita.

Luana Rocha Reprodução

Você me contou que não faz parte do casting de uma agência, como surgem os trabalhos atualmente (período pré-pandemia)?

Eu não cheguei a ser agenciada. É mais como se fosse trabalhos com fotógrafos ou lojas que me chamam pelo Instagram, mas não fui agenciada. Já houve agências que me chamaram, porém não me passaram confiança se o que elas diziam era verdade. Eu tinha vontade de ser agenciada e tudo mais. Estava procurando até agências de modelo para isso, porém veio a pandemia e estragou tudo. Nossa, eu tô orando pra ver se eu consigo após acabar tudo isso, e voltar ao normal.

Você gostaria de ser famosa?

Não quero ser famosa. Eu só quero que as outras pessoas se inspirem em mim, que gostem de mim, que falem “nossa, eu me inspiro na Luana”. Isso já seria gratificante.

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Luana Rocha Reprodução

Quando a Luana começou a ganhar vida? Como você se descobriu uma mulher trans?

Por eu ter nascido numa cidade do interior, lá é bem “interiorzão”, mesmo no Espírito Santo. Eu não tinha muito conhecimento sobre transexualidade. Sobre esse universo LGBTQI+. Sobre o que é ser transexual, mulher transgênero, binária, não binária, travesti, gay… eu não sabia distinguir cada um. Eu me considerava gay, porém sempre me via como uma mulher.

Eu sempre quis ter filhos, família, queria ser mãe mesmo. Então, eu não sabia o que eu realmente era. Não passava pela minha cabeça. Até que um dia, vi uma novela da Globo, esqueci o nome, que abordou sobre um homem trans gay, aí que eu fui descobrir que eu era uma mulher transgênero binária. Eu sou uma mulher no corpo de um homem, digamos assim. Foi aí que eu encaixei todas as questões.

Ser a Luana que eu sou hoje é recente. Comecei após ter ido para Curitiba, ou seja faz 2 anos. Eu me vestia antes quando morava no Espírito Santo, lá pelos meus 18, 19 anos, porém não era 24 horas como sou hoje. Todos os meus documentos, cartões… tudo, estão como Luana. Eu fiz a retificação de nome.

Você se considera uma trans passável (homem/mulher trans cuja aparência ‘passa por’ pessoa cisgênero)?

No meu emprego, as pessoas descobriram depois, porque eu contei e ficaram sem acreditar. Porque eu sou super normal. Eu não acho que sou uma trans passável, mas tem gente que diz que sim. Eu não acho, pela minha voz e tudo mais, mas sempre tem aquelas pessoas que ficam procurando os erros pra ver se ela é mulher mesmo (cis) ou trans. De fato, eu não me considero uma mulher trans passável.

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Já sofreu preconceito por ser uma mulher trans?

Houve vezes em que as pessoas olharam para mim me esnobando. Por eu ser trans, mas foi uma ou duas vezes que aconteceu isso. Já ocorreu de eu procurar emprego também, a pessoa me olhar de cima a baixo. É difícil mas a gente releva. Eu tento não me importar com isso. Eu tento pensar que sou mais acima do que eles pensam que eu sou. Então, eu não deixo que façam mal a mim. Eu sou bem segura comigo mesma. Não me importo com o que os outros falam. Eu finjo que essas pessoas não existem.

E no trabalho no telemarketing  já sofreu algum tipo de preconceito?

No meu trabalho que eu me lembre nunca aconteceu isso. Foi inclusive lá que eu consegui ser Luana mesmo, que eu me descobri Luana. Porque até os meus 20 anos, eu não sabia quem eu era realmente a Luana que eu sou hoje. Eu não tinha nem nome. Eu nem sabia de um nome feminino para me dar e foi através desse emprego, que eu ‘me descobri’, e passei a ser eu mesma.

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Luana Rocha Reprodução

Sua família sempre te apoiou, em relação a ser trans?

Eu tenho duas irmãs por parte de mãe, e por parte de pai, eu tenho um irmão. O meu relacionamento com a minha família por parte de mãe é bem bacana. Todo mundo me respeita. Eu converso de boa. Minha família por parte de pai, eu já me sinto meio assim… alguns conversam comigo, me respeitam, e tudo normal.

Você não tem uma boa relação com o seu pai?

O meu pai é um caso mais difícil. Ele por ser um homem, com fama de garanhão na minha cidade, e ter uma filha trans. Eu acho que isso abalou um pouco, como posso dizer… aquela coisa de homem hétero, pegador, garanhão, sabe? Talvez isso quebre um pouco o fato de ter uma filha trans. A gente só conversa o básico. Não tem aquela afeição igual eu tenho com a minha mãe.

Seu corpo é natural, gostaria de fazer cirurgias plásticas para modificar algo ou mesmo a cirurgia de redesignação sexual? 

Eu gostaria de pôr prótese mamária, silicone né. Fazer a cirurgia de redesignação sexual, e uma lipoaspiração, porque eu já cheguei a pesar 112 kg. Eu emagreci, mas tenho excesso de pele ainda, e talvez uma harmonização facial.

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Você foi uma adolescente obesa, como conseguiu perder tanto peso? 

Quando eu tinha 18 anos mais ou menos, eu era bem gordinha, daí a minha vinda para Curitiba. Eu já tinha depressão, e nessa vinda para Curitiba acabou afetando mais ainda, porque ocorreram vários problemas com a minha amiga, que eu vim pra morar com ela. Eu passei a morar sozinha, e comecei a passar por grandes problemas. Cheguei a passar fome. Muitas coisas, quase fui morar na rua, mas não desisti. Estou aqui, continuei lutando. A depressão me fez emagrecer, apesar de ter pessoas maravilhosas na minha vida. Pessoas que eu sou grata sempre. Minhas amigas que eu fiz aqui em Curitiba são tudo para mim. Eu nunca vou deixar de agradecer o que elas fizeram por mim.

Muitas mulheres trans, por falta de oportunidades no mercado de trabalho, acabando indo para a prostituição como única saída. Diante de um cenário difícil, você já teve que apelar para o mercado do sexo?

Infelizmente eu tenho que dizer que sim. Chegou um momento na minha vida que eu não tinha para onde ir. Estava sem dinheiro, porque eu trabalhava no período do dia. Telemarketing não dá muito dinheiro, e aconteceram alguns descontos no meu salário, coisas de gastos meus mesmo (pessoais), e eu tive que apelar. Eu já estava passando fome e ia ter que morar na rua. Então, eu tive que apelar pra isso, até me estabilizar. Foi quando eu tive a oportunidade de ir para o horário da madrugada (Telemarketing), onde estou até hoje, onde eu recebo melhor pelo adicional noturno e as variáveis.

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Luana Rocha Reprodução

Durante quanto tempo você teve que viver da prostituição?

Um mês, dois meses só. Pra poder me estabilizar, porque eu estava sem saída. Minha única opção foi essa. A única opção daquele momento. Eu não tive pra onde correr. Para ser sincera, não me arrependo de nada do que eu fiz, porque tudo me trouxe uma experiência. Não a experiência com relação a parte sexual. Experiência como pessoa mesmo. Modo de enxergar as coisas, e pensar mais, refletir mais, antes de fazer qualquer coisa.

Conheço algumas mulheres trans que não cogitam fazer a cirurgia de redesignação sexual. Por que pra você é importante fazê-la?

Eu sempre quis fazer a cirurgia de redesignação sexual. Eu não gosto do meu órgão genital. Me incomoda muito. Eu já cheguei até mutilá-lo muitas vezes. É difícil. Você em um corpo que não se adequa a você, que não faz parte de você. Você querer vestir uma roupa, e não se sentir bem, confortável, com medo que algo apareça, mas a gente vai fazendo os nossos truques. A gente vai aprendendo a esconder melhor, melhorando a nossa autoestima.

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Luana Rocha – Reprodução

Em algum momento, diante das dificuldades, você pensou em largar tudo e voltar para a sua cidade natal? 

Eu larguei tudo que eu tinha no Espírito Santo para vir para Curitiba, então não tinha como voltar, porque eu iria voltar sem nada mesmo. Teria que começar tudo do zero. Eu pensei comigo, “já tô aqui, quem está na chuva é pra se molhar”. E começou a pintar as coisas. Eu comecei a procurar emprego e não achava nada, até que eu consegui esse emprego de telemarketing, e logo depois veio os trabalhos como modelo. Quando eu comecei, eu não sabia que eu tinha essa habilidade de modelar, porque não é fácil, tem pessoas que dizem que é super de boa, mas não é. Então, eu descobri (esse talento) eu tô aí até hoje, modelando.

Luana Rocha Reprodução

Você usa aplicativos de paquera, como o Scruff? Está namorando?

Para ser bem sincera, eu nunca tive um relacionamento sério. Sou solteira há 22 anos. Relacionamento é difícil. Eu tenho um perfil no Tinder,  porque eu saio muito pouco. Sou muito caseira. Prefiro um cineminha ou ficar em casa assistindo um filme, ou ir em um parque, coisas assim. Não curto muito balada e curtição desse tipo.

É muito difícil. Os homens me veem como uma mulher maravilhosa. Olham a minha foto. Dariam tudo para estar ao meu lado, aí quando eu digo que sou uma mulher trans, a situação já muda. Ele me vê como se eu fosse uma boneca inflável. Só para transar. Nunca diga nunca né, mas no meu caso, sobre mim, homem nunca chegou com interesses a mais, de querer algo sério. Só querem ter relações (sexuais).

Você diz no seu perfil no aplicativo que é uma mulher trans?

Sim. Está especificado. Só que eles olham só a foto. Não leem o perfil. Eu gosto de falar, até pra saber mais sobre a pessoa. Se tem interesses a mais. Não com desejo sexual, mas em relação a algo sério, porque eu quero isso para mim. Eu quero algo sério. Quero namorar, casar e ter filhos. Quero fazer uma vida. Eu não quero criar expectativas sem saber se a pessoa sabe sobre mim ou não, então eu sempre digo, e está no meu perfil que eu sou uma mulher transgênero binária heteterossexual. Mesmo assim, eu faço questão de dizer para saber se tem certeza mesmo que a pessoa sabe sobre mim.

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Luana Rocha Reprodução

E como foram os seus encontros pelo aplicativo?

Graças a Deus todos foram bem. Ninguém nunca me fez mal. Já tive dois encontros que eu fui conhecer a pessoa, e não tinha perguntado se ele tinha lido o meu perfil (se a pessoa sabia que eu era uma mulher trans). Logo depois, eu contei após o encontro, e aí a pessoa falou de boa e cada um seguiu para o seu lado. Graças a Deus nunca aconteceu nada comigo. Eu só acho que o Tinder é muito transfóbico. Muitas trans são bloqueadas nele, por diversos motivos. Às vezes sem motivos você é bloqueada. Eu já fui bloqueada duas vezes sem ter feito nada.

Quais são os seus sonhos?

Fazer a redesignação sexual, ter uma família e uma vida estável.

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