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“Prazer em Conhecer” tem como enfoque a sexualidade LGBT contemporânea. A recente chegada ao Brasil de novas formas de prevenção – a PrEP (Profilaxia de Pré Exposição) e a PEP (Profilaxia de Pós-Exposição), medicamentos que prometem uma maior eficácia contra a transmissão e o contágio por HIV/Aids, possibilitou um intenso exercício de práticas sexuais, trazendo novas formas de cuidado, para além do uso do preservativo. Através de um registro íntimo e observacional, o filme se despe de qualquer julgamento moral para mergulhar no cotidiano de usuários de PrEP, trazendo à tona reflexões sobre desejo, sexo e proteção.

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Prazer em Conhecer / Reprodução

O filme tem a maior parte de sua ação centrada na cidade de São Paulo, região brasileira na qual 25% da população de homens gays vivem com HIV, e que é pioneira na expansão do uso da PrEP no Brasil.

Prazer em Conhecer também investiga o uso de aplicativos para encontros, os espaços de pegação e as chamadas “festas de sexo”, práticas que compõem o novo cenário para essas formas de prevenção e de vivência da sexualidade. O documentário teve acesso privilegiado às mais diferentes visões sobre esses novos tratamentos. Tanto do ponto de vista da ciência, quanto de seus usuários. Através desses relatos nos aproximamos não só de pensamentos e opiniões sobre IST ‘s (Infecções Sexualmente Transmissíveis), desejo e as moralidades que tudo isso provoca, mas também de práticas mais libertárias de experimentação do próprio corpo e seus prazeres. O filme estreia no Festival Mix Brasil e conta com depoimentos dos médicos Vinícius Lacerda, Bruno Branquinho, João Sá e outros. Além do Mix, a obra também tem estreia prevista no canal GNT no dia 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à AIDS.

Confira a entrevista exclusiva para o GAY BLOG com a diretora do documentário Susanna Lira.

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Susanna Lira Reprodução

Como surgiu a ideia de rodar um documentário sobre PrEP?

Meu primeiro longa-metragem foi o Positivas (2009), que foi sobre mulheres com HIV. Desde que eu fiz esse filme, essa questão do HIV/AIDS no Brasil sempre foi uma coisa muito problematizada, porque eu sempre questionei muito o que era um grupo de risco. Eu entendia que grupo de risco era apenas pessoas que não se cuidavam, porque todo mundo que faz sexo estaria dentro desse grupo. Então, quando eu fiz Positivas, anos depois, o Michel Carvalho que trabalha comigo e que é roteirista, autor desse argumento, trouxe isso porque isso fazia muito parte do cotidiano dele – a questão da PrEP e da preocupação do tratamento anti HIV. Quando ele me trouxe, eu falei: “Eu acho que é hora de voltar nesse tema de novo”, e questionando de novo essa questão do que é grupo de risco. A mim, me incomoda muito essa questão do estigma sobre determinados grupos. Eu acho que Positivas teve esse papel de tirar esse estigma de determinados grupos. Acho que Prazer em Conhecer também tem esse potencial. Na verdade, esses grupos ditos de ‘risco’, são os grupos que mais se cuidam. Quem é grupo de risco? Talvez o homem hétero que não se cuide, seja o maior vetor da questão do HIV/AIDS e outras IST’s.

O doc possui uma linguagem diferenciada, os personagens dialogam de forma descontraída entre eles, como se a câmera e a equipe não estivessem ali. Como foi possível essa espontaneidade?

Sempre quando eu trato de assuntos, eu gosto de falar da experiência, do lugar de quem fala. Eu queria ouvir as pessoas nos seus cotidianos e nas suas conversas íntimas. Eu não queria ser essa voz que pergunta e ouve a resposta. Eu queria entender como é essas relações, o cuidado da saúde e como ela é tratada nesse ambiente íntimo. Eu não queria também quando aparecesse médicos, na voz de médicos tradicionais. Eu queria entender como esses médicos também se relacionavam com essa questão, e por isso todos os profissionais médicos que estão no filme, eles usam PrEP ou são propagadores dessa medicação. Para mim, era muito importante que a informação que surgisse, viessem de pessoas que realmente vivem isso na pele, e não necessariamente de especialistas no assunto. Eu acho que essa espontaneidade vem de um desejo de criar intimidade com essas pessoas, e de fazer um relato sincero sobre o assunto.

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A PrEP está se popularizando muito no país, algo que já ocorre nos Estados Unidos e no Canadá. Na sua opinião, a que se deve essa popularização da PrEP no Brasil, já que a TV não aborda esse assunto?

Eu acho que a PrEP se disseminou nos Estados Unidos e Canadá porque eu acho que lá as fontes de conhecimento são mais popularizadas e democráticas. Aqui no Brasil, as pessoas tendem a moralizar os métodos de prevenção, não só HIV/AIDS mas todas as IST ‘s. Então, a gente vive um problema de um conservadorismo que não vem de hoje, mas que hoje está bastante acentuado, que eu acho que isso realmente prejudica a disseminação desse conhecimento. Por outro lado, eu acho que a população que chegou e tem acesso a isso, dissemina com maior facilidade. Hoje, as pessoas estão buscando métodos de prevenção, e elas não estão admitindo que esse pensamento retrógrado tome conta. Eu acho que precisa ainda muito mais. Acho que precisa popularizar muito mais. Não acho ainda que esteja totalmente popularizado. Acho que para o homem jovem e de classe média, a PrEP é uma realidade. Acho que ainda nos lugares mais periféricos e mais distantes das capitais, ainda é um sonho de acesso. Filmes como este, precisam fazer com que isso apareça para que a gente possa disseminar o conhecimento e salvar vidas, não só do HIV/AIDS, mas da culpa também.

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João Sá participa do doc Prazer em Conhecer / Reprodução

O tema central é muito atual porque ele envolve diretamente o HIV/AIDS. Por que a mídia de modo geral não aborda a PrEP?

Eu acho que a mídia não trata de modo geral a questão da PrEP porque eu acho que há um preconceito em relação ao tratamento. Há uma disseminação de um pensamento que talvez a PrEP substituiria, por exemplo, o uso do preservativo, que não é real né. Acho que o filme disseca isso de uma maneira muito profunda. Acho que como tudo que envolve questões morais e questões de preconceito, a mídia também se isenta disso. Eu acho que quando você decide fazer um filme, por exemplo, sobre a PrEP, você decide tocar em um assunto que é tabu. O próprio Governo atual já se referiu às pessoas com HIV/Aids como um fardo para o orçamento. Isso mostra o quanto o pensamento retrógrado é disseminado por toda a sociedade, assim como existe o racismo estrutural, existe o machismo estrutural e existe essa intolerância também… esse preconceito da homofobia estrutural. Então assim, ela está arraigada em todos os lugares, e aí eu digo que o HIV é uma epidemia controlada, como um dos nossos personagens diz, e ela tem que ser cuidada e tratada como qualquer outra epidemia. A gente precisa falar. Eu acho que o meu papel é sempre estar nadando contra corrente de alguma maneira para falar desses assuntos, e acho que a mídia não fala por preconceito mesmo.

A PrEP evita a contaminação pelo HIV, mas não protege em relação às outras IST (Sífilis, Gonorréia etc). Isso não acaba se tornando uma via de mão dupla? O uso da PrEP não pode acarretar em um aumento nos índices de IST de modo geral?

Eu acho ótimo essa pergunta, porque acho que esse é o grande estigma ainda. Se tem uma sombra, um fantasma em torno da PrEP, é sobre evitar a contaminação pelo HIV mas não as outras IST ‘s. Eu falo que a grande mensagem do filme em relação ao tratamento em si, é que o uso da PrEP não elimina o uso do preservativo. Eu acho que isso é uma coisa muito importante de se dizer, e os personagens falam isso com muita clareza. A gente não pode prejudicar a comunicação direta que um tratamento desse possui, por uma questão de criar ali um ruído de comunicação. Então assim, a PrEP é muito importante. Ela tem um valor imenso e ela associada à camisinha é 100% eficiente né. Se você toma PrEP e usa preservativo, você jamais vai contrair alguma doença e isso precisa ser falado.

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O documentário será exibido no Festival Mix Brasil (Reprodução)

Quase todas as pessoas que deram depoimentos fazem uso da PrEP. Você acredita que existe ainda no Brasil muito preconceito contra quem toma a PrEP? E a que se deve isso?

A gente fez questão que as pessoas que falassem no filme, fossem pessoas usuárias da PrEP. Porque é muito fácil você dar uma opinião e questionar algo que você não conhece. A gente precisava que essas pessoas que conhecem o tratamento, que convivem diretamente com pessoas que usam o tratamento, falasse pra gente, mas não através de especialistas no assunto, mas pessoas que experienciam de fato a questão. Eu acho que o preconceito está aí. Ele está em todos os lugares, e o preconceito contra as pessoas que usam PrEP é obviamente claro, porque teoricamente essas pessoas teriam uma vida, uma frequência sexual maior, e com isso, elas devessem usar e por isso elas usariam a PrEP – é o contrário. Eu acho que as pessoas têm uma vida sexual plena, isso não pode ter nenhum pecado e nenhuma culpa em torno disso. Elas estão muito mais preocupadas com o parceiro, com a saúde delas, do que qualquer outra. Então, elas deveriam ser elogiadas por isso, e não o contrário. Eu acho que quem se submete a um tratamento de saúde via medicamentos, preocupados em não disseminar uma doença, uma epidemia, essas pessoas deveriam ser parabenizadas pela sociedade e não sofrer preconceito com isso. Acho que esse filme é um grito a favor dessas pessoas, que assumem para si a responsabilidade de sua saúde. Se todo mundo fosse assim, a gente não teria a disseminação de nenhuma doença. Eu acho que esse preconceito existe e ele é completamente bizarro. Acho que esse filme foi feito para desmistificar um pouco isso.

“Prazer em Conhecer” é bastante informativo, didático sobre a PrEP, isso me fez lembrar que nos anos 1990 havia muitos comerciais sobre sexo seguro, principalmente no período de Carnaval. A partir do ano 2000, essas campanhas de prevenção diminuíram drasticamente, alguns disseram que era em função dos antirretrovirais e outros associaram a PrEP. Na sua opinião, porque essas campanhas, tão comuns no passado, simplesmente desapareceram?

Eu acho que sim. O Prazer em Conhecer é um filme que tem esse caráter de informação. Ele tem esse caráter de realmente desmistificar e esclarecer coisas. Acho que as campanhas nunca se mostraram eficazes. De fato, elas traziam um certo alarmismo, no que “Quem vê cara, não vê AIDS”, enfim… elas nunca tiveram para mim um tom acertado. Por isso, eu acho que esse tipo de filme trata de uma sensibilização do tema e não fazer um alarde sobre o tema. Você vai usar PrEP porque você se ama, porque você ama seu parceiro, porque você quer ter uma vida saudável e você quer ter uma vida longa. Acho que o viés das campanhas de prevenção ao HIV/AIDS e IST’s, sempre foram muito alarmantes, moralistas e conservadoras, sempre usando culpa e medo como elemento. Eu acho que não é esse viés. A sensibilização para o uso de prevenção, ela deve vir pelo desejo de ser livre, de ser saudável, de ser um cidadão consciente, e de cuidar de quem se relaciona com você. Eu nunca vi uma companhia assim, então se esse filme servir para isso, pelo menos acho que já vai ser muita coisa.

Reprodução

Fale um pouco sobre o processo de filmagem do documentário, levou quanto tempo? Como foi a escolha dos personagens?

A produção do filme foi uma pesquisa intensa de personagens que durou três anos. Demorou esse tempo todo, porque a gente queria chegar nos personagens chave. A gente queria realmente ter acesso a intimidade das pessoas, para não falar desse assunto de uma forma professoral, de pessoas que sabiam do assunto mas nunca tinham vivido a experiência. Então, chegar nesses casais, que um é usuário e o outro não, dessas realidades, e de trazer um grupo de médicos que falassem do ponto de vista não medicamentoso, mas principalmente comportamentais a respeito disso. Então, demorou pra gente chegar nesses personagens e investir neles esse tempo também de observação e de ficar ali. É um tempo que custa, ganhar essa confiança e essa intimidade. A escolha dos personagens veio muito para quem dava acesso pra gente. A gente precisa de acesso à intimidade, e isso foi uma coisa que prevaleceu até o final.

É muito comum que documentários de temática LGBT sejam rodados por diretores também LGBT. Qual a sua relação com a comunidade LGBT?

Adorei essa pergunta. O meu primeiro filme foi sobre mulheres soropositivas. Eu frequentei durante um ano, um grupo de apoio a mulheres soropositivas, sem ser soropositiva né. Isso para mim foi uma experiência muito forte. Eu vivi ali… senti na pele de uma maneira, através das vozes daquelas mulheres, o que era viver sob esse estigma. Quando o Michel que é gay, que vive nesse universo, trouxe a questão para mim da PrEP, de novo me veio aquele sentimento, que alguns anos depois, mais de uma década depois – que o estigma em torno do HIV/AIDS ainda era muito constante. Eu senti vontade de falar de novo sobre isso. Acho que a minha formação em Direitos Humanos, sempre me coloca nesses fronts né, onde eu vejo que ali há algum tipo de minorias sendo atingida de alguma forma e assim como mulher e realizadora, obviamente estou distante dessa realidade, mas eu estou muito próxima sentimentalmente, até como escolha de discussão desses assuntos. Então, mais uma vez eu volto a esse tema, com a esperança de que todos esses preconceitos se dissipam. Eu quero viver em uma sociedade em que as pessoas, meus amigos, usuários de PrEP e soropositivos, sejam tratados com o maior respeito e com amor. Acho que esse olhar… eu queria muito que o que eu sinto por eles, fosse sentido pelo resto da sociedade. Acho que o nome disso é empatia né. Acho que você não precisa estar naquele lugar para sentir empatia por essas pessoas, e eu acho que o que eu tento exercer no meu trabalho é isso.

Qual a principal mensagem de “Prazer em Conhecer”? Além de nos fazer refletir a respeito desse tema.

A principal mensagem do Prazer em Conhecer é empatia. Não julgue. Não critique aquilo que você não conhece. Apoie toda iniciativa de consciência de responsabilidade sobre o próprio corpo. Então, qualquer cidadão que busca uma prevenção, seja ela qual for, ele está assumindo a responsabilidade em relação ao corpo dele e ao corpo de quem se relaciona com ele. Eu tenho muita empatia com isso. A gente não pode ter medo da Liberdade dos outros – Jamais. Acho que quem julga, quem moraliza esse tipo de comportamento, esse tipo de tratamento, de uma certa maneira tem um desejo de liberdade reprimido. Isso não é uma coisa barata que eu tô dizendo. Eu tô dizendo que realmente a gente precisa ter empatia pelas pessoas, da forma como elas se expressam no mundo. Tá tudo bem a maneira como você se relaciona, você só precisa se cuidar. A gente só não quer que as pessoas morram e a gente não quer que as pessoas sejam julgadas. Tá tudo bem ser livre. A gente tem que cuidar muito mais da nossa vida e se inspirar nessas pessoas que se submetem a um tratamento médico para simplesmente não se contaminar, e não contaminar o outro. Há muita beleza nisso. A beleza da consciência e de não terceirizar a responsabilidade que é da própria pessoa. Viva os usuários de PrEP e viva as pessoas que exercem a sua liberdade com responsabilidade.

Para assistir Prazer em Conhecer acesse a programação no site do Mix Brasil

Ficha Técnica
Documentário – 72 minutosProduzido por: Susanna Lira e Tito Gomes
Direção: Susanna Lira
Personagens: Vinícius Lacerda, Nicolle Mahier Batista, Léo Dutra, João Sá, Charles Pereira, Alexandre Putti, Bruno Branquinho, Pedro Campana, André Srur e Luiz Gustavo Berkhout.

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