Aos 25 anos, completados no mês passado, Bruno Senna prepara uma volta ao Brasil que não se resume a uma mudança de endereço. Alagoano, chef, cake designer, modelo e criador de conteúdo adulto gay, o influencer pretende abrir em São Paulo o Ateliê Bruno Sena, projeto no qual tenta reunir gastronomia, experiência estética e a trajetória pública que passou a construir nas redes sociais.

Morando na Irlanda e atualmente em trânsito entre os dois países, Bruno afirma que a decisão de apostar em São Paulo nasce menos de uma ruptura e mais de uma tentativa de organizar, em um mesmo projeto, partes da própria vida profissional que até aqui avançaram em campos diferentes. A confeitaria, o trabalho com imagem e o conteúdo adulto, diz ele, não são frentes incompatíveis, mas linguagens distintas de uma mesma construção.
“Voltar ao Brasil agora é uma decisão muito mais de construção do que de retorno em si. Eu não vejo como um passo para trás, mas como uma fase de consolidação do que eu venho desenvolvendo ao longo dos últimos anos”, afirma Bruno ao GAY BLOG BR.
A escolha por São Paulo tem relação direta com essa ambição de convergência. Para ele, a cidade oferece um ambiente em que gastronomia, moda, conteúdo digital e negócios convivem com maior velocidade: “São Paulo entra nessa escolha porque é um lugar onde tudo se encontra: moda, gastronomia, conteúdo, negócios e criatividade. É um ambiente que exige ritmo, mas também oferece estrutura e oportunidade para quem quer transformar ideia em projeto real.”

O Ateliê Bruno Sena ainda não teve data de abertura divulgada, mas já aparece no discurso do criador como uma tentativa de dar forma a algo que vinha sendo elaborado aos poucos. “Nesse momento, eu também começo a tirar do papel algo que venho amadurecendo há um tempo, que é o Ateliê Bruno Sena. A ideia é justamente unir essas minhas áreas de atuação: imagem, estética, gastronomia e experiência, em um espaço que tenha identidade própria, mais autoral, quase como uma extensão do que eu já venho construindo de forma fragmentada.”
A comida, no entanto, antecede o projeto empresarial. Em sua fala, Bruno associa a cozinha a uma memória de origem. Nascido em Alagoas, ele afirma que a relação com os sabores se mistura à ideia de afeto, pertencimento e recomeço.
“Alagoas aparece em mim de muitas formas. Aparece na minha relação com a comida, porque foi ali que aprendi que cozinhar também é uma forma de demonstrar afeto. Aparece no jeito como valorizo as minhas origens, mesmo tendo conhecido outros lugares e outras realidades. Também aparece na minha força para recomeçar, porque sair do interior e construir a própria vida exige coragem.”

Esse deslocamento também atravessa sua vivência como homem gay. A Irlanda, segundo Bruno, foi importante não apenas pela experiência de morar fora, mas por permitir outra relação com a própria sexualidade. Ele diz ter encontrado ali um tipo de liberdade que não conhecia da mesma forma no Brasil.
“A Irlanda me deu, acima de tudo, um tipo de liberdade que eu não tinha experimentado antes, não só no sentido de viver minha sexualidade com mais abertura, mas de entender quem eu sou sem o peso constante do julgamento”, afirma.
Para Bruno, viver em um contexto no qual ser LGBT+ aparece de maneira mais normalizada interfere diretamente no modo como uma pessoa se percebe. “Você para de viver sempre em estado de defesa. Isso não significa que não existam desafios, mas existe um espaço maior para simplesmente existir. E isso, para mim, foi muito importante no meu processo de amadurecimento.”

A relação com o corpo seguiu caminho parecido. Com 1,96 m de altura, Bruno entende sua presença física como parte de sua imagem profissional. Mas nem sempre foi assim. Durante a juventude, a altura, que mais tarde seria incorporada ao trabalho como modelo e criador de conteúdo, era motivo de desconforto.
“Durante muito tempo, eu não gostava de ser alto. Hoje as pessoas olham para os meus 1,96 m e pensam que isso sempre foi uma vantagem, mas, quando eu era mais novo, era algo que me deixava inseguro. Eu me sentia diferente dos outros, chamava atenção sem querer e, muitas vezes, tinha vergonha da minha altura.”
A virada veio com o trabalho como modelo, quando ele passou a compreender que aquilo que o fazia querer se esconder também poderia ser lido como presença, marca e ferramenta profissional: “Quando comecei a trabalhar como modelo, passei a enxergar aquilo que antes era uma insegurança como uma característica única. Entendi que o que me fazia querer me esconder era justamente o que me destacava profissionalmente.”

Nos últimos meses, Bruno entrou também no conteúdo adulto gay. A nova frente trouxe visibilidade, gravações com nomes maiores do segmento e críticas nas redes sociais. Em uma publicação relacionada ao Dia dos Namorados, um seguidor comentou: “Amigo, mas, dessa forma, realmente, fazendo conteúdo 18+, vai continuar sozinho.” O comentário resume uma cobrança recorrente dirigida a homens gays que trabalham com corpo, desejo e imagem: a ideia de que a exposição sexual pública retiraria deles a possibilidade de afeto, vínculo ou vida amorosa.
No caso de Bruno, a crítica apareceu justamente no momento em que ele tenta ampliar a própria identidade profissional, sem reduzir sua trajetória ao conteúdo adulto nem escondê-lo como se fosse incompatível com outros projetos.
“Hoje trabalho com cozinha, imagem e conteúdo adulto, áreas que muita gente vê como distantes umas das outras. Mas, para mim, todas têm algo em comum: são formas de expressão. A cozinha conta histórias por meio dos sabores, a imagem comunica quem eu sou, e o conteúdo adulto faz parte da minha relação com o meu corpo e com a minha liberdade”, afirma.

A nova fase em São Paulo deve colocar essa convivência em teste. De um lado, o chef e cake designer que pretende abrir um negócio ligado à confeitaria. De outro, o modelo e criador adulto que cresceu nas redes e passou a lidar com comentários sobre desejo, moralidade e solidão. Entre esses lugares, Bruno tenta construir uma narrativa própria, sem apresentar a própria vida como contradição.
“Não é só sobre voltar para o Brasil. É sobre estar em um lugar onde eu consigo transformar o que eu já faço em algo mais estruturado, com direção e intenção mais clara de futuro”, conclui.
O Ateliê Bruno Sena ainda não tem data de inauguração divulgada. Enquanto prepara a nova fase em São Paulo, Bruno Senna segue articulando sua atuação entre confeitaria, imagem pública e conteúdo gay por meio do Instagram: @chefbrunosena e @brunosennaa_.
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