Iran Giusti é um nome frequente quando o assunto é empreendedorismo social voltado para LGBT+. Após passar por canais como iGay, do Portal IG, e o BuzzFeed Brasil, Giusti se dedica à Casa 1, projeto social sem fins lucrativos que acolhe pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Você é o fundador da Casa 1, um centro de cultura e acolhida voltado à população LGBT. Quais são os principais desafios que a Casa 1 tem enfrentado neste momento de pandemia e isolamento social?

Acho que, como todo o mundo, os desafios estão sendo: dinheiro e incertezas em relação à saúde. No começo da pandemia, todos os editais que tínhamos aplicado foram cancelados e todas as ações em relação ao mês do orgulho, agora em junho, que estavam começando a serem articuladas, também paralisaram. Por sorte a gente perdeu poucos doadores do nosso financiamento coletivo recorrente e até ganhamos alguns novos. As marcas entenderam um pouco o panorama geral e estão correndo para realizar ações que vão ajudar muito a gente na manutenção do projeto.

Toda essa questão que envolve dinheiro é muito complicada, porque além da manutenção de três espaços físicos: centro de acolhida, centro cultural (o Galpão Casa 1) e clínica social, nós temos 21 profissionais contratados e contratadas, além das demandas que aumentaram como por exemplo a de cestas básicas, que agora no mês de junho somaram 887 (sendo 30% delas para pessoas LGBT).

Agora, em relação às incertezas em relação a saúde é algo que infelizmente não avançamos muito: tanto governo municipal quanto estadual entraram no embalo do governo federal e mesmo as mortes na cidade e no estado crescendo estamos passando pela reabertura. Logo no começo da pandemia, suspendemos novas acolhidas e os 12 moradores e moradoras que permaneceram entraram em isolamento total. Hoje ficaram quatro (os outros acabaram indo para casa de amigos ou parentes ou conseguiram alugar quartos). Está sendo muito difícil pra gente este lugar: por um lado tem jovens precisando de acolhida, e por outro, não podemos também colocar em risco a saúde de quem já é acompanhado pelo projeto. Os casos mais graves de pedido de acolhida nós debatemos individualmente e fazemos os encaminhamento possíveis.

Nesse ponto é importante ressaltar que não tem acolhida, para atendimento e suporte disponibilizamos profissionais de saúde mental para escuta, advogados para ajudar na solicitação do auxílio emergencial e articulamos com outros centros de acolhida pública para tentarmos vagas.

Você assistiu à 1ª Parada Virtual do Orgulho LGBT+ de São Paulo? E como você enxerga a escolha dos apresentadores?

Confesso que vi bem pouco e não tem a ver com ter sido a Parada, mas porque eu realmente quase não consumo vídeos e lives normalmente e agora com esse processo de isolamento esses formatos aumentaram inclusive na programação da Casa 1 então estou um pouco sobrecarregado.

Em relação ao que vi e depois li nas críticas, entendi completamente tanto o que motivou a Associação da Parada a fazer, quanto às críticas que sofreram.

Primeiro temos que levar em conta que foi um momento peculiar e foi preciso uma adaptação muito rápida para o evento, portanto me pareceu bastante lógico buscar pessoas que já tinham contato com o formato de produção de vídeo e inclusive estrutura para realização, isso somado às práticas do mercado publicitário (que patrocinaram o evento) que busca sempre nomes que tenham grandes números e culminou no elenco de apresentadores e apresentadoras escolhidas.

Isso não quer dizer que não poderiam ter sido selecionadas pessoas mais plurais, em especial em faixa etária ou ainda um esforço maior em trazer pelo menos relatos das pessoas que compõem o movimento na cidade e no estado. Se perderiam em qualidade técnica da transmissão ganhariam em conteúdo.

É preciso também um cuidado para não desqualificar o trabalho da galera mais jovem que estava ali. Eles e elas produzem muito conteúdo e ajudam a manter os debates da comunidade rolando constantemente, às vezes de uma forma que eu, Iran, não faria e não faço. Mas levando em conta o tanto de coisa que eles e elas produzem, acho completamente ok erros no caminho.

No mais, as apresentações musicais foram bem executadas, mas também muito focada em nomes maiores algo que é difícil de aceitar tendo em vista que o festival Marsha, por exemplo, que fez a edição “Entra na Sala” no começo de abril e trouxe online uma dezena de artistas trans e travestis com uma qualidade técnica de produção muito grande sem ninguém ter que sair de casa.

No ano passado, você escreveu um post no Facebook em que criticou a gestão da Parada de São Paulo, inclusive houve na época denúncias de corrupção noticiado por algumas mídias. Houve mudanças após essas polêmicas? Você tentou contato com eles este ano? 

Houve por parte de algumas pessoas que compõem a Associação da Parada questionamentos no próprio post, mas que não tinham nem título de esclarecimento e nem busca de diálogo; então, não teve do meu lado nenhuma resposta. Além disso, tomamos conhecimento de que algumas pessoas procuram sistematicamente encontrar alguma coisa para “processar a Casa 1”, porém nada disso foi formalizado ou chegou a nós diretamente.

Já um outro núcleo de pessoas dialoga bastante com a gente e, inclusive, pediram que mandássemos um vídeo explicando sobre a Casa 1 para passar durante o evento, mas não tivemos tempo hábil de produzir. Esse, inclusive, é um ponto importante, assim como a Casa 1 não é o Iran Giusti, a Associação da Parada não é uma única pessoa e sim um coletivo e lá dentro tem todos os tipos de articulações.

Baseado nesta crítica do post que você fez no ano passado, deu a entender que a Parada LGBT de São Paulo mudou de um ativismo para um negócio com interesses próprios. Seria isso?

Se não me engano, o que critiquei no post foram dois pontos: a falta de conteúdo político e a falta de transparência na gestão dos recursos. Não sei te dizer se a Parada se tornou um negócio de interesse próprios como você diz porque não temos acesso aos dados e valores arrecadados com patrocínio.

A justificativa da Associação é que as pessoas não entenderiam em especial porque eles arrecadam muito dinheiro durante a parada e mantém a organização o ano todo. Pra mim essa é uma lógica muito fácil de entender, a Casa 1 faz isso, falamos o tempo todo que junho é o nosso Natal que é quando arrecadamos o dinheiro que sustenta a gente no resto do ano.

Para além disso, eu realmente não acredito que os contratos com as marcas e empresas sejam tão milionários como as pessoas pensam exatamente porque a gente dialoga muito com essas empresas. Mas algum dinheiro tem e a pergunta é para onde ele vai, levando em conta que a maioria dos trios, assim como toda estrutura é financiada pelo município, assim como a sede da associação é cedida pelo poder público e as pessoas que trabalham no evento são todas voluntárias.

Minhas críticas em relação ao dinheiro se dá porque eu sei o quanto é difícil a conta fechar, porque sei que no imaginário popular ONG é rica só porque recebeu grana de empresas ou, então, tem um contrato com o estado. E não é assim, tanto que fazemos questão de prestar contas o tempo todo.

Ainda sobre esse assunto, você acredita que a Parada é um evento político organizado por uma ONG?

A partir do momento que a Parada precisou contar com o apoio estrutural da Prefeitura, ela precisou ser muito polida nas pautas políticas e isso é um problema. Eu nunca tive problemas com a “Parada ser Micareta”, pra mim tem que ser muito micareta e muito carnavalesca, pra cima, animada, essa é nossa forma de viver: mesmo passando muito perrengue, a gente está ali no fervo. Mas acredito que dá pra ter tudo, o coletivo Revolta da Lâmpada é prova disso com o mote “Fervo também é Luta”. A gente precisa de faixas, a gente precisa de performances críticas, a gente precisa ter temas efetivos e não genéricos como “Democracia”. O que no fim das contas democracia? Uma comunidade que depende do judiciário para ter algum direito pode se dizer vivendo em um estado democrático e tem que usar seu principal evento para defender um sistema político que ignora nossas demandas sistematicamente?

Por que, na sua opinião, o trio elétrico da Parada LGBT era mal utilizado?

Eu, Iran, não gosto de trio, já fui convidado para ir nos da Parada, em trios no carnaval etc, mas sempre declinei porque eu acho que o trio estratifica o evento que acontece em um país que é tão estratificado, o mesmo vale para os camarotes. Só estou nesses lugares quando preciso estar por questão de trabalho quando, por exemplo, tivemos um trio em uma manifestação pelo Parque do Bixiga em 2018 ou então em uma Parada em que subi para fazer uma matéria para o iGay, veículo que trabalhava como repórter e nesse caso inclusive subi. Fiz o que precisava fazer e desci, passei coisa de 10 minutos lá em cima.

Agora, levando em conta a dimensão e as necessidade técnicas da parada entendo o trio como uma necessidade, então usamos ele para fins políticos e performáticos.

Na configuração atual, o primeiro trio vem com os políticos e a apresentadora, que nos últimos anos foi a Tchaka, e realmente conta com falas mais políticas, no entanto essa prática tem que ser em todos os carros. A proibição de faixas e cartazes em cima do carro é outro problema: se for bem organizado com o conteúdo previamente aprovado, por que não ter? Entendo que não dá pra ser aberto, afinal a gente tem visto muitos casos como o Sérgio Camargo, homem negro que está a frente de uma instituição que deveria zelar pelos direitos da população negra tendo atitudes extremamente racistas, algo que poderia acontecer com as faixas, mas com diálogo e regras não teria problema nenhum.

Pra finalizar, os trios não podem e nem devem ser camarotes, com pessoas dando tchauzinho lá de cima: tem muita arte sendo feita, tem muitos e muitas performers boas na cidade, existem muitas formas de se mandar mensagens e dizer o que precisamos por meio da arte.

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Que dia lindo 📸 @carlacarniel

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No ano passado, você entrou em contato com a Parada no intuito de ter um trio da Casa 1, com o objetivo de levar cultura LGBT (performances, teatro etc) e você alegou que te pediram 1 milhão de reais. Quem te pediu essa quantia surreal? E como você reagiu sendo a Casa 1 um espaço que depende de doações e seria uma forma de divulgar o trabalho social que você realiza para a comunidade LGBT vítima de preconceito?

Quem passou o valor foi o contato indicado pelas negociações de trio na Parada e sinceramente não me lembro o nome e acho que também não cabe dizer tendo em vista que ele representava uma posição da Parada.

Ao meu ver tiveram duas questões que pesaram nesse valor, o primeiro é a justificativa de que toda organização quer ter um trio na parada e isso seria inviável, por isso, inclusive, os carros têm temas (homens trans, mulheres trans, pessoas vivendo com o HIV) e eles concentram pessoas de diversas organizações. Quando eu era mais novo e a prefeitura não cedia os carros, quem financiava eram as baladas e cada uma tinha o seu trio. Para evitar esse inchaço e desgastes do tipo “mas fulano tem trio e eu não” colocaram esse piso de valor altíssimo para inviabilizar todo mundo.

Particularmente acho que nenhuma das duas configurações (prefeitura ou baladas) me parece acertada, porque restringem completamente as possibilidades do evento. Primeiro acho que deveriam ser estimuladas a criação de blocos como acontecem nas paradas militares ou nos desfiles de escola de samba: todo mundo representando suas lutas, seus posicionamentos, escancarando a diversidade e pluralidade do movimento e os trios viriam como abre alas com atrações alinhadas com esses blocos.

Um outro ponto é esse imaginário que a Casa 1 é um projeto rico por conta das muitas parcerias que temos e, sim, hoje temos uma condição financeira muito mais segura do que da maioria de outros projetos sociais, mas estamos muito longe de sermos ricos e nosso fundo de caixa, por exemplo, sustenta o projeto com três meses de frente, ou seja, se não entrar nenhum projeto com marcas e se pararmos de receber doações, ficamos abertos por apenas três meses.

A partir desse imaginário, a Associação da Parada colocou o valor padrão. Explicamos que tínhamos sim patrocinadores (a ideia era reunir vários e também fazer um financiamento coletivo para fazer o trio) e eles falaram que só seria possível se esse patrocinador fechasse diretamente com eles, algo que negamos. A ideia do trio era, além de tentar fazer algo diferente na Parada, bem mais político e artístico, também remunerar todos que estivessem envolvido no trio da Casa 1, porque mesmo sendo um evento político e de entretenimento, continua sendo trabalho.

A parada do Orgulho LGBT virtual desse ano foi representativa na sua opinião?

O debate sobre representatividade tem merecidamente recebido espaço que precisa, mas precisamos tomar cuidado em cravar determinadas coisas: por exemplo, faltou nomes históricos e isso é um problema muito grande, mas não podemos desmerecer o fato de que tivemos um time de apresentadores com mulheres lésbicas, pessoas negras e trans, todos historicamente invisibilizados dentro do movimento.

Além disso tivemos a Pepita e a Liniker se apresentando, artistas trans de muito destaque, assim como uma mulher lésbica e negra, a Ellen Oléria abrindo o evento.

Posto isso, acho que é mais correto dizer que houve menos representatividade do que era possível ter.

E por falar em representatividade, você posou nu para o projeto fotográfico Chicos que retrata justamente a pluralidade dos corpos. Como foi essa experiência de quebrar os padrões estéticos que estamos acostumados a ver em ensaios fotográficos de modo geral (corpo definido/sarado e sem pelos)?

Chicos não foi o primeiro projeto de nu que eu posei, na verdade, o primeirão foi pré essa onda e que eu criei, chamado Nenhuma Nudez Será Castigada, lá em 2013, que tinha o propósito de explorar corpos mais plurais. E foi bem lindo. Além do Chicos também fiz um ensaio com o Fábio da Motta que, assim como os Chicos, tem um número muito maior de chamados modelos de corpo padrão.

A grande questão dessa padronização nesses projetos se dá primeiro pela pressão e padronização do mundo: a gente não pode só cobrar do Fábio e do Rodrigo do Chicos e do Fabio da Motta que eles só fotografam padrões, se a grande maioria dos modelos que se sentem confortáveis com a nudez tem esse corpo padrão. Me lembro muito que quando conversei com o Fabio da Motta e ele ficou muito animado quando eu disse que não teria problemas ele publicar a minha foto no Instagram porque ele faz ensaios com pessoas gordas mas elas não autorizam a publicação.

Eu particularmente não acho que quebrei nada e fiz um post bem grande no meu Medium sobre essa questão da nudez, que pra mim especificamente ajudou enquanto exercício de entender meu próprio corpo e me sentir confortável com ele, porém esse é um debate super complexo e que envolve muitas camadas que o movimento body positive tem explorado com muita força (e, algumas vezes, infelizmente tem gerado uma pressão pelo lado oposto).

Quem é a figura LGBT mais representativa no país atualmente?

Acho que tem muitos homens gays fazendo trabalhos importantíssimos, no entanto sinto que no campo do combate a LGBTfobia como um todo e no campo da representação são as pessoas trans que tem representado e cito aqui três dentre tantas: Jaqueline Gomes de Jesus, Erika Hilton e Erica Malunguinho.

As pessoas de SP que desejam conhecer o trabalho realizado pela Casa 1 podem visitá-la? E em relação ao voluntariado, como devem proceder?

A princípio, a reabertura do Galpão Casa 1 e da Clínica Social Casa 1, os dois espaços de acesso ao público acontecem parcialmente em agosto, caso tenhamos um avanço em relação ao controle do coronavírus em São Paulo. Até lá dá pra acompanhar o trabalho da Casa 1 pelas nossas redes: Facebook, Instagram, Twitter, Spotify, Youtube e Blog. No nosso site temos o cadastro de voluntários e voluntárias que podem atuar a partir da formação de voluntariado que deve acontecer a partir de setembro.

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  1. […] “Eu realmente não acredito que os contratos com as marcas e empresas sejam tão milionários como as pessoas pensam exatamente porque a gente dialoga muito com essas empresas. Mas algum dinheiro tem e a pergunta é para onde ele vai, levando em conta que a maioria dos trios, assim como toda estrutura é financiada pelo município, assim como a sede da associação é cedida pelo poder público e as pessoas que trabalham no evento são todas voluntárias”, disse Iran Giusti ao GAYBLOGBR. […]