O nome Fernando Oliveira pode soar desconhecido para muitos, isto porque a maioria o conhece apenas pelo apelido carinhoso Fefito. O jornalista de celebridades possui uma extensa carreira, com passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S.Paulo, IG, R7 e vários outros canais de comunicação. 

GAY BLOG BR by SCRUFF

Atualmente, apresenta o programa Fofoca Aí na TV Gazeta, mas revela sentir saudades do  Estação Plural, primeiro programa na TV dedicado exclusivamente para a comunidade LGBT. Neste bate papo realizado por telefone, Fefito não foge a nenhum assunto e demonstra propriedade para falar sobre os mais diversos temas, desde pandemia, militância LGBT, política, redes sociais e colegas de profissão.

Fefito
Foto: reprodução

1- Como você está lidando com o isolamento social?

Estou lidando com o isolamento social de uma maneira bem intensa, eu tenho trabalhado, então eu tenho que ir pra TV durante esse período. O programa tá recém estreado o Fofoca Aí na TV Gazeta, então não tinha material em melhores momentos e estava recém estreado e não podia sair do ar, então a gente tá fazendo o programa do jeito que pode, com um esforço mínimo, saio de casa e vou a pé para TV que é aqui perto, não aperto o botão do elevador, já tem um ascensorista me esperando, pego o elevador sozinho, vejo tudo sendo higienizado na minha frente, sento na cadeira, faço o programa e volto pra casa. 

Então assim, estou fazendo as coisas de um jeito bem cuidadoso como posso, tenho ficado em casa todo o resto do tempo, acho muita responsabilidade principalmente pra nós que não moramos sozinhos como a gente tem medo de trazer o vírus para dentro de casa, então, tomo todo o cuidado do mundo, cumprindo a risca todas as outras determinações. Único momento que eu saio de casa é pra ir trabalhar, volto e já tomo banho, me livro da roupa, há muito tempo tem sido assim, emocionalmente muito difícil ver o quanto tem muita gente sofrendo porque muita gente reclama de tédio, mas tem gente sofrendo com fome por causa desse isolamento, com frio aqui em SP, então é muito complicado ver isso. 

Já colaborei com alguns projetos, tento fazer o máximo que posso, também to passando por momentos difíceis claro, porque fico muito preocupado com a minha família que tá no Recife, no interior de Pernambuco, não estou vendo eles, tô morrendo de saudade mas acho que esses sacrifícios são todos muito necessários e é muito importante a gente pensar também na sociedade que marginaliza LGBTs nessa hora, tem muita gente na rua, tem muito LGBT na rua, tem muito LGBT expulso de casa, tem muita travesti na rua, e tem muita gente precisando de ajuda e de acolhimento e de informação né, porque a gente é privilegiado por ter informação mas nem todo mundo tem esse tipo de informação.

Estou tentando fazer o que posso ajudando com distribuição de máscaras, outro dia colaborei com um projeto de distribuição de marmitas, como tô indo pra TV eu não posso eu mesmo ir distribuir porque não posso ficar circulando por vários ambientes mas to tentando ajudar do jeito que eu posso, de verdade, e mesmo no meu programa fazendo campanha para as pessoas ficarem em casa, já até criei um quadro chamado “Fique em Casa” para mostrar o que os famosos tem feito para ficar em casa e estimulando o isolamento social do jeito que posso de verdade.

2- Você teve uma passagem marcante e também turbulenta na Jovem Pan. Por que você foi dispensado do Morning Show? Foi devido a um desentendimento com os integrantes do Pânico? (fizeram uma sátira colocando um ator imitando o jornalista)?

Eu não sei a razão da minha dispensa de verdade, porque eu saí de lá, já era algo que eu achava que ia acontecer porque eu estava nadando contra a maré há muito tempo. Eu era um gay progressista numa rádio de direita que tem gente que acha que racismo é mimimi e que transfobia e lgbtfobia não existe. Especificamente transfobia porque parecia uma obsessão enquanto tema pra eles, então eu já sabia que eu era uma voz dissonante ali dentro porque eu nadava contra a correnteza. 

Tenho a impressão que sim, o fato de eu não ter aturado uma imitação que eu considerei homofóbica e bem antiquada do Pânico, deve ter colaborado pra isso, eles não engoliram bem isso mas eu também não engoli bem ser chamado de ‘pederasta’ por gente que achava que isso é humor e virar uma caricatura completamente ofensiva pra muita gente. Quando isso aconteceu, eu lembrei muito do que acontecia no Zorra Total no quadro do Jorge Dória com o Lúcio Mauro Filho em que ele dizia “onde foi que eu errei” por causa do filho afeminado, que se não me engano se chamava fernandinho, que é como a minha família me chama, e eu ficava muito constrangido e eu me recuso a ser motivo de constrangimento para adolescentes. Hoje em dia pode até não aspirar a ser como eu sou, podem até discordar de mim, mas eu não quero ser motivo de constrangimento para as pessoas, aliás, o LGBT no geral tem que sair desse lugar de alívio cômico, não é porque a gente é LGBT e bem humorado, que a gente tem a obrigação de servir de alívio cômico para as pessoas. Eu sei falar sério quando é pra falar sério, entendo que é muito difícil que as pessoas coloquem na cabeça que eu falo sobre celebridades mas também milito por direitos LGBT e também posso falar de política. 

É muito importante dizer que quando fui para o Morning Show, eu não fui pra lá pra falar de política, não sou comentarista de política, nunca quis ser comentarista de política, mas à medida que você ouve coisas que ferem diretamente Direitos Humanos e determinadas coisas ditas com cinismo, você não tem como ficar calado, quem fica calado perto de determinadas declarações e de injustiças, colabora com essas injustiças. Acho muito importante me opor contra essas coisas, a minha passagem pode ter sido turbulenta mas pode ter certeza que foi de um grande aprendizado, talvez eu fizesse diferente hoje, talvez…talvez eu tentasse ser uma pessoa mais calminha, mais discreta, menos passional como sou, talvez posar de bom moço ajudasse, mas sou emoção, não sou razão.

3- Ainda sobre o Morning Show, os comentários no canal do programa no Youtube eram muito pesados por vezes até ofensivos. Como você lida com os haters?

O período do Morning Show foi um momento de muito achincalhe, principalmente nas redes sociais. Eu já havia sofrido ameaças de morte, essas ameaças meio que viraram uma constante na época a tal ponto que eu nem estava considerando mais. Fui alvo de todo tipo de boato maldoso sobre mim, tentaram assassinar a minha reputação de todo jeito, a sorte que eu não devo nada a ninguém, não tenho o rabo preso. Eu tentei me blindar de todo jeito, eu tinha parceiros de programa muito incríveis, o Edgard, a Paulinha e o Vini, são parceiros que me deram muita força, me acompanharam durante esse período inteiro de um jeito muito intenso e bondoso e era incrível trabalhar com eles, mas não tem como negar que não era confortável. Meu namorado recebia mensagens as vezes falando mal de mim, de um jeito escroto, de um jeito homofóbico, é muito louco porque quando falo de homofobia, de lgbtfobia, as pessoas encaram como mimimi porque naquele universo esse tipo de coisa é vista como mimimi…como cidadão de segunda classe. 

A gente tem que agradecer por ter a chance de falar, por ter a chance de existir, que qualquer outra coisa é extra, eu sou uma pessoa que nunca pediu desculpas para falar de igual pra igual, eu horizontalizo todas as minhas relações, eu não acredito em autoritarismo e hierarquia nesse sentido, respeito todo mundo mas estou falando de igual pra igual, eu não abaixo a cabeça, ninguém tá me fazendo um favor de me deixar falar, pode até parecer muito arrogante dizer isso mas também é uma auto-afirmação. É muito cansativo como LGBT esse universo da direita da qual eu não fazia parte e não quero fazer, e ter que ficar se afirmando o tempo todo, ficar dizendo ‘ei, eu existo e tenho os mesmos direitos que vc’, e não vou aceitar ser tratado com condescendência, e muitas vezes eu era tratado assim sabe. Eu via que eu não tinha o mesmo respeito que outras pessoas, que falavam o que a audiência queria ouvir tinham. Devo dizer que deixei as portas abertas lá, o Tuta me mandou uma mensagem muito fofa quando saí de lá, mas não era o ambiente mais saudável do mundo. A pauta do programa não era pensada ao meu favor, a pauta era a favor de discussões que não procurava elucidar nada, muitas vezes baseadas na desinformação de certos comentaristas, acho que era um debate pela audiência fácil e não um debate pelo aprofundamento de determinadas questões. 

Também me blindei do jeito que deu, tinha dia que eu não usava Twitter, não usava rede, não usava Instagram e bloqueie muita gente e acho que o ato de bloquear essas pessoas é muito saudável porque quanto mais gente homofóbica estiver longe de mim – melhor, e qdo xingado na rua, eu xinguei de volta, ou dei umas belas descomposturas nas pessoas. Antes ser bicha do que fazer a família passar vergonha e ser mau caráter, isso inclusive aconteceu comigo semana passada, eu não sou uma pessoa que abaixa a cabeça pra esse tipo de coisa, foi-se o tempo do bullying no colégio, eu sei me defender bem direitinho. Quanto a esses haters, eu devo dizer que curiosamente após um comentarista ter saído do programa 80% dos haters diminuíram, tinha muito robô, tinha muita milícia convocada, a gente viu isso depois e descobriu uns esquemas bem bizarros inclusive. Então sinceramente as opiniões que valem são da minha família, dos meus amigos, das pessoas que entendem sobre o que eu estou falando, é a opinião das pessoas que respeitam o próximo e que não são cristãos de meia tigela, que são cristãos no exercício do amor de fato, não adianta posar de cidadão de bem e achincalhar os outros depois.

Foto: reprodução

4- Você aceitaria participar do reality A Fazenda? Seu nome as vezes aparece em supostas listas.

Já recebi umas sondagens de assessores e tal, nada super oficial…antes eu dizia que não, achava que tinha muito a perder na carreira de jornalista e tal… mas acho que já fiz tanta coisa no jornalismo, que já passei por tantos lugares, já fiz tantas coisas que não posso negar que eu amo reality show. Então eu posso dizer que eu pessoa física toparia, pessoa jurídica não, hoje em dia eu acho que é uma possibilidade, nunca digo “nunca”. Se um dia me chamarem acho que vou avaliar, não sei se necessariamente A Fazenda ou algum outro reality show mas talvez fosse uma experiência divertida de ter, porque não? Pode ser divertido, acho que toparia sim, ficaria com medo de ser eliminado de cara ou de fazer muito barraco porque eu tenho personalidade forte, mas acho que toparia sim.

5- Em 2017, a atriz Nany People deu uma declaração polêmica “A comunidade LGBT é desunida, gay não suporta bicha pintosa, que não suporta sapatão, que não suporta travesti”. você concorda com essa declaração?

Eu respeito muito a Nany, eu amo a Nany profundamente, acho que essa declaração dela tem validade em determinado contexto, em determinado tempo… mas acho que a gente vive num mundo em que a comunidade está cada vez mais unida, cada vez mais entendendo as interseções, e como a gente tem contato em determinadas coisas, a gente tem pontos de contato, eu espero de verdade que a gente continue descobrindo muitos pontos de contato, consiga se aliá-lo ao outro. 

Acho muito importante que a gente entenda que determinadas lutas só vão pra frente se a gente consegue ter bons aliados, eu não sou o tipo de pessoa que fala mal da comunidade que tá inserida ou que ataca pessoas da comunidade no qual estou inserido, porque eu acho que a gente já recebe muito ataque de fora; Então acho melhor a gente estar unido para garantir os nossos direitos contra os ataques de fora, do que ficar se atacando dentro, mas é claro que existem questões como a feminofobia, gente que tem problema de lidar com o feminino ou com gays mais afeminados, mas acho que estas questões são tão discutíveis, pessoas melhoram com o tempo e as pessoas conseguem colocar a mão na consciência, as pessoas se educam. Então acho muito importante a gente se educar, e educar o nosso olhar, para que a gente esteja inserido em uma comunidade cada vez mais tolerante, cada vez mais receptiva, cada vez mais unida porque a gente só garante direitos unidos.

6- Como é a sua relação com os outros jornalistas que trabalham com fofoca/celebridades tais como Léo Dias, Leão Lobo, Erlan Bastos e Felipeh Campos?

Eu não conheço todos os colunistas que trabalham na minha área, não pessoalmente pelo menos. Eu conheço o trabalho de alguns e acontece sim… admiro muito o trabalho de uns, não admiro o trabalho de outros. Tenho briga com algum deles? Nenhum! Espero não ter, tenho admiração por todos? Não tenho! Mas tenho certeza que todos também não tem admiração por todos, é do mesmo jeito que é no trabalho com outras pessoas, não tenho nada contra a nenhuma dessas pessoas, desejo que todas elas sejam felizes.

Tenho um carinho especial pelo Léo (Dias) e pelo Leão Lobo, porque o Léo é alguém que eu conheço há mais de 1 década, já trabalhamos juntos, já me ajudou muito na vida, já o ajudei também como pude, sou muito grato a ele; E tenho um carinho muito especial pelo Leão Lobo, porque o Leão pouca gente sabe disso… mas ele militou muito nos anos 80, teve um papel fundamental na construção do movimento LGBT em SP e no Brasil, e querendo ou não é um representante incrível para se ter na comunidade LGBT. Eu acho que muita gente tenta resumir o Leão Lobo a um simples fofoqueiro, mas ele é um homem inteligentíssimo, com uma história de vida incrível, que ja bateu de frente com muita gente em tempos duros, em tempo que tinha CCC (Comando de Caça aos Comunistas) na rua caçando comunista e tinha ditadura achacando homossexuais. O Leão fez parte da noite paulistana, fez parte da militância paulistana e acho muito importante a gente valorizar ele.

7- Como você analisa o atual momento político do país?

Eu acho que a gente vive um momento trevoso, eu to muito preocupado com o futuro do Brasil, acho que a gente vive um momento em que as pessoas sabem que o que elas falam não é do bem ou não é verdadeiro, e ainda assim, falam pra ganhar like ou pra ganhar popularidade ou para ser aceito por um grupo político. Eu acho que a gente vive um momento em que a verdade não importa mais, o que importa é ganhar esse jogo de videogame politicamente, e eu acho deprimente tudo que está acontecendo. 

Eu acho deprimente que as pessoas se voltem contra a minorias, eu acho deprimente que as pessoas se voltem contra Direitos Humanos, eu acho deprimente que as pessoas se achem no direito de dizer como as outras tem que viver ou não, eu acho deprimente que a gente viva num país em que o Presidente da República elogia torturadores. Eu absolutamente acho deprimente tudo isso que a gente tá vivendo e acho que a gente vai ver tempos difíceis. 

Acho que já perdi muita coisa por expor a minha opinião politicamente e acho que vou continuar perdendo, porque minha consciência precisa ficar limpa, precisa ficar livre, eu não consigo ficar calado, vendo gente que coaduna com machismo e LGBTfobia não, então é melhor perder trabalho, colocar meu futuro em risco, do que me vender a um projeto político que é LGBTfóbico, que é machista e que apoia a tortura.

8- O ator Mário Frias tem chance de fazer uma boa gestão como secretário da Cultura?

Veja…eu não acho que o Mário Frias tem boas chances de fazer uma boa gestão como secretário de Cultura pelo simples fato que ninguém teria, independente dele ser um ator de Malhação, sem experiência política etc ninguém teria. Esse governo não está interessado em transformar a cultura desse país, a gente tá vivendo uma pandemia e as pessoas ainda acham que os artistas são todos ricos porque trabalham na Globo, não vê que artistas vivem na rua, vive de circo, vive de barzinho, vive de teatro, vive de cinema, que técnicos têm famílias para sustentar e que ninguém pensou num projeto pra eles até hoje. Ninguém pensou em um projeto político pra nossa cultura, e sem contar que nós já tivemos uma secretario de Cultura que fez apologia ao nazismo, então se a gente tem um governo que aturava esse tipo de gente, a gente tem um governo que não apoia a cultura; Depois do Mário Frias certamente vão vir vários outros que certamente não vão conseguir fazer um bom trabalho do mesmo jeito.

9- E quem você indicaria no lugar dele?

Eu não indicaria ninguém para o lugar do Mário Frias na secretaria de Cultura… pro lugar da Regina Duarte, de quem quer que seja… pelo simples fato que eu acho que essa pessoa não vai conseguir fazer um bom trabalho. Primeiro que se esse governo se importasse com cultura, a gente teria um Ministério e não uma secretaria neh? Já começa daí, e segundo que sinceramente eu desejo distância de todo e qualquer artista desse governo, eu não desejo essa bucha pra ninguém não, o que eu desejo é que o Bolsonaro caia. Pronto falei!

Fefito no programa Estação Plural (reprodução)

10- O que você acha de artistas gays que apoiam o governo de Bolsonaro?

Uma vez o Agustin (Fernandez) foi no Morning Show quando eu estava ainda lá ,e pra variar virou aquela coisa né, foi parar nos trending topics com gente me xingando achando que eu ia bater de frente com ele e fazer um grande debate, e eu disse pra ele no ar uma coisa… que eu não estava ali pra criticá-lo ou pra bater boca com ele não, eu estava ali para entender as motivações dele e se preciso acolhê-lo. 

Sinceramente tem LGBTs que apoiam o presidente, esse governo atualmente, porque eles esperam ter alguma vantagem política, alguma vantagem de trabalho, eles acreditam no projeto político. Eu posso apenas lamentar, mas não vou atacá-los não, vou desejar que eles se eduquem melhor, que eles aprendam mais sobre Direitos Humanos, que eles aprendam mais sobre o sistema que oprime a gente desde que a gente é criança, que eles aprendam mais sobre LGBTfobia e que se alertem para o fato que estão contribuindo com um projeto político que ataca diretamente os seus direitos, e eu vou tá pronto pra acolhê-los e conversar com eles na hora que eles precisarem. 

Eu já disse e repito, a comunidade LGBT já é muito atacada por fora, pra eu ter que atacar pessoas dentro dela, eu espero que a gente acolha os apoiadores do Bolsonaro quando eles se arrependerem, e que se eles não se arrependerem, que a gente dialogue com eles e que os LGBTs que o apoiam enxerguem que ao apoiá-lo eles estão se atacando.

11- Há alguns anos, você apresentou o programa de TV LGBT Estação Plural, creio que foi o primeiro programa totalmente voltado para a comunidade LGBT. Como foi essa experiência? E por que o programa durou tão pouco?

Eu não acho que o programa durou pouco não. Ele durou 2 anos, 2 temporadas, teve mais de 70 episódios – o Estação Plural. Ele teria uma terceira temporada inclusive que estava já sendo encaminhada, metade dos convidados já tinham topado, já tinha metade dos roteiros prontos, faltava apenas a gente assinar os nossos contratos mas a gente vive num mundo em que LGBTs nunca foram e não serão prioridade, então foi numa época de muita transição política; claro que ter um programa LGBT numa TV pública não interessava a muitos políticos. 

O Estação Plural foi uma luz na minha vida, um projeto que mudou a minha vida, acho que virei uma pessoa melhor e consciente do meu papel na sociedade depois que eu participei dele. Tive a sorte de ter como parceira de trabalho a Ellen (Oléria) e a Mel (Gonçalves), que são duas mulheres que me abriram os olhos para um cotidiano que eu não sabia qual era; que era da mulher trans e negra, da mulher lésbica e negra, aprendi muito, sou eternamente grato a elas, amo elas profundamente até hoje, a gente se fala sempre. O programa também é o que é graças a Ana Ribeiro que o criou, que é uma militante LGBT incrível e também a Cassia Dian que foi uma grande diretora, a gente também tinha uma produtora chamada Aline Pena que comprava todas as nossas ideias; a gente teve um grupo muito unido e que mudou a vida de todo mundo nesse projeto, é uma pena que a gente tenha um governo homofóbico nesse momento, porque o Estação Plural fez a diferença na vida de muita gente e faz a diferença na vida de muita gente. Já virou tese de mestrado inclusive, eu amo muito ter participado desse programa, por mim esse programa estaria no ar até hoje e encaro ele como o meu projeto de vida, quem sabe um dia ele não volta em alguma outra plataforma ou algum outro canal.

12- Na sua opinião um ator gay deve sair do armário mesmo que isso possa acarretar perda de trabalhos?

Eu não sou de ditar regras não, eu costumo dizer que quando a gente sai do armário as coisas ficam mais fáceis; todo mundo saí do armário e tira todo mundo ao seu redor do armário né? Seus amigos de trabalho acabam tendo que falar de você, família… todo mundo acaba saindo do armário junto com você porque você acaba virando um assunto.

Então quando você é um ator e se você sai do armário, você tem que lidar com determinados prejuízos; eu diria pra você avaliar o seu contexto porque se você é um ator numa emissora em que não te apoia, você vai perder trabalhos, se você atua numa emissora que te apoia, você pode garantir outros trabalhos… não sei, a Bruna Linzmeyer por exemplo continua trabalhando, Reynaldo Gianecchini por exemplo continua trabalhando, eu acho que vai do contexto de vida de cada um. Atores são atores né, atores são pagos para mentir, então a orientação sexual deles não importa, importa se eles desempenham bem o seu trabalho; atores gays podem fazer personagens héteros e vice-versa, espero inclusive que esse mito do galã heterossexual caia por terra porque a gente sabe que a maioria dos galãs inclusive é bem chegado num babado, que bom pra eles.

13- No futuro, teria planos de seguir uma carreira política?

Não, eu não tenho planos de seguir uma carreira política. Nunca pensei no assunto, não acho que seria eleito se me candidatasse, e se fosse eleito, acho que não teria instabilidade emocional para lidar com figuras como Jean Wyllys lida ou lidou… no caso. Não… não tenho no momento o estômago pra entrar para a política, posso mudar de ideia no futuro? Até posso, mas assim talvez eu possa fazer mais pelas pessoas estando na televisão e passando o recado que acho legal, tô sempre ao vivo na TV, nunca fui censurado, então acho que de repente é uma boa. 

Reprodução

14- Já ouvi gays de outras gerações, isto é mais velhos, dizerem que a Parada Gay perdeu espaço de luta e reivindicação de direitos, para se tornar uma espécie de micareta. O que você acha desse ponto de vista?

Olha, eu não acho que a Parada LGBT perdeu espaço de luta e reivindicação não; acho que a nossa Parada é diferente porque brasileiro é diferente, brasileiro adora festa, é uma Parada diferente de outras partes do mundo, mas tem outros lugares no mundo que tem muita festa na Parada também, acho que Amsterdã, Barcelona por exemplo. Eu acho que o fervo também é luta, então eu acho que é muito importante a gente se reconhecer e celebrar as nossas vitórias; a gente não poderia colocar tanta gente na rua há algumas décadas… a gente corria o risco de levar porrada na rua por andar de mãos dadas há algumas décadas, então a gente tem que celebrar a nossa existência, e celebrar os nossos direitos conquistados. 

Sinto falta de haver mais discussões políticas sobre o assunto? Sim! Mas não sei se a Parada é o lugar necessário pra isso não, porque de fato a Parada tem um tema político, todo ano ela politiza alguma coisa, e a existência da gente na Parada enquanto número já é política em si só e quando a gente coloca milhões de pessoas na rua, a gente tá mostrando que a gente é um número grande, importante e que merece os nossos direitos respeitados; a gente reivindica esses direitos pela nossa existência. 

Eu acho muito reducionista transformar a Parada LGBT numa micareta, porque as pessoas não param pra pensar no quanto essa Parada faz por famílias que vão lá assistir, porque famílias vão lá ver que tem muita gente feliz, tem muita gente livre, que elas podem celebrar as diferenças juntos, que a Parada promove encontros muito importantes… aquele gay que tá no armário no interior, ou numa outra região do país que vem pra São Paulo e conhece outras pessoas e assim conseguem ficar confortáveis na sua própria pele. A Parada mostra que as pessoas não estão sozinhas mas em uma comunidade grande, forte… a Parada é muito importante de existir, então reduzir ela a uma simples micareta é uma visão não só retrógrada como ultraconservadora e infiel com o que ela é de fato. A Parada tem uma importância fundamental para a gente e tem que continuar existindo por muito e muito tempo e temos que ser gratos a pessoas como Kaká di Polly e Silvetty Montilla que foram pra rua na primeira Parada com meia dúzia de pessoas e desfilaram dando a cara a tapa. A gente tem que celebrar essas pessoas inclusive.

15- A moda do momento são as lives de entrevistas. Você pensa também em seguir por esse caminho?

Comecei a fazer algumas lives, cheguei a fazer uma live com a Thelma que ganhou o BBB e também fiz uma semana de lives da diversidade pra tentar entender um pouco mais sobre as letrinhas do LGBTQI+… falei sobre assexualidade, sobre Queer, sobre bissexualidade, em breve vou retomar e vou fazer mais lives. Nos próximos dias inclusive, vou falar mais sobre as letrinhas da sigla, muito em breve. Eu acho que é muito importante a gente usar esses canais para comunicar de um jeito claro e passar uma mensagem de tolerância e também desmistificar determinadas coisas, acho que as lives são importantes pra gente vê que não estamos sozinhos no mundo, a gente pode ter boas companhias.

16- O termo “jornalista de fofoca” te incomoda? Muitos preferem ser chamados de jornalista de celebridades ou críticos de TV.

Se eu te dizer que nunca me incomodei por ter sido chamado de fofoqueiro eu vou mentir, porque já me incomodei, hoje em dia não me incomodo, me incomodo mais com o fato de as pessoas me reduzirem a uma categoria só, como se eu não pudesse dar uma opinião política ou apresentar um outro gênero de programa como foi o Estação Plural. Então nesse caso, me incomoda mais… o que me incomodava no fato de ser chamado de fofoqueiro é que fofoca é algo que você ouve e você passa pra frente, um jornalista de celebridades e bastidores de televisão, ele ouve a fofoca mas ele apura né, ele checa se é verdade, ele cuida da informação, então ele faz o que ele tem que fazer o que aprendeu na faculdade. Fofoqueiro não faz isso não, o fofoqueiro não checa nada não, você acha que ele vai ligar para os 2 lados para saber a verdade? Não! Só conta pra vizinho e passa pra frente (risos), mas não me incomoda hoje não, acho até fofo o jeito como as pessoas tratam. Eu pessoalmente não me sinto tão confortável de falar da vida alheia, me sinto mais confortável para falar sobre bastidores de televisão, mas quando o faço – faço com muito respeito, acho que é mais importante desenvolver esse trabalho com muito respeito acima de tudo sabe, porque as pessoas que estão envolvidas nele, todas têm sentimentos, todas têm boleto pra pagar e lidam com as consequências do que fazem, a gente tem que pensar nelas.

17- Você é muito participativo nas redes sociais, mas quais delas você se identifica mais? Recebe muitas cantadas?

Me identifico mais com o Twitter, é o lugar do textão ali, trocar coisas, você descobre coisas, se informa, e você consegue reforçar opiniões, cobre informações em cima da hora, mas eu amo todas na verdade. Eu uso muito pouco o Facebook, as vezes eu descubro que me colocam em grupos de Facebook que eu nem sabia que eu estava, as vezes vejo o meu inbox e tem mensagens acumuladas. Uso muito Instagram e o Twitter, não sou Tik Toker ainda, talvez eu tenha que virar um tik tok né, porque se você não tá numa rede social você não existe, e amo usar redes sociais mas também acho que as redes sociais são um grande terreno para a LGBTfobia e para a calúnia no geral. 

A gente tem que ter muito cuidado com que a gente consome, e a gente tem transformado muita gente estúpida em gente famosa nas redes sociais, acho isso assustador… acho assustador que um influenciador tenha 3 milhões de seguidores e faça coisas do tipo se aplicar para o auxílio emergencial para ver se vai ser aprovado ou não, e as pessoas acharem isso legal, acho que as pessoas estão bem doentes, os valores estão se perdendo, longe de mim ser aquele velhote que fica falando de valores, mas os valores do que é certo e errado estão se perdendo mesmo; as pessoas estão bem estúpidas em redes sociais, a gente tá valorizando coisas muito estúpidas em redes sociais e mesmo em aplicativos de relacionamento como Tinder, Grindr. Vários dias eu fico vendo um amigo postando todo dia nos stories um print de uma página chamada “racismo no grindr”, tem sempre gente propagando o racismo em rede social, propagando homofobia em rede social, acho que ao mesmo tempo que elas são maravilhosas pra gente se conectar, elas também acabaram com os freios sociais. As pessoas estúpidas se agruparam, elas descobriram os seus semelhantes, e isso é muito perigoso. E quanto a receber muitas cantadas… não… não recebo cantada nenhuma, bicha afeminada vai ficar recebendo cantada? Passo batido por isso, também tô comprometido, tá tudo de boa, mas é isso, amo as redes sociais. 

Acho que é muito importante a gente entender que como comunidade a gente tem que tá unido e a gente não tem que se furtar a dar opinião, e a gente tem que se mostrar presente, e se você não é LGBT e tem amigos LGBTs, defenda-os nas redes sociais, defenda-os na vida, porque sofrer sozinho é muito difícil, e sofrer vendo o seu amigo ficar posando de centrão neutro é mais difícil ainda. Faça a sua amizade valer, e respeite o seu coleguinha.

18- E por falar em celebridades, não se fala em outra coisa a não ser sobre a confusão envolvendo a cantora Anitta e o jornalista Léo Dias. Como você tem acompanhado o desenrolar dessa história?

Sobre o caso da Anitta e o Leo, eu elogiei o Leo ainda há pouco mas é importante dizer que apesar de ser amigo dele, eu sou amigo também na hora de dizer que a pessoa está errada e/ou certa, eu não passo a mão na cabeça. Acho que o Leo exagerou na quantidade de coisas que ele falou, nunca presenciei ou soube de nada do que o Leo foi acusado pela Anitta, mas acho que eu teria feito diferente, teria feito um texto negando tudo, e explicando a minha relação com ela direito; Também acho que uma mão lavava a outra naquele caso, a Anitta se beneficiava dele, ele se beneficiava dela, não to aqui pra julgar não, mas tenho muita dó como tudo aconteceu e foi um espetáculo muito triste nas redes sociais. Eu vi todo o desabafo do Léo nos stories, no twitter mas como um pedido de socorro do que como qualquer outra coisa, então acho que é muito importante a gente ter consciência de como a gente aborda esse tipo de coisa, e do quanto as pessoas estão tentando colocar lenha na fogueira em histórias como essa para ganhar cliques… tudo bem tem que repercutir, jornalístico é assunto, mas tem que ter uma ética também, se a gente sabe que uma  pessoa não tá bem, não tá emocionalmente bem, ficar colocando ela em lives, ficar estimulando ela falar mais talvez não seja o melhor caminho. Espero que o Léo fique bem e que a Anitta também fique bem, e eu fiz o que um amigo tem que fazer nessa hora, me coloquei à disposição para ouvi-lo, é isso.

Junte-se à nossa comunidade

O app SCRUFF está disponibilizando gratuitamente a assinatura PRO no Brasil, com todas as funcionalidades premium. Seja Embaixador SCRUFF Venture para ajudar os gays que estão visitando sua cidade. Tenha uma agenda atualizada das melhores festas, paradas, festivais e eventos. São mais de 15 milhões de usuários no mundo todo; baixe o app SCRUFF diretamente deste link.