O ator Gustavo Wabner, 45, começou a carreira em 1990 e estreou na TV em 2003 na novela Canavial de Paixões (SBT). Com mais de 150 comerciais de publicidade e papéis nas principais emissoras do país, Wabner continua colhendo frutos do sucesso da novela “Carrossel”, onde deu vida ao professor René, e tem se dedicado muito ao teatro nos últimos anos.

GAY BLOG BR by SCRUFF

Em entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, o multiartista gaúcho falou sobre política, o casamento duradouro com o diretor de teatro Sérgio Módena e a experiência como diretor de espetáculos.

Foto: Sergio Santoian

Desde 2018, você posta foto com o seu marido no dia 12 de junho e alguns veículos de comunicação sempre noticiam que você “assumiu ser gay”. Você considera que fez um “outing” em 2018 ou sua orientação sexual nunca foi segredo?   

Nunca foi segredo, muito pelo contrário. Acho engraçado quando ouço que saí do armário. Não dá pra sair de onde nunca se esteve (risos). Pra mim ser gay é tão natural. Não passei por aquele momento de “descobrir” que eu era gay. Desde de muito pequeno já tinha consciência disso e minha família é sensacional. Cresci em um ambiente com muita liberdade e carinho, de uma forma geral. Sempre me senti protegido e tenho muito orgulho de ser gay. 

Em algum momento da sua carreira você temeu perder trabalhos por ser gay? Ou percebeu boicote?

Nunca tive medo de perder trabalho, mas já tive medo de perder a vida. E olha que eu sou um “gay branco, padrão de classe média”. O preconceito existe, isso é evidente. E no Brasil ele anda de mãos dadas com a intolerância, por isso somos um dos países que mais assassina homossexuais no planeta. Quem mais sofre com isso são as pessoas de classes economicamente mais baixas, os negros e “as pintosas”. Eles são o pelotão de frente da comunidade LGBTQI+ abrindo caminho, conquistando um espaço importante. São os heróis e, ao mesmo tempo, as maiores vítimas. E se já percebi alguma tentativa de boicote? Olha, já sim e muito provavelmente vindo de alguém da própria comunidade, infelizmente. Uma vez enviaram uma foto minha acompanhado em uma boate gay para o departamento de elenco da emissora em que eu trabalhava. Era algo do tipo “como ele vai interpretar o galã se é gay?”. O preconceito acontece dos dois lados. Dei risada e segui tocando meu trabalho. 

Foto: Sergio Santoian

Alguns atores héteros estão sendo criticados pela comunidade LGBT por pegar papéis de personagens LGBT. O que você pensa sobre isso?

Acho que um ator pode interpretar qualquer tipo de papel, porém estamos passando por um momento onde o “lugar de fala” tem que ser respeitado, principalmente nas questões que envolvem mulheres, trans e negros. Acho que especificamente no caso de personagens trans, um ator trans deve ser priorizado sim, por exemplo. Mas acho também que o ator ou a atriz trans têm que ser chamados para interpretar qualquer outro tipo de personagem, independente de questões de gênero. E o mesmo vale em relação ao atores e atrizes cis gênero. 

Ser gay parece não ser um tabu para a nova geração de atores de TV, mas é algo não muito bem resolvido para alguns 30+. Como é nos bastidores, os não assumidos evitam fazer amizades com os bem resolvidos? Não pega mal “fingir ser hétero” na vida real?

Não é por que você é ator que tem que transformar sua vida num reality show. Existe vida fora das redes sociais. Cada um fala e expõe o que quiser. Eu tenho pena de quem precisa, não importa o motivo ou o meio profissional, esconder ou fingir ser alguém que não é.  Eu, pessoalmente, acho que se assumir publicamente gay é muito importante no momento. 

Você fez muita publicidade, por que parou? Muita gente conta que abandonou porque os cachês são bem menores do que 20 anos atrás.

Sim, fiz bastante, acho que mais de cem filmes. Fazer publicidade enriquece se você já é uma celebridade e cobra cachês altos. De uns anos para cá o mercado esfriou muito. O número de trabalhos diminuiu e os cachês realmente caíram. Sempre fui muito criterioso com a seleção dos trabalhos que fiz e, cada vez mais, tenho consciência de que ele tem que estar alinhado com minha consciência e filosofia de vida. Não vou fazer uma campanha para a Friboi, uma vez que sou vegetariano, por exemplo. Campanha política então, nunca fiz.  

Reprodução/Instagram

Na TV você passou pelas maiores emissoras, teve grande variedade de bons papéis, atuou em diferentes horários para vários tipos de públicos. Seu último papel na TV (Carrossel) rendeu muita popularidade. Teve algum motivo para abandonar a TV?

Eu não abandonei a TV (risos). Sou um bicho de teatro e, apesar de adorar fazer novelas, priorizo meus projetos para o palco. Acho a carreira de um ator de teatro muito mais sólida. Meus  atores  e atrizes preferidos são e vem do teatro: Rubens Corrêa, Paulo Autran, Pedro Paulo Rangel, etc. TV e teatro são veículos completamente diferentes, com processos de criação absolutamente distintos e ao mesmo tempo complementares. No teatro geralmente passamos um tempo na mesa estudando, lendo, depois de um tempo levantamos e começamos a experimentar, ensaiamos em média dois meses até a cortina abrir. E, mesmo depois que estreia, o ator de teatro tem uma nova chance por dia de “acertar”, se aprimorar. No teatro, o grande desafio é como manter o frescor e espontaneidade representando a mesma coisa todos os dias. Na TV não. Você ensaia uma vez e olhe lá! Na TV o desafio é como imprimir profundidade e verdade com tão pouco preparo. Tem que chegar marcando gol. Precisa ser muito bom para fazer televisão também. Na verdade os dois veículos são complementares. Gosto de fazer TV, principalmente para poder levar mais gente para o teatro. 

Você debutou como diretor em 2019. É algo que você vai fazer paralelamente ou podemos considerar que não veremos você atuando mais?

Na verdade minha estreia como diretor foi em 2018 com a montagem de “Navalha na Carne”, além disso eu já vinha dividindo algumas direções com Sergio Módena . Sou um bicho de teatro e amo o processo de criação de uma forma geral. Comecei como ator, serei sempre ator, mas nunca trabalhei somente interpretando. Já fiz e faço de tudo um pouco no teatro: cenografia, figurino, programação visual, produção, bilheteria, contra-regragem, assessoria de imprensa, etc. Não tenho formação acadêmica, minha formação é a de um xereta curioso que sempre teve vontade de conhecer e fazer tudo. Sou movido a prazer e curiosidade. Minha escola foi o palco e meus professores e mestres foram os diretores maravilhosos com quem tive a sorte de trabalhar. Quando decidi que ia dirigir, resolvi me preparar e trabalhei ao lado de artistas incríveis, como Gabriel Villela, Naum Alves de Souza, Deborah Colker, etc. Hoje em dia, olhando para trás e ligando os pontos, percebo que me tornar diretor era um caminho natural. O processo de criação do diretor é muito mais abrangente (e trabalhoso), mas proporcionalmente muito mais prazeroso também. 

Durante a pandemia você chegou ter espetáculos online, tanto como ator quanto diretor. Foram experiências que atenderam suas expectativas? Tem mais algum projeto para ir para o ar durante este período de isolamento social?

Na verdade o que fiz durante a pandemia foi apenas disponibilizar espetáculos que já estavam gravados para que pudessem ser assistidos. Não fiz e vi bem pouca coisa nesse sentido. Tenho um certa resistência em ver “teatro” pela internet. Para começar, teatro é ao vivo, presencial. Para teatro filmado ficar bom é muito difícil e, por mais que eu tenha consciência da importância e abrangência do que foi feito durante este período, acho que serviu de paliativo para que artistas pudessem continuar criando e de alguma se mantendo financeiramente. 

Foto: Sergio Santoian

Os fãs de Carrossel que te seguem estão, em sua maioria, na faixa da maioridade. Como você enxerga essa nova geração de adultos em relação às questões sociais/política? 

Assim como eu acho que alguns cresceram mais livres e conscientes que as gerações anteriores, ao mesmo tempo percebo também uma grande parcela muito alienada. Acho muito preocupante sermos coniventes e comodistas com todos os absurdos que vem acontecendo nos últimos anos. O conformismo nunca foi tão forte. A juventude precisa recuperar seu poder de indignação e voltar a ter voz. Mudanças precisam acontecer urgentemente. 

Com Larissa Manoela, a "Maria Joaquina" em Carrossel. Reprodução/Instagram
Com Larissa Manoela, a “Maria Joaquina” em Carrossel. Reprodução/Instagram

Você chegou a trabalhar com Regina Duarte ou Mário Frias? Como você avalia a cultura sob a tutela deles?

Não trabalhei e com certeza jamais trabalharei ao lado deles. A cultura e a educação estão sendo destruídas pela gestão do governo Bolsonaro. Na área da cultura, já era uma tragédia anunciada. Sabíamos que seríamos massacrados. Durante as eleições, uma das táticas da campanha mentirosa  de Bolsonaro foi a disseminação de fake news na tentativa de desmoralizar a classe artística. E deu certo. O que mais ouvi nos últimos tempos foi gente dizendo “que acabou a mamata de artista mamar nas tetas da Lei Rouanet”. Essa foi uma das coisas mais levianas que já foram inventadas. As pessoas ficam achando que a Lei Rouanet era uma espécie de Papai Noel, para quem você mandava uma cartinha e ganhava rios de dinheiro. Bom, as pessoas acreditaram em “kit gay” e mamadeira de piroca. Regina Duarte enterrou sua dignidade e sua carreira ao minimizar e tirar sarro do período da ditadura militar. Mario Frias não é um gestor da área da cultura, é só um fantoche nas mãos de um presidente ignorante, intolerante e que acredita que cultura e educação são apenas veículos de propaganda ideológica.

Com Larissa Manoela, a "Maria Joaquina" em Carrossel. Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram

Podemos considerar que você se tornou um ativista após esse governo? Quais são as primeiras pautas que devem ser reparadas urgentemente na próxima gestão?

Eu sempre fui ligado em política. Eu comecei a fazer teatro no colégio, fazia parte do Grêmio Estudantil. Na minha família sempre discutimos sobre política. Não entendo quem diz que não gosta ou prefere não acompanhar política. Os candidatos que votamos e escolhemos como nossos representantes são uma extensão do que acreditamos e das causas que defendemos. Acho que as principais pautas a serem priorizadas nas próximas gestões, além da educação, é sem sombra de dúvidas o meio ambiente, ciência e saúde. O meio ambiente talvez esteja sofrendo danos irreparáveis. As florestas estão sendo destruídas, milhares de animais estão sendo mortos e as tribos indígenas estão sendo dizimadas. As questões ambientais não podem esperar. A pandemia escancarou a necessidade de investirmos em ciência e saúde. 

Você está há 23 anos com o diretor de teatro Sérgio Módena. Conte um pouco da história de vocês. Chegaram a oficializar o casamento de alguma forma? 

Começamos a namorar muito jovens e, logo em seguida, já fomos morar juntos. O Sérgio é um ser humano ímpar, uma pessoa linda, íntegra, inteligente e muito engraçado. Nunca tivemos uma grande briga e as poucas crises que surgiram foram resolvidas rapidamente. Apesar de sermos muito diferentes temos, além do amor, uma identificação artística muito grande. Nos damos muito bem trabalhando juntos, já perdi a conta de quantos projetos fizemos em parceria. Sempre levamos o trabalho para casa, mas nunca a casa para o trabalho. Ainda não casamos no papel, mas faremos isso em breve. Não decidi o vestido ainda (risos). 

Gustavo com Sérgio Módena – Reprodução/Instagram

Quais fatores você considera essenciais para um relacionamento duradouro? Vocês têm um relacionamento tradicional ou o importante é a cumplicidade?

O importante é a cumplicidade e o respeito. Cada namoro tem seu estatuto e código de condutas, o importante é cumprir o que foi acordado. Como se diz “o combinado não sai caro”. É muito importante ter humildade, perdoar e ser perdoado. Todos estamos suscetíveis a erros e o que importa é aprender com eles. Outra coisa fundamental é ter humor. Nos divertimos muito juntos. Eu acho que pelo menos uma vez por dia (há quase 25 anos) tenho um acesso de riso com o Serginho. 

Vocês pretendem ter filhos?

Olha, eu ainda tô na batalha para tentar ter um cachorro (risos). Eu tenho muita vontade de ter filhos, mas é uma responsabilidade gigantesca. Mal consigo cuidar das minhas plantas. Mas quem sabe no futuro.

E quais são seus planos pós-pandemia?  

Retomar os projetos que estavam em andamento e que foram interrompidos. Voltar a fazer teatro. Encontrar os amigos e poder dar um abraço. O mundo precisa de mais afeto. 

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