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Sâmia Bomfim (30) foi vereadora de São Paulo e, atualmente, é deputada federal pelo PSOL. Elegeu-se com 250 mil votos, sendo a mais votada do partido e a oitava mais votada de todo o estado de São Paulo. 

Enquanto vereadora da capital paulista, criou um projeto de lei que proíbe no município qualquer forma de discriminação em razão de orientação sexual ou identidade de gênero. Sancionada por Bruno Covas, a Lei 17.301 entrou em vigor em 24 de janeiro de 2020 e pune não somente empresas, mas pessoas físicas que cometam atos discriminatórios com violência física e/ou verbal contra LGBTs.

Pelo voto popular, a lei de autoria de Sâmia e Reis venceu na categoria “Elas que lutam” do Poc Awards 2020.

https://gay.blog.br/poc-awards/votacao-aberta-para-o-poc-awards-2020/
Reprodução

Em entrevista ao GAY BLOG BR, Sâmia falou sobre suas lutas diárias e analisou o cenário político atual:

Você é Deputada Federal pelo PSOL de SP e tem vasto histórico na militância feminista. Como você define o seu período na Câmara? Mais vitórias ou derrotas?

Esse período na Câmara tem sido de enfrentamento e resistência, mas a correlação de forças não é favorável, principalmente porque Jair Bolsonaro compra sua base de apoio com cargos e emendas. Durante a pandemia, conseguimos ter algumas vitórias, em nome do povo brasileiro, como, por exemplo, o aumento no valor do auxílio emergencial e o envio de recursos aos estados e municípios. Mas o contexto é muito difícil, de derrota para a população, porque a agenda da Câmara é muito reacionária e a base de apoio do Bolsonaro se fortaleceu após a eleição do Lira à Presidência. 

Qual o sentimento em ser deputada de oposição de um governo que usa toda a sua energia para comprar a influência e o apoio que tem perdido nas ruas, emparelhando todos os poderes?

Me sinto, juntamente a outros deputados, vivendo um momento de responsabilidade histórica. Estou trabalhando para fortalecer a luta junto às ruas e aos movimentos sociais e uma tarefa fundamental para nosso mandato é combinar o trabalho no parlamento, com o trabalho nas cidades e os bairros. Precisamos pensar no futuro, num projeto de longo prazo para enfrentar o projeto genocida que hoje governa o país. 

Quando vereadora, você foi responsável pelo PL nº 120/2017, que institui o programa de atenção humanizada ao aborto legal e juridicamente autorizado no âmbito do município de São Paulo, entre outros projetos que atendem os interesses das mulheres. Como você avalia o Brasil atual em comparação com o tempo quando você começou a legislar?

Sim, eu apresentei este projeto de lei, mas ele foi derrubado em Plenário. Acho que a conjuntura política piorou, desde então. Penso que, a partir de 2018, estamos construindo marcos para eleição de mulheres jovens, radicais, de esquerda. Este espaço, felizmente, vem se ampliando. Portanto, se por um lado a conjuntura política é difícil, por outro lado  existe maior presença e resistência no parlamento. Isso me deixa mais confiante no futuro.

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Reprodução: Sâmia Bomfim

Bolsonaro faz tudo que pode para deslegitimar a atuação das mulheres. Qual a importância de ser mulher e ocupar espaços de liderança durante um período de governo nacional tão misógino?

Ser mulher e estar no parlamento é desenvolver papéis importantes, como fortalecer lutas das mulheres, servir de referência e estímulo para que outras mulheres ocupem a política, principalmente as mais jovens. São as mulheres que sofrem a maioria dos desmandos de um governo autoritário e uma sociedade desigual. A cada crise política, social e econômica as mulheres têm suas vidas devastadas. Então, procuro sempre priorizar a perspectiva feminina e feminista na minha atuação parlamentar, mostrando que as mulheres precisam falar sobre seus interesses, questões e problemas, de forma segmentada, representando este setor tão importante na sociedade. 

Você tem outros planos políticos ou acredita que é dentro da Câmara Federal que a sua militância encontra o espaço mais perto do ideal para se desenvolver?

Por ora, não tenho outras pretensões políticas. Vou seguir com meu mandato até o fim e, provavelmente, tentar reeleição para continuar desenvolvendo as pautas que iniciamos nesta legislatura.

Você e o Glauber Rocha, também deputado federal pelo PSOL, representando o Rio de Janeiro, formam o casal do terror para o bolsonarismo (risos). Tem mais vantagens ou desvantagens esse coworking?

Obrigada (risos) por nós chamarmos de casal terror para o bolsonarismo. Isso é motivo de honra e orgulho para nós dois. Ser companheira do Glauber tem muitas vantagens para nossa atuação política, porque temos uma dinâmica constante de troca, debates e aprendizado. Independente do nosso relacionamento, tenho uma admiração muito forte pela atuação política dele, sempre tive. Sei que é recíproco, então a gente acaba se ajudando muito. Óbvio que os ataques acabam vindo em dobro, principalmente, agora, com o anúncio da gravidez. São diversos ataques, alguns bem desrespeitosos, mas tentamos não nos abalar muito e seguir em frente com nosso trabalho. 

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Reprodução: Sâmia Bomfim

Vocês, inclusive, anunciaram a primeira gravidez, parabéns! Como está a expectativa de dividir a militância com a formação de uma família? Imagino que a empolgação seja imensa.

Será muito desafiador dividir a militância com a formação de uma família, mas eu sei que muitas mulheres têm um cotidiano desafiador, independente de estarem ou não na política. Porque conciliar a maternidade com o trabalho doméstico e mais o trabalho remunerado é um grande desafio. São muitas camadas de exploração e muitas dificuldades enfrentadas pelas mulheres. Felizmente, tenho uma rede de apoio e condições reais para dividir minhas tarefas de trabalho, militância e, agora, maternidade. Certamente será desafiador, mas tenho certeza de que a vida de diversas mulheres brasileiras, quando se deparam com a maternidade, pode ser mais dura ainda. Então, qualquer obstáculo que eu tiver será enfrentado da melhor maneira possível, justamente para seguir trabalhando e fortalecendo outras mulheres que não conseguem ter a oportunidade que tenho.

Para finalizar, qual a sua maior expectativa como uma integrante importante da esquerda para o futuro da política nacional? Onde você gostaria de ver o seu país chegar?

Espero que a gente consiga derrotar o fascismo, as organizações de extrema-direita e paramilitares que se organizam em diversas localidades do Brasil. Que a gente consiga fazer da política um instrumento que encante a população e que ela seja um instrumento de transformação profunda da sociedade. O Brasil tem dívidas históricas, profundas, com diversos segmentos sociais, por exemplo, nordestinos, mulheres, negros, LGBTQI+. Existe uma elite política e econômica que sempre dominou o país e precisamos enfrentá-la. Nossa geração precisa derrotar o fascismo, mas precisamos erguer esses setores abandonados durante tantos séculos. Acredito que vamos conseguir cumprir essa missão. Estou bem confiante.

Acompanhe Sâmia Bomfim no Instagram.

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Catarinense, 25 anos e professor de Literatura e Língua Inglesa. Homem gay, apaixonado por música e que respira futebol e cultura latino-americana.