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O ator, professor, diretor de teatro e produtor Kiko Mascarenhas (57) possui uma longa carreira com atuações na televisão, cinema e teatro. Começando nos palcos em 1984, sua primeira grande participação na TV aberta veio dez anos mais tarde na novela A Viagem”.

Transitando entre diversos gêneros, como drama e ação, Mascarenhas fez inúmeros personagens interessantes conquistando reconhecimento e prestígio do público e crítica. Quem não se recorda do personagem Galeão Cumbica da Escolinha do Professor Raimundo [2015-2019]? Ou o Visconde de Sabugosa do Sítio do Pica-Pau Amarelo [2007]?

Com uma recém-criada produtora, a KM ProCult, Kiko estreou como produtor com a montagem de “O Camareiro”, trazendo Tarcísio Meira de volta aos palcos depois de 30 anos afastado. “Já produzi mais três outros espetáculos depois e ano que vem produzo mais duas novas peças. Estou investindo tudo no teatro. O teatro é a minha casa”, explica animado.

Kiko Mascarenhas - Crédito: Mário Amaral
Kiko Mascarenhas – Crédito: Mário Amaral

Nesta semana, Mascarenhas concedeu uma entrevista ao GAY BLOG BR, onde abordou assuntos como política, cultura e representatividade.

Você já atuou em 15 filmes, fez mais de 20 trabalhos na TV e já recebeu três prêmios de melhor ator. Com uma carreira aparentemente consolidada, você se sente estabilizado na profissão ou considera que ser artista no Brasil ainda é um desafio?

A ideia de ‘carreira sólida’, no Brasil está ligada à estabilidade financeira, popularidade e a um mercado de trabalho que não é visto como algo essencial. Essa estabilidade depende de uma infinidade de fatores, principalmente de uma política cultural muito bem estruturada e democrática para distribuição de recursos, estímulo ao desenvolvimento de projetos artísticos, e uma avaliação criteriosa – fatores que não parecem estar alinhados com os interesses e ideologias do governo vigente. Portanto, eu, como tantos outros artistas das mais diversas áreas, enfrentamos desafios constantes para que nossa produção artística, nossas ideias e nossas expressões sejam acolhidas. Temos mecanismos criados para garantir o mínimo: editais, fomentos, leis de incentivo cultural, mas sabemos que esses recursos (previstos na Constituição), não são suficientes para contemplar a imensa quantidade de artistas que existem num país como o Brasil, de proporções continentais. Não há estabilidade quando se fala de arte e cultura no Brasil. Tudo é incerto. A única certeza é a de que, apesar das adversidades e do abandono do Estado, a classe artística segue lutando por seus direitos e realizando seus projetos como pode.

Sob o ponto de vista administrativo, a cultura vive um momento delicado no país…

A cultura sofre, nesse momento, um desmonte engendrado pelo atual governo. Não existe, pelos governantes, nenhum interesse em fomentar a arte e o pensamento criativo, da mesma forma que não existe nenhum planejamento para a cultura. Não há ninguém capacitado à frente da Secretaria de Cultura que proponha soluções e caminhos para a crise que se abateu no setor cultural. Os poucos mecanismos de fomento à cultura que ainda existem foram criados durante esse período de pandemia atendam às necessidades e demandas da classe artística. Resumindo: os artistas estão à míngua. A cultura está sob ataque sistemático do atual governo e de seus apoiadores. No entanto, a produção cultural não parou por completo, pois, apesar da retaliação e da dificuldade que o setor cultural vem enfrentando, alguns de nós continua realizando seus projetos do jeito que é possível. A arte, como a vida, é irrefreável.

Muitas pessoas defendem que o artista deve se posicionar sempre e sobre todos os assuntos, inclusive sobre política. Você é um deles.

Sou a favor da liberdade de expressão. Artista ou não, cada cidadão tem o direito de se manifestar sobre toda e qualquer pauta social, caso queira. Os artistas, de certa forma, se manifestam através de sua arte e a decisão de levantar bandeiras nas redes sociais não pode ser vista como uma obrigação. É humanamente impossível abraçar todas as causas que merecem apoio. É natural, portanto, que cada um, quando queira ou julgue necessário, defenda as causas que lhe são mais sensíveis. Portanto, esperar dos artistas o engajamento em todas as inúmeras questões que esse país suscita é uma exigência ou uma expectativa impossível de ser cumprida.

Você é tido como uma pessoa low profile. Como é a sua relação com as redes sociais?

Meu perfil no Instagram, por exemplo, é aberto. Entra quem quer, sai quem quer. Mais democrático, impossível, mas só fica quem eu permito. Tenho muitos seguidores e também alguns ‘perseguidores’, como qualquer artista que se expõe nas redes. Minhas postagens dialogam diretamente com esses dois grupos. Quando posto algo, é de mim que estou falando. Falo de mim e do que me cerca. Tenho critérios sobre o que quero que seja público e o que julgo ser privado. Tudo que é ligado ao meu trabalho, à minha profissão, minhas opiniões sobre os mais variados temas e acontecimentos, tudo isso é público. Tudo que diz respeito à minha intimidade, à minha vida pessoal, é pensado e dosado. Acho saudável entender essa medida entre conteúdo público e privado. Não se trata de ser discreto. É uma questão de critério. Não procuro seguidores. Deixo a porta aberta para quem deseja se aproximar.

Kiko Mascarenhas - Crédito: Mário Amaral
Kiko Mascarenhas – Crédito: Mário Amaral

Antes a TV era o principal veículo de trabalho e exposição de um ator para a massa, hoje temos a internet e as redes sociais, que dão mais liberdade para os artistas, ao mesmo tempo que anônimos se tornaram conhecidos. Sob o ponto de vista profissional, como você avalia essa geração de influencers?

Influencers não são, necessariamente, artistas. É preciso deixar isso claro: existem influenciadores e existem atores e artistas influenciadores. A primeira categoria é fruto do momento, de um fenômeno que não sabemos quanto tempo irá durar. A internet tirou do anonimato muitos talentos de diversas áreas e isso é muito positivo nesse momento pandêmico: atores, humoristas, cantores, compositores, poetes, escritores, fotógrafos, desenhistas, músicos, dançarinos descobriram como usar as redes sociais para difundir seus trabalhos e ganhar visibilidade. A fama e o dinheiro são incertos e, muitas vezes, passageiros. A arte fica. O que não é arte, passa. Pelo menos é nisso que acredito.

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Kiko Mascarenhas – Reprodução/Instagram

Você assiste a reality shows? Muitos participantes enxergam a oportunidade de ingressar em um desses programas como estratégia para dar uma ‘guinada’ na carreira. Acha que isso pode tornar o mercado mais competitivo e difícil para outros talentos?

Não sou fã de realities, mas sei que há uma multidão que adoram o gênero. E a visibilidade que esses programas dão aos seus participantes pode ser vantajosa ou prejudicial. Os ‘jogadores’ estão ali, expostos à opinião pública e acabam colhendo frutos, sejam eles bons ou não. O BBB, por exemplo, já revelou pessoas que se tornaram referência, como o Jean Willys, que é professor, jornalista, que abraçou a carreira política, a Grazi Massafera, Sabrina Sato, Juliana Alves, que consolidaram suas carreiras, entre outros. Não vejo como isso possa comprometer o mercado e vejo essa ‘migração’ como natural.

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Kiko Mascarenhas – Reprodução/Instagram

Após as vacinas, você conseguiu fazer uma miniturnê teatral no início de dezembro. Como se reinventar diante dessa atual circunstância?

Venho produzindo peças de teatro sem apoio ou patrocínio já há alguns anos e com recursos próprios. É um investimento na minha carreira, um passo rumo à liberdade de escolha e de expressão. Buscar parcerias com empresas sempre foi o maior desafio das produções – e continuará sendo. Via de regra, os maiores contemplados com os benefícios da Lei Rouanet, por exemplo, são os artistas já consagrados, os grandes espetáculos, as comédias e musicais — ou seja: a avaliação e a escolha são geralmente visando o máximo alcance que determinado projeto trará para uma marca ou empresa. Isso é extremamente limitador e excludente. Meu solo, “Todas as Coisas Maravilhosas” foi produzido com dinheiro do bolso e com a colaboração de muitos amigos que entenderam a importância dessa peça para o momento que vivemos e se juntaram para realizarmos essa montagem. Essa é uma forma de se reinventar e repensar como produzir teatro nesses tempos. “Driblar” as dificuldades é a “palavra de ordem” para o povo das artes.

A comunidade LGBTQIA+ tem conquistado espaço cada vez mais em todos os segmentos, e a própria classe artística parece estar mais a vontade para expressar seu verdadeiro “eu”, com atores/atrizes saindo do armário. Como você vê esse progresso?

As conquistas da comunidade LGBTQIA+ são uma vitória sobre o preconceito que existe em todas as camadas da sociedade brasileira. É uma luta antiga, que agora, graças às redes sociais, ganha voz e torna o cenário favorável para que as pessoas saiam do que eu chamo de ‘clandestinidade afetiva’, o popular ‘armário’. Conquistamos o direito de expor nossos sentimentos, direito à união estável, à adoção, a constituir uma família, direito de demonstrar nosso afeto, direito de denunciar o preconceito e a violência à que fomos expostos durante muito. Artistas, jornalistas, políticos, atletas, assim como outras pessoas, estão assumindo suas sexualidades porque o tempo de “se esconder” acabou. A sociedade está se reconfigurando em todo o mundo e isso não tem volta. É o fim da hipocrisia, mas não da perseguição. Por isso a luta segue diária, constante, incansável. Enquanto houver preconceito, haverá resistência.  Enquanto houver desigualdade, haverá luta por direitos iguais. É certo dizer que quando um artista rompe com a ‘clandestinidade afetiva’, ele acaba por representar muitas outras pessoas que ainda não se sentem seguras para fazer o mesmo. É certo dizer também que nenhum artista ou pessoa pública tem a capacidade, ou o poder de mudar a natureza de ninguém. Ninguém ‘vira’ gay, lésbica, bi, trans, por influência de ninguém. As pessoas LGBTQIA+ merecem respeito e representatividade, assim como os artistas merecem a liberdade de serem quem são.




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