O psicanalista e psicólogo lacaniano Pedro Ambra participou de uma entrevista para o podcast do Gay Blog BR na qual abordou diversos temas importantes relacionados à psicanálise, saúde mental e a realidade da população LGBTQIA+ no Brasil. Durante a conversa, ele compartilhou suas percepções sobre a violência e o suicídio entre pessoas LGBTQIA+, a saúde mental em tempos de redes sociais e a complexidade das relações humanas.
Ambra explicou que escolheu a psicanálise lacaniana devido ao seu potencial para responder a problemas contemporâneos, tanto clínicos quanto conceituais. Segundo ele, o pensamento de Lacan complementa as ideias de Freud, especialmente em partes nas quais Freud apresentava pontos cegos, como no caso da feminilidade.

Sobre a violência contra a população LGBTQIA+, Ambra destacou que não é uma característica da natureza humana, mas sim um fenômeno social e histórico. Ele explicou que, a partir de um dado momento na história ocidental, “dissidências de sexo e gênero passaram a ser vistas como corpos matáveis, corpos vulneráveis, pessoas que devem ser [excluídas] do convívio social” pois ameaçam um certo ideal de família e homem burguês.
Pedro Ambra também discutiu o tema do suicídio entre pessoas LGBTQIA+. Ele ressaltou que não se pode simplificar a questão dizendo que todas as pessoas se matam por razões similares, ou que o suicídio entre LGBTQIA+ é totalmente distinto de outros suicídios. É essencial reconhecer que a estrutura social violenta intensifica o sofrimento dessa população, levando, em muitos casos, ao suicídio. Ele enfatizou a importância de não tratar o suicídio como algo homogêneo e sublinhou a necessidade de condições sociais mínimas para todos.
O psicanalista abordou a saúde mental em tempos de redes sociais, hiperconectividade e pós-pandemia. Citando George Canguilhem, ele destacou que a normalidade deve ser entendida como a capacidade de um organismo instaurar suas próprias normas, e não como um conjunto fixo de padrões sociais. Ambra criticou a padronização da felicidade e da saúde psíquica, que muitas vezes leva a um sofrimento não dito.
Durante a entrevista, Ambra ainda mencionou a questão da linguagem neutra. Ele argumentou que a resistência a essa mudança revela uma relação não natural entre língua e corpo, e que a psicanálise deveria ver nessa luta uma oportunidade de aprofundar sua teoria sobre a sexualidade.
Confira trechos da entrevista:
O que te levou a se tornar um psicanalista, psicólogo lacaniano?
- Olha, não consigo responder essa pergunta. É uma pergunta difícil, mas que a princípio ela deve ser óbvia, né? Eu fui captado, como muitos da minha geração, pela potencialidade que o pensamento lacaniano oferece na resposta a problemas contemporâneos, seja da clínica ou do âmbito conceitual e teórico. O Freud, por mais que eu seja muito freudiano, em alguns momentos ele emperra determinadas discussões. Por exemplo, no caso da feminilidade, entre outras. Para muitas outras, ele é magnânimo. Mas eu acho que o Lacan ajuda a salvar um pouco alguns pontos cegos do Freud.
Na sua opinião, porque se matam tantas pessoas LGBTQIA+ no Brasil?
- Vou responder como psicólogo social. Eu tendo a compreender questões, como nesse caso a violência, sempre através de um discurso de como essa realidade de hoje se configura a partir da história. O assassinato de pessoas LGBTQIA+, assim como de outros grupos que são minorizados, não é de natureza humana. Não nascemos com o gene da homofobia ou da transfobia – isso é constituído socialmente, historicamente. A partir de um determinado momento na história ocidental, formas que hoje chamamos de dissidências de sexo e gênero passaram a ser vistas como corpos matáveis, corpos vulneráveis, pessoas que devem ser [excluídas] do convívio social, de uma maneira mais ou menos brutal, para não ameaçar um certo ideal de família, um ideal de homem, no sentido mais irônico desse termo, burguês, desde a virada do século XIX. Não que não houvessem violências anteriores a esse período, mas elas se sistematizam a partir de um dispositivo médico-jurídico, muitas vezes até psicológico, mas, enfim, discursivo. E o Brasil é um caso paradigmático, na medida em que é um país onde a lida com o sexual e a sexualidade tem algumas características muito peculiares. É o que, por exemplo, a Lélia González, uma importante pensadora da cultura brasileira, fala sobre o lugar da mulata no Carnaval, que ao mesmo tempo é a mulher que é explorada em 361 dias por ano, mas durante quatro dias ela vive uma espécie de outro lugar na cultura. Mas esse tipo de tensão se localiza na pauta LGBT também, porque o Brasil é um dos países que, por exemplo, mais consome pornografia ligada a pessoas trans. Ele perdeu o ranking de número um, pelo menos nos últimos dados do Big Data do Pornhub; agora, o Brasil é o segundo [pois] a Argentina nos passou. Ao mesmo tempo, é o país que mais mata, pelo menos do que é contabilizado, na população LGBT, que é a mais vulnerável do mundo. Então essa tensão entre, ao mesmo tempo, ser o país da travesti, a América Latina como um todo, mas, e isso marca uma parte da nossa relação com a sexualidade. Existe um certo lugar da travesti na cultura brasileira, que é um lugar de desejo e ao mesmo tempo é um lugar de extrema vulnerabilidade. Isso tem se alterado um pouco nos últimos anos, até pela maneira pela qual as pessoas LGBTQIA+, se apropriaram do termo travesti, que era um termo muito mais pejorativo antes e hoje talvez um pouco menos, “retensionando” a diferença entre trans e transexualidade, um termo que está quase caindo em desuso, né? Ou pessoas transexuais e travestis. Mas eu diria que se eu continuar falando, vamos fazer uma hora só sobre essa questão histórica disso, então eu vou parar por aqui. Mas é um tema extremamente complexo.
Eu tenho aqui os dados do Grupo Gay da Bahia que falam justamente sobre as maneiras como as mortes aconteceram: arma de fogo 31,52%, arma branca 24,51%, espancamento 7,40%. Ou seja, das 257 mortes, assassinatos e suicídios, essas foram as três principais maneiras de matar e violentar pessoas LGBTQIA+. Isso corrobora exatamente o que você acabou de falar. Você aceita, mas até um determinado ponto ou temporariamente. E minha segunda pergunta era sobre outro tema tabu, que é pouco falado: o suicídio de pessoas LGBTQIA+. Mais do que isso, é necessário falar sobre o suicídio, reconhecer esses sinais. Na sua opinião, por que se suicidam tantas pessoas LGBTQIA+ no Brasil? E o que podemos fazer para mudar esse cenário?
- Eu acho que [é um] desafio para responder essa pergunta, é uma pergunta capciosa, porque há duas maneiras que são polos opostos e eu acho que os dois polos são ruins para responder isso. O primeiro polo é dizer: “Pessoas LGBTQIA+ se matam porque pessoas se matam, todo mundo se mata”. E isso não pode ser, sabe? Um discurso mais conservador. Não existe uma especificidade nessa identidade e etc. E outro polo é dizer: “Pessoas LGBTQIA+ sofrem uma violência tão aviltante que produzem uma forma de sofrimento específico e exclusivo que é só delas. Suicídio de pessoas LGBTQIA+ teria uma natureza completamente diferente de outros suicídios e precisa de um tratamento específico e diferente, [com] psicólogos LGBTQIA+. Uma coisa são os héteros lá, outra coisa somos nós aqui”. Eu acho que as duas posições, quando levadas às últimas consequências, trazem problemas. Porque de fato, é preciso reconhecer que essa estrutura social é extremamente violenta para com essa população e produz, intensifica formas de sofrimento. Ainda mais quando levamos em consideração aquilo que a antropologia brasileira chama de marcadores sociais da diferença, como pessoas LGBTQIA+, negras, proletárias. E isso deve ser sublinhado, deve ser lançada essa ideia falaciosa de que: “Dinheiro não traz felicidade. Há pessoas que são felizes independentemente do que acontece”. Isso é uma balela. Essa vulnerabilidade do corpo, esse conjunto de micro ou macro violências que vão sendo vividas ao longo da formação do indivíduo, no sentido de “bom, eu não sou o que meu pai esperaria que eu fosse. Meu avô não fala comigo. Fui expulso de casa”. Toda essa constelação de fatos que estão ligados ao preconceito e à discriminação tem um impacto na saúde mental e que leva, em última instância, ao suicídio, que também é um tema muito complexo. Eu também sou um pouco reticente em tratar o suicídio como uma coisa em si, como se todo suicídio fosse igual. Esse é um outro tema capcioso, não é? E ao mesmo tempo, é preciso compreender que não existe uma estrutura psíquica básica de pessoas LGBTQIA+ e dos outros, digamos assim. Porque daí eu volto para o Freud. Para ele – e eu costumo brincar com as minhas alunas e alunos – a gente nasce todo mundo criança viada. É o que, nos termos dele, era chamado de infância perversa polimorfa, o caráter perverso polimorfo da infância. Então, essa diferenciação de que a gente se torna uma coisa ou outra, é da vida adulta e ela nunca é completa. Não existe, para o Freud, alguém que seja 100% hétero, nem alguém que seja 100%, nos termos dele, homossexual. Mas ele está falando do que hoje a gente entende como população LGBTQIA+. É nessa mistura, que às vezes é consciente, às vezes é inconsciente, que todo mundo se encontra. Então é preciso defender também um certo universalismo para a gente não se separar radicalmente nos pontos em que devemos estar juntos, que é todo mundo lutar para ter condições sociais mínimas, não para não sofrer, mas que o sofrimento seja democraticamente distribuído. Isso ainda não acontece na nossa sociedade. Vou falar uma coisa um pouco chocante, se der gatilho para alguém, procure um serviço de escuta. Mas eu vou falar mesmo assim. Eu acho que o ideal de sociedade não é o ideal de sociedade que ninguém se suicide. É um ideal de sociedade no qual a pessoa possa cometer esse como qualquer outro ato, no limite, à sua própria maneira e não por pressões, por violências sociais.
E assumir a sua responsabilidade pelo ato.
- Sim. Inclusive, só uma nota de rodapé mais teórica: o suicídio é um grande tema da sociologia. Ele se altera, a depender de determinadas configurações sociais, como, por exemplo, no caso do estudo clássico de Durkheim sobre o suicídio. Temos que lutar para que ele não seja uma política de morte, de extermínio de determinado grupo da população, mas achar que uma sociedade pode extirpá-lo totalmente como um fato social me parece muito ingênuo.
Como você define saúde mental em tempos de redes sociais, hiperconectividade e pós-pandemia?
- Eu vou recuar para o clássico. Nesse sentido, o que estou chamando de clássico é um estudo feito por um médico, uma tese de medicina, de um sujeito que foi orientador de tese de Michel Foucault, um pouco mais conhecido, chamado George Canguilhem. Ele tem um texto chamado “O Normal e o Patológico”. É uma tese belíssima, recomendo que todos leiam se têm interesse nessas questões. Ele vai defender, a partir do ponto de vista da medicina, mas também se amplia para a questão, digamos, “psi”, que o normal não é aquele que está dentro da norma, no sentido clássico, como compreendemos. Ou seja, para Canguilhem, normalidade não é o que nossa sociedade prega como normalidade. O que é normal, como ideal da nossa sociedade? É que você trabalhe, que goste do seu trabalho, que seja relativamente jovem ou pareça jovem, que tenha um relacionamento fixo ou tenha uma certa estabilidade na maneira pela qual você gera suas relações não monogâmicas, que você possa ser de uma população LGBTQIA+, mas não dê pinta. O discurso brasileiro é esse, né? “Pode ser, mas não precisa ficar mostrando”. É um discurso onde talvez eu misture nossas bolhas, mas do ponto de vista da tônica da sociedade brasileira, é isso que se pede. E é que, em última instância, se a gente fosse pensar em termos quantitativos, ainda impera a ideia, por exemplo, para mulheres – e esse discurso entende mulher como mulher cis – que você seja bela, recatada e do lar e que o homem seja o provedor. Esse ainda é o grosso das representações sociais brasileiras. E por fim, outro ponto importante: ser feliz é você ser um indivíduo que faz escolhas, que escolhe onde vai trabalhar, [que] constrói sua própria felicidade sem dar muitas contas para o fato de que nós somos seres coletivos, somos seres sociais. Se isso é normalidade, a gente está lascado. Se isso é saúde psíquica, temos problemas, porque isso vai produzir uma zona de não ditos, uma zona de silenciamentos que é grande, que pode levar a suicídios. No fundo, esse ideal, essa forma de pregar o que é felicidade, o que é uma vida saudável, é que faz com que os “banheirões” estejam cheios de caras casados, héteros, buscando um tipo de satisfação na esgueira possível, escondido de um certo discurso que não permite que a sexualidade seja fluida, digamos assim. Não permite que isso possa compor com o fato de ele ser casado com uma mulher e ter filhos. Voltando a Canguilhem, ele não entende normalidade dessa forma. Ele não entende a normalidade como você ter numericamente tal medida. Ele entende que um organismo normal, um organismo não patológico, é um organismo que tem capacidade de instaurar suas próprias normas, ou seja, tem a ver com o fato de você ter uma certa plasticidade em relação a você como seu próprio controle. Então, ser normal do ponto de vista de uma saúde psíquica é você estar à altura das suas próprias descontinuidades. Mais do que querer abraçar um ideal que é único, fechado. E daí no sentido clássico, normativo. E qual é o “diabo” aqui? É que essa paixão por um ideal de saúde mental, nesse caso, não atinge só o discurso hegemônico masculinista, brasileiro e conservador. Ela também atinge certas formas de resistência de discursos dentro, por exemplo, da comunidade LGBTQIA+. Ou seja, “eu preciso agora ter uma relação aberta, porque eu não posso ter ciúmes, porque ciúmes não está com nada”. Como se dizia antigamente, é uma expressão um pouco old school. Ou para ser bi de verdade, eu preciso ter namorado com o mesmo número de pessoas de um gênero e de outro gênero. Perceba, isso pode produzir, à primeira vista, um sofrimento menor do que a normatividade social conservadora, mas, ao mesmo tempo, está fazendo com que a pessoa se force a se identificar com um tipo de normatividade que não necessariamente diz respeito ao seu inconsciente, à sua forma de desejar e assim por diante. Então, ter certa liberdade, uma relação menos fixa com determinados ideais, pode ser um dos componentes disso que chamamos de horizonte de uma saúde mental melhor.
É sempre a questão de padronização, né? Seja do corpo, seja de qualquer outra forma de querer se enquadrar.
- Exatamente. E a gente vive um paradoxo hoje, porque ao mesmo tempo [que] é a era de “faça o que você quiser”, do império do individualismo, [o que] a princípio seria uma certa liberdade, é [também] a era dos coaches, de alguém que vai dizer o que você tem que fazer. Inclusive sobre temas aparentemente progressistas. Você tem lá a pessoa que fala sobre determinado tema, então, porque ela falou, “eu tenho que ser, eu tenho que fazer. Vou compartilhar isso para ver quem dá like, para ver se é isso mesmo que eu tenho que fazer”. Então, ao mesmo tempo, a gente é uma sociedade aparentemente livre, mas não é, porque não existe liberdade no capitalismo, e segue cada vez mais modelos de vida, por mais que eles sejam um pouco mais frouxos que outrora.
Nessa parte do episódio, a gente abre para perguntas de seguidoras e seguidores do Gay Blog. O Vitor [de São Paulo] pergunta sobre relações homoafetivas conflituosas que chegam a ser até violentas e tóxicas. Ele diz: “Você acha que isso é um sintoma do mundo atual com as redes sociais que tornaram as pessoas mais distantes e menos tolerantes?“
- São duas perguntas. A primeira é relativa ao que fazer com o relacionamento, se eu não me engano, ele usa o termo “tóxico”. Talvez a gente deva sempre se perguntar nesses momentos, quando a gente usa esse vocábulo, que está tão em voga. O que eu prefiro [é] separar em duas coisas. Em geral o que a gente chama de tóxico pode ser duas coisas: ou é uma relação zoada ou um momento zoado da relação; ou uma pessoa que é chata. Eu vou voltar para psicanálise. Nós somos todos zoados psiquicamente. Isso a gente vê, fazendo um certo parêntese, por exemplo, quando caem na internet escândalos sexuais relativos a pessoas que são “arrancadas do armário” ou pessoas que, por exemplo, produzem ou armazenam conteúdo de pedofilia. É muito comum que essas pessoas, no discurso público, sejam conservadoras, sejam de ultradireita. Existe sempre uma tensão, claro, isso é um caso extremo, mas isso é uma questão de como a gente se apresenta para o mundo, como a gente quer ser visto. No fundo, como a gente quer ser visto por nós mesmos, e de fato o que a gente faz e quem a gente é. Ninguém é esse mar de toxidade, né? Todo mundo é o seu próprio tóxico. Isso é um ponto pacífico, eu diria, na psicanálise. [E] quando a gente se relaciona com o outro, isso tende a se intensificar. Quem já passou por uma D.R. sabe disso. Existe algo violento nas relações humanas como um todo, [que] eu estou chamando de uma relação zoada. Só que tem alguma coisa que não é isso, ou melhor, não é só isso. E daí eu tenho um outro nome, que é melhor para isso, que é uma relação abusiva, uma relação violenta, uma relação na qual são cometidos crimes: violência psicológica, violência física, violência patrimonial, etc. O encaminhamento para isso é diferente. Se é uma relação zoada, a pergunta é: “Ela pode ser reformada ou ela precisa acabar?” Você vai tratar das diversas formas, conversando com amigos – é importante conversar com o amigo, não só com o psicólogo analista. É importante ter analista também, mas é importante ter amigo, alguém que vai falar: “Meu, isso está zoado, isso não está”. Por mais que, às vezes, os amigos vão talvez tender a te defender demais e demonizar o outro. É um risco. Mas você tem outras formas conversar com a pessoa, fazer terapia de casal, ver como outras pessoas saíram dessa situação ou terminar, o que às vezes é muito difícil, muito longo. Agora, se é um relacionamento abusivo, a minha aposta é que você pode contar com todos esses expedientes, mas você lance mão de dispositivos legais, [como] delegacia, denúncia, peça ajuda para amigos para sair dessa situação. E aí é um outro cenário. E perceba que eu estou aqui falando de relações num geral, porque nesse ponto específico eu não acho que deva haver uma incidência da diferença no que tange relações de população LGBTQIA+ e relações ditas héteros, porque é muito difícil falar em heterossexualidade, seja por conta da teoria psicanalítica, seja porque muita gente que é bissexual acaba se compreendendo como heterossexual. Mas agora, para o interior da nossa discussão dentro da comunidade, precisamos falar disso de maneira mais séria, mais frontal. Não dá para colocar todos os demônios no mundo do lado de lá, entendeu? Dizer que todos os problemas de violência são oriundos de homo, lesbo, transfobia ou do patriarcado. Dizer que, por exemplo, se existe violência entre um casal lésbico, é porque elas estão sendo patriarcais ainda; é um argumento com muitos problemas. Somos gente também. Olha que bizarro. Defender nossa existência no mundo passa também por entender que a comunidade LGBTQIA+, assim como outras, também tem pessoas “zoadas”, também tem pessoas violentas, também tem pessoas que cometem crimes. A única questão é que queremos ser julgados por uma régua um pouco mais equânime. Mas essa ideia de que nós somos a última bolacha do pacote, que todo tipo de violência vem de fora, é imprecisa, para dizer o mínimo.
Queria que você comentasse o seguinte trecho que saiu na revista Cult, nº 270, Dossiê Digital “Psicanálise, gênero e estudos queer“, com aspas suas: “Quanto a nós, hoje, em vez de ficar batendo o pé contra a linguagem de gênero neutra em nome de um simbólico seboso, que tal enxergar em nosso momento histórico uma ocasião única de lidar com a língua no que ela tem de mais radicalmente sexual e poético? É preciso linguar a nossa linguagem“.
- Esse textinho aí, que chama “O fio, o cu e a língua”, foi uma brincadeira que eu fiz para tentar trazer um pouco mais para perto um debate, que às vezes é muito complexo e epistemológico, referente ao que a psicanálise faz com as outras teorias, teorias queer, por exemplo, teorias de gênero. Não é uma coisa tão simples, porque a psicanálise tem um conjunto bom de conceitos para explicar a sexualidade e o gênero, e funciona muito bem. Mas tem algumas coisas que as teorias queer e de gênero, mesmo os feminismos, sacaram que a gente não consegue dar conta em termos estritamente psicanalíticos. Então fiz [esse texto], também tentando trazer essa dimensão do erótico até para a estrutura do texto. E nesse trecho específico, estou comentando sobre a questão da linguagem neutra [que] é um grande debate hoje em parte da sociedade, mas também no interior da academia, porque ela incomoda o caráter natural com o qual a gente vive a relação entre língua e corpo. Ou seja, a gente tende a achar que existem homens, existem mulheres cis ou trans e isso é tão natural que está na língua. Mas o que é a língua? Muita tinta já correu sobre isso. E tudo o que dá para ser afirmado é que a língua é tudo, menos uma expressão do biológico. Ela é tudo, menos fixa. O problema é que a gente tem um momento histórico de grande aceleração que faz com que determinadas mudanças possam acontecer de maneira mais rápida, [como] a língua e a questão dos pronomes neutros. E eu não sei se é a melhor nomeação, porque a neutralidade é polissêmica, na medida em que eu falo “elu” para alguém, é um ato político. É um ato de colocar que esse “dois” é insuficiente para dar conta de uma outra experiência. Então ela é neutra entre aspas e isso causa furor nas pessoas. Elas acham que é muito interessante ver a revolta em círculos conservadores, incluindo alguns psicanalistas que sentem frente a essa mudança de usar a língua que, a princípio, não machuca ninguém. Não tem nem o delírio, fantasioso, mentiroso de fake news, por exemplo, ligado ao banheiro unissex. “Não, as nossas crianças vão estar…” Não tem nem isso. É simplesmente uma recusa de abrir mão de uma certa forma naturalizada de falar. E eu falo até de maneira meio pessoal. Para mim, é difícil usar linguagem neutra. É bem difícil. Eu erro, depois eu fico arrependido. Para mim é super difícil. E isso causa um incômodo, mas é quase físico. “Mas como é que eu vou falar?” Você mostra que a relação entre o dizer e o referente não é uma relação natural, mas não é porque eles, as pessoas que lutam pela linguagem neutra, estão inventando alguma coisa. Elas estão expondo um caráter necessário de toda a língua, que é o fato de que ela não tem um referente fixo. Usamos “ela” e “ele” mesmo para determinar as coisas do mundo, porque o Sol é intrinsecamente masculino e a Lua é intrinsecamente feminina em todas as línguas. Balela, não é. Então, essa mudança histórica aparece também na questão da língua. E para concluir esse ponto, isso deveria chamar a atenção dos lacanianos, pelo menos. Porque Lacan é o cara que mais dissolve a linguagem. Se você pega os escritos de Lacan, você pergunta: “O que esse cara está falando? Isso aqui não é original. Basicamente, alguns trechos nem são em francês, entendeu?” Ele está torcendo a linguagem, fazendo algo tão maluco com isso que deveria, no mínimo, causar estranheza para quem se denomina lacaniano; ver que determinados usos da língua e lutas políticas do interior da língua estão se valendo dessa espécie de subversão que é interior à teoria da linguagem, justamente numa alçada que deveria ser próxima da psicanálise, que é do gênero, da sexualidade. Então, deveríamos entender que isso é quase uma demonstração da teoria freudiana da sexualidade perverso-polimorfa em nível social, em escala global. Algo está sendo demonstrado de um certo acerto do velho Freud, em termos diferentes, em termos mais contemporâneos. E a psicanálise deveria olhar para isso não com recusa, mas com a possibilidade de fazer a sua teoria explicar, ainda de maneira mais precisa, o nosso momento histórico político.
É isso que me surpreende no meio psicanalítico, essa recusa de aceitar e não entender. Às vezes, acho que tem uma certa geração que não entende que gênero, corpo e sexualidade são distintos.
- Essa questão geracional realmente precisa ser enfrentada. Claro, temos que entender que as lutas precisam ser gerais para toda a sociedade brasileira. Mas é diferente a maneira pela qual você faz uma disputa com uma pessoa de uma ou duas ou três gerações acima da nossa. Como debater certos temas com a molecada que está chegando; é diferente. Então, há uma questão tática da política que não pode ser feita no atacado. Não dá para você começar a xingar um senhor de 80 anos porque ele errou o pronome neutro quando chamou [alguém]. É difícil. Porém, no caso da psicanálise, há um dado a mais, que é uma disputa interna por poder. Ou seja, a psicanálise reinou, como escrevi em alguns textos, soberana como saber sobre sexualidade por muitas décadas. De fato, era a melhor teoria que havia. Porque era isso ou era dizer que pessoas gays, na época do movimento gay, eram criminosos, perversos, etc. A psicanálise estava anos-luz à frente disso. Mas hoje você tem outros discursos que vêm de outras ciências, de outros saberes, que explicam muito bem e dão ferramentas políticas, inclusive para transformação. Então, parte desse movimento é uma tentativa de garantir um certo lugar ao sol. E por fim, muitas vezes é um puro conservadorismo que não tem a ver com a psicanálise. A psicanálise, da maneira pela qual eu uso, acho que sua potencialidade é muito maior para falar de uma vida e de um mundo outro, de uma transformação social radical no limite – por isso que tem tantas articulações, pelo menos clássicas, entre Freud e Marx, o Freud do marxismo, por exemplo – do que para usar a psicanálise para dizer que o mundo está mudando rápido demais. Sabe esses discursos assim? Um discurso conservador na psicanálise lacaniana é a queda do nome do pai. “O pai não opera mais. Hoje vivemos outra coisa”. É um passadismo que cheira a naftalina. Só que isso não é algo intrínseco da teoria psicanalítica. Isso diz respeito aos psicanalistas, que são, em geral, as pessoas que estão nesse lugar de discurso. Elas são pessoas brancas, de classe média ou burguesas, e são pessoas que têm tantos privilégios que veem qualquer mudança no horizonte de ter que se alterar um pouquinho, e às vezes é uma coisa só de mudar o pronome, não mata ninguém, veem isso como um grande ataque ao seu lugar de poder. Mas não é um poder só ligado à psicanálise, tem a ver com o lugar social das pessoas que exercem a função de analistas.
Você teria sugestões, indicações de instituições [ou] grupos para as pessoas que estão escutando e que tiveram algum gatilho ou estão precisando de alguma ajuda, acolhimento, uma escuta?
- Sim. Primeiro, como falávamos há pouco, converse com pessoas próximas, quem estiver mais próximo. Não tenha medo de ficar enchendo o saco do seu amigo, do seu colega ou até daquela pessoa que você nem conhece tanto, mas começou a conversar mais nas últimas semanas por DM. Fale o que você está passando com qualquer pessoa. Esse é o primeiro ponto. Converse, não se isole. Não tenha medo de “pesar na do outro”, falando das suas coisas, que o outro vai te achar chato. Todo mundo é chato para alguém. Mas, além disso, se você entende que isso precisa de algum tipo de ajuda profissional, e já que eu sou psicanalista, eu vou indicar, considerando que muitas pessoas que nos escutam podem não ter grana, porque estamos num momento do capitalismo de exploração radical do nosso trabalho, que você possa buscar coletivos de psicanalistas que oferecem atendimento gratuito. Existe um serviço de escuta de psicanalistas na Praça Roosevelt, aqui no Centro, próximo a metrôs, de muito fácil acesso. Eles atendem aos sábados. Então, procure nas redes sociais: Psicanálise na Praça Roosevelt. Esse seria um primeiro, mas não é o único espaço como esse. Temos o Perifanálise em São Mateus, caso você more na zona Leste, são pessoas muito comprometidas com a escuta psicanalítica. O Psicanálise Periférica, que é um outro projeto. Tem também o Favela de Psicanálise, todos esses em regiões menos centrais. Existe um trabalho de escuta, se não me engano, que acontece na Casa do Povo também. Enfim, abundam espaços como esse, felizmente, de escutas públicas e gratuitas de psicanálise. E, por fim, se você morar próximo a uma faculdade de psicologia, em geral, eles oferecem atendimento gratuito. Em geral, é uma escuta muito interessante. Por mais que sejam alunos, eles estão sob supervisão de professores que, muitas vezes, são muito gabaritados. Então também é uma possibilidade. Pense no que é mais fácil para você, no que é mais próximo de acesso, que vai te dar mais facilidade, que não vai precisar pegar muito tempo de condução. Essas coisas contam.
A gente também abre espaço para você, Pedro, divulgar alguma publicação, curso. Como as pessoas podem te acompanhar, te contatar?
- Olha, não estou lançando livros no momento. Minha principal rede social é o Instagram, Pedro Ambra, onde divulgo algumas coisas que estou fazendo. No momento, estou tentando construir uma espécie de baixa visibilidade. Não estou querendo lançar muita coisa ou fazer muita coisa, porque rede social é algo que se torna um trabalho. Podem me seguir, adicionar ou contatar por lá. Se ficou alguma dúvida da nossa conversa, é por lá também que divulgo outras coisas. [Na verdade] vou fazer uma divulgação de um projeto do qual faço parte, chamado Escola Tamuya de Formação Popular. Ele tem uma página no Instagram e oferece cursos para formar pessoas das classes populares e sobre questões ligadas à luta de esquerda. Temos muitos cursos sobre psicanálise, incluindo um sobre psicanálise proletária que vamos repetir este ano. Então, se esse tipo de tema te interessa, acesse e pergunte quando será o próximo. Nos próximos meses deve sair uma segunda edição. Fazemos cursos de outros tipos também, com um valor mais acessível, porque as pessoas que podem pagar a gente cobra [e assim ajudam] a apoiar movimentos sociais e pessoas que estão lutando por melhores condições de vida. Siga Tamuya nas redes sociais.
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