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Eduardo Real (PCB), de 35 anos, concorre a deputado federal de São Paulo. Gay, ele é morador de Osasco (SP) e trabalha como livreiro em uma editora. O candidato já foi servidor público em sua cidade natal e, na faculdade, passou pelos cursos de Sociologia e Política (FESPSP) e Terapia Ocupacional (Unifesp), ambos não concluídos.

Eduardo Real, candidato a deputado federal pelo PCB de SP (Foto: Divulgação)

Sua candidatura foi motivada através de uma decisão coletiva do PCB. “Nosso partido constrói a política via estratégia do ‘centralismo democrático’, ou seja, em nossas instâncias de base decidimos coletivamente sobre as coisas e o consenso coletivo se torna tarefa […]. Fui indicado pelo Partido a cumpri-la e me sinto honrado ser indicado a representar o Partido Comunista Brasileiro no ano que se comemora seu centenário”, comenta Eduardo.

“Além disso, resolvi aceitar cumpri-la porque, além de concordar plenamente com os motivos do Partido em disputar as eleições esse ano, entendo extremamente necessário estarmos no campo eleitoral para ampliar a divulgação das ideais comunistas como alternativa e as lutas da classe trabalhadora que geralmente são invisibilizadas em época eleitoral”, acrescenta o candidato.

Entre suas propostas, ele destaca o programa de 21 pontos emergenciais “para amenizar os danos do capitalismo contra classe trabalhadora e melhorar as condições de vida da população com rapidez”. Além disso, o candidato assinou “o termo de compromisso ‘Programa Vote Com Orgulho’, elaborado pela Aliança Nacional LGBTI+ e parceiras, em apoio e garantia de defesa intransigente à população LGBT”. Eduardo é um dos entrevistados no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Eduardo Real (Foto: Divulgação)

Confira na íntegra a entrevista com Eduardo Real

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Eduardo Real: Superior Incompleto em Sociologia e Política (FESPSP) e Terapia Ocupacional (Unifesp), ambas não concluídas devido a falta de amparo a permanência estudantil. Sobre a trajetória profissional, digo que tenho como trabalhador a foice e o martelo em minha história, pois já fui trabalhador do campo e da cidade. No campo, trabalhei na agricultura familiar, granja e mineração de água, e na cidade, muitos anos em call-center, livrarias e como servidor público municipal na Assistência Social, atuando no  cuidado à mulheres e pessoas trans em situação de rua e abrigo. Saí da Prefeitura de Osasco devido à perseguição política, por lutar contra a violência do Estado contra as pessoas que atendia, em especial a população Trans. Hoje trabalho na Editora Lavrapalavra, uma editora que publica os clássicos e novos autores comunistas.

GB: O que motivou a se candidatar?

Eduardo: Nosso partido constrói a política via estratégia do “centralismo democrático”, ou seja, em nossas instâncias de base decidimos coletivamente sobre as coisas e o consenso coletivo se torna tarefa, portanto, estou no cumprimento de uma tarefa. Fui indicado pelo Partido a cumpri-la e me sinto honrado ser indicado a representar o Partido Comunista Brasileiro no ano que se comemora seu centenário. Além disso, resolvi aceitar cumpri-la porque, além de concordar plenamente com os motivos do Partido em disputar as eleições esse ano, entendo extremamente necessário estarmos no campo eleitoral para ampliar a divulgação das ideais comunistas como alternativa e as lutas da classe trabalhadora que geralmente são invisibilizadas em época eleitoral. Por fim, entendo (entendemos) a extrema necessidade de Comunistas no Congresso Nacional para barrar o avanço do fascismo, o avanço do capital com a retirada de direitos da classe trabalhadora e propor projetos para além dos projetos de conciliação de classes e reformismo comumente propostos pela esquerda majoritária.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Eduardo: Creio que os desafios são os mesmos do cotidiano. Para algumas pessoas e grupos, por mais que tenhamos boas propostas e um excelente programa, elas não irão votar, às vezes nem dialogar, numa candidatura LGBT+. Também, diariamente sofro algum ataque de cunho homofóbico, principalmente pelas redes, e sinto que tenho que ter um cuidado redobrado nas atividades presenciais, por ser homossexual e defender o comunismo, pois isso, nesse contexto conservador, para alguns, é motivo para quererem me ferir. Além disso, nós comunistas sofremos um grande boicote (e censura) nessas eleições. Sem verba, temos muita dificuldade de divulgar nossa campanha e ainda por cima fomos censurados da propaganda eleitoral e nos debates dos grandes veículos de imprensa, a grande mídia. Logicamente, nós, candidaturas negras, mulheres e LGBT+ acabamos, inevitavelmente, mais prejudicadas devido a soma do boicote com nossas dificuldades estruturais como sujeitos. E, por fim, é muito complicado disputar eleições com candidaturas “pinkmoney” também, pessoas que levantam nossa bandeira e dizem nos apoiar, mas estão em partidos que, por exemplo, votam a favor de reforma trabalhista que retiram direitos de toda classe trabalhadora, deixando a população LGBT mais vulneráveis a fome, ao desemprego, as violências e por aí vai…

GB: Quais são as suas principais propostas? 

Eduardo: Temos como proposta um Programa de 21 pontos emergenciais para amenizar os danos do capitalismo contra classe trabalhadora e melhorar as condições de vida da população com rapidez, como por exemplo revogação de leis que ferem ou retiram os direitos do trabalhador, como a cruel “reforma trabalhista”, mudança da lei de Responsabilidade Fiscal para Responsabilidade SOCIAL, medidas para acabar com a FOME e o desemprego, entre outras pautas. Também apresentamos um programa que direciona o Brasil ao Socialismo de uma forma muito tranquila e sensata. Em especial, relacionado ao meu campo de luta, nosso programa tem como propostas três medidas de curto e médio prazo que tenho muito carinho, que são: erradicar a falta de moradia, com um grande programa de construção de moradias populares, junto ao confisco de propriedades sem uso, tudo direcionado à população em situação de rua, favelas e áreas de risco. Em segundo, acabar com os manicômios e similares, como as comunidades terapêuticas, melhorar o cuidado a pessoas em situação de uso abusivo de drogas, através do fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial e direcionamento da verba pública da saúde mental exclusivamente para equipamentos públicos de cuidado em LIBERDADE. E por fim, a legalização/regulamentação das drogas, em especial a Maconha. Medida que descriminalizará usuários, regulamentará o trabalho de quem produz e comercializa, dará acesso a quem precisa de medicamentos derivados, entre outras coisas.

GB: Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Eduardo: Claro! Assinamos o termo de compromisso “Programa Vote Com Orgulho”, elaborado pela Aliança Nacional LGBTI+ e parceiras, em apoio e garantia de defesa intransigente à população LGBT. 

Primeiramente precisamos produzir dados sobre a população LGBT para que seja viável pensar políticas públicas adequadas ao perfil socioeconômico dessa população, então pretendemos lutar por: Elaborar, através do IBGE, uma Pesquisa Nacional sobre orientações sexuais e identidades de gênero da população brasileira, com vistas à produção de dados em caráter de urgência para essa população; Defender e destinar verbas para a inclusão de perguntas sobre orientação sexual e identidade de gênero no Censo Demográfico, caso este seja adiado para 2023, de modo que se pense metodologicamente esta coleta com fins de abrandar qualquer coleta não representativa da realidade por causa da intimidade das informações; A partir dos dados coletados, criar, através do Ministério dos Direitos Humanos, subordinada à futura Coordenação Sexual e de Gênero, uma Comissão Nacional para pensar políticas públicas consequentes à realidade brasileira no que se refere à população LGBT.

Criação ou viabilizar um “Programa de Proteção e Moradia para a População LGBT”, construindo uma rede de casas federais nas 27 unidades federativas para acolhimento e capacitação profissional da população LGBT em situação de rua, para um atendimento que entenda as especificidades dessa população quando em situação de vulnerabilidade;

Criar políticas de permanência e inserção da população trans nos ambientes estudantis, desde o ensino regular à pós-graduação; Garantia do uso de nome social no ambiente estudantil e do uso adequado de banheiros conforme sua identidade de gênero; Criação de ações afirmativas através de cotas para travestis e pessoas trans nas Universidades, tanto para a Graduação quanto para programas de Pós-Graduação.

Inserção da população LGBT no mercado formal de trabalho: Diminuição da jornada de trabalho para 30 horas semanais, com a finalidade de geração de emprego e melhora de vida para a população trabalhadora como um todo, e em particular a população LGBT; Criação de ações afirmativas através de cotas para concursos federais, estaduais e municipais para travestis e pessoas trans.

Mudança da “licença maternidade” para “licença parental”, com vistas a afastamento remunerado do trabalho para quaisquer responsáveis legais, e ampliação do período de afastamento para seis meses para ambas as pessoas com a guarda da criança.

Promover a despatologização integral das identidades LGBTI, garantindo que quaisquer tratamentos direcionados a essa população não culminem em tentativas de conversão sexual ou de gênero. Para isso, proibir o uso de métodos pseudocientíficos, além de extinguir as comunidades terapêuticas quais a prática de “cura gay” é recorrente. Do mesmo modo, criar formas de contenção de intervenções cirúrgicas indevidas em pessoas intersexo.

Criar uma linha de cuidado para mulheres lésbicas, bissexuais e homens trans — pessoas que sofrem violência obstétrica —, produzindo uma saúde integral para essas pessoas e garantindo um atendimento humanizado e especializado para suas necessidades.

Enfrentamento ao HIV/AIDS através de políticas públicas para redução da transmissão do vírus e garantia de qualidade de vida para pessoas soropositivas. Fortalecer políticas de redução de danos e prevenção combinada de ISTs, tais como as diversas formas cientificamente comprovadas de uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), bem como a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) e demais formas de prevenção às ISTs.”

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Eduardo: Primeiramente, educação popular contra opressões de gênero e sexualidade, como programa de estado, em ambiente estudantil e de trabalho, combinado com a unificação das polícias para enfrentamento dos casos começando pela notificação correta dos casos. Além disso, fortalecimento das ações de Saúde e Amparo(trabalho, moradia, inserção nas universidades, assistência social, etc) às LGBT+ afim de minimizar sua vulnerabilidade social. Entre outras ações.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Eduardo: De extrema necessidade a divulgação, educação popular sobre o uso e mais ainda propiciar a acessibilidade ao PrEP. Em Osasco por exemplo,  uma pessoa chega ao centro de referência afim de acessar o PrEP e passa dois meses em média à espera de receber as doses e nesse tempo continua exposta. Isso esta relacionado ao desmonte da Saúde e dos Programas relacionados. Precisamos multiplicar e fortalecer os centros de referência. Além disso, fortalecer a rede de cuidado a quem faz uso do PrEP, porque não é só tomar e está tudo bem, são necessários outros acompanhamentos e cuidados  em Saúde e assistência social.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Eduardo: Não é governo. É uma milícia, muito bem articulada, à serviço dos interesses da burguesia que de forma oportunista e com o descuido da esquerda, tomou o poder e acelerou os planos dos capitalistas contra a classe trabalhadora. Precisamos urgentemente derrotar Bolsonaro,  Mourão, seus aliados, mas também não podemos perder de vista a necessidade de romper com a ordem como ela é. E digo mais, de quê nos adianta, à  nós trabalhadores, derrotar Bolsonaro, um governo que tenha como meta derrotar Bolsonaro ao mesmo tempo manter as mesmas alianças que Bolsonaro tem? Bom pra se pensar! Precisamos derrotar, mas também precisamos derrotar esse sistema que definitivamente, não deu certo.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)