“Lawrence Baker Wilkins (1962 – †1994) foi meu melhor amigo dos vinte e poucos anos até o início dos 30. Ele se tornou meu irmão. Nós dois éramos novos em Nova York, éramos curiosos e animados por estar longe de nossas pequenas cidades onde nascemos.

Lawrence Baker Wilkins (1962 - †1994)
Lawrence Baker Wilkins (1962 – †1994) – Reprodução

Eu tinha pavor do HIV e de todo aquele mistério ao redor. Era Nova York… início dos anos 90, e era quase impossível não igualar sexo com uma morte horrível e sombria. Baker não estava com muito medo como eu, e isso me preocupou.

Nós nos encontramos para almoçar um dia e ele me revelou que tinha testado positivo. Nos abraçamos e choramos juntos. Para nós, o diagnóstico significava que dentro de três a seis meses ele provavelmente já teria partido. Fiquei arrasado, mas me segurei por ele e esperei. Dali em diante, tudo desceu ladeira abaixo.

Uma mancha vermelha surgiu em seu nariz. Eu disse pra ele ‘vamos a uma loja de maquiagem e disfarçamos isso’. A atendente nos vendeu uma base e disse pra ele ficar longe do sol. Ela não fazia ideia que a mancha era um Sarcoma de Kaposi.

A maquiagem funcionou por uma semana até que o SK começar a tomar conta do corpo de Baker. Ele começou a ‘cair’ rapidamente. O meu amigo mais belo, agora estava coberto de lesões do SK e estava perdendo peso.

Ele teve que colocar algo no peito quando suas veias não aguentavam mais os remédios intravenosos. Ele foi para casa na Carolina do Norte para ver sua família, quando certa vez um massoterapeuta de lá se recusou a tocá-lo. Meu coração partiu pelo meu amado amigo. Sua coragem era notável e ele queria viver, então, com a ajuda do seu parceiro de longa data, Rolf Iversen, pesquisamos tudo.

Diziam que a cartilagem de tubarão tinha propriedades curativas; nós tentamos isso. Diziam que a terapia com urina, isto é beber a própria urina, estimulava o sistema imunológico. Ele tentou isso. Ele tentou viver a vida da forma mais normal possível. Ele até foi para Fire Island (um paraiso gay famoso pelas festas nos anos 70), mas quando seu corpo magro e roxo entrou na piscina, todo mundo saiu. Meu coração partiu novamente.

A fase seguinte veio quando eles tiveram que amputar o pé dele porque o SK havia se espalhado. No hospital, segurei sua mão enquanto as ‘dores fantasmagóricas’ excruciantes tomavam conta de seu corpo.

Baker morreu. Meu melhor amigo e meu irmão tinha partido aos 32 anos.

Ele era um homem notável. Vender arte era sua paixão – colecionar arte era seu sonho. Ele era gentil com todos. Ele era tão bonito que todo mundo queria falar com ele, e ele gastava um tempo com cada pessoa; a maioria deles desconhecidos e ele os fazia sentir-se ouvidos e importantes.

Depois que Baker morreu, Rolf também se foi, Bill, John, Jose e outros 12 amigos, meu chefe, meu dentista e meu médico. Todos se foram.

Eu estava sobrecarregado, com muita tristeza, depois com a culpa de ainda estar vivo. A depressão se instalou. Fui a um terapeuta, tomei antidepressivo. Eu sabia que, por mais triste que fosse, o presente da vida era eu estar vivo. Ver Baker lutar tanto por sua vida foi um lembrete de que eu tinha que lutar pela minha.

Então veio um remédio milagroso. Se Baker tivesse aguentado apenas mais seis meses, ele poderia ter recebido o tratamento anti-retroviral e ainda estaria conosco. Na época, eu não acreditava que eles encontrariam algo. Eu simplesmente não podia acreditar. Penso em Baker todos os dias. Eu penso em Rolf e todo o restante que se foi. 

Às vezes eu ainda igualo o sexo com a morte, embora eu sei que este é um momento diferente. Antes de dormir e quando acordo, vejo esta fotografia de Baker, e de alguma forma isso me conforta.

Eu te amo, meu querido irmão. Você lutou muito e com tanta dignidade. Você foi tão gentil e doce com todos. Você foi corajoso até o fim. Sinto muito que o mundo não tenha sido mais gentil com você.”

Relato escrito por Richard Phibbs para The AIDS Memorial

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