O último dia da Casa de Criadores 46 começou convidando o público à reflexão com a performance pelo Dia Mundial de Combate à Aids. A performance de Rafael Bolacha, ao lado do artista Drew Persí, faz parte do projeto “Uma Vida Positiva”, iniciativa do Museu da Diversidade Sexual. A proposta buscou a comunicação através do corpo e das palavras, falando sobre os medos, questionamentos e vitórias, além do preconceito sobre o HIV.

Para esta edição, o Projeto Lab apresentou Boutique Venenosa, Rainha Nagô, Thear e Priscilla Silva. Coetânees, Vivão e o coletivo Estileras Fudidamente Insertas também desfilaram. A noite se encerrou com Vicente Perrotta, que levou 90 modelos à passarela.

Boutique Venenosa
Criada por Fernanda Cerântola e Gabriela Andrade, Boutique Venenosa traduz em roupas a atitude selvagem e elegante. Tendo como base todo o exagero da década de 80, resgata a essência de poder expressar sua identidade através da roupa. A coleção “A SAGRADA E PROFANA MULHER DE NEGÓCIOs” fala sobre o fato de que ao longo da história, mulheres foram ensinadas a terem medo e vergonha de si mesmas, reprimindo seus instintos e desejos. Sabemos que até hoje, queimamos na fogueira de diferentes formas. A década de 80 foi marcada pela ascensão da mulher no mercado de trabalho, abandonaram o posto de “dona do lar” para darem mais um passo em direção a sua independência, onde antes exerciam apenas cargos secundários, se tornaram chefes e grandes empresárias. Reféns de uma sociedade capitalista patriarcal agora em outros moldes, não tiveram alternativa a não ser batalhar no mundo dos homens enquanto reprimiam seus instintos e sentimentos.

Rainha Nagô
Rainha Nagô surgiu em 2014 fundada por Diego Soares e Camila Oliveira com objetivo trazer ao mercado da moda Afro e plus size não apenas roupas mas sim uma experiência de poder encontrar em uma grife acolhimento e saber que tudo que é feito aqui é pensando em vários corpos e não apenas em um tabela única de medida. Fui buscar especialização não apenas em cursos mas realizando um estudo de corpos onde desenvolvi tabelas específicas para melhor atender seu público. A temática do desfile é “Xangô a Beleza dos filhos do Rei”. Em tempos difíceis homenagear o orixá da justiça nos traz a coragem de seguir em frente. A coleção traz as características do orixá e de seus filhos que são imponentes e belos.

Thear
A Thear é uma marca goiana, nascida com o propósito de fazer moda responsável, duradoura e atemporal. Aliando design e afetividade, buscando valorizar as relações humanas e os processos manuais. A coleção Den(in), feita toda em eco jeans, celebra a trajetória de quinze anos de moda autoral do designer Théo Alexandre, mergulhando em experimentações, técnicas e trabalhos artesanais.

Priscilla Silva
A estilista Priscilla Silva se apaixonou por moda ainda criança observando sua vó na época modelista costurar, ali começou a criar roupas de bonecas, nunca imaginou que esse hobby se tornaria sua profissão, há seis anos trabalha com moda, e há um ano e meio lançou sua marca de roupas. A coleção origem foi inspirada em uma mulher cosmopolita, com a alma indígena, que busca exclusividade e valoriza a simplicidade dos detalhes. A coleção retrata tribos pela visão da estilista Priscilla Silva. Na cartela de cor, os tons terrosos como terracota nude, coral e verde se sobressaem com o tingimento natural feito com raízes folhas e cascas. Os detalhes do (Cromê) técnica criada a partir do crochê e macramê ganham força e trazem a expertise do Handmade. Vestidos, calças, capa e colete estão entre as peças chave da temporada. Entre os tecidos, destaque para o algodão cru e viscose com ar contemporâneo e para alfaiataria uma das apostas da estação. Para os acessórios, índios brasileiros foram convidados para desenvolver uma coleção exclusiva para marca. Entre as peças estão colares, pulseiras, tiaras e alguns adornos como arco-flecha, borduna e aljava contam a história do povo.

Vivão
Marca de streetwear, criada em 2019, com o objetivo de trazer uma perspectiva de moda através da arte e seu constante movimento de mudança, inspirado pelo crescimento e readequação dessa indústria que nos oferece milhares de possibilidades e formas de expressão. Vivão levou para a passarela uma grande festa onde o tema era a arte de nossas vivências – a arte de existir e se expressar de maneira única, entendendo a nossa jornada, conquistas e história para prosseguir. Uma celebração sobre quem somos. A coleção Vivão Project 2020 exalta cores e personalidade com peças pintadas à mão, imprimindo o conceito de que corpos são telas. O desfile contou ainda com a direção de Dudu Bertholini.

Estileras
Estileras é uma estrutura artística guiada pela dupla não binária de artistas performáticas, transdisciplinares e multimeios, Boni e Brendy. Por meio da metáfora de uma “empresa”, projetam uma sátira metalinguística das estruturas tradicionais criando narrativas onde indivíduos dissidentes tornam-se protagonistas. Se debruçam sobre processos através da performance em contato com os resíduos da indústria da moda para construir novos corpos e existências. Nessa Casa de Criadores, as Estileras continuam a narrativa que nasceu na edição anterior com a colaboração de diversos artistas dissidentes e dos coletivos artísticos FudidaSilk (RJ) e Inserto (SP), que desenvolveram e aplicaram as estampas. Lá foram apresentados os ‘Manuais Estileras’, uma performance onde 30 pessoas por mais de 6 horas construíram ao vivo e na hora o que seria visto na passarela do evento. Os processos de estampar, recortar, talvez costurar, fazer styling, maquiar, colocar próteses e se alimentar, tudo aberto para que o público que circulava pela Praça das Artes pudesse acompanhar a realidade de uma produção como essa. Após focar no processo e suas relações, o olhar se dirige para os detalhes e as linhas gráficas que são a união dos três coletivos. A proposta não é produzir mais roupas mas afirmar o ‘reuso’. Repensar o que já está feito. Deformar expectativas para emergir novas perspectivas. E ampliar a visão da moda, onde os meios e formatos discursam junto aos corpos e tecidos. Com segurança reforçada novamente pelas Unusual.BR, as Estileras Fudidamente Insertas se apresentam em: ‘A Continuação…’

criadores 46
Coetânees – Casa de Criadores 46 – Inverno 2020- Novembro 2019 Foto: MARCELO SOUBHIA/ FOTOSITE

Coetânees
Coetâneo adjetivo substantivo masculino 1. que ou o que é da mesma idade; coevo; 2. que ou o que é da mesma época; contemporâneo. Grupo formado pelos multi artistas Pri Mastro, Renan Soares e Novíssimo Edgar e que encontram na fusão de suas linguagens e produções um modo de realizar intervenções coletivas que evocam sistematicamente temas como upcycling, reciclagem, sustentabilidade como suportes para discorrerem sobre assuntos da atualidade. Como continuidade do circuito de ações e intervenções artísticas que vem sendo realizado desde o início de 2019 em São Paulo, o grupo Coetânees, Novíssimo Edgar, Renan Soares e Pri Mastro, apresentaram para a 46a edição das Casa dos Criadores o projeto: Didáticas de Refúgio. Um percurso performático de ações coletivas que propõem através de narrativas que utilizam as linguagens do teatro, dança, música, artes visuais e moda, gerar visibilidade a temas emergenciais e que de certa forma já se encontram diluídos em sua urgência na sociedade em geral. didática substantivo feminino 1. arte de transmitir conhecimentos; técnica de ensinar. 2. parte da pedagogia que trata dos preceitos científicos que orientam a atividade educativa de modo a torná-la mais eficiente. refúgio substantivo masculino 1. lugar para onde se foge para escapar a um perigo; asilo, retiro. 2. aquilo que serve de amparo, de proteção. As narrativas contadas pelas ações serão divididas em três atos: – Constelação Familiar: o apagamento histórico e cultural da constituição do povo brasileiro e de sua diversidade racial, de gênero, ideológica, política e religiosa (enfatizando a ideia de visibilidade e reflexão através de materiais que interagem com a luz); – Modus Operandi: abordar a violência e o extermínio da população negra (utilizando de ironia e inversão de papéis); deflagrar como atuam os sistemas e as estruturas de exclusão; – Nau Frágil: os colapsos sociais e ambientais e as constantes tensões que vem gerando no mundo, como processo migratórios e a sucessão de desastres ecológicos. Demonstrados sob a perspectiva do abandono paterno e do amparo espiritual. O Projeto contou com corpo cênico composto por 32 jovens de 18 a 30 anos, do Capão Redondo zona sul de São Paulo. São jovens artistas, empreendedores, produtores que por consequência da ausência de recursos que amplificam suas potências, lutam diariamente para pertencer a todos os espaços que lhe são de direito.

Vicente Perrotta
Em meio ao caos do país tropical, travestis resplandecem, não-bináries espalham a palavra decolonial, boycetas são resistência e mulheres cis negras são o único caminho para o futuro da nação. A coleção que foi apresentada nesta edição é o resultado de uma imersão artística no processo de costura com técnicas de reaproveitamento de materiais descartados, por meio do Instituto Tomie Ohtake direcionada pela estilista Vicente Perrotta, com mulheres TRANS e CIS que são atendidas em espaços de acolhimento, dentro do Galpão de Costura no Instituto Federal São Paulo. Além disto, a passarela recebe criações de 7 estilistas TRANSvestigêneres selecionades por Perrotta, cada um apresentou 3 looks upcycle, emergindo em todas as etapas da criação de uma performance/desfile na principal semana de moda criativa do país.