Rede social voltada para surfistas gays já conta com com mais de 3 mil membros

O mundo do surf é muito mais diverso do que os estereótipos nos fazem crer – comunidade virtual com mais de 3 mil surfistas gays espalhados por 81 países

O mundo do surf é muito mais diverso do que os estereótipos nos fazem crer – como prova uma comunidade virtual com mais de 3 mil surfistas gays espalhados por 81 países. Mas os brasileiros que fazem parte desse grupo garantem que ainda é muito mais fácil sair do armário na internet do que na praia.

Quando deixou Piraí, no interior do Rio de Janeiro, rumo à capital do estado, a primeira coisa que Nêgo (Marcus Vinícius Gouveia no RG) pediu para seu pai foi uma matrícula numa escola de surf. Aprendeu e nunca mais parou. Tinha então 16 anos. Um ano depois, começou a sentir atração por seus colegas da escola e achou que fosse algo natural, uma fase pela qual muitos passavam em silêncio. Até que um dia, na praia, um surfista da mesma idade de Nêgo o olhou de um jeito diferente, como se reconhecesse nele um segredo em comum. Convidou-o para assistir a um filme de terror em sua casa. Naquela noite, Nêgo deu seu primeiro beijo. “Eu me tremia todo”, conta. Depois de três meses de romance às escondidas, seu namorado não segurou a onda e propôs abrir a relação: “Pode ficar com quem você quiser e eu também posso”. Mesmo apaixonado, ou justamente por isso, Nêgo preferiu colocar um ponto-final. Conheceu outros caras e aos poucos foi assumindo sua orientação sexual para os amigos e a família. “Tenho mais amigos héteros do que gays e todos me respeitam, até me tratam com mais cuidado. E a galera do surf é tranquila, se preocupa com o que a pessoa é, não com o que faz. Só acham diferente um gay fazer a mesma coisa que eles”, conta Nêgo, que hoje tem 24 anos e estuda biologia. Quando reencontrou seu primeiro amor surfista, anos depois, Nêgo fez questão de dizer tudo isso a ele. Quis incentivá-lo a sair do armário, mas não teve êxito.

Histórias como a de Nêgo têm se tornado cada vez mais comuns no mundo do surf – como prova o site de relacionamentos gaysurfers.net. Criado no ano passado pelo australiano Thomas C. Green, a comunidade virtual já conta com mais de 3 mil usuários de 81 países; o Brasil representa cerca de 15% do total de inscritos, ou 450 membros, segundo seu fundador. Green passou anos escondendo sua identidade sexual com medo de ser rejeitado. “Mas, depois que me revelei, descobri que aquilo não era uma grande questão. Surfistas estão acostumados a viajar e conhecer diversas culturas. A homossexualidade não é, para eles, nada de outro mundo”, conta. “Nos anos 60 o surf surgiu como um estilo de vida alternativo, que ia contra a ordem estabelecida. Nos anos 90 o esporte virou uma indústria e criou o estereótipo do cara loiro, bronzeado, que pega altas ondas enquanto garotas saradas o assistem da areia. Posso te dizer que a cultura do surf é muito mais diversa do que isso”, afirma.

Thomas Green, o surfista australiano que fundou a comunidade gaysurfers.net, posando na areia Crédito: Divulgação

Prancha arco-íris
Com o gaysurfers.net, Green confirmou o que já suspeitava: há no mundo um número considerável de homens que gostam de homens e também de pranchas, embora muitos deles ainda prefiram se assumir apenas virtualmente e para seus iguais. A reportagem da Trip entrou em contato com cerca de 50 brasileiros inscritos no site de Green. Apenas três toparam dar entrevista e dois aceitaram ser fotografados. “Se eu não falar, ninguém fala”, diz o carioca Lucas Messeder, estudante de geologia de 18 anos. Ele conhece alguns surfistas gays não assumidos e já se relacionou afetivamente com um deles. “Fora o medo da sociedade, tem o medo de não conseguir patrocínio”, explica. Lucas confessa que se aproximou do surf, aos 12 anos, “por interesse”. Sentia atração pelos meninos fortes, molhados e com pouca roupa. Quando se deu conta, já amava mais o esporte do que os garotos. Aos 16, ganhou coragem e assumiu sua orientação sexual. “No início meus amigos não acreditaram e alguns ficaram estranhos comigo, o que eu acho natural. Depois a amizade prevaleceu e hoje eles me aceitam, conhecem os garotos com quem eu fico e até me defendem de comentários maldosos. São minha segunda família”, conta ele.

Lucas Messeder e Marcus Vinícius, surfistas cariocas que saíram do armário
Surfer e DJ Sérgio Cardoso com o seu namorado, o lutador de muay thai Bruno Araújo
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Capa da Trip de outubro de 2011