Glamour Garcia é a primeira trans a ganhar o Troféu Domingão

A Britney da novela A Dona do Pedaço, a atriz Glamour Garcia, foi a grande vencedora do Troféu Domingão na categoria "atriz revelação".

A atriz transexual Glamour Garcia, que interpretou Britney em “A Dona do Pedaço”, foi a grande vencedora do Troféu Domingão na categoria “atriz revelação“, vencendo Nany People e Carol Garcia. A premiação aconteceu neste último domingo, 15 de dezembro, no programado de Fausto Silva na Rede Globo.

Glamour Garcia é a primeira atriz transexual a conquistar o Troféu Domingão (Foto:Reprodução)
Glamour Garcia é a primeira atriz transexual a conquistar o Troféu Domingão (Foto: GShow)

Faustão comentou que é importante ter uma atriz trans para representar tantas outras que “pararam no meio caminho por vítimas de preconceito e todo tipo de violência“. Muito emocionada, ela diz que é possível ser feliz, mesmo com tantas dificuldades em ser uma pessoa transgênera.

“Infelizmente a estatística de vida das pessoas trans ainda é muito curta justamente por causa disso, as pessoas trans são violentadas e assassinadas ainda. Estar aqui hoje junto com a Nany é uma prova de que nós não somos só capazes, nós também somos felizes, acreditamos, ocupamos nosso espaço. Tenho muito orgulho de ser atriz e estar aqui hoje”, celebrou ela

A vitória repercutiu nas redes sociais e entrou no Trending Topics do Twitter.

Vale lembrar que Glamour também foi vencedora da 21ª edição do Festival Mix Brasil, em 2013, pelo curta-metragem “O amor que não ousa dizer seu nome”, na categoria “Melhor Interpretação” por uma equipe de jurados.

Neste filme, ela interpreta Michela, uma transexual que está sem lugar para morar após o rompimento com seu marido e é convidada por uma dona de salão de beleza, Leila, para morarem juntas. A solidão une as duas, que dividem não só um lugar pra morar, mas toda uma vida também.

SER FELIZ MESMO COM TANTAS DIFICULDADES É POSSÍVEL! 

Transexuais podem se submeter ao tratamento de redesignação pelo SUS (Foto: Reprodução)
Transexuais podem se submeter ao tratamento de redesignação pelo SUS (Foto: Reprodução)

De acordo com uma matéria publicada pelo Correio Braziliense com informações do IBGE em 2016, os dados perante a vida de transexuais e travestis não são muito animadores: foram 868 mortes em um período de oito anos, deixando o Brasil disparado no topo do ranking com mais registros de homicídios para essa categoria. A expectativa de vida das pessoas trans é de 35 anos, muito abaixo da média nacional para pessoas cis, que é de 75.

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais aponta que 90% das pessoas trans recorrem a prostituição como meio de sobrevivência devido a exclusão no mercado de trabalho. Além disso, são apenas 11 cidades que possuem atendimento especializado para pessoas trans, número pífio considerando que a estimativa é (por baixo) de 752 mil transexuais no Brasil. Some isso a difícil aceitação da sociedade e há inúmeros casos de transgêneros expulsos de casa na adolescência.

Por outro lado, a psicóloga Jacqueline de Jesus publicou em uma coluna o texto “Eu amo ser uma mulher trans” no blog da revista “Azmina”. Segundo ela, mesmo sendo uma mulher trans e negra, é possível ser feliz mesmo com todos os desafios.

“O ponto nevrálgico desta reflexão é: como consigo ser feliz, neste país tão desrespeitoso e violento contra a minha identidade de gênero? Sempre ensino: as pessoas trans não estão infelizes com a identidade delas, mas, isso sim, com a transfobia contra essa identidade. (…) Ser uma mulher trans feliz afronta a transfobia.

Faço isso de forma espontânea, porque sei que não sou inferior a qualquer outra mulher. A minha identidade de gênero não me torna uma mulher ‘menor’, como pensam os transfóbicos, ela só me dá algumas características, lugares de fala e condições de vida diversas das de outras mulheres, como também ocorre com mulheres negras. Fazemos coro ao fato de que não cabe se falar em um modelo único de mulher, mesmo entre as mulheres cis, que não são iguais nem pensam e sentem a sua realidade da mesma forma, só por se identificarem com o gênero que lhes foi atribuído socialmente.

Eu chorei muito para estar aqui. Eu senti muita dor e desprezo. Isso não me torna melhor do que ninguém, porém coroa uma caminhada cheia de ideias e ações, mas principalmente de afeto. Eu aprendi a ser feliz para poder sobreviver ao ódio contra quem eu sou. Ainda tenho mais caminhos a desbravar, nesta conquista de mim mesma, e de desbravamento do mundo que me cerca. Eu amo ser uma mulher trans!”.