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Vereadora suplente de Porto Alegre (RS), Atena Beauvoir Roveda (PDT) é candidata a deputada federal no Rio Grande do Sul. Mulher trans e antropóloga em formação, ela é graduada em Filosofia e tem 31 anos. A candidata é a entrevistada da semana no especial “Eleições 2022“, do Gay Blog BR.

Escritora e editora, Atena já tem seis livros publicados. Contos Transantropológicos” foi seu primeiro livro e finalista do Prêmio Minuano de Literatura, criado pelo governo gaúcho em parceria com Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua publicação mais recente é “A Segunda Humanidade.

Atena Roveda em sua posse como vereadora de Porto Alegre – RS (Foto: Reprodução)

Como vereadora de Porto Alegre desde julho deste ano, Atena é autora do indicativo para o projeto de lei que cria o Estatuto de Pessoas Trans na cidade. “O Estatuto da Pessoa Trans tem sido trabalhado por nós, a nível municipal, para receber o mesmo peso legal que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o do Idoso, da Igualdade Racial, da Mulher. Porto Alegre será a primeira capital do mundo a aprovar uma legislação sobre direitos e deveres civis de pessoas transexuais, travestis e não binárias”, conta a candidata.

Motivada pela vontade de colaborar com uma construção política mais séria e qualificada, caso seja eleita deputada Federal, Atena diz que seu principal papel será envolver demais parlamentares no projeto de um Brasil sem discriminação no que refere as questões de orientação sexual e identidade de gênero.

“A primeira medida é olharmos para o tema como um espaço de diálogo e entendimento mútuo entre as partes conservadoras e progressistas. Essas duas forças devem entender que a discussão não está em validar ou não a existência LGBT, pois ela já é válida por si só, pois somos vida humana”, pontua Atena.

Atena Roveda (Foto: Reprodução)

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional? 

Atena Roveda: Sou formada em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e atualmente sou mestranda em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sou escritora e editora e conto com seis livros publicados, sendo o livro “Contos Transantropológicos” meu primeiro livro e finalista do Prêmio Minuano e o mais recente “A Segunda Humanidade”.

GB: O que motivou a se candidatar?

Atena: Minha maior motivação tem sido em realidade a vontade de colaborar com uma construção política mais séria e qualificada. Séria no sentido de termos urgências e necessidades emergentes e que parecem não estar sendo solucionadas da maneira mais adequada pelos parlamentares em comunhão de trabalho com os executivos, seja municipal, estadual ou federal. E qualificada no sentido de sabermos exatamente onde estão os problemas e os focos que necessitam de prioridade e quais caminhos devemos nos guiar para atingir os objetivos de resolução de contextos como a miséria, a violência e a morte que são inaceitáveis para um povo tão cheio de vida e esperança como é o nosso povo brasileiro.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidata abertamente LGBTQ+?

Atena: Sendo uma mulher transexual, acredito que eu já possua uma armadura social firmada na luta diária contra o preconceito e a discriminação em sociedade. No campo da Política não é tão diferente, mas existe uma diferença: há uma polidez na forma com que se relacionam os sujeitos políticos. Por isso mesmo eu encaro o cenário do Congresso Nacional ou dos demais parlamentos como espaços de uma suspensão mais implícita de violência, sendo que já adaptada aos processos de risos e gracejos ou piadas e olhares, o foco da nossa candidatura é primeiramente mostrar para a sociedade que nenhuma ignorância ou nenhum ódio me barra. E que nisso, nenhum político ou projeto de lei mais vinculado a área conservadora desarticulará nossa capacidade política de lidar com os desafios do parlamento federal, muito pelo contrário, a disposição da nossa experiência frente a todos os sofrimentos que passei enquanto uma pessoa incluída na população LGBT só demonstra que todas e todos nós temos capacidade de ocupar esses espaços.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBTQ+?

Atena: Há um costume corriqueiro de eu dar conta de pautas exclusivas à questão LGBTI. Quando em verdade eu sempre afirmo: A população LGBTI é também a população brasileira. Ou por acaso, o arco-íris não passa fome? não necessita de moradia ou atendimento de saúde básica? Portanto, dar conta, enquanto parlamentar, de propostas básicas ao enfrentamento do que considero o desmantelar das estruturas públicas como o SUS, as instituições de Ensino Superior Públicas e os cortes na legislação trabalhista, tudo isso deve igualmente refletir sobre a existência de pessoas LGBTS. Mas é importante salientar que a maior urgência é a da preservação da vida humana que há em cada uma de nós, pessoas trans. O Brasil permanece no índice de mortalidade de mulheres e homens transexuais, travestis e pessoas não binárias. A capacidade de sensibilizar o parlamento e de priorizar o intenso diálogo com cada deputado e deputada é imperiosa e eu desejo uma base política democrática e humana. Em Porto Alegre, enquanto vereadora, sou autora do indicativo à Prefeitura para a formulação do Estatuto da Pessoa Trans. Documento esse que deve ser construído com pessoas trans que vivem a cidade de Porto Alegre e posterior trabalho de escrita textual com a OAB do RS. A comissão de direitos humanos da Câmara Municipal aprovou com cinco votos a favor e um contrário para a aprovação da indicação. Caso fosse votada hoje, o Projeto de Lei seria aprovado com 27 votos de 36 vereanças. E não por nada, mas por conta do trabalho de articulação que temos feito desde julho de 2022 quando assumi como parlamentar municipal. Com estratégia, inteligência e afeto se pode construir grandes avanços na sociedade. Veja bem, o Estatuto da Pessoa Trans tem sido trabalhado por nós, a nível municipal, para receber o mesmo peso legal que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o do Idoso, da Igualdade Racial, da Mulher. Porto Alegre será a primeira capital do mundo a aprovar uma legislação sobre direitos e deveres civis de pessoas transexuais, travestis e não binárias. Esse é o resultado da nossa prática política séria e qualificada.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Atena: Enquanto futura Deputada Federal, meu principal papel será envolver demais parlamentares nesse projeto de um Brasil sem Discriminação alguma no que refere as questões de orientação sexual e identidade de gênero. Mas isso precisa ser muito bem pensado e articulado no plano político local. A primeira medida é olharmos para o tema como um espaço de diálogo e entendimento mútuo entre as partes conservadoras e progressistas. Essas duas forças devem entender que a discussão não está em validar ou não a existência LGBT, pois ela já é válida por si só, pois somos vida humana. Entretanto, a garantia dos direitos constitucionais é que precisa ser o grande foco de trabalho nessa medida dialógica. A segunda medida é um firme acesso ao futuro executivo para que o governo federal delibere projetos especiais de combate à intolerância social nas instituições públicas. Não somente punir os atos discriminatórios, mas produzir uma frente de educação popular em cada canto do país, para que se evite precisar mais na frente centenas de punições na lei. A terceira medida e talvez a mais fundamental é a de possibilitar compreender as diversas populações LGBTs que existem em nosso país. Não existe uniformidade na nossa causa. Envolvendo a experiência de sexualidade e identidade, fundamentalmente existem as bases da étnica racialidade, da formação das diversas crenças religiosas e nos aspectos de base econômica. Então é perigoso afirmarmos que existe uma unidade na luta LGBTI nacional, quando se precisa uma maior seriedade na escuta local em cada uma das capitais e em cada uma das cidades brasileiras. Como Deputada Federal, preciso escutar cada pessoa LGBT dos 497 municípios do Estado do Rio Grande do Sul e muitos se espantariam ao saberem que nem todos e todas LGBTs pensam e vivem com a mesma visão sobre os caminhos para enfrentarmos a LGBTfobia.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Atena: A PrEP é um produto científico que deve ser avaliado no seu potencial social e de uso público. Os impactos devem ser estudados tanto pelos pesquisadores das áreas médicas como igualmente pelos estudiosos da psicologia, pois enquanto mulher que vive com HIV desde 2014, o fenômeno da minha experiência sorológica não parte do corpo para minha mente, mas de como eu psiquicamente encaro meu corpo em uma sociedade sorofóbica. Tudo o que pode nos favorecer a proteção contra vírus e bactérias é de fundamental preciosidade social, mas igualmente precisamos compreender que é nos processos educacionais da inteligência humana que despertamos os mais preciosos meios de prevenção a respeito da saúde de nossas existência em sociedade.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Atena: Avalio como o governo mais desqualificado que o Brasil já elegeu desde a redemocratização.

GB: O que você pediria para quem está te conhecendo agora?

Atena: Eu pediria que me seguissem nas redes sociais @atenaroveda e que divulgassem nosso trabalho político que tem bases culturais, educacionais e fundamentalmente afetivas. Que se quem me lê conhece alguém que mora no estado do Rio Grande do Sul, que indique nosso perfil no Instagram ou essa entrevista mesmo para que mais e mais as pessoas conheçam nossa qualidade política e venham construir um futuro mandato da primeira mulher transexual no Congresso pelo estado de Leonel Brizola.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)