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Deia Zulu (PT), de 50 anos, é candidata a deputada estadual de São Paulo. Lésbica e relações públicas, ela trabalha com Direito Previdenciário e mora na capital paulista. Atual dirigente municipal do Partido dos Trabalhadores, como secretária do combater ao racismo, a candidata é candomblecista, feministas e militante do movimento negro.

A relações públicas faz parte da candidatura do Coletivo Afrofuturista, composta também pela socióloga Mayara Amaral e pelo babalorixá Pai Odesi. “A principal proposta é trabalhar pela cidadania dos LGBTQIA+ e de forma transversal nas políticas públicas e projetos do governo, dar voz à comunidade em colaboração aos projetos de lei”, afirma Deia.

“Entendo que tudo na vida é política, tanto a partidária quanto a que permeia o acesso da população carente a uma suposta justiça social, seja pelos programas, pela luta com sindicatos e entidades, mas principalmente com o povo na rua”, pontua a candidata, que é uma das entrevistadas no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Deia Zulu, candidata a deputado estadual pelo PT de SP (Foto: Reprodução/ Facebook)

Confira na íntegra a entrevista com Deia Zulu

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional?

Deia Zulu: Eu sou formada em Comunicação – Relações Públicas. Atualmente, depois de uma pós-graduação, atuo na área do Direito Previdenciário, como forma de fazer justiça social às pessoas que, por N fatores, não conseguem sem ajuda profissional se aposentar, visto os obstáculos imputados pela reforma da previdência e atendimento ruim da autarquia. Atualmente, sou dirigente municipal do Partido dos Trabalhadores, como Secretária do Combate ao Racismo. 

GB: O que motivou a se candidatar?

Deia: Entendo que tudo na vida é política, tanto a partidária quanto a que permeia o acesso da população carente a uma suposta justiça social, seja pelos programas, pela luta com sindicatos e entidades, mas principalmente com o povo na rua.

Meu corpo negro periférico é politico, estampo nas cicatrizes externas e internas a vida precarizada por conta do racismo estrutural, por ser lésbica, por usar o meu cabelo de forma natural, e ao passar dos anos não me dobrar.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Deia: Não recebi criticas diretas, mas tenho recebido acolhimento. Nunca escondi a minha condição de lésbica e isso faz com que as pessoas tratem o assunto como parte da minha vida e não como especulação, preconceito. Mas, confesso que essa normalidade pode também ser carregada do silenciamento e do apagamento desta condição.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Deia: Meus eixos transversais de campanha são: combate ao racismo; contra a Intolerância às religiões de matriz africana; mulheres; cultura; infância e adolescência; servidores públicos; educação inclusiva e antirracista; fomento à criação de cursinhos populares. 

A principal proposta é trabalhar pela cidadania dos LGBTQIA+ e de forma transversal nas políticas públicas e projetos do governo, dar voz à comunidade em colaboração aos projetos de lei. Trabalhar juntamente com a bancada do PT para que a cultura receba um aporte de pelo menos 1% do orçamento do Estado e com recursos possamos transferir as secretarias de turismo dos municípios e ou direitos humanos recursos, para realização de paradas pelo interior, com implemento através da cultura na criação de cursos e empregos à todes os LGBTQIA+.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Deia: Conhecimento, educação é o principal. Infelizmente nossos corpos em grande medida são vistos como caricatos, sofremos abusos  psicológicos, tanto na família, no trabalho pela sociedade heteronormativa. Além da perseguição política dos conservadores, neopentecostais, etc.

Então, a promoção social dos LGBTQIA+ tem que ser propagada, atuando junto às casas de acolhimento e dando condições de atendimento pelo SUS dos casos em que uma intervenção de profissionais especializados seja necessária.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Deia: O HIV ainda é uma sombra na nossa comunidade. Eu, quando adolescente no colegial, me lembro da preocupação dos professores com o número alarmante de pessoas infectadas e eles promoveram uma palestra com um paciente que à época se tratava com os primeiros coquetéis. Com a informação correta, sem alcunhas jocosas, tive a possibilidade de ter entendimento sobre a doença e seus tratamentos iniciais. Com a evolução da medicação, viver com o HIV passou a ser uma endemia. O PrEP, mesmo não sendo para todos e com indicação para pessoas que possam ter mais exposição ao vírus, é uma garantia da não disseminação da doença. Temos, também, que desmistificar que a doença só está na nossa comunidade e que sim é possível ter uma vida sexualmente ativa com o uso de preservativos, controle médico e preferencialmente ter muita clareza com o parceiro caso seja portador.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Deia: Não tem avaliação… É um remendo de fundamentalismo religioso, pregação neoliberal, sucateamento do Estado. Total ignorância e relutância em se acreditar na ciência. Sem falar nos vexames, ilações e quizilas internacionais protagonizadas nos últimos tempos. Temos que ter clareza de pensamento que à eles só interessa que sejamos colônia dos interesses geopolíticos na região dos EUA.

GB: Dentro da  comunidade LGBTQIA+ as lésbicas são invisibilizadas?

Deia: Nós, lésbicas, mesmo sendo a primeira letra, as que no exterior abrem as paradas em suas motos, as que dão um boi pra não entrar na briga contra a comunidade e uma boiada para não sair, as que são ombro amigo para muitos. Sim, somos inviabilizadas pelo movimento, invisibilizadas na sequência da vida enquanto mulheres envelhecidas, sem cuidados especializados em ginecologia, geriatria. Enquanto homens gays e pessoas trans, mesmo com o passar dos anos, conseguem manter acesso a comunidade e entretenimento.

Pelo Estado, no que tange o desamparo, na inexistência de políticas públicas, de emprego e renda, moradia e saúde onde a inclusão chegue a nós e com isso sejamos cidadãs. Do ponto de vista social, podemos elencar além da lesbofobia, a misoginia o machismo inclusive dentro da própria comunidade e dentro do movimento de mulheres, feministas. A tensão desproporcional de apagamento também impede as lésbicas de se fortalecerem enquanto comunidade ativa e respeitada tanto na politica como nas causas sociais.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)