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Professor da rede pública e educador comunitário em saúde LGBT+, Gabriel Mota (PCdoB), de 30 anos, concorre a deputado estadual no Amazonas. Gay, ele é morador de Manaus (AM) e fundador da Casa Miga, único abrigo que acolhe LGBT+ em vulnerabilidade na região norte do país.

Gabriel Mota, candidato a deputado estadual pelo PCdoB do AM (Foto: Reprodução/ Facebook)

De acordo com o Gabriel, o Amazonas nunca teve um parlamentar abertamente gay ou de qualquer outra letra da sigla LGBTQIA+. “Logo, sempre nossas pautas foram negligenciadas ou reduzidas a festas e honrarias que não alcançam o nível de política pública”, conta o candidato.

“Como professor, conhecedor da realidade da sala de aula da educação pública, sei que há muito o que ser fiscalizado no legislativo para que seja entregue um serviço de qualidade para os estudantes, bem como articulação legislativa para que os investimentos na valorização do/a professor/a sejam coerentes com a realidade que vivemos no país”, acrescenta ele.

Entre suas propostas, o candidato assumiu nove principais compromissos para serem alcançados ao longo do mandato, que passam por diversas áreas. “[…] Eu quero ser o parlamentar que irá defender a educação pública e o SUS”, afirma Gabriel, que é um dos entrevistados da semana no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Gabriel Mota (Foto: Reprodução/ Instagram)

Confira na íntegra a entrevista com Gabriel Mota

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional? 

Gabriel Mota: Sou professor da rede pública de ensino, formado pela Universidade Federal do Amazonas em Letras – Língua e Literatura Inglesa, educador comunitário para prevenção do HIV e ISTs e ativista dos direitos humanos LGBTQIA+. Fui líder comunitário no bairro de Aparecida (zona sul de Manaus) e atualmente exerço o cargo de Secretário Estadual de Movimentos Sociais do PCdoB, sou membro do Fórum Estadual de Educação do Amazonas e fundador da Casa Miga, o único abrigo que acolhe LGBTs em vulnerabilidade na região norte do país.

GB: O que motivou a se candidatar?

Gabriel: A falta de representatividade e a inquietação com o desmonte da coisa pública no Brasil. O Amazonas nunca teve um parlamentar abertamente gay ou de qualquer outra sigla da comunidade LGBTQIA+, logo, sempre nossas pautas foram negligenciadas ou reduzidas a festas e honrarias que não alcançam o nível de política pública. Como professor, conhecedor da realidade da sala de aula da educação pública, sei que há muito o que ser fiscalizado no legislativo para que seja entregue um serviço de qualidade para os estudantes, bem como articulação legislativa para que os investimentos na valorização do/a professor/a sejam coerentes com a realidade que vivemos no país. No campo da saúde, assisto o desmonte do SUS num momento onde o mesmo deveria está sendo fortalecido, afinal, foi graças a ele que salvamos muitas vidas ao longo da pandemia. Vivemos em uma sociedade que movimenta os cidadãos e cidadãos a desacreditar dos serviços públicos, e eu quero ser o parlamentar que irá defender a educação pública e o SUS.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Gabriel: O desafio começa em buscar um partido que nosso corpo possa ser recebido, acolhido e investido. Falo investido porque muitas vezes os partidos dizem abraçar nossa causa mas nos usam de totem ou tentam ter controle sobre nosso comportamento. É também desafiador encontrar espaço para tornar nossa candidatura viável nesses espaços, pois sempre haverá uma outra prioridade. E por fim, conseguindo a candidatura, vem a questão do investimento. Uma campanha precisa do fundo partidário para colocar o nome e o número do candidato na rua. Se o partido não entender isso, não valerá de nada está deixando o nome à disposição.

No dia a dia da campanha, posso citar o medo da rejeição e a ansiedade que isso causa. Mesmo que as vezes nosso corpo tenha passabilidade, sempre há momentos onde nossa sexualidade é questionada. Seja por nossas atitudes, gestos ou maneira de falar. Muitas vezes as pessoas estão abertas a nos receberem do jeito que somos, porém, quando acontece o contrário, a rejeição é notável e isso deixa um sentimento muito ruim dentro da gente. É como se até na política o ideal de que devemos sempre ser os melhores nos perseguisse.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Gabriel: Eu assumi nove principais compromissos para serem alcançados ao longo do mandato: Fiscalizar e acompanhar o uso dos recursos destinados à Educação da rede estadual de ensino, para que os investimentos sejam aplicados de maneira responsável no serviço prestado aos alunos/as e na valorização dos profissionais da educação; Aproximar fóruns, comissões e grupos de trabalho em educação para garantir que as demandas dos professores/as e demais profissionais da área sejam apreciadas e consideradas na construção de políticas públicas educacionais; Fiscalizar ostensivamente os recursos e a execução dos recursos destinados à Saúde Pública; Promover e garantir meios para que a Saúde Pública do Amazonas acompanhe a Declaração Política 95-95-95 da UNAIDS, que tem como objetivo dar uma resposta à epidemia de HIV/AIDS no mundo; Propor ao executivo projetos para inclusão e manutenção de pessoas trans em ambientes educacionais e de saúde, bem como capacitação e geração de oportunidade no mercado de trabalho formal e em iniciativas de economia criativa e artístico-cultural; Destinar emenda parlamentar para projetos sociais que apoiem a comunidade LGBTQIA+, como a Casa Miga, visando transformar esses lugares em pontos de referencia para pessoas da comunidade em vulnerabilidade; Apoiar iniciativas e projetos esportivos através de articulação com o executivo e destinação de emendas parlamentares; Destinar emendas parlamentares para projetos sociais que tenham como foco: a defesa e promoção do direito das mulheres, apoio à crianças em vulnerabilidade social, acolhimento e promoção da qualidade de vida do idoso e iniciativas de sabedoria e conhecimento popular indígena; Propor a criação de um observatório ambiental com foco na preservação e recuperação de igarapés, lagos e rios e fiscalização ostensiva das leis vigentes de proteção ambiental.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Gabriel: É preciso muito investimento em educação e de uma intervenção no Congresso Nacional na Base Nacional Comum Curricular – BNCC para que os textos sejam aprovados dando visibilidade as diversidades que são encontradas nas escolas, que são os maiores espaços de propagação da LGBTfobia, mas que também podem ser espaço de desconstrução de preconceitos e descriminação. Apenas criminalizar não vai bastar se o governo federal não se comprometer completamente com as intervenções estruturais que precisam ser feitas em diversas áreas. Por isso, é preciso que o poder público entenda como à LGBTfobia se expressa em campos como saúde, educação e segurança, por exemplo, para que intervenções educativas sejam feitas da gestão até a ponta. E, o principal, nós precisamos ocupar esses lugares de tomada de decisão. Não basta apenas um. Temos que ser muitos. 

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Gabriel: Eu participei da implementação da PrEP no Brasil, pois sou educador comunitário no projeto ImPrEP, que iniciou em 2018 e avaliou como foi o uso das populações-chave com esse método de prevenção. Por isso, sou muito entusiasta da expansão do serviço e inclusive através de muita articulação com poder público em 2022 conseguindo que Manaus saísse de um único local oferecendo PrEP para seis locais em todas as zonas da cidade. Em breve estará sendo iniciada a implantação da PrEP injetável de longa duração e é preciso que o governo brasileiro abrace as evidências científicas e pensem mais no benefício para as pessoas que precisam receber a medicação nessa modalidade do que o custo que isso trará para os cofres públicos. É preciso investir tudo para que nós alcancemos as metas estipuladas pela UNAIDS. Pra além de PrEP, é importante também ter o cuidado de não fazer da PrEP uma política pública de “higienização” entre as populações-chave, como já foi visto muito nas redes sociais “se usa PrEP, então está ~limpo~“. A PrEP veio para colaborar na prevenção combinada, e de maneira alguma deve ser usada para oprimir outras pessoas. Por isso, é necessário que o Brasil divulgue, promova e consolide o I=I, indetectável é igual a intransmissível e, por fim, combata o maior inimigo do HIV/AIDS hoje, que é o estigma. 

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Gabriel: Negligente, truculento e irresponsável. O pior presidente possível para os movimentos sociais e avanço das pautas progressistas. Não tem muito o que falar, apenas continuar trabalhando para tirá-lo de primeira. A estrela vai voltar a brilhar.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)