O longa-metragem “A Paixão Segundo G.H.B.”, dirigido por Gustavo Vinagre e Vinícius Couto, faz sua primeira exibição no Brasil, dentro do Festival Olhar de Cinema, em Curitiba. A produção brasileira terá duas sessões no festival: a primeira nesta quinta-feira, às 17h30, na Cinemateca de Curitiba, e a segunda na sexta-feira, 12, às 13h45, no Cine Passeio, sala Ritz.
O filme chega ao país após trajetória internacional iniciada no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, onde teve estreia mundial, e de passagem pelo BAFICI, em Buenos Aires, que o apresentou como première americana. No Olhar de Cinema, a produção integra a mostra Novos Olhares, dedicada a longas com experimentação de linguagem.

Na trama, um encontro casual entre dois homens se transforma em um ménage à trois e, depois, em uma experiência coletiva. O protagonista Matias, interpretado por Vinícius Couto, revisita relações afetivas e sexuais enquanto conversa com uma figura fictícia inspirada na literatura brasileira. A referência mais direta está em “A Paixão Segundo G.H.”, romance publicado por Clarice Lispector em 1964, que o filme desloca para um quarto gay, em São Paulo.
O título nasceu, segundo o material de divulgação, de uma ideia provocativa: aproximar o livro de Clarice de uma orgia gay. A operação, no entanto, não se limita ao trocadilho. Em “A Paixão Segundo G.H.”, a protagonista atravessa uma experiência de perda de linguagem e desorganização subjetiva. No filme, essa dimensão aparece associada à memória, dissociação, desejo e uso de substâncias.
O chemsex é termo usado para definir a prática de uso de substâncias psicoativas em contextos sexuais, geralmente associado à intensificação ou prolongamento da experiência. No longa de Vinagre e Couto, o tema aparece dentro de uma rede de encontros por aplicativo, conversas íntimas, sexo coletivo e tentativas de elaboração afetiva. O Festival de Rotterdam descreveu o filme como uma “odisseia de quarto gay” em que as conversas de Matias com parceiros do Grindr passam para atos sexuais, enquanto drogas simuladas dão lugar a intimidades não simuladas.

A escolha dos diretores é observar esse território sem apagar o risco e sem reduzir os personagens a um caso clínico. Em comunicado por e-mail ao Gay Blog BR, Gustavo Vinagre e Vinícius Couto afirmam: “A Paixão Segundo G.H.B. nasce da urgência de confrontar o silêncio em torno do chemsex, propondo uma abordagem que privilegia memória, sensação e afeto em vez de julgamento moral. A narrativa é estruturada em dois movimentos: um primeiro marcado por excesso e paixão, e um segundo por repetição e esgotamento, refletindo ciclos recorrentes de desejo e limite.”
Essa formulação ajuda a situar o filme em uma chave menos simplista. Falar de chemsex no cinema brasileiro envolve lidar com prazer, saúde sexual, saúde mental, solidão, aplicativos, intimidade e risco. A UNAIDS e o UNODC, em material voltado a profissionais de saúde, tratam o tema a partir de cuidado não julgador, redução de danos, prevenção ao HIV e outras ISTs, saúde mental e acesso a serviços. A orientação é que abordagens moralizantes podem afastar pessoas de atendimento e dificultar conversas sobre práticas, riscos e necessidades de cuidado.
No caso de “A Paixão Segundo G.H.B.”, o silêncio citado pelos diretores não é apenas a ausência de debate público. É também a dificuldade de nomear experiências que misturam excitação, vulnerabilidade, busca de vínculo e esgotamento. A crítica publicada após o BAFICI observou que a superfície do filme está nos encontros casuais atravessados por chemsex, mas que a obra também toca consumo de substâncias, sexo, risco, marginalidade, solidão e morte.

O elenco reúne Vinícius Couto, Igor Mo, Rodrigo Campos, Luciano Falcão, Christiane Tricerri e Jessé Jorge. A produção é da Carneiro Verde Filmes, com distribuição nos cinemas brasileiros pela Cajuína Audiovisual.
Serviço
Filme: “A Paixão Segundo G.H.B.”
Direção: Gustavo Vinagre e Vinícius Couto
Cidade: Curitiba, Paraná
Festival: Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
Sessões: quinta-feira, 11 de junho, às 17h30, na Cinemateca de Curitiba; e sexta-feira, 12 de junho, às 13h45, no Cine Passeio, sala Ritz
Classificação: 18 anos
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