A estimativa de 36,8 mil pessoas divulgada após a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo não mede o público total que circulou pelo evento no domingo, 7 de junho. O número, tratado por parte da imprensa como dado “da USP”, foi publicado pela More in Common Brasil em parceria com o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e se refere à presença simultânea registrada às 14h37, horário que o levantamento classificou como “pico”, embora a divulgação pública não apresente registros posteriores que permitam verificar se aquele foi, de fato, o maior momento de concentração.
Em uma Marcha LGBTQIA+, o público não se comporta como plateia fixa. A Parada SP não teve uma única janela temporal. A programação pública anunciava atividades a partir das 10h; a operação da CET previa montagem dos trios e concentração desde 0h, concentração oficial às 12h e desfile das 14h às 18h. A contagem das 14h37, portanto, ocorreu no início da janela oficial do desfile e dentro de um evento cujo público chega em horários variados, circula, acompanha trechos diferentes dos trios e seguia pela Avenida Consolação sentido Centro.
Contagem “da USP”
O dado ganhou circulação em parte da imprensa como se fosse uma contagem “da USP”. Portais populares usaram formulações desse tipo em títulos ou chamadas, embora os textos também mencionem o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e a More in Common. A diferença não é apenas institucional. Quando um número é associado genericamente à USP, a sigla funciona como selo de autoridade antes que o público compreenda quem mediu, como mediu e o que foi efetivamente medido.
O Monitor se apresenta como “projeto de pesquisa fundado em 2015 na Universidade de São Paulo e atualmente sediado no Cebrap”. O site do grupo informa que ele surgiu no âmbito do GPoPAI, Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, e que o vínculo acadêmico com a USP é pela origem do projeto e por integrantes da equipe. Isso não equivale, nas fontes públicas consultadas, a uma divulgação institucional da Universidade de São Paulo como Reitoria ou comunicado oficial.
O Cebrap tem história própria e não é órgão da USP. O Memorial da Resistência registra que o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento foi fundado em 1969 por professores afastados do ambiente universitário durante a Ditadura, com o objetivo de produzir conhecimento crítico e independente sobre problemas sociais do país.
A More in Common Brasil, por sua vez, se apresenta como organização sem fins lucrativos e não partidária, financiada por filantropia e investimento social. Sua página institucional diz que a entidade atua com pesquisa, diálogo e colaboração em torno de coesão social, democracia e polarização.
O que foi contado às 14h37
Segundo a More in Common, a estimativa tem margem de erro de 12%, o que situa o público entre 32,3 mil e 41,2 mil pessoas às 14h37. A entidade informa que foram feitas fotos em seis horários: 11h32, 12h22, 12h58, 13h32, 14h12 e 14h37. Para a contagem divulgada, foram selecionadas 27 fotos tiradas por volta das 14h37, com a justificativa de que elas cobriam a extensão do evento sem sobreposição.
Esse recorte define o alcance do resultado. A contagem estima quantas pessoas estavam visíveis nas imagens selecionadas naquele momento. Ela não informa quantas pessoas chegaram antes, quantas saíram depois, quantas permaneceram por pouco tempo, quantas circularam pelas laterais, quantas ocuparam bares, calçadas e ruas adjacentes, nem quantas passaram pela Avenida Paulista e pela Rua da Consolação ao longo de toda a programação.
O método usado foi o Point to Point Network, conhecido como P2PNet. Segundo a More in Common, o procedimento utiliza drone e software de inteligência artificial para identificar cabeças em imagens aéreas e marcar pontos correspondentes a indivíduos. A organização informou precisão de 72,9%, acurácia de 69,5% e erro percentual absoluto médio de 12% para grupos acima de 500 pessoas.
Na formulação acadêmica, o P2PNet foi desenvolvido para contagem e localização de indivíduos em multidões a partir de pontos que representam cabeças em imagens. O artigo original descreve a técnica como estrutura para crowd counting e localização individual, não como método autônomo para estimar público acumulado em eventos de várias horas.

Pico, acumulado e público único
A distinção entre presença simultânea e público acumulado não é uma invenção do debate sobre a Parada SP. Padrões de mensuração de eventos diferenciam total attendance, entendido como presença acumulada de participantes e espectadores ao longo de dias ou sessões, de unique spectators, que são pessoas únicas após deduplicação de presenças repetidas. A International Association of Event Hosts também observa que calcular audiência em eventos gratuitos e sem ingresso é mais difícil e exige cuidado com repetição, fluxo e ausência de controle de entrada.
Aplicada à Parada, essa distinção produz três perguntas diferentes. Quantas pessoas estavam presentes às 14h37? Quantas presenças ocorreram ao longo de todo o domingo? Quantas pessoas diferentes participaram do evento? A estimativa divulgada responde à primeira pergunta, dentro das condições do método. Não responde às duas seguintes.
A mesma lógica aparece em eventos de fluxo contínuo. Uma casa noturna pode ter determinada lotação simultânea e receber público maior ao longo da noite, conforme entradas e saídas se sucedem. A pista cheia em um horário não equivale automaticamente ao total de frequentadores da programação. A Parada, por ser aberta, urbana e em deslocamento, exige cuidado ainda maior: não há catraca, ingresso nominal, perímetro fechado ou permanência fixa.
A janela oficial era maior que o retrato
O horário da contagem precisa ser lido dentro da programação operacional do evento. A Prefeitura de São Paulo, por meio da CET, informou que a montagem dos trios elétricos e a concentração do público começariam à 0h de domingo na Avenida Paulista. A concentração oficial estava prevista para as 12h, e a Parada, como desfile, das 14h às 18h. A operação de trânsito foi programada das 20h de sábado às 21h de domingo.
Nesse cronograma, a contagem das 14h37 pode ser lida como uma fotografia estatística daquele momento, mas não como síntese de um evento que começava a se formar desde a madrugada, tinha concentração antes do desfile e seguia por um percurso em direção ao Centro.
O trajeto reforça a necessidade de cautela. Segundo a CET, os trios partiriam da Avenida Paulista, sentido Consolação, nas proximidades da Rua Peixoto Gomide e do MASP, seguiriam pela Rua da Consolação em direção ao Centro, desligariam o som na Rua Caio Prado e iniciariam a desmontagem na Rua da Consolação, sentido Rua Maria Paula. A Praça da República aparece no material oficial como referência de rota alternativa de trânsito, não como ponto operacional de encerramento dos trios.
Ainda é cedo
A limitação temporal fica mais clara quando se aplica a mesma lógica às instituições envolvidas. A contagem das 14h37 ocorreu quando havia transcorrido cerca de 15% da duração prevista do desfile, considerando a janela oficial das 14h às 18h.
Se a trajetória do Monitor do Debate Político, fundado em 2015, fosse comprimida nessa mesma escala, o seu “14h37” cairia aproximadamente entre 2016 e 2017. No caso do Cebrap, criado em 1969, o “14h37” institucional estaria por volta do fim dos anos 1970. Para a More in Common Brasil, cuja operação no país começou em 2025, o mesmo recorte reduziria sua atuação nacional a uma fase ainda inicial, antes que qualquer trajetória pudesse ser observada com distância.
A analogia não pretende comparar instituições à Parada, mas expor o limite de um recorte temporal. Um registro feito no “14h37” de uma trajetória pode ser informativo, mas não permite resumir o percurso inteiro.

A leitura de Bruna Irineu
Coautora de “Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência”, Bruna Andrade Irineu analisa a contagem da Parada a partir da relação entre dados, visibilidade e disputa política. Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso, ela também é coautora de “Diversidade Sexual e de Gênero e Marxismo”, publicado pela Cortez em 2024.
Em artigo enviado ao GAY BLOG BR, Bruna reposiciona a discussão do campo puramente numérico para o campo da autoridade. A pergunta, em sua leitura, não é apenas quantas pessoas estavam na avenida em determinado momento, mas quem passa a ter legitimidade para definir, por meio de números, a dimensão pública de uma mobilização LGBTQIA+.
A pesquisadora aproxima a controvérsia do que chama, com base em Emmanuel Didier e Cyprien Tasset, de estatativismo: o uso político da quantificação por movimentos sociais que recusam entregar a instituições, pesquisadores ou governos o monopólio sobre a interpretação dos dados. No caso LGBTQIA+, essa disputa tem histórico próprio, porque parte importante da visibilidade do movimento foi construída também pela produção de levantamentos sobre violência, assassinatos, acesso a direitos e presença nas ruas.
Bruna também relaciona a reação aos 36,8 mil à tradição de produção de estatísticas pelo ativismo LGBT+ brasileiro. Ela cita pesquisas como a de João Galbieri, sobre estatísticas e ativismos LGBTI+, e estudos de Thiago Coacci, que discutem como movimentos sociais criaram seus próprios repertórios numéricos para disputar políticas públicas em uma linguagem reconhecida pelo Estado.
Nessa chave, a contestação do número não aparece como recusa à pesquisa, mas como disputa sobre enquadramento. O que está em jogo é o modo como um dado técnico passa a circular em ambiente de conflito político, especialmente quando a Parada chega aos 30 anos sob pressão legislativa, redução de patrocínios e tentativas de restringir sua presença no espaço público.
Livro ‘Violência Algorítmica’ analisa como big techs afetam a circulação de pautas LGBTQIA+
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