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O termo pode ser pouco conhecido para alguns: “chemsex”, abreviação de “chemical sex” (sexo químico). A prática, popularizada com o verbete em inglês mesmo, se refere ao sexo potencializado pelo consumo de drogas e outras que visam funções como ereção prolongada.

Para esclarecer sobre o assunto, o SCRUFF Responde procurou o psicanalista e psiquiatra Bruno Branquinho para esclarecer algumas das perguntas de leitores.

Bruno Branquinho – Reprodução

Recentemente você escreveu um artigo muito interessante sobre sexo com drogas. Quais são as drogas mais utilizadas no chemsex? E de onde originou essa prática?

Primeiramente, precisamos estabelecer qual definição de chemsex estamos utilizando (há inúmeras). Se a definição for simplesmente sexo sob influência de substância psicoativa, a droga mais comum utilizada é o álcool, pois é a droga mais utilizada no mundo e muitas pessoas acabam tendo relações sexuais sob sua influência, mesmo que sem intenção ou planejamento. Agora, se pensarmos chemsex como o sexo com uso proposital de drogas para aumentar performance, prazer, diminuir barreiras, como timidez e preconceito internalizado, as drogas mais utilizadas são a metanfetamina (também chamada popularmente de Tina, Ice, Speed ou cristal), o GHB (gama-hidroxibutirato – também chamado de Gi) – e seu precursor, GBL  (gama-butirolactona) e a mefedrona (esta última mais comum no exterior). No entanto, outras drogas são utilizadas também, como a cocaína, o MDMA, o poppers etc. Há relatos de relações sexuais sob influência de substâncias já na Antiguidade. No entanto, na atualidade, a prática se popularizou e ganhou notoriedade principalmente no Reino Unido, onde já é um problema de saúde pública.

O que são drogas psicoativas?

Drogas ou substâncias psicoativas são substâncias que agem no nosso sistema nervoso central, alterando funções cerebrais e levando a alterações na nossa percepção, no nosso estado de consciência, no nosso humor, no nosso comportamento, entre outros.

O GHB pode ter efeito desinibidor sobre a pessoa; o uso dessa substância pode estar associado a uma baixa autoestima de alguém que não se sente dentro de um “modelo padrão” na comunidade LGBT?

Não apenas o GHB, mas também a metanfetamina e outras drogas podem ter esse efeito desinibidor sobre a pessoa, fazendo com que ela se sinta mais à vontade não só com seus corpos, mas também em realizar práticas sexuais menos ortodoxas e até mesmo em lidar com seus próprios preconceitos e angústias. A questão relacionada ao corpo padrão é uma questão importante dentro da comunidade da LGBT (e da nossa sociedade como um todo), mas é apenas um dentro de uma infinidade de fatores relacionados à prática do chemsex.

Essa não é uma prática exclusiva da comunidade LGBT, longe disso. Mas o que tem ficado evidente e se apresenta em alguns trabalhos científicos (e na prática clínica) é que o chemsex é mais frequente em homens gays e bi do que na população cis e heterossexual.

Esse tipo de prática é mais comum entre os gays? A inibição de muitos com baixa estima pode ter a ver com o culto do corpo “padrão”?

A comunidade gay (e LGBT no geral) é uma comunidade que sofre muito preconceito ao longo de sua vida, com repetidas experiências negativas, vivendo com estigma e vivências de violência frequentes. Isso tem um impacto negativo sobre sua saúde mental, o que faz com que ela esteja mais sujeita ao uso de drogas, por exemplo.

A questão dos estereótipos e do corpo padrão é algo presente na comunidade gay, mas não só nela, vemos isso em toda a sociedade (as mulheres nas capas de revista são um exemplo disso). É claro que precisamos, como comunidade, nos questionar a respeito e tentar desconstruir essa ideia, pelo nosso bem estar e nossa própria saúde mental, mas mesmo essa busca pelo corpo perfeito também reflete uma sensação de inadequação e de busca por aprovação decorrentes do preconceito vivido. Então, acho complicado responsabilizar a comunidade pelo avanço da prática.

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Dentre as drogas mencionadas, algumas delas combinadas podem resultar na morte de uma pessoa com uma predisposição a determinadas doenças? Quais seriam elas?

Todas as drogas apresentam riscos, mesmo que em quantidades menores ou usos infrequentes. No caso do chemsex, a combinação de drogas diferentes aumenta o risco de problemas para a pessoa, inclusive de morte.

O GHB é uma droga perigosa, pois é um anestésico que tem efeitos depressor do sistemas nervoso central. A diferença entre a dose que dá um “barato” e a dose que pode causar problemas sérios é muito pequena, por vezes de alguns mililitros. Quando combinado com outra droga que também tenha esse efeito no sistema nervoso central, como o álcool, por exemplo, isso pode ter efeitos graves sobre a pessoa, incluindo a morte.

A combinação de algumas dessas drogas aumenta drasticamente a libido sexual, a ponto do usuário participar de sessões de sexo que podem durar dias. As pessoas costumam ter alguma consciência quando está sob o efeito delas? Existe um grau de consciência?

Sim. Não é incomum que praticantes do chemsex participem de sessões de sexo que durem horas e por vezes até dias. O seu estado de consciência vai depender de cada caso, da droga utilizada e sua quantidade. Há pessoas que relatam se lembrar de tudo e pessoas que por vezes se esquecem de alguns fatos que aconteceram.

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Você acredita que a prática do chemsex pode aumentar os índices de HIV e IST no país?

Sim, a prática do chemsex também pode contribuir com o aumento da chance de contrair IST, pois muitas vezes esses homens, sob efeito das drogas, se esquecem de usar preservativos ou de tomar a PrEP (lembrando que muitas vezes as sessões de sexo podem durar mais de 24h), além de se relacionarem com maior número de pessoas nessas sessões de sexo. As práticas mais extremas, como fisting e dupla penetração, também aumentam risco de lesões, o que pode ser um fator de risco para IST.

O maior risco do chemsex é a dependência? Você como psicanalista/psiquiatra tem atendido muitos pacientes dependentes dessas drogas?

Essa prática tem diversos riscos e a dependência, tanto física como emocional, é um deles. Nos últimos meses, recebi sim muitos homens no consultório que me procuraram por conta disso.

O chemsex tem mais incidência quando há sexo grupal ou alguma modalidade?

Não necessariamente. Há sim estudos mostrando que praticantes de chemsex têm maior número de parceiros sexuais em relação aos não-praticantes e muitas pessoas relatam usar as drogas para realização de fetiches e práticas que não conseguem realizar quando não estão sob efeitos das drogas (como por exemplo o fisting, a dupla penetração, sexo sadomasoquista etc). No entanto, há pessoas que usam as drogas para relações sexuais apenas com um parceiro e sem fetiches específicos.

Na sua opinião, o que pode ser feito para reduzir essa prática que traz muito mais malefícios do que benefícios?

Pergunta de 1 milhão de dólares. Acho que é um problema muito complexo e que precisaria ser pensado e tratado com maior atenção e cuidado do que até agora. Acho que inicialmente precisamos não ignorar a questão, mas falar sobre ela, porque, apesar de ser algo muito presente e comum, principalmente em grandes centros, pouco se fala ainda sobre os problemas e os efeitos nocivos da prática.

Acredito que dar a oportunidade a essas pessoas de pensarem nisso e de questionarem se isso é um problema pode ajudá-los a procurar ajuda, quando for o caso. Capacitar os profissionais de saúde para um olhar não julgador e receptivo para auxiliar essas pessoas também é necessário.

Bruno Branquinho – Psiquiatra formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. É também psicanalista de orientação lacaniana e atua como psiquiatra voluntário no projeto da Casa 1.

Instagram: @mr.littlewhite
Twitter: @mr_littlewhite
E-mail: brunofbranquinho@gmail.com

Bruno Branquinho foto pessoal
Bruno Branquinho – acervo pessoal

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