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Enquanto dia 19 de agosto é celebrado Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro, o 29 de agosto é considerado o Dia da Visibilidade Lésbica no Brasil. O dia 19 é em memória à primeira grande manifestação de mulheres lésbicas no país, ocorrida em São Paulo, em 1983, no que ficou conhecido como o “Stonewall brasileiro”.

rosely roth
Rosely Roth denuncia as atitudes discriminatórias do Ferro’s Bar. Foto: Ovídio Vieira

Na noite do dia 19 de agosto de 1983, ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF), liderado por Rosely Roth e Míriam Martinho, ocuparam o Ferro’s Bar para protestar contra os abusos e preconceitos que vivenciavam frequentemente no local. O estabelecimento, que ficava na Rua Martinho Prado, em frente à Sinagoga, era um ponto de encontro muito popular da comunidade lésbica e, cerca de um mês antes, em 23 de julho, os donos do estabelecimento haviam vetado a distribuição do boletim “ChanacomChana”, primeira publicação ativista lésbica do Brasil, e expulsaram as autoras do local. Em resposta, as ativistas do GALF se organizaram para protestar no bar no dia 19 de agosto.

Em entrevista ao UOL, a ativista Míriam Martinho contou sobre a noite do dia 19 de agosto no Ferro’s Bar: “Lembro que tive muito medo da polícia aparecer e nos levar presas. Tive medo da imprensa também. Não era muito confortável aparecer nas páginas dos jornais na época. Mas organizamos tudo de forma a minimizar os riscos: chamamos os grupos gays da época e algumas feministas para dar apoio. A vereadora Irede Cardoso foi uma das parlamentares pioneiras no apoio aos direitos homossexuais no Brasil, pedimos cobertura da OAB, chamamos a imprensa. Chegamos no dia 19 de agosto e tentamos entrar no Ferro’s. O porteiro fechou a porta para que a gente não entrasse. Passamos a conversar com as mulheres que estavam do lado de fora do bar, juntamos gente, mais os grupos que estavam dando apoio, tentamos de novo. O porteiro enfiou a mão na cara de uma das integrantes do GALF, pela porta entreaberta. Um homem aproveitou e jogou fora o boné do porteiro, ele se distraiu e entramos todos”.

MANIFESTO 19 DE AGOSTO

Confira a transcrição do manifesto na íntegra, texto digitalizado do folheto original distribuído no Ferro’s Bar (acervo Rede de Informação Um Outro Olhar e documentado na publicação “Quando o preconceito fecha as portas, lute para abri-las”, de Míriam Martinho).

“PRA VOCÊ QUE FREQUENTA O FERRO’S”

BEM, GENTE, ACHO QUE CHEGOU A HORA DE FALARMOS ABERTAMENTE. CHEGA DE SUBTERFÚGIOS. E VOCÊ QUE É UMA PESSOA INTELIGENTE HÁ DE CONVIR COMIGO QUE TEMOS QUE NOS UNIR, POIS SÓ A UNIÃO FAZ A FORÇA. NÃO QUEREMOS QUE VOCÊ EMPUNHE A BANDEIRA DE HOMOSSEXUAL CONTRA A SUA VONTADE, MAS GOSTARÍAMOS QUE VOCÊ OLHASSE PARA DENTRO DE VOCÊ E VISSE O QUANTO GENTE VOCÊ É, QUE SER HUMANO MARAVILHOSO SE ESCONDE ATRÁS DE UMA MÁSCARA, BRINCANDO DE FAZ DE CONTA.
FAZ DE CONTA QUE SOU TRATADA IGUALMENTE COMO TODAS AS PESSOAS.
FAZ DE CONTA QUE O RESTAURANTE QUE EU FREQUENTO ME RESPEITA COMO EU MEREÇO.
FAZ DE CONTA QUE A SOCIEDADE ME ENCARA SEM PRECONCEITO.
FAZ DE CONTA ATÉ QUANDO?
VOCÊ SABIA QUE COLEGAS SUAS, SERES HUMANOS COMO VOCÊ, SÃO POSTAS PARA FORA DE NOSSO MEIO COMO SERES LEPROSOS?
VEJA, POR EXEMPLO, O QUE ACONTECEU NA NOITE DO SÁBADO PASSADO, DIA 23 DE JULHO, SÓ PORQUE UMAS MENINAS ESTAVAM VENDENDO SEU BOLETIM O CHANACOMCHANA, NUM CERTO BAR QUE CONHECEMOS, O DONO DO BAR E OS SEGURANÇAS QUERIAM EXPULSÁ-LAS À FORÇA SÓ PORQUE O BOLETIM FALA DAS NOSSAS VIDAS CLARAMENTE, SEM VERGONHA OU MEDO E ATÉ COM MUITO ORGULHO. E É SÓ POR ISSO MESMO, JÁ QUE, NO MESMO DIA, O EXÉRCITO DA SALVAÇÃO ESTAVA VENDENDO SEU JORNAL PARA NOS LIVRAR DO “PECADO” E NINGUÉM O INCOMODOU.
NESSA NOITE, QUISERAM EXPULSAR AS COLEGAS, MAS NÓS NÃO DEIXAMOS E ELAS FICARAM, JANTARAM E PAGARAM A CONTA COMO SEMPRE COSTUMAM FAZER, POIS, PRA UNS E OUTROS, EMBORA NÃO PASSEMOS DE CÃES SARNENTOS, NOSSO DINHEIRO NÃO TRANSMITE NOSSA DOENÇA. E ELES SABEM FAZER BOM USO DELE, NA COMPRA DO CARRO ZERO KM, NO ESTUDO DO FILHO NO EXTERIOR, ETC. QUEREMOS TER OS MESMOS DIREITOS DAS OUTRAS PESSOAS, NÃO SÓ SEUS DEVERES.
E PRECISAMOS COMEÇAR A BATALHAR POR ISSO A PARTIR DOS LUGARES QUE FREQUENTAMOS E SUSTENTAMOS. OU NÓS NOS UNIMOS OU CENAS COMO A DO SÁBADO PASSADO CONTINUARÃO A OCORRER E PODERÁ SER COM QUALQUER UMA DE NÓS POR QUALQUER MOTIVO.
NOSSAS COLEGAS ESTÃO PROIBIDAS DE ENTRAR NO FERRO’S PORQUE QUEREM VENDER UM BOLETIM QUE TAMBÉM É NOSSO E PORQUE QUEREM CONVERSAR CONOSCO. VAMOS ADMITIR ESSA PROIBIÇÃO?
GUARDE E PENSE COM CALMA. EM CASA. REFLITA, FAÇA UMA AUTO-ANÁLISE, SE POSSÍVEL RELEIA ESTE TEXTO COM BASTANTE ATENÇÃO E, SE VOCÊ NÃO SE IMPORTA CONSIGO MESMA, JOGUE FORA E FAÇA DE CONTA QUE NADA LEU.
CASO CONTRÁRIO NOS PROCURE. NOSSO ENDEREÇO É RUA AURORA, 736, APTO 10,
E DEIXE O SEU RECADO. CASO CONTRÁRIO, PROTESTE CONTRA A PROIBIÇÃO DE NOSSA ENTRADA COM O DONO DO BAR.
E, CASO CONTRÁRIO, NOS APOIE QUANDO FORMOS VENDER O BOLETIM CHANACOMCHANA.
PARTICIPE NA LUTA CONTRA O PRECONCEITO QUE NOS DISCRIMINA, POIS TODA MANEIRA DE AMOR VALE A PENA.
GRUPO AÇÃO LÉSBICA FEMINISTA CX.POSTAL 62,618, CEP 01000, SP JULHO DE 1983.

Edição #2 do boletim ChanaComChana

ESCOLHA DA DATA

Em 2001, a Rede de Informação Um Outro Olhar decidiu propor o dia 19 de agosto como “Dia do Orgulho Lésbico Brasileiro”, em memória à primeira manifestação lésbica contra o preconceito e a discriminação no Brasil, da qual Rosely Roth foi protagonista.

Em 2003, as ativistas Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, então da Rede de Informação Um Outro Olhar e da Associação da Parada do Orgulho LGBT de SP, trabalhando na formação de uma secretaria de lésbicas dentro da Associação para dar destaque à questão lésbica nos eventos comemorativos da 7ª parada do orgulho LGBT daquele ano, organizaram um debate específico sobre a questão lésbica (11/06/2003) e, durante o mesmo, lançaram publicamente o Dia do Orgulho Lésbico, dia 19 de agosto.

A data foi lançada tendo em vista estabelecer uma referência histórica de luta e orgulho para lésbicas que de fato pudesse vir a ser comemorada. Como na versão original da manifestação, a Folha de São Paulo fez uma reportagem sobre o assunto, desta feita com Luiza Granado e Neusa Maria de Jesus, pauta que foi, como de costume, reproduzida por outros jornalistas e outros veículos da mídia, dando uma grande divulgação à iniciativa.

E em 19 de junho de 2008, a Assembleia Legislativa paulista aprovou projeto que instituiu o Dia do Orgulho Lésbico no Estado de São Paulo.

E O 29 DE AGOSTO?

A data de 29 de agosto, que se comemora o “Dia Nacional da Visibilidade Lésbica”, foi estabelecida em contraposição ao histórico apagamento das vivências de mulheres lésbicas. A data faz referência à realização do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale) realizado no Rio de Janeiro, em 1996, para tratar de temas relacionados à violação de direitos das mulheres em razão da sua orientação sexual. Organizado pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro, o I SENALE (29/08 a 01/09), contou com a participação dos grupos Coletivo de Feministas Lésbicas (SP) e Grupo Lésbico da Bahia, além do apoio das ativistas Yalê Mello, Vera Nery e Yone Lindgren. O evento teve oficinas, grupos de trabalho e mesas de exposição e propôs o dia 29 de agosto como Dia da Visibilidade Lésbica Nacional.

Rosely Roth

Rosely Roth (São Paulo, 21 de agosto de 1959 – São Paulo, 27 de agosto de 1990) foi uma ativista brasileira, considerada uma das pioneiras da história do Movimento Homossexual Brasileiro. Filha de pais judeus, estudou tanto em escolas judaicas como não judaicas e, subsequentemente, formou-se em Filosofia (1981) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; vindo a graduar-se, mais tarde, em Antropologia (1985-1986) pela mesma instituição de ensino superior, quando aprofundou seus estudos em questões de vivências lésbicas e de sexualidade.

Roth iniciou a sua participação direta no movimento de mulheres, no início de 1981, frequentando o Grupo Lésbico Feminista (1979-1990) e o SOS Mulher (1980-1993). Ainda em 1981, Rosely Roth e Míriam Martinho (da Rede de Informação Um Outro Olhar), outra pioneira do Movimento Homossexual Brasileiro, fundaram o Grupo Ação Lésbica-Feminista ou GALF (1981-1990) na cidade de São Paulo, estado de São Paulo, Brasil.

Rosely participou em várias organizações e atividades relacionadas à reivindicação dos direitos sexuais da mulher lésbica e de toda a comunidade LGBT praticamente durante todo o período de sua vida adulta.

A sua atuação humanista em eventos e demonstrações tidas como históricas e a sua visibilidade na grande mídia brasileira são consideradas as suas contribuições mais marcantes pela comunidade gay bem como por pesquisadores acadêmicos no campo de estudos LGBTs, tendo ocorrido em período formativo da conscientização reivindicatória deste segmento social do Brasil.

Na fase final de sua vida, Rosely Roth passou a sofrer profundas crises emocionais, o que a levou ao suicídio. Em celebração à sua vida e em homenagem ao seu destacado ativismo, teve-se a ideia de transformar o dia 19 de agosto em Dia Nacional do Orgulho Lésbico no Brasil.

Rosely Roth
Rosely Roth – Reprodução

Míriam Martinho

Míriam Martinho (Rio de Janeiro, 1954) cresceu na cidade de São Paulo e é uma das figuras históricas e pioneiras do Feminismo e do Movimento Homossexual Brasileiro. Martinho formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Tradução pela Associação Alumni.

A ativista fundou o Grupo Lésbico-Feminista (1979-1981) e, juntamente com Rosely Roth, o Grupo Ação Lésbica-Feminista ou GALF (1981-1990). Ela também concebeu e produziu o jornal Chanacomchana que circulou na década de ’80 e a revista Um Outro Olhar (1989-2002).

Mantendo a sua jornada de militante pelos Direitos Humanos, entre outras atividades profissionais e de voluntariado, Martinho atua como jornalista e editora-chefe dos websites Um Outro Olhar e Contra o Coro dos Contentes.

AME – Míriam Martinho | #AME - Admiráveis Mulheres Empoderadas Admiráveis Mulheres Empoderadas - WordPress.com AME – Míriam Martinho
Míriam Martinho – Reprodução

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