O novo longa-metragem de Pedro Almodóvar, que entra em cartaz nesta quinta-feira, 28, no CineSesc acompanha um cineasta gay em crise e transforma luto, desejo e vida íntima em uma pergunta incômoda sobre os limites da arte. Em “Natal Amargo”, a ficção não surge como fuga da realidade. Ela nasce quando a realidade começa a faltar, ou quando passa a doer demais para permanecer sem forma.
O filme, exibido no Festival de Cannes 2026, acompanha duas histórias que se olham como espelhos rachados. De um lado está Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, uma publicitária que perde a mãe durante as festas de Natal e tenta ocupar o vazio com trabalho. O corpo interrompe a tentativa de seguir em frente: depois de um ataque de pânico, ela viaja para Lanzarote, nas Ilhas Canárias, com a amiga Patricia, enquanto o marido permanece em Madri.
Do outro lado está Raúl, vivido por Leonardo Sbaraglia, diretor e roteirista em um impasse criativo. O personagem enfrenta dificuldade para separar realidade e ficção: Raúl escreve um roteiro sobre Elsa e, pouco a pouco, ela se revela como uma espécie de alter ego ficcional do cineasta. A vida vira cena, a memória vira estrutura e a dor alheia passa a alimentar o trabalho.
É nesse ponto que entra o fator gay de “Natal Amargo”. Raúl vive com Santi, personagem de Quim Gutiérrez. Não se trata apenas de incluir uma relação homoafetiva no enredo, o filme coloca esse vínculo dentro de uma engrenagem mais incômoda: a intimidade do casal também se torna parte do material observado, recortado e reorganizado pelo cineasta em crise.

No eixo de Raúl, o filme trata a criação artística como um problema ético. O personagem, diretor e roteirista, atravessa uma crise enquanto transforma pessoas próximas em material dramático. Santi, seu parceiro, deixa de ser apenas uma presença afetiva e passa a fazer parte da tensão entre vida privada e roteiro.
A trama evita reduzir esse conflito a uma crise de inspiração. O que está em jogo é a fronteira entre observar e usar. Raúl se aproxima da própria intimidade como quem procura uma saída para voltar a criar, mas o filme desloca a pergunta para quem está ao redor dele. Quando uma relação vira argumento, o impacto não recai apenas sobre quem escreve.
Esse movimento se cruza com a história de Elsa, marcada pela morte da mãe e por um ataque de pânico que interrompe sua tentativa de seguir trabalhando como se nada tivesse acontecido. Entre o luto dela e o impasse criativo de Raúl, Almodóvar organiza um drama sobre pessoas que já não conseguem separar o que vivem do que encenam.
No CineSesc, “Natal Amargo” tem sessões na quinta-feira, 28 de maio, às 20h30; sexta-feira, 29 de maio, às 15h e às 20h30; sábado, 30 de maio, às 20h; domingo, 31 de maio, às 17h30; e quarta-feira, 3 de junho, às 18h. O longa tem 111 minutos e classificação indicativa de 12 anos.
Serviço
“Natal Amargo”
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Quim Gutiérrez, Aitana Sánchez-Gijón e Victoria Luengo
Local: CineSesc
Endereço: Rua Augusta, 2075, São Paulo, SP
Sessões: 28/05 a 03/06
Duração: 111 minutos
Classificação: 12 anos
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