Nesta quinta-feira, 05, o diretor pernambucano Hilton Lacerda lança o longa-metragem “Fim de Festa”, vencedor dos prêmios de melhor filme e melhor roteiro pelo júri oficial na última edição do Festival do Rio.

O filme entra em cartaz em Brasília, Curitiba, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Niterói, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Vitória da Conquista.

No longa, Hilton repete o feito de “Tatuagem”, seu primeiro trabalho como diretor, e mantém a parceria com o ator Irandhir Santos (atualmente na novela “Amor de Mãe”, da Globo), que faz um investigador de polícia trabalhando para desvendar um crime ocorrido durante o carnaval de Recife.

O enredo apresenta uma jovem francesa foi brutalmente assassinada na cidade do Recife. O policial Breno volta antecipadamente de suas férias para investigar o crime, surpreendendo seu filho com três amigos hospedados em sua casa. Enquanto procura por pistas, a cidade desenterra traumas do passado de Breno e revela um estranho universo de lugares e memórias.

ENTREVISTA – Hilton Lacerda, diretor e roteirista

– Como foi que surgiu o roteiro de Fim de Festa?

Tem uma ideia na base do projeto que é essa brincadeira com o gênero. Na verdade não é nem brincadeira, mas uma corrupção de gênero: como você pega um gênero e dá a ele contornos de uma ideia tropical. Quando a gente escolhe o gênero policial, que é tão caro ao cinema e tem toda uma trajetória de estilo, a gente parte para criar aí a ideia de uma angústia tropical. E essa ideia começou a ser pensada logo depois do Tatuagem, a partir de um crime real,  que  aconteceu  aqui  em  Recife  pós-carnaval.  Mas  esse  foi  só  o  ponto de  partida, no processo a gente acabou se distanciando dos fatos.  A ideia de um crime que “descarnavaliza” a cidade  como  uma  grande  ressaca,  no  entanto,  permaneceu  como  tema.  A  partir  disso,  a gente começou a pensar nessa história, em como ela poderia ser feita  e  que  elementos  poderiam contar ela. Assim o filme foi tomando forma. E sempre com uma ligação muito forte na minha cabeça com o próprio Tatuagem. Fim de Festa é como uma resposta a pergunta que é feita pela  jornalista  ao  professor  Joubert no final  do  Tatuagem: “Como  é  que  vai  ser  o futuro?”. E temos dentro do Fim de  Festa  alguns elementos  de  menor  importância  que estabelecem  uma ponte com Tatuagem. Por exemplo, o colar que Breninho (Gustavo Patriota) usa, e que pertencia a seu avô, é o mesmo utilizado por Clécio, personagem de lrandhir Santos em Tatuagem. Então existe uma certa ligação sensível em relação aos tempos dos dois filmes, me interessa entender onde esses tempos se irmanam e onde divergem.

– O Breno de Irandhir carrega muito do protagonista noir clássico: um detetive solitário, com um passado conturbado e violento. A gênese dele se relaciona com essa tentativa de atualização de elementos do cinema de gênero?

Tem uma coisa que me interessava na criação desse personagem que era investigar um pouco a reinvenção desse macho latino-americano que mesmo quando tenta, reinventa-se muito pouco. Tem uma cultura da violência que fica sempre ali latente, isso traduzia muito   bem um gênero mais policialesco para um versão tropical. E eu me interessava muito em construir aquele personagem extremamente violento que tem o mesmo nome do filho, mas que quando a gente conhece melhor se revela quase como filho do próprio filho. Porque é Breno filho que vai colocando ele nos eixos. Ele é um homem completamente atormentado: não consegue mais se articular com um passado que ele próprio destruiu, por isso vive cansado, exausto. E lrandhir é muito cúmplice nesse processo todo: ele tem um entendimento muito rápido e uma disponibilidade muito grande para se entregar ao personagem, tanto física quanto emocionalmente. E ainda é capaz de trazer toda essa compreensão nos pequenos movimentos que ele cria enquanto estamos descobrindo as cenas. Ao mesmo tempo, a escolha pelo gênero policial também é a escolha por uma linguagem. Então quando ele fala que para ele investigar os crimes é como descobrir outra língua, como as coisas falam por si, tem a ver com isso. Então existe uma subversão aí do enredo esquemático do filme de gênero porque o foco não está no crime, muito menos na resolução dele. O foco é o personagem em sua complexidade humana e tudo o que se espelha a partir disso. As coisas que Breno fala para o próprio Samuel (Ariclenes Barroso) lá na delegacia sobre dúvida, sobre amor, ele está colocando ali também as questões dele. e como se ele estivesse fazendo terapia com os outros personagens, com o próprio crime que está resolvendo.

NOTA DO DIRETOR

Fim de Festa possui muitas camadas para possíveis leituras, onde vários gêneros mancham nossa história de encontros e desencontros sob o céu de um melancólico trópico. Passo dissonante para pautarmos um projeto de possível caminho de nosso cinema, que está na periferia do mundo e se orgulha das leituras que é capaz de propor para desvendá-lo – principalmente agora, onde os riscos se acumulam e pedem mais e mais nossa atenção Sempre me interessou a investigação da linguagem e suas possibilidades, suas flexibilidades. Assim como aproximar o cinema de outras artes que me são caras, principalmente a literatura. Dessa maneira, assim como outros trabalhos meus, existe um viés literário muito importante, como Cornélio Pena, Murilo Mendes, Ricardo Piglia, Gustave Flaubert, assim como as memórias narrativas/visuais de filmes como Amor, Palavra Prostituta e Os Anjos do Arrabalde (Carlos Reichenbach), O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzela), Teorema (P. P. Pasolini), Acossado (J. L. Godard). E, de alguma maneira, transitar nos distúrbios do cinema marginal e nas alegoria do cinema novo, mantendo com eles certo dialogo em suas estruturas mais visíveis.

FIM DE FESTA – FICHA TÉCNICA

Pernambuco, 2020, 94 min
Roteiro e direção: Hilton Lacerda
Produzido por: João Vieira Jr. e Nara Aragão
Produção Executiva: Tarsila Tavares, Nara Aragão e João Vieira Jr.
Direção de Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montagem: Mair Tavares e Pedro Queiroz
Música: DJ Dolores
Direção de Produção: Dedete Parente Costa
Direção de Arte: Diogo Balbino
Figurino: Chris Garrido
Maquiagem: Donna Meirelles
Desenho de som: Nicolau Domingues
Som direto: Pedrinho Moreira e Moabe Filho
Mixagem: Sérgio Abdala
Diretora assistente: Letícia Simões
Elenco: Irandhir Santos, Suzy Lopes, Gustavo Patriota, Amanda Beça, Safira Moreira, Leandro Vila e Ariclenes Barroso
Participações especiais: Hermila Guedes e Jean Thomas Bernardini
Distribuição: Imovision

SOBRE O DIRETOR HILTON LACERDA

Hilton Lacerda é roteirista de quase duas dezenas de filmes de ficção, além de dirigir alguns deles. Também tem se destacado na produção de séries e documentários para a televisão.

Roteiros: Baile Perfumado (1997), Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006), Árido Movie (2006), Filmefobia (2008), A Festa da Menina Morta (2008), Estamos Juntos (2011), Febre do Rato (2012), Big Jato (2015), Piedade (2019), entre outros.

Direção: Cartola – Música para os Olhos (2007, com Lírio Ferreira) e Tatuagem (2013), e as séries Fim do Mundo (2017, com Lírio Ferreira) e Lama dos Dias (2018, com Helder Aragão), além de várias séries documentais e ensaios para a televisão.

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