Alexandre Mortágua (25) conhece a fama desde que nasceu. Filho da ex-modelo Cristina Mortágua e do ex-jogador de futebol Edmundo, Alexandre alçou voos próprios, trocando o Rio por São Paulo e se dedicando ao cinema. Há pouco tempo lançou o documentário “Todos Nós Cinco Milhões”, sobre abandono paterno.

Nesta entrevista exclusiva para o GAY BLOG BR, o jovem diretor de cinema fala sobre os mais diversos assuntos: família, se faria um reality show, o novo empreendimento, sua relação com as mídias sociais e outros temas.

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“Todos Nós 5 Milhões”, este número diz respeito a quantidade de jovens matriculados no sistema educacional brasileiro de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, cuja filiação só consta o nome da mãe no documento. Isto é, o número real é muito maior. Baseado nos depoimentos que você ouviu, dos casos que você soube, dá pra se ter uma ideia sobre o que leva um pai a não assumir/abandonar a paternidade?

Com certeza. Esse número está diretamente atrelado a forma que os homens enxergam a paternidade e o que é um filho. Minha mãe me criou de uma forma bem peculiar, aberto ao diálogo e ao afeto, mas mesmo na minha criação, eu percebo traços da construção que origina a ideia de que pagar a pensão é exercer a paternidade. A forma como os homens são ensinados desde pequenos a lidarem com seus sentimentos produz um cenário onde os homens sentem aversão a tudo que se relaciona ao que ficou reservado ao “universo feminino” (que nem existe). Isso está intrinsecamente ligado ‘ideologia de gênero’, que existe sim: ideologia de gênero é você vestir uma criança com pênis de azul e uma criança com vagina de rosa. O abandono paterno está ligado a ideologia de gênero dicotômica do azul x rosa. 

A ideia de rodar o documentário foi em algum momento baseado na sua própria experiência pessoal?

A ideia surgiu da vontade de ser um ponto de contato com outras pessoas. Na minha humilde opinião, a arte tem quase que uma obrigação moral de ser um espelho do seu tempo e acredito que existam muitos outros fantasmas que atormentam o imaginário dos brasileiros e quanto mais cedo e mais incisivamente nós os encararmos, melhor pra gente. O filme se propõe a ser uma faísca solitária de provocação mas essas questões estruturais não podem ser modificadas com um simples filme. 

Não foi doloroso esse processo de filmagem, ouvir os depoimentos e de certa forma relembrar a sua própria história envolvendo a ausência paterna?

Na verdade, pra mim foi ótimo perceber que eu não era única pessoa do mundo a me sentir daquele jeito. Pra mim, pessoalmente, a melhor parte foi poder ressignificar coisas que me atormentavam e jogar elas pro mundo. A parte triste foi perceber o quanto nós homens estamos paralisados no século passado e ainda não conseguimos criar redes como as que as mulheres tem criado nos últimos anos. 

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O documentário foi lançado em agosto do ano passado e se encontra disponível no Youtube, como tem sido a repercussão desde então?

Olha, nos últimos seis meses antes do lançamento, eu já vinha recebendo muitas (mesmo) mensagens de pessoas que passaram por situações de abandono paterno das mais diversas. Nosso filme é pequeno e independente, não tivemos nenhum tipo de apoio para divulgação, mas fico muito satisfeito e até um pouco impressionado como que um filme mexeu com as pessoas num país que menospreza tanto o cinema e os artistas. 

O que é pior, um pai inexistente ou um pai presente porém ruim?

Eu acho que ter um pai presente ruim. O buraco da ausência do meu pai foi preenchido por mulheres muito incríveis que me ensinaram tudo que eu sei sobre amor, comunidade, arte, justiça e poesia. Eu não abriria mão da pessoa que eu sou hoje pela possibilidade de ter crescido com o meu pai. 

Em um país com tantas crianças abandonadas (sem a figura paterna principalmente), não é de certa forma embaraçoso datas como “Dia dos Pais”?

É até antiquado, né? Não é mais uma data que abraça, que agrega, que aproxima, então pra que existir? Esse dado divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça é antigo já mas ele dá conta de muitas discussões que o Brasil devia estar tendo. 

Você estudou artes visuais, mas houve um período quando você estava morando no Rio que estava envolvido com moda, não é? Por que não quis levar adiante a moda?

Ah, só não era minha praia… Tem muito de artesanato na moda e pesquisa tecnológica de tecidos que, só que não é minha praia. 

edmundo alexandre mortágua
acervo pessoal

O que te motivou a trocar de cidade? Era uma forma de se ‘desligar’ um pouco da figura super protetora da mãe?

Nem especificamente da minha mãe, mas dessa cultura de “flagra” e coluna de fofoca. Eu passei 18 anos no Rio e era bem esquisito ir a praia e alguém estar te fotografando. Como eu disse antes, eu sou só um artista, não funciono muito bem dentro desse pensamento de algoritmo do Instagram, não. Eu gosto de compartilhar meme de signo e vídeo de espinha.

Mudando de assunto, foi a crise econômica causada pela pandemia que te motivou a produzir e vender geleias? Embora soube que você gosta muito de cozinhar né…

Eu amo cozinhar. Ah, acho que todo mundo tem um sonho a longo prazo meio Olivia Pope de fazer geleias em Vermont (eu amava Scandal). Obviamente surgiu no meio de um contexto financeiro esquisito mas eu sentia falta de fazer alguma coisa manual também. O filme que eu fiz não dá pra pegar na mão, né? Ele é um arquivo digital. Ver o meu trabalho se transformar em algo físico tem me trazido certa realização imediata, entende?

E como anda os negócios?

Estão ótimos dentro dos limites do que pode uma empresa que tem duas semanas de existência (risos); mas tem sido interessante acompanhar o que as pessoas têm dito das minhas geleias. Parece incomodar mais eu querer viver minha vida do jeito que eu quero do que o abandono paterno que eu sofri. 

Em algum momento de aperto financeiro, você cogitou em pedir ajuda aos seus pais?

Não.

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Como é a sua relação com as redes sociais? Há muitas fotos estilo polaroides/artísticas no seu Instagram. A fotografia seria uma outra paixão sua?

Ah, eu fiz artes visuais pra abrir minha cabeça artisticamente, foi onde consegui criar um método de pesquisa de referências e meu Instagram é só uma parte disso mesmo. Eu gosto muito de fotografar mas do meu jeitinho, mais como pesquisa de imagem pros meus projetos mesmo.

Aliás, olhando o seu Instagram, você parece viver a vida de uma forma muito livre, descontraída e despojada na cia dos amigos. Como você descreveria a sua vida atualmente? 

Eu tenho uma vida muito simples, não tenho hábitos extravagantes e gosto muito de ficar em casa. Minha vida é tão banal como a de qualquer homem gay que more no centro de São Paulo. Eu tenho o privilégio de ter a minha casa e poder viver das coisas que eu crio e produzo, mas minha vida é bem normal. Meu ascendente é Touro então eu preciso muito sentir as coisas no mundo offline, não funciono muito nesse ritmo de postar tudo que se passa na minha vida no Instagram. 

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Sobre família, como está o relacionamento com a sua mãe hoje? 

Está bem.

Seu último encontro com o seu pai (Edmundo) aconteceu há 9 anos. Você gostaria de voltar a manter contato com ele?

Voltar? 

Mudando de assunto, você está namorando?

Não.

Você usa aplicativos de paquera? Muita gente critica os apps pelo excesso de exposução, o que acha dos apps?

Ah, não tem nada melhor do que conhecer alguém pessoalmente de uma forma espontânea e gostosa, mas estamos no meio de uma pandemia que vai mudar completamente a forma que a gente se relaciona, então meio que não tem outro jeito, né?

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Sua mãe participou do reality show A Fazenda, se você recebesse um convite, toparia? Você curte reality shows?

Engraçado porque eu já falei isso com os meus amigos como piada inúmeras vezes. Eu amo reality show, principalmente os bem ruins americanos, tipo 90 Day Fiance e Real Housewives (eu assisti a segunda temporada inteira do Beverly Hills num longo domingo de quarentena). Eu não sei se eu toparia ir, mas fico muito curioso pra saber com quem eu seria confinado e adoraria fazer parte da fonte brasileira de memes. Mas eu tenho um pouco de receio do tipo de exposição que essa experiência poderia trazer. Dito isto, as temporadas 5 e 7 da Fazenda estão no meu top 5 de melhores seasons de reality do mundo. Bom dia, Furacão da CPI.

Houve uma fase em que a sua mãe não lidou bem com o ato de ‘envelhecer’, por outro lado, existe muita pressão no meio LGBT+ em relação à aparência, ao corpo perfeito/sarado, você se sente pressionado também por essa ‘padronização estética’ imposta pelo meio?

Não é que minha mãe não aceitou envelhecer, é que a sociedade não deixa as mulheres envelhecerem. Todo dia saem notícias em sites de fofoca dizendo “x está magra demais”, “y está gorda demais”, nunca está bom. Se a mulher faz plástica, ela não aceita envelhecer. Se não faz, “não se cuida”. Como eu sou homem, a cobrança é diferente, né. Eu não tenho saco pra academia então não vou ter esse tal corpo nunca.

Você tem algum projeto na área cinematográfica, algum tema que você gostaria de abordar em um futuro projeto?

Eu estou em processo de captação de recursos pro meu segundo longa-metragem, é um documentário chamado “Traviarcado”, em codireção com a Aretha Sadick, sobre os últimos trinta anos da luta pelos direitos das pessoas trans. Durante a quarentena e, logo depois da Parada desse ano, comecei a desenvolver um documentário sobre a história do movimento LGBT no Brasil, uma forma de registrar a relevância de pessoas que foram muito importantes pra que essa entrevista esteja acontecendo agora. No início da quarentena, eu e dois atores que gosto muito desenvolvemos o argumento de uma ficção sobre o isolamento social, é o roteiro que estou desenvolvendo no momento.

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Como você está lidando com o isolamento social?

O início do ano foi muito bom profissionalmente pra mim. Eu consegui movimentar a captação de recursos do meu próximo longa-metragem, viajei a trabalho pra Salvador e Manaus pra filmar projetos que eu gosto muito. No dia que voltei de viagem, foi decretado a quarentena aqui em São Paulo. Se eu soubesse em Janeiro que isso ia acontecer, eu teria alugado o meu apartamento e me mudado pra praia até o final do ano. Mas eu moro com uma grande amiga de adolescência, a gente se dá muito bem e a quarentena tem sido boa.

Se soubesse da pandemia três meses antes, o que você faria?

Teria alugado meu apartamento e estaria na Chapada dos Veadeiros com os meus cachorros, fazendo minhas geleias e licor caseiro. 

Alexandre no Instagram: https://instagram.com/amortagua

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