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Fabíola Lopes (44) tem motivos de sobra para se orgulhar. Fabíola foi uma das primeiras pessoas trans contratadas pela Unilever Brasil e, desde 2019, tem trazido a questão para dentro do seu time com cada vez mais força.

Após vivenciar bullying na infância e adolescência, Lopes se formou em administração e design de moda e prorrogou sua transição de gênero para priorizar suas metas profissionais. Hoje, a executiva pode ser quem realmente sempre foi – uma mulher de corpo e alma. Em entrevista ao GAY BLOG BR, Fabíola conta que foco e determinação conseguiu alcançar seus sonhos.

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Fabíola Lopes – crédito: Instagram

Você conquistou um posto profissional que poucas trans alcançam…

A vida é difícil para todos, em especial quando falamos das mulheres, e no caso das trans é mais ainda. Lembro que uma vez li uma reportagem com o título “diversidade nas empresas”, mas não tinha pessoas trans, o que demonstra que elas continuam às margens da sociedade. Por essa razão, eu demorei a transicionar, e sofri muito por viver duas vidas, já que de manhã eu usava roupas masculinas para trabalhar, enquanto a noite e nos finais de semana eu já era eu mesma nas festas e desfiles de carnaval. Trabalhei na área de logística, RH, figurinos para teatro, carnaval, até chegar aonde cheguei como executiva de negócios. É difícil? Muito, mas não é impossível.

Quando foi que percebeu que seria um longo caminho frente ao preconceito?

Eu era afeminada e sofri bullying desde a infância, passando pela adolescência e a juventude adulta, sofrendo diversos tipos de discriminação. Na minha época, só existia a palavra travesti para designar mulheres trans, e elas eram ainda mais marginalizadas que hoje. Na adolescência pedia a Deus para morrer, pois tinha medo da vida. Meu pai é militar e minha mãe é do lar, e fui criada em um meio evangélico conservador. Apesar disso, agradeço aos meus pais por terem me dado educação e pagarem os estudos, chegando a deixar de comprar coisas para eles com o intuito de arcar com minha formação. Na igreja, onde pregam tanto o amor, sofri muita discriminação e cheguei a ter uma namorada para poder continuar com minha fé. Lutava diariamente para “ser liberta”, algo que não existe. Apesar disso, não tenho ódio, a vida me ensinou a perdoar. Na época eu não tinha contato com nenhum outro LGBTQIA+ e ficava me questionando a razão pela qual eu era daquele jeito. Hoje em dia eu sei que nasci assim, e por isso fico revoltada quando escuto alguém falar que nós [LGBTQIA+] estamos querendo destruir as famílias e as crianças. Quem diz isso não pensa no que nós, LGBTs, passamos quando fomos crianças. Eles não sabem ou fingem não saber porque o discurso de ódio é mais fácil, ou talvez porque eles não tenham a coragem que nós tivemos de serem eles mesmos.

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Fabíola Lopes – crédito: Instagram

Como foi participar da abertura da Olimpíada de 2016 representando as mulheres trans ao lado de Léa T?

Foi um momento único! Na época, eu ainda era apenas transformista, pois tinha medo de transicionar. Eu estava em um bar na Lapa [Rio de Janeiro] montada, quando recebi o convite da Aline Maia, uma das coordenadoras da abertura das olimpíadas. Fiquei muito emocionada e apreensiva ao mesmo tempo, mas posso dizer que foi o momento mais incrível da minha vida, onde eu tive a coragem de me aceitar e me tornar a mulher que sou hoje. No encerramento, eu fiquei ao lado da ginasta olímpica Simone Biles e, na abertura das paraolimpíadas, foi ao lado de Fernanda Lima. Depois desse evento, eu não tive mais medo de transfobia, do que minha família ou amigos iam falar e nem de mais nada! Estava disposta a enfrentar o mundo. Mesmo sabendo que estou no país que mais mata pessoas trans e que a média de vida nossa é de 35 anos, eu não quis nem saber e hoje posso dizer que sou uma pessoa feliz.

Muitas pessoas acabam tendo como único caminho a prostituição. Quais conselhos você daria para uma trans busca de oportunidade em uma multinacional?

Até pouco tempo atrás era o único caminho! As pessoas falam que os LGBTQIA+ são cabeleireiros ou maquiadores, mas quantas pessoas trans você vê trabalhando em salões de beleza? Tenho amigas formadas em cursos de cabeleireira e elas nunca são contratadas para esses lugares. Essas questões contribuíram para minha demora na transição, pois queria terminar os estudos, ter minha formação e aí sim, quando transicionei, eu estava disposta a passar por qualquer coisa. Lembro de uma amiga dizendo que estava desesperada por não conseguir emprego e dizia que a pior coisa era ser uma ‘travesti velha e desempregada’. Na época eu estava com 40 anos e fiquei desesperada. Por outro lado, hoje acho que você pode estar onde você quiser! Não sou contra a prostituição, mas sou contra este ser o único meio de sobrevivência de muitas pessoas trans pela falta de oportunidades.

Você pretende desenvolver iniciativas que possam favorecer a entrada de pessoas trans no mercado de trabalho? Como fazer isso quando a evasão escolar ainda é tão alta?

Eu faço um trabalho junto ao CAPACITRANS-RJ, instituição idealizada pela Andréa Brazil que visa dar capacitação para pessoas trans e travestis no mercado de trabalho e empreendedorismo. Nós atendemos outras pessoas da sigla LGBTQIA+ também, além de que eu tenho parcerias com diversos projetos e sempre que posso indicar pessoas trans para o mercado de trabalho, eu faço.

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Fabíola Lopes – crédito: Instagram

Você se considera uma mulher realizada profissionalmente e pessoalmente? O que falta na sua vida?

Sou muito realizada em ter chegado até onde cheguei, mas quero chegar mais longe ainda! Acho que sempre estamos em evolução, e um dos meus próximos passos é adotar uma criança.

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Fabíola Lopes – crédito: Instagram

Qual a sua opinião a respeito do governo Bolsonaro?

Espero que esse governo acabe logo! Não posso compactuar com um governo que prega o ódio! Jesus veio ao mundo para falar de amor e quem não sabe amar que nunca use o nome de Deus.

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