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A atriz, apresentadora e ativista da causa animal Nicole Puzzi tem muita história para contar: rainha da pornochanchada nas décadas de setenta e oitenta, ela ainda ostenta o título de símbolo sexual aos 62 anos.

À frente do programa Pornolândia no Canal Brasil, Puzzi conversa com descontração e bom humor com pessoas que fizeram e ainda fazem parte do universo erótico no Brasil. Em entrevista ao GAY BLOG BR, Puzzi falou sem tabus sobre sua relação com a comunidade LGBT+, o papel de lésbica no cinema na década de 1980, polêmicas, entre outros temas.

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Reprodução: Nicole Puzzi

Em 1980, você protagonizou o filme Ariella ao lado de Christiane Torloni. Seu papel era de uma garota que descobria a própria sexualidade e se sentia atraída pela noiva do irmão, inclusive com uma cena de beijo. Como foi a repercussão após o lançamento, considerando que na época ainda existia a censura? E em relação a uma personagem lésbica, chegou a sofrer ataques? 

Havia liberdade sexual, mas também havia machismo e misoginia. A reação ao filme foi ambígua: enquanto uns amavam, outros só enxergavam a “sacanagem”. Muitos imaginavam que éramos lésbicas na vida real por protagonizar esta cena e, na época, ser uma mulher homossexual era algo duplamente condenável. No entanto, prefiro recordar o lado bom, a revolução no comportamento das lésbicas e da mulher cis hétero. O filme estimulou a coragem da liberdade lesbiana, mexeu com os desejos femininos e abriu caminho para a aceitação de identidade sexual.


Ariella foi baseado em um romance erótico de Cassandra Rios (1932-2002), inclusive vocês eram amigas. Você sofreu preconceito por essa amizade, já que Rios era lésbica?

Sim. Sofri preconceito. Fui chamada de “sapatinha” por ser amiga dela. Não me importei. Éramos amigas sem nenhuma relação a orientação sexual de cada uma. Até me disseram que “pegava mal” ser amiga de uma “fanchona”, como chamavam, pejorativamente, mulheres homossexuais.

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Reprodução: Nicole Puzzi

Nas décadas de 1970 e 1980, você fez muitos filmes no cinema brasileiro, as famosas pornochanchadas. Você sempre lidou bem com a nudez? 

O termo pornochanchada foi criado por dois críticos de cinema bastante famosos com a finalidade de depreciar o cinema brasileiro em favor das produções americanas que lutavam para ganhar o mercado nacional. Esses dois críticos foram bem pagos por produtores estadunidenses.

Eu sempre achei a nudez natural, até porque fui hippie na minha adolescência. Apesar de tantos comentários e preconceitos a respeito de minha nudez, eu fiz mais cenas de roupa do que sem. Nunca me arrependi de nada. Era e sou uma mulher forte, independente e autêntica. Não sei fingir sem ter um roteiro em mãos. Admito e assumo tudo que fiz, até porque me orgulho em ter feito e sou muito querida por muita gente graças a esses filmes. Como não amar e ser amada por meu trabalho?

Nos anos 1980, sua filha teve uma babá que era transexual. Você sofreu críticas na época por conta disso? 

Eu precisava de uma babá e ela precisava de um emprego. Minha tia confiava nela e minha mãe aprovou. Aceitei um ser humano para ajudar minha mãe na função de cuidar da minha filha. Eu nunca julguei a aparência, a cor ou a identidade para trabalhar em minha casa. Observava o caráter, capacidade e competência e isso ela tinha de sobra. Foi natural a contratação. Minha família não tem preconceito. Aceitaram e respeitaram a babá de minha filha, que, em pouco tempo nos conquistou por suas qualidades como profissional e, principalmente,  por sua simpatia, caráter, bondade e alegria contagiante. Foi a melhor escolha ter a Juliana [a babá trans] cuidando de Dominique, que cresceu em um lar sem preconceitos.

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Reprodução: Nicole Puzzi

Eu soube que vocês eram grandes amigas e, infelizmente, ela veio a falecer alguns anos depois. Como foi lidar com isso? Aproveitando o “gancho”, como é a sua relação com a comunidade LGBT+? 

Foi uma tristeza a morte da Juliana. Choramos muito. Pouco tempo depois, tive um sonho com ela que se mostrava feliz e envolta em luz. A maioria de meus/minhas amigues é gay. Sempre recebi gays em minha casa, mesmo antes da morte de meu pai em 1983. Ele, quando era questionado sobre isso, respondia que a Criação Divina tinha seus mistérios e competia a ele aceitar a todas as criaturas. Meu pai foi criado pela avó que tinha sido escrava. Sei que a amava profundamente sem nunca questionar a cor da sua pele, mesmo sendo ele loiro. O que importa as diferenças?

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Arquivo pessoal: Nicole, sua filha e juliana

Na época do boom dos filmes pornôs nos anos 2000, quando Rita Cadillac, Gretchen, Regininha Poltergeist aceitaram fazer, você chegou a receber um convite, mas teria recusado pelo cachê baixo, verdade?

Recebi convite, mas não me interessei. Sempre fui incapaz de ter relações sexuais sem envolvimento emocional. Sou demissexual [quando o desejo sexual surge da afetividade com outra pessoa]. O valor do cachê foi apenas uma desculpa para recusar os convites.

Você apresenta o programa Pornolândia no Canal Brasil, um programa de entrevistas sobre sexo. Quem você gostaria de entrevistar e qual pergunta relacionada a sexo você faria?

Amo meu programa no Canal Brasil, apesar de não gostar do nome. Não tenho “aquela” pessoa especial que gostaria de entrevistar, até porque seria indelicado com quem já entrevistei. Amei 99,9% meus entrevistados durante esses 8 anos de exibição. O 0,1% restantes foram, somente, isso, 0,01% de chatos. No final das entrevistas, eu sempre peço ao entrevistado que avise a produtora Mayara Medeiros, que se teve alguma pergunta ou resposta desagradável para que seja retirada do vídeo.

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Reprodução: Nicole Puzzi

No início do ano 2000, você viralizou após uma participação no programa do Clodovil. Na ocasião, te incomodou muito a repercussão daquela entrevista? Sua amizade com Clodovil já estava estremecida pela sua amizade com o também estilista Ney Galvão (1952-1991)? 

Foi a maior audiência que ele teve em todos os programas que apresentou na vida. Eu tive o prazer de produzir e atuar na primeira peça de Walcyr Carrasco, ao lado de Ney Galvão. O Clodovil era um grande estilista, um pioneiro, juntamente com Denner, mas ele tinha seus problemas pessoais, traumas e talvez e isso tenha pesado em sua vida. O Ney era uma explosão de simpatia e alegria, cheio de vida. Hoje, com mais idade e experiência creio que fui usada pelos dois numa história que desconhecia. Mas, não guardo mágoas.

Como você avalia a situação da cultura no país do ponto de vista político?

Desastrosa. Cultura parece tema desconhecido da maioria dos políticos. Simplesmente, essa maioria não entende o valor cultural de um país.

Quais são seus projetos pós-pandemia?

Ser uma pessoa melhor, ser alguém ainda mais empática com a dor alheia. Quanto à vida profissional, continuarei a atuar na companhia de teatro a qual pertenço, da qual me orgulho muito: Satyros.
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Acompanhe Nicole Puzzi no Instagram: @nicolepuzzi
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Reprodução: Nicole Puzzi e Ney Galvão

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