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Luís Salém (58) vai além da comédia. Além de ator, é também professor de interpretação, autor e cantor. Nascido e criado no Rio de Janeiro, Salém trocou a Cidade Maravilhosa por Salvador há quatro anos em busca da felicidade que vivenciou muitas vezes na cidade baiana, como ele mesmo disse nesta entrevista.

Ao longo de uma extensa carreira que começou ainda no início da década de 1980, Salém conta no currículo 24 trabalhos na televisão entre novelas, minisséries e casos especiais, quatro filmes e incontáveis peças teatrais. Nesta entrevista reveladora para o GAY BLOG BR, o ator de múltiplos talentos falou sobre TV, pandemia, politica e diversos outros assuntos.

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Luís Salém – Crédito: Genilson Coutinho

Por que você trocou o Rio de Janeiro por Salvador há 4 anos? Houve uma razão específica?

Eu troquei o Rio por salvador porque já era um projeto de vida. Sempre tive essa relação forte com a cidade de Salvador e tinha vontade de viver aqui por um tempo, bastante tempo, não sei quanto tempo. E aí eu pude fazer isso só nesse momento. Tinha compromissos no Rio, coisas que me prendiam por lá e não dava para mudar. Quando eu percebi que teria essa possibilidade, como tudo que acontece na sua vida, você vai ficando mais velho, vai ficando mais preocupado com coisas, como vai aproveitar a vida (risos), o que você tem ainda pela frente. Eu estava muito cansado de viver no Rio, essa é a verdade, eu vivi muito tempo no Rio, sou do Rio, nasci lá, vivi a vida inteira lá, e tinha esse projeto meu guardado de viver um dia em Salvador, que é uma cidade que eu amo, e foi indo. Eu amo esta cidade, e acho que aqui foi onde eu fui muito feliz na minha vida e eu queria resgatar essa felicidade que eu já não estava tendo no Rio. Eu vim em busca da felicidade, a tal da felicidade que eu experimentei tantas vezes aqui, e tem dado certo, eu estou bem feliz por aqui.

Em alguns vídeos no seu Instagram, você comentou que tem gravado mensagens personalizadas sob demanda para seus fãs. Como seria isso?

As mensagens personalizadas é uma ideia que me surgiu na cabeça para ganhar algum troco durante a pandemia. Estava difícil levantar uma grana, enfim. Aí eu pensei: “Por que não faço uma coisa que eu sei fazer que é interpretar?”. E deu certo naquele momento ali, era Natal, fim de ano de 2020. Várias pessoas pediram para eu mandar mensagens (vídeo) natalinas, mensagens de fim de ano. Depois, algumas pessoas pediram para fazer de aniversário – e eu não vou fechar a porta, na verdade, deixei rolar. São mensagens que eu faço especialmente para a pessoa que me encomenda. Para alguém que ela quer brindar, uma homenagem, uma declaração, com afeto, carinho. Aí eu penso no texto, na situação, ela me conta um pouco sobre essa pessoa para quem ela quer mandar a mensagem e eu crio uma coisa e fica personalizada. É um cartão de aniversário, comemorativo virtual, gravado aqui em Salvador, geralmente na praia ou perto de algum ponto turístico. É uma coisa especialmente para a pessoa. Não investi total numa coisa, como se fosse um trabalho, é uma coisa que eu faço assim porque acho legal e levanta uma graninha.

Você fez vários personagens na TV, de certa forma, estereotipados. Isso em algum momento te incomodou?

Não me incomodou não, porque como ator eu sempre tentei humanizá-los, sempre tentei criar uma coisa humana para esse personagem. Até porque existem pessoas que são desse jeito assim. Não vou usar a palavra estereotipada porque elas não são assim, mas elas são, às vezes, mais afetadas, femininas, mais soltas, mais a vontade. E eu entendo o que você está querendo dizer… Na TV, geralmente é essa coisa da graça, mas a minha preocupação como ator era sempre humanizar. E eu acho que eu consegui na medida do possível. Não é a gente que cria o personagem, a gente executa. Ele vem escrito por alguém e, da maneira que dá, vamos transformando aquilo ali: sendo às vezes raso, estereotipado (risos)… A gente tenta humanizar, dar uma verdade para esse personagem. Eu consegui algumas vezes, outras não, mas nunca me senti incomodado não. Eu não sou tolo, a gente percebe, a gente vê o que está sendo feito ali e cabe a você tentar humanizar, diluir isso e fazer de alguma forma mais verdadeira. Às vezes o texto não era bom, a situação não era boa, então ficou complicado, mas a gente tem que trabalhar e vamos trabalhando.

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Luís Salém no teatro – Crédito: reprodução

Você fez duas temporadas do “Zorra Total”. Como o “Zorra” atualmente, após as mudanças significativas feitas em 2015?

Eu fiz algumas temporadas do “Zorra”, era “Zorra Total” na minha época. Já trabalhava com aquele humor bem antigo, aquela linguagem de humor, era até o Mauricio Sherman [1931-2019] o diretor, e ele tinha uma visão, digamos assim, conservadora. Mas super bacana também, porque era aquele humor que eu via quando era menino nos programas de TV, naquele formato. Acho bacana terem feito uma reestruturação do “Zorra”, novos talentos, né? Com a saída do Sherman, vieram outros autores, outra linguagem. Acho que tudo meio que se repete um pouco, o “Zorra,” no final, acaba ficando um pouco semelhante ao que foi também o “TV Pirata” lá atrás, de outros programas também que a gente viu. “Casseta & Planeta”…. Tudo vai se renovando. Mas acho importante e achei legal terem feito essa reestruturação, talentos novos no humor que nós tivemos a chance de ver. Gente talentosa que brilhou ali. Não sei se dá pra gente ficar nessa coisa de uma é pior, outra é melhor, assim, assado – não! Eu acho que tudo tem o seu valor, tudo tem o seu momento e, principalmente, as novidades nem sempre são tão novas assim (risos). Elas são novas naquele momento, ficam velhas depois e vão se transformando em novidade mais a frente, é por aí.

E como você enxerga o humor hoje, de forma geral?

Hoje em dia tem essa coisa do politicamente correto, eu vou te falar que a gente tem que ter uma preocupação mesmo. Acho bom, fica mais difícil pra você trabalhar com humor assim com essa preocupação de não ofender, porque no passado era muito ofensivo essa coisa do humor. Fazer graça era sempre você ridicularizar alguém porque era gordo, careca, viado… Sempre foi essa coisa de expor. O humor é isso, o humor trabalha com essa linguagem, com esse ‘desrespeito’, e eu acho que, dependendo da situação de como você coloca ali essa coisa do humor, pode ser ou não uma ofensa. Eu penso assim. Você não está ofendendo, você tá brincando, muitas vezes você está fazendo uma piada para as pessoas verem o quão ridículo é aquele comportamento, aquela atitude em relação a outra pessoa, enfim. Mas eu acho que a gente conquistou esse politicamente correto, e se ele não vira uma coisa de censura, você tem que sentir, você tem que ver. Existem maneiras de falar, tem coisas que você pode brincar, tirar uma onda e que não está sendo ofensivo, é o que eu acho, né? E outras que você está fazendo aquilo exatamente para ofender, machucar, e acho que não é por aí. Mas a gente que é comediante e que trabalha com o humor, tem que se permitir de alguma forma fazer a piada, mas pensando “será que isso está ofendendo alguém?”. Mas acho importante essa questão do politicamente correto, ainda mais neste país que a gente vive: homofóbico, racista e misógino. A gente tem que ter uma proteção mesmo em relação as demais pessoas. Os comediantes vão ter que se virar com essa aí, viu?!

Seus personagens sempre foram engraçados, inclusive no teatro, como em “Subversões”. Você gostaria de ter feito personagens mais densos na TV? Não houve, de certa forma, um rótulo em relação ao seu trabalho?

Acho que sim. A televisão rotula mesmo né, a televisão… Infelizmente, as pessoas que comandam, acho que agora menos um pouco… Os caras estão mais… A minha turma, lá atrás, era uma turma muito boçal mesmo, as pessoas que trabalhavam, que eram diretores e alguns autores, eles mesmo já tinham essa coisa na cabecinha deles que “fulano é desse tipo”, o “galã”, o “mocinho”, a “bandida”, o “vilão”, o “viado”… Tudo a gente é rotulado ali, tanto que a gente vê alguns atores fazem o mesmo papel na TV há muito tempo, né? Muda só o corte de cabelo. Mas é o emprego da pessoa, a gente tem que sobreviver, a gente tem que lidar, algumas vezes, com essas mediocridades desses rótulos que colocam na gente e saber tirar proveito disso de alguma forma. Claro que todo ator gostaria de ter feito personagens mais densos na TV, mas eu tive a oportunidade de fazer no teatro. O teatro me deu esse espaço, no teatro eu consegui embarcar em outras viagens assim. Eu fiz Shakespeare, fiz outros personagens totalmente com outra textura que não se aproximavam tanto assim do humor. Acho que você acaba levando alguma coisa de você mesmo para o personagem. Então, acaba que sou uma pessoa mais ligada mesmo na comédia, mas me dediquei a esses trabalhos, como te falei, e o teatro me possibilitou exercitar esse outro lado. Na TV, menos. Eu tive algumas pequenas experiências. Eu fiz a minissérie “Desejo”, da Glória Perez, onde eu fazia um personagem que não tinha nada de comédia. Fiz “Incidente em Antares” com o Paulo José, também era um personagem bem diferente. Acho que, de alguma forma, o último trabalho que eu fiz com a Mônica Martelli, “Os homens são de Marte é para lá que eu vou”, que era uma comédia romântica, o meu personagem que era o Aníbal. Ele tinha outra textura também, ele era bem humanizado e vivia dramas da vida dele, um gay casado que adotou um filho. Eles viviam outra realidade lá e era um pouco mais densa. Tive sorte algumas vezes e nem tanto em outras.

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Luís Salém – Crédito: reprodução

Você começou na televisão em 1990, de lá pra cá, a TV mudou muito, principalmente após o surgimento da internet. Como você vê o futuro da TV, das novelas, enfim?

Eu não sei se eu sei responder o futuro da TV, não sei mesmo. Mas acho que é sempre uma adaptação, a gente vê que hoje em dia, como você falou, a internet comanda isso, ela meio que já tem dado esse tom para televisão. Os programas de TV hoje em dia, eles têm uma participação muito ativa do público, você vê esses realities que eles fazem… de música, essas coisas. A participação das pessoas. E acho que isso vai entrar cada vez mais dentro da TV, acho que as novelas, em algum momento, serão mais interativas, o público vai poder opinar se o personagem vai pra cá, vai pra lá, se fica com fulano, se não fica com beltrano. Não sei mas a TV vai se reinventar, porque ela é muito forte para o brasileiro. A gente fala de internet, dessa coisa assim, mas nós somos 240 milhões de brasileiros. E aí você vê que a pessoa que mais seguidores têm. ela não chega a metade desse número… Tem 30 milhões. Gente com muito seguidores assim, alguns comprados, paquistaneses (risos), enfim… O Brasil é muito grande, tem muito povo, a TV tem uma força muito grande. Eu viajo aqui pelo interior da Bahia… Claro que a internet aproximou mais, globalizou tudo. Acho que o futuro da TV é cada vez mais se aproximar da internet, dessa possibilidade de você poder participar ativamente disso tudo. Eu fico vendo o jornal aqui na Bahia, o jornal do meio-dia tem uma plateia virtual, imagina? Quando é que você imaginou que um jornal teria pessoas ali que estão em suas casas entrando, participando daquele momento da notícia, comentando sobre o que está acontecendo? É louco, né? E cada vez vai ser mais.

Durante 24 anos você foi contratado da TV Globo, hoje em dia os contratos têm sido por obra. Foi difícil o ‘recomeço’ fora da emissora?

Ninguém tira de letra ficar sem vínculo empregatício neste país. Quando você está trabalhando, você tem o seu salário, suas férias, seu 13º… É uma tranquilidade para você viver. Então, é difícil para todo mundo, cada um com o seu tamanho, cada um com a sua despesa. É difícil para todos nós, para qualquer um, sei lá… Para o cara que trabalha no supermercado ao mercado financeiro, para o que trabalha na Globo, na Record… É sempre difícil. Não é tranquilo você sobreviver neste país. Não é nenhum pouco tranquilo, ainda mais sem um emprego, é complicado. Mas a gente vai se virando como dá, a gente vai se adaptando às novas realidades, aos novos momentos da vida e vamos levando.

O que você tem feito atualmente?

A gente tá saindo dessa pandemia, eu fiquei como a grande maioria, parado esse ano e pouco, porque não tinha teatro. Eu fazia o programa com a Mônica lá no Rio (‘Os homens são de marte é pra lá que eu vou’) e foi cancelado na GNT. A gente não vai voltar. Fiquei meio apavorado como todo brasileiro, né? “Como é que eu ia viver, como é que vai ser?” Agora que a gente tá botando a cabeça para fora do buraco. Eu tenho minhas coisas, eu faço as minhas coisinhas. Eu sou uma pessoa que eu gosto de escrever, então, às vezes, invento coisas para mim. Agora eu estou me dedicando a fazer um espetáculo aqui em Salvador, acho que no verão, talvez. Uma coisa que eu já tinha vontade de mexer é o underground, meio que resgatando coisas que eu já fiz na minha vida. Eu fico fazendo as minhas coisas. Às vezes, me apresento em um canto qualquer aqui que me chamam. Eu vou lá, canto umas músicas, umas subversões, vou me virando como dá para ser. Agora que a gente tá começando a perceber que podemos inventar com essa coisa da internet, com essas possibilidades. Mas geralmente a gente espera um convite, um convite para trabalhar na TV. Mas estou aberto a possibilidades. A vida tá difícil para todo mundo, não só para mim. Mas dias melhores virão.

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Luís Salém – Crédito: reprodução

Está namorando? É mais fácil ou difícil namorar alguém quando se é uma pessoa pública?

Atualmente eu não estou namorando. Não sei se é mais difícil namorar uma pessoa pública, eu acho difícil namorar, né? Difícil você ficar com alguém. Tem todas as dificuldades do mundo que você vai vencendo essas etapas. Claro que tenho vontade, quem não está namorando e disser que não quer namorar, eu acho que tá meio que mentido. A gente quer encontrar alguém para curtir, para dividir, para ir à praia, tomar um sorvete, pra ir ao cinema, para conversar, para ver as coisas. Tenho bons amigos, mas estou na pista, amor, “enquanto tiver bambu, flecha neles”.

Como você analisa o atual cenário cultural no Brasil diante do atual governo?

O atual momento que atravessamos é tenebroso e apavorante já há algum tempo. Nós estamos vivendo um momento muito difícil no Brasil, muita gente não percebe, não se toca, mas está brabo para todo mundo, até para quem tá achando que tá bom, mas não está tão bom não. O cenário cultural? Tem um homem chamado Mário Frias na Secretaria de Cultura, um cara que podia estar em qualquer lugar, menos ali. Nós estamos muito mal representados, muito mal assessorados, eu já não tenho mais paciência de falar. A gente só tem que contar esses dias para que esse pesadelo acabe e que a gente volte a respirar. Poder produzir de novo, quer dizer, produzir ainda se produz, mas com tanta dificuldade. Mas que não seja tão difícil para gente poder trabalhar neste país aqui. A gente já luta com tantas coisas, tudo é tão difícil quando você vai fazer arte, cultura, nada é fácil. As pessoas acham que é tranquilo, mas não é. Quando você resolve produzir alguma coisa, fazer um espetáculo, fazer um filme, fazer sei lá o que, é uma loucura. Você luta, luta e além de tudo você tem que lutar nesse momento que a gente vive com essa ignorância dessas pessoas que estão ali e que poderiam estar ajudando. Eu tenho a impressão de que essas pessoas são aquelas que estão lá agora, são essas com um rancor imenso, porque não são capazes, não têm talento algum. O que ela faz? Ela menospreza o outro, ela diz assim: “Se eu não tenho, você não terá”. É um gentalha que Deus me perdoe. É um momento triste, mas 2022 vai chegar, né? 2022 chega e, se Deus quiser, muda o rumo dessa prosa. A gente vai conseguir voltar a ser o Brasil que merecemos e queremos ser. E vai ser bom para todo mundo.

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