Ela fez parte da infância de muita gente nos anos 1980 como integrante do grupo musical do Trem da Alegria. Na adolescência, seguiu uma carreira solo de sucesso, tendo emplacado vários hits que foram temas de inúmeras novelas globais – e não parou mais.

Neste bate-papo realizado por Whatsapp, Patrícia Marx comenta sobre o carinho que tem recebido da comunidade LGBT+ desde que revelou publicamente sua orientação sexual no dia 28 de junho, não apenas o Dia Orgulho, mas também dia de seu aniversário.

Você já estava planejando fazer esse “outing” ou foi inspirada pelo Dia do Orgulho ou mesmo pela data de seu aniversário? 

Sim, eu estava planejando para ser no dia do meu aniversário mesmo. Primeiro para a família e depois publicamente. E o que aconteceu foi o contrário (risos), porque no dia do meu aniversário, lendo as mensagens de parabéns que os fãs me mandaram enfim, eu comecei a ver no Instagram que era Dia do Orgulho e eu não sabia, não tinha me atentado a isso. Decidi publicar pra também declarar a minha nova posição e isso foi muito positivo com relação ao público. Fui muito bem recebida, eu só recebi mensagens de carinho e amor de todas as pessoas, mesmo héteros. Inclusive pessoas que me mandaram mensagens inbox me contando a trajetória, a história de que ainda não conseguiam se assumir, que era casada, com filho e que ainda era muito difícil, homens e mulheres. Eu me senti muito próxima do público, muito perto dessas pessoas que passam pelo processo que eu passei. E esse processo interno foi um processo longo, muito longo, eu consegui realmente me assumir, me definir muito por conta da psicanálise. Eu fui casada 18 anos com o Bruno, depois eu namorei, sempre com homens, mas tinha alguma coisa que não estava completa, né? E eu trabalhei isso muito na psicanálise dentro de mim, porque eu negava, eu era preconceituosa, eu negava isso em mim e nos outros, não entendia. Então foi quando eu passei um período sozinha, sem ninguém, que eu comecei realmente a me conhecer internamente e assumir os meus desejos. E, bom, logo depois da publicação eu informei a minha família. A primeira pessoa que eu informei foi meu filho, a pessoa mais importante pra mim nesse momento e na minha vida toda. Ele hoje tem 21 anos e eu fui super bem recebida com muito amor e com muito carinho. Fiquei muito feliz com isso e muito aliviada. Posteriormente eu informei a toda família mais próxima: pai, mãe e irmãos. E também fui recebida com muito amor e muito respeito, fui abençoada por eles e isso. Foi uma coisa muito bonita pra mim, eu tenho vivido essa sensação de felicidade, plenitude e leveza desde então.

Em algum momento, bateu um receio de que revelar sua orientação sexual poderia prejudicar a sua carreira?

Acho que não, em nenhum momento bateu esse receio, porque eu sempre acompanho as pessoas que se assumem e acho corajoso. Mesmo tendo algumas perdas, que não é o meu caso, eu não tenho grandes contratos com marcas. Enfim, e acho que isso é um grande erro, porque hoje em dia nós temos que falar sobre a comunidade LGBT+. Hoje vejo e sinto que essa bandeira está cada vez mais forte, mais unida e a diversidade tem estado em um lugar maior no mundo. Apesar dos incômodos das pessoas ainda, dos preconceituosos enfim, que eu vejo que são uma minoria. Mas eu nunca tive receio não. Eu tenho 46 anos. Fiz agora e me assumiria mesmo de qualquer maneira, mesmo se isso houvesse perdas. Eu quero viver a minha liberdade.

Há quanto tempo você e a Renata, sua namorada, estão juntas?

Nós estamos juntas desde o começo do ano.

Patrícia Marx e Renata (Reprodução)
Patrícia Marx e Renata (Reprodução)

Falando um pouco sobre sua carreira, você começou muito cedo, aos nove anos em 1983. Considera nocivo o sucesso precoce quando ainda se é uma criança?

Sim, eu considero nocivo o sucesso precoce ainda criança… muito. Porque a gente queima várias etapas da vida trabalhando e isso é muito prejudicial.

Em algum momento de sua vida, você se deslumbrou com o sucesso? Lembro que em suas apresentações você tinha um ar meio blasé, não sorria muito, parecia ser muito tímida, ou aquilo já seria um sintoma de depressão?

Não, nunca me deslumbrei com o sucesso, porque vi muita gente no meio desde pequena se deslumbrar com o sucesso e logo depois cair no ostracismo. E cair de uma maneira muito ruim, com muito problemas… Enfim, então o sucesso nunca me fez a cabeça até hoje, eu sempre priorizei a minha arte, a minha voz, a minha essência, muita coisa não me faz a cabeça, coisa de aparecer a qualquer custo, isso não é o meu perfil; e sim sou muito tímida, eu sou quase uma antiartista (risos). Não… não era um sintoma de depressão, a depressão veio bem depois, a depressão veio lá pra 2013. Depois do meu álbum 30 comecei a repensar toda a minha vida e fiquei doente. Mas hoje eu não tenho mais depressão, eu tratei com remédios. E psicanálise que faço até hoje. Hoje eu estou muito bem.

Para você, os sucessos dos anos 80 e 90 ficaram no passado ou há algum projeto ou um show para reviver os antigos hits?  

O sucesso dos anos 80 e 90 são fases que eu guardo com muito carinho, eu definitivamente sou uma pessoa do futuro, eu preciso do novo para continuar existindo, enquanto arte, enquanto artista, cantora, intérprete no mundo. Guardo com muito carinho tudo que fiz nos anos 80 e 90. No entanto, eu tenho um projeto junto com o Luciano, ex-Trem da Alegria também, chamado Trem da Alegria Celebration no qual nós temos feito alguns shows, vários shows, há mais ou menos um ano e meio até a pandemia chegar. Com esse projeto dos sucessos do Trem da alegria, um formato acústico, lúdico, bem infantil para o público infantil e também os pais que sempre foram fãs do Trem da Alegria. É um projeto muito bonito, inclusive ele saiu no Spotify, onde foi gravado em um canal do Youtube Show Livre. É um novo projeto do Trem da Alegria, meu e do Luciano.

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Se considera uma pessoa nostálgica? Sente saudades dos anos 80/90, numa era pré-internet/redes sociais?

Sou uma pessoa nostálgica sim, como uma boa canceriana, mas não sinto saudades dos anos 80 e 90. É muito engraçado isso, eu sou uma pessoa nostálgica, tenho uma boa memória do passado, mas eu amo o futuro. E agora, mais do que nunca, o presente. Neste momento de quarentena tenho aprendido muito a viver no presente, a viver cada minuto como se fosse o último, porque nunca tivemos tanta certeza de que precisamos viver realmente o presente. O futuro depende do nosso melhor presente, porque o futuro nesse momento pra nós todos enquanto cidadãos, brasileiros, é totalmente incerto; um momento que nós nos sentimos tão abandonados pelo governo. Então, tenho cuidado da minha cabeça, tenho cuidado de mim, do meu corpo, do meu dia a dia, tenho buscado a felicidade nas coisas mais simples possíveis como os últimos momentos da vida, vivendo muito no presente, é uma experiência muito bonita.

Luciano e Patricia Marx, do Trem da Alegria

Você chegou a lançar um álbum exclusivamente para o mercado japonês, chegou a fazer shows no Japão? Soube que esse álbum hoje virou artigo raro de colecionador. E também emplacou um hit na França, não é?

Sim, lancei um álbum exclusivamente para o mercado japonês em 1992, mais ou menos. Cheguei a fazer shows no Japão em 1998. Fiquei um mês no Japão fazendo uma turnê em sete dias para a comunidade brasileira e japonesa, foi muito legal, muito produtiva. Eu adorei o Japão, eu moraria facilmente lá. E sim, esse álbum virou artigo raro de colecionador. Infelizmente a master desse álbum foi perdida na época, ela saiu pelo selo Camerati e este selo se desfez. E essa master foi vendida ou distribuída… dada para o cantor Belchior. Como ele veio a falecer, não se sabe desta master (é a matriz do trabalho de um álbum) e eu gostaria muito de relançá-lo, porque é um trabalho muito bonito e algumas pessoas tem no Brasil. No Japão, foi vendido por lá na época, acho que algumas pessoas devem encontrar este CD na internet. E também emplaquei um hit na França, isso foi na época que eu fui morar em Londres entre 2002 e 2003. Esse hit é uma faixa que faz parte do álbum Patricia Marx lançado em 2004 pelo selo Trama, é uma música que eu canto em inglês chama-se “Burning Luv”. Virou até ringtone na França na época.

Ao longo de sua extensa carreira, você emplacou inúmeros sucessos, a música “Espelhos D’água” é apontada como o seu maior hit, eu imaginava que fosse Destino que também fez muito sucesso. Qual a sua canção favorita de toda a sua carreira?

Emplaquei alguns sucesso aí, Espelhos D’ água, Quando chove, Destino, Sonho de Amor… Entrei em várias novelas da época dos anos 80 e 90. Não sei nem enumerar aqui, mas sei que foram várias músicas… Ficar com Você também é um grande sucesso que é um versão dos Jackson’s Five, uma versão feita pelo Nelson Motta. Mas a minha música favorita de toda a minha carreira, que me toca bastante e que é uma música que é meu filho, assim, né, eu fiz junto com o Bruno, chama-se Despertar e ela está no álbum Respirar.


Como você avalia a política atual em relação a cultura e a comunidade LGBT?

Eu vejo a situação política atual em relação a cultura e a comunidade LGBT+ com um olhar de que estamos todos abandonados. Infelizmente, nós sempre tivemos que lutar por nós mesmos, essa é a verdade; então, isso não mudaria agora com esse governo, não seria diferente. Então isso nos faz mais fortes, mais unidos e aprendendo ao longo do caminho com dificuldades. Mas eu vejo que essa dificuldade traz mais união, tirando o lado do ódio, que eu acho que não leva a lugar nenhum. Nós todos temos que nos unir, mais do que nunca, mesmo isolados.

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Como você avalia o atual cenário musical? Tem a sensação que é um mercado saturado?

O cenário musical eu avalio sob a perspectiva da internet. Então eu acho que a internet ela é democrática, graças a Deus. Então o sol nasce pra todos e a gente, antigamente quando não tinha internet, não tínhamos essa opção de escolher muito, era o que se tocava no rádio e pronto acabou, hoje não… Hoje nós temos a internet, temos as plataformas digitais, como um meio de você escolher o que você quer ouvir, é bem democrático. Eu acho muito positivo. Hoje em dia, ainda mais com as lives no Instagram, acho muito positivo isso.

Como você se relaciona com as redes sociais que funcionam como um canal direto com as pessoas/fãs?

Eu me relaciono bem com as redes sociais acho que agora um pouco menos. Eu to numa fase que eu estou um pouco mais recolhida. E tem sido muito bom reavaliar essa questão de ficar postando muito, postando sempre, esse vício de postar. Mas eu tenho um contato direto sim com os fãs, eu respondo a todas as mensagens a medida do possível, acho importante isso, a gente ter esse tempo para responder as pessoas que gostam de você, que repostam os trabalhos né, que tem um carinho, isso faz uma grande diferença.

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Quais são seus próximos projetos?

Meus próximos projetos… bem (risos), eu quero que a pandemia acabe logo pra voltar a fazer shows com o novo trabalho, com este EP que lancei chamado João, que é uma homenagem ao João Gilberto. Desejo fazer muitos shows com este trabalho, terminar a minha biografia para que seja logo lançada. Não quero criar expectativas, porque eu já estou enrolando muito com este livro (risos) e as pessoas ficam ansiosas. E vamos ver aí o que nos aguarda no final dessa quarentena toda né.

E para finalizar, gostaria de deixar uma mensagem para os leitores do GAYBLOGBR?

Eu gostaria de agradecer a toda a comunidade LGBT+, não só também, mas a todas as pessoas que me mandaram mensagens de carinho, de amor, mensagens positivas. Sou muito grata por terem me acolhido com todo esse amor. Hoje eu me sinto parte desse grande movimento de amor, de liberdade, responsabilidade e que nós possamos juntos mostrar e ter mais compreensão com as pessoas que não nos compreendem ainda. Acho que o amor é a melhor resposta e dentro do amor vem a paciência, vem uma compreensão maior e muita força, muita resiliência, eu tô com vocês. Muito obrigada por tanto carinho, por tanto amor, eu prometo devolver todo esse amor, esse carinho em música, palavras e abraços, muito obrigada.

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