‘Após a notificação de Crivella, decidimos aumentar a exposição de livros LGBT+’, relembra editora que participou da Bienal

"Um dia que deveria ser marcado pela intolerância, serár lembrado como o dia em que as pessoas decidiram por valorizar mais os livros", comemora a editora

Para a Faro Editorial, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro deste ano tinha um toque mais que especial, pois marcava a publicação do centésimo livro e a celebração ter um título liderando a lista de mais vendidos de ficção no Brasil.

Após a repercussão das medidas adotadas pela Prefeitura do Rio de Janeiro em recolher livros nos estandes de editoras, a editora entendeu que era o momento de se posicionar contra a arbitrariedade.

No catálogo da editora estava uma das obras LGBTQIA+ adquiridas por Felipe Neto, o livro Feitos de Sol”, de Vinicius Grossos. Vinicius também foi um dos convidados da própria organização da Bienal para participar da Arena Sem Filtro falando sobre “Literatura Arco-íris”.

“Sinceramente, a gente que ama escrever, que ama cultura, luta tanto para ter um mínimo de espaço, de reconhecimento. E chegar na Bienal, que é um espaço conhecido por respeito, pela festa, pelo amor aos livros, foi desesperador. Eu me senti pessoalmente atacado por Crivella. Como se a ameaça de levar meus livros fosse uma forma de anular minha existência e a da minha arte. Me senti empurrado de volta para o armário, quando na verdade, eu não ataquei ou atingi ninguém”, desabafou Vinicius depois de participar da mesa que foi marcada por um beijaço como forma de protesto.

“Levar ao leitor histórias como as do Vinicius e de diversos outros autores da casa, são o nosso motivo para existir e para continuar a publicar livros. E saber que por um instante que fosse, esse direito de dividir conhecimento e informação poderia nos ser tirado, mostra o quanto o trabalho das editoras e dos autores no Brasil é cada vez mais necessário. Tão logo recebemos a notificação da justiça de que teríamos de recolher todos os livros que pudessem ser considerados pelo prefeito ofensivos, decidimos aumentar a sua exposição e colocar um cartaz desafiando a proibição. Eu senti como se tivéssemos voltado 30 a anos no tempo, no entanto, temos agora uma maioria de apoiadores. Depois de meses em que muitos se separaram por tendências políticas, encontramos um ponto de união”, revelou Pedro Almeida, Publisher da Faro Editorial.

A editora ainda conta que, de um fato triste na história do mercado editorial, diversos livros da editora esgotaram no estande, não apenas livros com a temática LGBTQIA+, mas vários outros títulos, especialmente de autores nacionais.

“A ação do youtuber Felipe Neto criou uma marca contra o preconceito na Bienal. Foi algo de arrepiar, assistir a milhares de pessoas marcharem nos pavilhões com livros nas mãos, gritando contra a censura. A união das pessoas nessa luta tornou esta Bienal um marco histórico. Um dia que deveria ser marcado pela intolerância, vai ser lembrado por todos nós como o dia em que as pessoas decidiram por valorizar mais a leitura, o livro, o conhecimento. E esse sentimento, essa vitória, é de todos nós”, comemora Pedro.