“Não conhecem nada da nossa história, não conhecem o nome de ninguém, não sabem quem é quem, eles não são nem pessoas pra mim esses youtubers. Eles são likes, eles só são likes, é por isso que eles não sabem falar. Não falou nada, só falava ‘Arrasou, aí mona, ai que luxo, ai que escândalo, aí parou tudo’, por quê? Não sabem falar, não sabem nada, não têm história pra contar, não têm o que falar, entendeu?”. Críticas como esta, da veterana Kaká di Polly, puseram em xeque a credibilidade do casting de youtubers LGBT+ do Dia Estúdio contratados para a realização da Parada Virtual de SP, que aconteceu em meados de junho. Silvetty Montilla e Salete Campari também vieram a público para lamentar o apagamento de fatos históricos e figuras precursoras do movimento LGBT+ de São Paulo.

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No último dia 10, Cláudio Nascimento, um dos fundadores da Parada do Orgulho LGBTI Rio de Janeiro, também se viu na necessidade de repudiar publicamente a falta de conhecimento de youtubers sobre a história do movimento LGBT+ no Brasil. Em nota direcionada ao canal Põe na Roda, replicada no site da Parada SP, Nascimento diz estar “perplexo” com a informação falsa disseminada pelo canal de que a primeira Parada LGBT+ do Brasil teria sido em São Paulo. A informação, segundo ele, poderia ter ser sido encontrada mesmo com pouca de apuração jornalística.

Sob o título de “NÃO! NÃO APAGUE NOSSA HISTÓRIA!”, a nota traz uma foto de 1995 retirada da dissertação apresentada ao programa de pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz, em 2019, do requisito parcial para obtenção do grau de Mestre de Ana Cláudia Teixeira de Lima. A foto original foi publicada no jornal Folha de S. Paulo, em junho de 1995, e faz parte do acervo ABIA (ICICT/FioCruz).

Fundador da Parada RJ se diz perplexo com informação falsa disseminada pelo youtube lgbt+

Leia na íntegra a nota de Cláudio Nascimento:

“NÃO! NÃO APAGUE NOSSA HISTÓRIA!

No dia 09 de julho, ficamos perplexos ao ter contato com matéria de vocês do Põe na Roda informando que em 1997 nascia a primeira Parada do Brasil, a Parada de São Paulo. Não, isso não é verdade!

Com um pouco de apuração jornalística, com certeza poderiam encontrar informações que os levariam ao fato histórico. A primeira Parada do Orgulho LGBTI no Brasil, aconteceu no dia 25 de junho de 1995, no Rio de Janeiro. Era um dia lindo, na Praia de Copacabana. Desfilamos do Posto 6 ao 2. A manifestação foi organizada pelo Grupo Arco-Íris juntamente com o Grupo Atobá, 28 de Junho, Caras e Coroas, Movimento DELLAS, Grupo Unido Astral, Grupo Triangulo Rosa, NOSS, entre outros.

Acontecia a época, entre 18 a 25 de junho daquele ano, no antigo Hotel Rio Palace, no Posto 6 da Praia de Copacabana, a 17ª Conferência Mundial da ILGA – Associação Internacional de LGBTI+. Nesta conferência participavam 1800 representantes de 40 países. Ao fim dessa conferência, foi realizada a Primeira Parada do Brasil, inclusive com a participação de ativistas internacionais e de brasileiros de vários estados que se somaram aos cariocas, reunindo 3 mil pessoas.

Assim, não apaguem a nossa história. Não apaguem a nossa luta!

Todo blog LGBT precisa estar muito atento com as informações que passa para o seu público para não gerar desinformação e graves apagamentos.

Essa nota não pode ser tratada com uma treta entre Rio e São Paulo. Mas sim trata-se de restaurar a história do Movimento LGBTI Brasileiro, que nas décadas anteriores construíram as bases para os avanços sociais, culturais, políticos e civilizatórios que temos hoje, apesar de sabermos o quanto ainda precisamos caminhar para a cidadania plena no Brasil.

A Parada Orgulho LGBT de São Paulo é uma co-irmã da Parada do Rio e as organizações destas manifestações vem construindo caminhos para ampliar cada vez mais o diálogo.

É bom lembrar também, que na primeira do Brasil, a Parada do Rio de Janeiro de 1995, participaram diversos militantes e drag queens do Estado de São Paulo, que saíram radiantes da passeata mobilizados a realizar uma parada paulistana.

A grande bandeira do arco-íris que hoje é presença marcante em todas as principais paradas do Brasil, também foi inserida pela primeira em nosso País na Parada do Rio de 1995, quando foi super retratada em diversas matérias jornalísticas. Alguns meses antes da Parada do Rio, nós do Grupo Arco-Íris, convidamos uma senhora, costureira, a fazer essa primeira grande bandeira do arco-íris, que se tornou a época a maior bandeira do mundo, com 124 metros de comprimento por 10 metros de largura.

Antes da Parada do Rio de 1995, tentamos em 1993 realizar algo parecido, quando nesta passeata reunimos 30 pessoas na Praia de Copacabana. Ao percebermos que ainda não havia na população LGBTI um sentimento de pertencer a algo, de ser uma comunidade, vimos que era necessário investirmos esforços para contribuir na construção de um imaginário coletivo, de fazer parte de um grupo social, então resolvemos em 1994, realizar eventos sociais e culturais, tendo como desfecho principal a Tarde de Convivência pela Dignidade Homossexual, como evento comemorativo do Orgulho, que conseguiu reunir no gramado do Museu de Arte Moderna do Rio, 600 pessoas LGBTI e aliadas da causa, que se dividiam entre falas políticas, brincadeiras, performances, poesia, onde contamos com a presença de diversas personalidades.

Em 1995, já estava germinada a semente da Parada e com a realização da Conferência Mundial no Rio, era o momento perfeito para realizar a Primeira Parada do Brasil.

Assim, pedimos que corrija essa matéria para restaurar a história que não pode ser apagada. Ela é um legado estratégico da história de lutas e resistências da Comunidade LGBTI brasileira, que através do Movimento Organizado, estruturou as lutas e pavimentou nossas conquistas.

Tenho 49 anos. 31 anos dedicados ao Movimento LGBTI Brasileiro. Tenho o maior orgulho e alegria de ter participado da organização da primeira Parada do Brasil, no Rio. A época, era, junto com diversas pessoas ativistas, um jovem de apenas 23 anos, cheio de sonhos e esperança, que são até hoje a minha base para seguir lutando por dias melhores.

Por isso, não apaguem a nossa história!

Cláudio Nascimento

*Cláudio Nascimento é um dos fundadores da Parada do Orgulho LGBTI Rio de Janeiro, a Primeira Parada do Brasil. Gay, negro e nordestino. Também é coordenador executivo do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTI e Coordenador da Parada do Orgulho LGBTI Rio. Cidadão Honorário da Cidade do Rio de Janeiro”.

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