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Daiana Santos (PCdoB), de 40 anos, disputa uma vaga como deputada federal no Rio Grande do Sul. Sanitarista e educadora social de rua, em 2020, foi eleita a primeira vereadora abertamente lésbica de Porto Alegre (RS).

Daiana Santos, candidata a deputada federal pelo PCdoB do RS (Foto: Reprodução/ Facebook)

Além de acreditar que somente na luta a realidade das camadas mais vulneráveis da população podem ser mudadas, Daiana considera que uma de suas principais motivações para a candidatura, são as pautas que são “caras” a sua existência: “dada a minha construção social – mulher, negra, periférica, formada por uma universidade federal, participante da política de cotas, filha de empregada doméstica, lésbica – e também da participação política ao longo da minha trajetória”, afirma a candidata.

“[…] Ao me declarar não só alguém que constitui a população LGBTQIAP+, mas também defensora de pautas direcionadas para essa população, minha vida está, infelizmente, em risco. Afora esse que é o desafio mais complexo e difícil, temos o desafio de termos legitimidade para poder pautar demandas da população LGBTQIAP+, sobretudo num estado tão preconceituoso como é o Rio Grande do Sul”, acrescenta Daiana, que é uma das entrevistadas no especial “Eleições 2022” do Gay Blog BR.

Daiana Santos (Foto: Reprodução/ Facebook)

Confira na íntegra a entrevista com Daiana Santos

GAY BLOG BR: Qual a sua formação e trajetória profissional? 

Daiana Santos: Sanitarista formada pela UFRGS, educadora social de rua, trabalhou com mulheres em situação de violência e pessoas em situação de rua, trabalhou como operadora de telemarketing, vendedora, serviços gerais, entre outras atividades.

GB: O que a motivou a se candidatar?

Daiana: Acreditar que somente na luta podemos mudar a realidade das camadas mais vulneráveis da população. Obviamente uma candidatura não é uma decisão individual, mas sim coletiva dentro do partido do qual se participa. Desta maneira, considero que a motivação para se candidatar vem da luta pelas pautas que são caras a mim, dada a minha construção social – mulher, negra, periférica, formada por uma universidade federal, participante da política de cotas, filha de empregada doméstica, lésbica – e também da participação política ao longo da minha trajetória.

GB: Quais os desafios enfrentados ao ser uma candidatura abertamente LGBT+?

Daiana: São vários. Começando pelo desafio da manutenção da própria existência, que é o que me permite lutar. Recentemente, nós, vereadores da bancada negra da Câmara Municipal de Porto Alegre, recebemos e-mail de alguém contendo ameaças graves, como uma forma de intimidar e colocar nossa vida em risco. No meu caso, esse e-mail continha dizeres me ameaçando por ser preta e sapatão, ou seja, parte importante da motivação deste criminoso é pelo que sou, uma mulher lésbica. Assim, ao me declarar não só alguém que constitui a população LGBTQIAP+, mas também defensora de pautas direcionadas para essa população, minha vida está, infelizmente, em risco. Afora esse que é o desafio mais complexo e difícil, temos o desafio de termos legitimidade para poder pautar demandas da população LGBTQIAP+, sobretudo num estado tão preconceituoso como é o Rio Grande do Sul.

Dessa maneira, digo que a luta pela defesa da pauta começa com a luta pela minha própria vida e, depois, a luta para que as pessoas que participam da arena política entendam que isso é importante, isto é, que é muito relevante combatermos esse tipo de violência e de extrairmos esse tipo de preconceito, porque isso toca diretamente a vida de muita gente. Não é só a população LGBTQIAP+ que sofre diretamente, embora seja a “linha de frente” nesta luta. Isso porque temos mães, pais, irmãos etc., que sofrem com a violência praticada contra nós, população LGBTQIAP+, todos os dias, das mais diversas formas possíveis, sejam elas físicas ou psicológicas.

GB: Quais são as suas principais propostas? Há pautas exclusivamente para LGBT+?

Daiana: Há sim pautas exclusivas que fazemos questão de levar à frente no âmbito da Câmara Municipal de Porto Alegre, pois essa é uma característica que me constitui como pessoa, que me toca a todo instante. Portanto, não teria como não lutar, ou seja, não colocar em pauta, por exemplo, projetos de lei que visam, de alguma forma, pelo menos mitigar o preconceito sofrido por nós.

Dentre as várias propostas que fizemos, destaco as seguintes: Inclusão do Dia da Visibilidade Trans no calendário oficial de Porto Alegre, a ser comemorado no dia 29 de Janeiro; Criação da Procuradoria Especial LGBTQIA+ na Câmara Municipal de Porto Alegre; Desarquivamento do Projeto de Lei do ex-vereador Marcelo Rocha que cria o Conselho municipal LGBTQIA+ e o Fundo Municipal de Promoção dos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais; Relatório Situacional da População LGBTQIA+, com objetivo de criar um banco de dados da população LGBTQIA+ no âmbito do Município de Porto Alegre, a fim de orientar políticas públicas para este público; Estabelecemos a obrigatoriedade de divulgação, através de placa informativa, do artigo 150 da Lei Orgânica do Município – o qual estabelece que não pode haver discriminação racial, étnica, religiosa, política, física, de gênero e sexualidade -, nos estabelecimentos comerciais e instituições públicas no território de Porto Alegre.

GB: Quais medidas você acredita serem necessárias para combater a LGBTfobia?

Daiana: Como citei na outra pergunta, acredito que a luta e a participação política da população LGBTQIAP+ sejam questões fundamentais para combater esse tipo de preconceito. Ninguém vai passar, de uma hora para outra, a aceitar nossa participação social, política e econômica de maneira “natural”, pois a LGBTfobia é algo muito enraizado nas condutas sociais das pessoas. Assim, somente quando enfrentarmos e combatermos por meio de luta política, organização partidária, coletiva e capaz de criar condições legais da participação e da efetivação de medidas e serviços públicos para essa população, bem como garantia da segurança para existir é que poderemos, de alguma forma, combater a LGBTfobia.

GB: O que você pensa sobre o uso e políticas da PrEP?

Daiana: Sou favorável. A Profilaxia Pré-Exposição de risco à infecção pelo HIV (PrEP) é mais um método de combate ao crescimento do HIV. Nada mais é que o uso preventivo de medicamentos antirretrovirais antes da exposição sexual ao vírus, para reduzir a probabilidade de infecção pelo HIV. Ou seja, não há como ser contra algo que o objetivo é prevenir a infecção pelo HIV e promover uma vida sexual mais saudável a todas, todes e todos.

GB: Como você avalia o governo de Bolsonaro?

Daiana: Péssimo, terrível, um verdadeiro retrocesso para a humanidade, especialmente para população brasileira e, mais ainda, para as populações mais vulneráveis, tal como mulheres, negros, população LGBTQIAP+ etc. Isso porque o atual presidente representa não só os velhos costumes arraigados em práticas feudais de entender a sociedade, mas também é grande representante do Capital, o qual é grande responsável pela criação e manutenção das desigualdades, da fome, da ausência de políticas públicas para quem mais precisa.

Confira a lista de candidaturas LGBTQIA+ de 2022 neste link.

Lista de candidatos LGBTQ+ nas eleições 2022 | Deputados, Senadores, Governadores




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Jornalista gaúcho formado na Universidade Franciscana (UFN) e Especialista em Estudos de Gênero pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)