Em celebração ao Dia Mundial da Luta contra a AIDS, no próximo 1º de dezembro, a Universidade Federal Fluminense (UFF) lançará um projeto de pesquisa que resgata a memória e a história pública da epidemia de HIV no Brasil e nos Estados Unidos. Liderado pela professora Samantha Quadrat, do Departamento de História, o projeto “História Pública e Memória do HIV-AIDS no Brasil e EUA” busca explorar como as sociedades enfrentaram os desafios impostos pelo vírus nas décadas de 1980 e 1990. As informações são de matéria da UFF.

Perspectivas comparadas entre Brasil e EUA
A pesquisa analisa de forma comparada as respostas sociais e políticas adotadas nos dois países. Nos Estados Unidos, a epidemia ficou marcada pela desinformação inicial e pela estigmatização da população LGBTQIA+, frequentemente referida de forma pejorativa como “peste gay“. Já no Brasil, o avanço das políticas públicas foi limitado inicialmente pela visão de que o problema era restrito a minorias.
“Compreender a trajetória do HIV e da AIDS como uma questão de saúde pública global ajuda a enxergar como diferentes sociedades reagiram, cada uma à sua maneira, ao enfrentar um inimigo comum. Esse não é um tema que a história como ciência ainda abraçou totalmente. Nos Estados Unidos, vemos mais políticas de memória, que serviram de referência para muitos países, enquanto no Brasil o tema ainda encontra resistência em sair do espectro LGBTQIA+”, explica Quadrat.
A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1990, foi um marco na compreensão e tratamento do HIV no Brasil. A adoção de políticas de acesso universal à saúde permitiu a distribuição gratuita de medicamentos antirretrovirais e a implementação de campanhas educativas. “O SUS garantiu o acesso ao tratamento, viabilizou campanhas educativas de grande alcance e a descentralização do diagnóstico e da prevenção, o que ampliou significativamente a resposta nacional ao HIV”, afirma a professora.
Resgate histórico e cultural do HIV
A pesquisa utiliza métodos de história oral e análise de documentos da época, como jornais, panfletos e produções artísticas, para mapear memórias da epidemia. A equipe busca recuperar relatos de pessoas que enfrentaram o HIV e/ou a AIDS diretamente, com foco no estado do Rio de Janeiro. “Era um trauma compartilhado. As pessoas perderam amigos, familiares e, ao mesmo tempo, enfrentaram o estigma de uma ‘sentença de morte’ associada ao diagnóstico”, comenta Samantha Quadrat para a UFF.
Além disso, destaca como a arte desempenhou um papel central na conscientização e na luta contra o estigma. No Brasil, artistas como Cazuza e Herbert Daniel romperam o silêncio e deram visibilidade ao tema, transformando suas experiências pessoais em um símbolo de resistência.
“O Cazuza, por exemplo, deu um rosto à epidemia no Brasil, e seu legado é imenso. Ele não para de trabalhar, produz discos de muito sucesso e adoece publicamente junto ao público, enfrentando todo o estigma em um período no qual as pessoas se retiravam de cena para que o adoecimento e os sinais da AIDS – como a magreza e a perda muscular – não fossem vistos publicamente. A postura dele rompeu aquela barreira da época, o que trouxe visibilidade a uma causa que, até então, era tratada com discriminação e silêncio”, relembra Quadrat.
Memória do HIV nas novas gerações
Apesar dos avanços, a memória da epidemia ainda é pouco abordada entre os jovens. Dados do UNICEF, compartilhados pela UFF, apontam que 41% dos casos notificados de HIV em 2022 no Brasil foram de pessoas entre 15 e 29 anos. Para Quadrat, a falta de iniciativas culturais e educacionais contribui para esse distanciamento: “Diferente de lugares como Nova Iorque e São Francisco, que possuem monumentos e eventos dedicados à memória do HIV e AIDS, no Brasil temos homenagens pontuais, como ao Cazuza, mas não há um marco mais amplo que resgate a luta contra o preconceito e a história dessa epidemia”.
A professora destaca a importância de iniciativas como memoriais virtuais e homenagens, que conectam o passado com as novas gerações. “As redes sociais são uma ferramenta poderosa para conectar as novas gerações com essas histórias, como exemplo os memoriais virtuais vistos no recente show da Madonna, que homenagearam vítimas de todo o mundo, incluindo brasileiros”, diz.
Próximos passos da pesquisa
Entre os projetos futuros, a equipe liderada por Quadrat planeja lançar um livro com relatos de pessoas que viveram o impacto do HIV e da AIDS, além de organizar um acervo de memórias composto por documentos históricos e materiais raros. “O tema deve ser abordado de maneira mais ampla e interdisciplinar, para que as novas gerações compreendam o impacto dessa crise no passado e na atualidade”, avalia Quadrat. O lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2025, com a colaboração de pesquisadores nacionais e internacionais.
A criação desse acervo tem como objetivo ampliar o acesso ao conhecimento e estimular debates sobre a epidemia de HIV. “É fundamental que possamos criar um espaço físico e digital onde as histórias dessas pessoas sejam acessíveis e possam ser refletidas de forma crítica. A construção desse acervo vai além da simples preservação de documentos; trata-se de uma ação direta para fortalecer a luta contra o preconceito e garantir que a memória da epidemia continue viva”, conclui a professora Samantha Quadrat.
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