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Janeiro é o mês da visibilidade trans e 29/01 é um dia a se comemorar. Em um país onde as pessoas trans são caçadas e violentadas sem pudor e têm sua a expectativa de vida reduzida a 35 anos, medidas efetivas que contribuam com o empoderamento e o preparo para a autopreservação das mesmas se torna ainda mais essencial.

Pensando nisso, Bruna Benevides, uma das diretoras da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), decidiu escrever um roteiro de dicas de comportamento voltado para pessoas trans.

Segundo Bruna, este é um mês em que várias travestis e demais pessoas trans são convidadas em peso para a participação em entrevistas e eventos, que podem conter questionamentos e situações situações constrangedoras, abordando a questão “de modo raso ou levantando polêmicas para nos distrair de nossos objetivos”, algo que nem sempre é fácil de antever.

“Estamos no mês da visibilidade trans, e assim como existem pessoas bem intencionadas em busca de contribuir com a nossa causa, existe muita gente que tem compromisso com o engajamento através de temas que estão em voga ou que geram reações — boas ou ruins, a depender do tipo de veículo que esta publicando. Falar sobre pessoas trans gera mídia. Especialmente quando se trata de falar sobre violência, humilhações e casos de transfobia explícita. E do mesmo modo, o processo de perpetuação de mitos, disseminação de estigmas e criação de esteriótipos negativos sobre nós também tem sido um movimento recorrente que a mídia tem sido responsável”, pontua Bruna.

A ativista escreveu quinze situações hipotéticas e como reagir a elas, além de três pontos bônus. Confira na íntegra neste link.

  1. Pedido para mostrar fotos antigas.

Se você não se sente confortável em mostrar fotos antigas, de “antes da transição”, não mostre. Por mais que a pessoa insista, você não deve ceder a algo que te machuca.

2. Qual seu nome anterior?

Se você não quer expor seu nome anterior ao que é atualmente, não fale. Seu nome é aquele que te representa.

3. Você fez cirurgias de redesignação sexual? Você sente desconforto ou prazer com seu órgão sexual?

Se você não se sente confortável para falar sobre o genital, cirurgias, sexo, vida privada, ou qualquer outro assunto, não fale. Externalize o porque essas perguntas são invasivas e que não são interessantes para como você gostaria de ser visto.

Se possível, explique ao jornalista que tais informações, apesar de a imprensa sempre achar relevante expor, pouco diz respeito sobre quem você é. E que dá, sim, para falar sobre tudo isso sem um excesso de exposição.

Pense que tais informações podem ser usadas por pessoas preconceituosas, dentro e fora do seu círculo de convivência, contra você, para te deslegitimar, agredir e expor.

Se você não vê problema nenhum em expor tudo isso, você está falando APENAS sobre a sua própria vivência, não a de todos. Explique isso.

4. Pergunte qual a pauta e os objetivos da entrevista.

Vale perguntar qual é a pauta / assunto. Muitas vezes te chamam pessoas trans para falar sobre um assunto X — novela ou política, por exemplo — e daí no decorrer da entrevista começam a entrar em questões pessoais. Questione sobre a relação da pergunta ao tema proposto pela entrevista.

Veja, pense e reflita se há relevância e se é importante responder ou não.

5. Você não é uma enciclopédia trans. Não tem que opinar sobre tudo.

Não é porque você é trans que deve falar/saber sobre tudo que envolve as pessoas trans. A depender do assunto, e caso você não seja da área ou não domine o conteúdo, decline do convite e indique outras pessoas que você conhece e que estarão ligadas ao que foi proposto. Principalmente ativistas, especialistas e pesquisadoras do assunto específico.

6. Não me sinto preparade para a entrevista:

Se você não se sente preparade para sair da invisibilidade e lidar com comentários preconceituosos e a hiperexposição, pense bem no que pode vir e avalie se vale a pena seguir com a entrevista. No dia da publicação e a depender do veiculo onde será publicada a matéria, você pode receber rações nem sempre positivas e isso gerar impactos na sua vida pessoas, na sua segurança, saúde mental, etc.

7. Quando você falar de si, você ganha. Quando você fala sobre nós, todes nós ganhamos.

Nossos posicionamentos públicos refletem em nossa comunidade. Tenha compromisso com o coletivo e lembre que muitas pessoas poderão ser afetadas pelo seu posicionamento — direta ou indiretamente.

Avalie suas palavras, a importância e o impacto ao expor o que está disposto a falar, pois há o risco de invisibilizar pessoas que são especialistas no assunto.

8. No decorrer da entrevista, tente incluir questões relativas a direitos.

Vale a pena incluir em suas respostas, o quanto que a violência, os retrocessos e a agenda anti trans impactam a relação social e o acesso a direitos. Que a visibilidade trans tem compromisso com uma agenda positiva e que visa gerar ganhos políticos as pessoas trans. Impactando na vida dessas pessoas através de politicas públicas.

9. Leia a história do movimento, conheça as pessoas que nos antecederam e saiba quais direitos temos garantido.

Saber de nossos direitos, de onde viemos e onde queremos chegar é muito importante.

10. Avalie de vale a pena dar a matéria caso seja uma mídia que ao longo do ano não tem reverberado questões relativas as pessoas trans.

Ou ainda se esse veiculo tem contribuído para a disseminação de questões negativas ou transfóbicas.

11. Procure saber da reputação de quem te procurou.

Leia sobre a formação da pessoa. Peça um portfólio/site ou matérias em que a pessoa tenha trabalhado para saber como ela aborda as questões.

12. Não dê entrevista apenas por telefone.

É comum não termos controle sobre o que será publicado. A matérias atendem ao que o veiculo quer vender e acabamos vendo manipulações de nossas falas, o que pode ser catastrófico. Fale por telefone apenas se a pessoa estiver gravando (pergunte) e peça uma cópia. Se for por whatsapp, salve a entrevista e dê preferencia para respostas por áudio ou escritas para que você tenha o registro do que disse.

13. Não gostou de algo depois que a matéria foi publicada?

Peça para editar, sugerindo a forma com que gostaria de a questão fosse publicada reformulando o que está escrito.

14. Você não tem obrigação de prestar assessoria ou ensinar a pessoa.

Muitas vezes uma entrevista se torna uma formação sobre questões trans. Deixe isso nítido caso se sinta desconfortável. E indique leituras/pessoas para que a pessoa possa buscar fontes. Lembre que você não sabe falar apenas sobre transfobia e se coloque a disposição para discutir outros temas.

15. Você não tem obrigação de responder todas as entrevistas.

Se achar que não está preparada, disponível, com tempo ou simplesmente não está a fim, recuse o convite. Não se force a participar de algo em que não se sinta confortável.

Bônus:

  • Fale sobre você, sua arte ou trabalho, mas não se limite a isso. Use o espaço de forma inteligente e de modo que você tenha algum retorno. Close não paga contas.
  • Salve o contato de quem te procurou para que você possa propor pautas ou até fazer denuncias em outros momentos. E caso mais a frente a pessoa não te de retorno ou colabora com sua proposição, esse veículo não tem compromisso conosco.

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Catarinense, 25 anos e professor de Literatura e Língua Inglesa. Homem gay, apaixonado por música e que respira futebol e cultura latino-americana.