Era para ser uma consulta de rotina em sete de julho deste ano. A transexual brasileira Giovanna Magrini, radicada em Paris, estava sentindo dor de dente e buscou atendimento em uma rede de clínicas dentárias bastante popular na cidade luz.

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O dentista que prestou o atendimento era de origem tunisiana e, ao se identificar como uma mulher trans, deu início ao que Giovanna descreveu como uma tortura psicológica, que a fez buscar os seus direitos logo que deixou o consultório aos prantos.

em protesto
Giovanna Magrini – acervo pessoal

Três meses após a denúncia ao Conselho da profissão, veio o resultado. Giovanna, que trabalha como mediadora em saúde, atriz e ativista LGBT, conversou com exclusividade com o GAY BLOG BR sobre os momentos de pânico que viveu no atendimento com o dentista transfóbico.

Você foi vítima de transfobia recentemente, como isso aconteceu? 

Fui com muita dor de dente na mesma clínica que já havia feito o canal (Clínica Dentego) em 2018. Cheguei no local no dia 25/06/2020, com muito respeito e carinho, e fui recebida por atendentes muito educadas e respeitando minha identidade de gênero de mulher trans. Tudo no feminino, mesmo nos documentos sendo masculino.

Esperei o doutor me chamar e, de imediato, ele foi educado. Me apresentei como Giovanna Magrini, mulher transgênero, e que não troquei meu nome e gênero no documento, pois sou brasileira e para fazer isso, teria que volta ao meus país.  Na França, é necessário ter laudo psiquiátrico constando que somos mulheres transgênero, passar por vários procedimentos para ter a troca de gênero e  nome na certidão de nascimento de uma pessoa trans.

Disse a ele para ser tratada no feminino e ele respondeu: “Tudo bem, a senhora não se preocupe não tenho preconceito.” Em seguida fiz o exame, e constou que deveria operar de novo, porque foi mal feito o canal. Devido a infecção estar muito grave, deveria tomar os antibióticos e esperar a infecção acabar, então foi marcado o retorno para 07/07/2020. Retornei nesta data, e fui recebida com todo carinho e respeito pelas atendentes e quando o Dr. veio me recebeu com um tom mais agressivo, mas eu estava com muita dor, só queria acabar com aquela dor logo. Relevei a grosseria.

O Dr. falou que não iria dar anestesia, porque era um dente morto e não iria doer, e do nada começou a fazer o procedimento. Realmente, a dor era mínima, dava para suportar. Eu só queria que resolvesse minha dor. Porém, do nada, ele começou a explicar toda a intervenção para mim, passo a passo, mas me chamando de “senhor”. A cada 10 palavras, ele me chamava “Senhor Magrini”. E de repente, ele disse: “O senhor tem que parar de fumar”. Eu nunca fumei na minha vida. Ele falava tudo no masculino. Eu comecei a ficar num estado nervoso. Ele perguntou: “Senhor Magrini, está chorando? Está doendo?”. Eu não respondi.

Existe um aparelho que se usa para fazer canal que sai uma fumacinha, ele olhou nos meus olhos, rindo muito e disse: “Olha essa fumaça, parece um churrasquinho. Como o senhor quer a sua carne assada? Bem ou mal passada, senhor Magrini?”. Eu apenas chorava e não respondia, só queria que aquela tortura acabasse e minha dor de dente também. Como sair correndo dali? Pensei que se eu fizesse um movimento, esse psicopata cortaria o meu rosto com esse aparelho, e se por maldade fizesse algo na minha boca? Então, preferi já que estava ali, terminar com meu sofrimento.

Quando terminou tudo, ele disse: “Bom senhor Magrini, no dia 6 de outubro, o senhor retorna para finalizarmos o procedimento, ok”. Eu chorando o tempo todo, olhei para ele e disse: “A minha dor de dente acabou, mas a dor da minha alma não. O senhor pagará caro pela sua transfobia”, e sai da sala.

Fui até a administração da clínica, em estado de choque, muito nervosa e chorando. Fui bem acolhida pela responsável da clínica, que a todo momento me deu razão, e concordando que o Dr. cometeu um crime contra a constituição, pois todos nós temos direito ao respeito. Mesmo assim, fui para casa tentar me acalmar e resolver tudo com calma.

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Giovanna Magrini – acervo pessoal

Foi a primeira vez que você vivenciou uma situação envolvendo transfobia?

Tenho 44 anos. Passei toda a minha vida lutando contra vários transfóbicos, e sei o que esperam de mim: agressão, barraco, e que eu responda com violência, pois é assim que as mulheres trans brasileiras resolvem no momento de uma agressão transfóbica.

Se tornam tão marginais quanto os transfóbicos, e acabam às vezes sendo piores que eles. Só que não concordo com isso e não sou assim, até porque sou bastante “calejada” na vida e o amadurecimento me fez ver que violência gera mais violência. Quanto mais você se estressar, gritar, bater neles, mais você endossa todo esse sistema.

Sofri um ataque terrorista em Paris de um homem de origem argelina. Ele agrediu a mim e outra mulher transgênero em um supermercado no ano de 2010. Fui página inteira do jornal Libération com o título: “Transfobia na hora do aperitivo em St. Ouen”.

Graças a Deus, eu tive um pai e uma mãe que sempre me ensinaram que a maior “arma” contra o preconceito e para se proteger é o conhecimento. Como eu conheço a lei francesa e a constituição, mantive o sangue frio, pois tinha certeza que esta seria a última vez que ele seria transfóbico com alguém.

Voltando ao caso do dentista, como você fez a denúncia quanto a transfobia?

No dia seguinte ao ocorrido, fui para meu trabalho no hospital e conversei com o meu chefe. Ele me orientou a denunciá-lo ao Conselho de Ordem Nacional de Cirurgião Dentista da França. Então escrevi um email, explicando tudo e enviei para o Conselho e para a direção da Clínica Dentego.

No dia seguinte, recebi um telefonema da própria presidente do Conselho de Ordem de Cirurgião Dentista. Ela me ouviu e me deu razão, mesmo não tendo provas concretas além da minha própria palavra. Me propôs termos um encontro “cara a cara” com o doutor, para fazê-lo assumir sua culpa, se retratar, me pedir perdão, para que isso nunca mais aconteça com nenhuma outra mulher transgênero.

giovanna magrini em um manifestação
Giovanna Magrini – acervo pessoal

Três meses depois saiu o resultado dessa denúncia. O que foi decidido, após ter sido avaliado?

No dia 1/10/2020, tivemos o enfrentamento cara a cara na frente da presidente. Eu disse todo o ocorrido, e que o doutor por ser uma pessoa de religião muçulmana, deveria sentir vergonha por cometer um pecado de me julgar e me ofender.

Acredito que a grandeza do ser humano está em assumir seus erros e que ele deveria ter humildade o suficiente para me pedir desculpas. Porque o grande ser humano é o que assume seus erros e os conserta, e que ele deveria ser humilde, e me pedir desculpas.

Ele confessou seu erro e explicou que, pela pandemia, sua avó tinha falecido um pouco antes do ocorrido e, pelo nervosismo, acabou tendo esta atitude. Ele estava bem emocionado e me pediu perdão, e que não iria mais se repetir.

Aceitei o pedido de desculpas e também fiquei emocionada. O Conselho alegou que a tragédia pessoal dele não justifica o fato dele ser cruel e transfóbico comigo, e que o mesmo precisará ter mais atenção em seu comportamento. Em caso de reincidência, ele poderia sofrer perdas como o seu diploma e o direito de exercer a medicina na França.

Giovanna Magrini em um protesto
Giovanna Magrini – acervo pessoal

Você receberá uma indenização?

A presidente do Conselho me perguntou se eu estava satisfeita com o pedido de desculpas dele, respondi que sim. Ela (presidente) me perguntou se eu queria alguma indenização por parte do médico, mas não achei necessário, pois para mim a honra é mais importante e também dou minha contribuição para a luta de tantas mulheres trans. O dinheiro não me traria satisfação, mas sim o reconhecimento.

Se fere nossa existência, devemos fazer resistência, mas sem guerra e somente com a lei, pois a justiça não falha. Comentei que queria que o Dr tivesse uma lição para a vida e que entendesse que seus valores religiosos deveriam ficar exclusivamente na igreja dele. Caso atenda um paciente LGBT, ele deveria respeitá-lo, mas sem julgamentos. religiosos Disse também que, só queria que o Dr. tivesse uma lição de vida para entender que a religião dele, deve ficar na igreja dele, e não no trabalho dele, e que se ele tiver um paciente LGBT, que ele o respeite sem julgamento.

A presidente deu a ele uma advertência verbal, que o mesmo teria um ponto negativo com o Conselho, e caso houvesse outro problema envolvendo LGBTFOBIA, eles não seriam tão amigáveis.

Você acredita que se esse caso de transfobia tivesse ocorrido no Brasil teria sido feita a justiça da mesma forma?

Acredito que sim. Apesar de pensar que nada funciona, e que a lei brasileira é uma m**** que deixou no poder milicianos corruptos no nosso governo. Enquanto o brasileiro não acreditar na lei, na justiça, sempre o mal vai criar forças. Eu já passei por isso no Brasil com um tenente da PM, e fui até o final do processo, e ele teve sua farda tomada.

O tenente espancava as mulheres trans que trabalhavam na rua como garotas de programa, e todos pensavam que ali era “terra sem lei”. Deixavam ele e sua quadrilha de PM fazerem coisas horríveis com as trans, até o dia que foi comigo. No dia seguinte, fui à corregedoria denunciá-lo e, graças a uma câmera de uma loja, eu tive a prova necessária. Acreditaram em mim, e graças a uma câmera de uma loja, foi a prova fatal. Ele foi condenado, pois todas suas vítimas estavam no processo e eram mais de 10 mulheres trans.

Apesar dos pesares, eu acho que temos que acreditar na justiça do Brasil, mesmo sendo lenta. Na época de adolescência eu fui expulsa da escola injustamente por transfobia da diretora e me calei, aceitando tudo isso. Se eu tivesse “corrido atrás”, denunciado e acreditado que a lei seria cumprida, eu poderia ter tido um outro destino. Fui covarde comigo mesma, mas não irei mais permitir que algo aconteça e ninguém, nunca mais, vai ousar tentar destruir minha existência.

Acredita que a comunidade trans é mais respeitada na França do que no Brasil?

Com certeza. Aqui não mata a cada 26 horas uma mulher transgênero. No Brasil, 329 LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) foram mortos vítima da violência em 2019.  Foram 297 homicídios e 32 suicídios. Isso equivale a 1 morte a cada 26 horas.

Não somos obrigadas a sermos trabalhadoras do sexo na França. As que são documentadas, fazem porque querem, pois todas as mulheres trans de todos os países com documento europeu ou francês podem fazer faculdade de graça, cursos gratuitos, terem um diploma e trabalhar onde elas são competentes.

Na França conheço mulheres trans que são advogadas, jornalistas, chefes de empresas de telefonia, aeromoça, recepcionistas no aeroporto internacional de Paris Charles de Gaulle, chefes de cozinha em restaurante, mediadoras de saúde como eu. Não dá nem pra contar no dedo (risos). Enfim, nós [transgêneros] temos mais qualidade de vida na França quando comparado ao Bras.

Giovanna Magrini mediadora em saúde
Giovanna Magrini – acervo pessoal

Você disse uma frase interessante sobre você ser a resistência quando quiserem destruir a sua existência…

Já sofri transfobia várias vezes em Paris, todas de origem africana ou árabe, de religião muçulmana ou judaica. Tenho cicatrizes no corpo e na alma, mas sinto que a justiça foi feita quando essas pessoas são punidas pela lei. Somos todos diferentes, mas somos todos seres humanos e devemos respeitar uns aos outros para vivermos em paz, em harmonia.

Seu amor você dá para quem você quiser, mas o respeito é obrigatório para todos. Como eu disse antes, sempre que tentarem destruir sua existência, façam resistência, para que a lei defenda seus direitos. Talvez não mudaremos o mundo hoje, mas colaboraremos para um mundo melhor no futuro e servirá de exemplo, pois tudo que você faz, suas escolhas hoje, tem um reflexo no futuro. Mas se todos fizerem resistência contra a LGBTFOBIA, com a lei, saibam que em um futuro próximo salvaremos vidas.

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