A história de Giovanna Magrini lembra um dos enredos mais famosos do escritor baiano Jorge Amado. Na obra literária Tieta, uma jovem é expulsa de casa pelo pai e retorna décadas depois bem sucedida. Assim como a personagem da novela, Giovanna também foi expulsa de casa pelo patriarca da família, recorreu ao mercado do sexo para sobreviver e anos depois realizou um antigo sonho de infância: ser atriz.

das esquinas de são paulo para o cinema francês
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Durante uma longa conversa por telefone diretamente de Paris onde atualmente mora, ela relembrou as dificuldades ao longo da vida: o preconceito, a máfia das cafetinas, a morte do marido, a violência da polícia e quando decidiu deixar tudo pra trás e recomeçar uma nova vida na Europa.

Recentemente, Giovanna estrelou a campanha educativa francesa sobre o Dia Internacional Contra a Homofobia celebrado no dia 17 de maio.

1 – Você se descobriu trans aos 13 anos, aos 16 você foi expulsa de casa pelo seu pai transfóbico e teve que vender o corpo nessa idade para sobreviver. Experiências difíceis para alguém em plena adolescência, como foi lidar com isso?

Não há dor maior que ser desprezada pela pessoa que você mais ama e admira! Ao me deparar nas ruas compreendi que deveria “sobreviver”, porém sozinha, minha fé em “DEUS” era maior que o ódio e sofrimento a Fé quem me deu a força para não desistir em meio tanto sofrimento e vergonha de ficar em uma esquina exposta a todo tipo de violência vindas de pessoas piores que meu pai. Na vida quando tudo esta dando errado você tem que escolher; Ser uma pessoa boa ou ruim, escolhi ser uma pessoa boa, sabia que iria pagar o preço mais alto da vitória, pois o caminho é mais longo e sofrido. Poderia ter entrado em uma facção criminosa, ganhar grana mais rápido vendendo drogas, sequestrando pessoas ricas, fazer parte da máfia que exporta meninas trans para Europa e ganhar então muito dinheiro, poder voltar pra minha cidade e mostrar ao meu pai que venci. Mas como tinha muito amor e não ódio do meu pai, decidi o caminho da honestidade, do politicamente correto, queria provar que eu não era um monstro, ou criminosa por ser uma mulher transgênero, e que se eu fosse uma pessoa vitoriosa, honesta, ele teria orgulho de mim e me aceitaria de volta no seu coração.

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2 – É muito grande a evasão escolar na comunidade LGBT em função do bullying, e você acabou sendo expulsa de duas escolas por transfobia, em uma delas você sofreu uma falsa acusação de uma diretora que alegou que você usava drogas e fazia sexo com os meninos no banheiro da instituição. O que a Giovanna hoje aos 45 anos diria para si mesma aos 16 vivendo no meio desse furacão de preconceitos vindo de todos os lados?

Nada e ninguém poderá destruir nossos sonhos! Ninguém é maior ou mais forte que nossa fé em Deus, tudo que não nos mata nos torna forte. O inimigo não pode compreender que se a árvore ter uma raiz forte e criada por Deus nunca morrerá mesmo se for podada. Uma porta pode até se fechar, se tentar nunca desistir outras abrirão, ninguém pode escrever nossa história a não ser nós mesmos, depende de nós a vitória ou a derrota, basta não desistir nunca, nada que falarem ou pensar de você mudará a sua essência!

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3 – Após concluir o segundo grau (meados dos anos 90), você foi pra São Paulo em busca de uma vida melhor e acabou caindo nas mãos de cafetinas famosas da época como Andrea de Maio e Cris Negão. Como era o mercado do sexo em SP naquela época?

Não imaginava que seria uma grande escola de vida com falsos amores, falsas amizades, pensava que a polícia era para proteger mas no mundo da prostituição eram ditadores transfóbicos doentes a Rota de São Paulo. Eram milicianos com uniforme da polícia, levavam as mulheres trans trabalhadoras do sexo para a Serra da Cantareira, éramos expostas a todo tipo de violência física e sexual; espancadas, cabelos queimados com isqueiros, estupradas sem preservativo, nos despiam, ficávamos somente de calcinha e gritavam para correr sem olhar para trás, davam tiros para o alto, passei por coisas e presenciei horrores que nunca pensei que existiria. Muitas trans foram assassinadas, seus corpos eram jogados como sacos de lixo perto onde trabalhávamos, para nos intimidar a não denunciar os policiais da Rota. Éramos torturadas em paredões feitos nos pontos da cidade onde fazíamos prostituição como Jockey Club na cidade Jardim em SP, Indianópolis bairro nobre da zona sul de SP, fica no distrito de Moema e Saúde, centro de SP rua Amaral Gurgel, éramos submetidas a revistas com violência e desrespeito a nossa identidade de gênero, batiam com cacetete nas nádegas para deformar nosso silicone, nas mãos como faziam na ditadura e escravidão com palmatórias.Em meio a tantos horrores o que mais me doía, era ver as mulheres transgêneros como: Andréa de Mayo, Cris Negão, Ariadina do Índio, Vanessa da Penha, Aline Cabelão, Bruna Tramontina da Radial Leste, serem transfóbicas com nós mulheres trans, que elas sabiam perfeitamente a vida que levávamos nas mãos da Rota, cafetinando com maldade, torturas físicas e psicológicas, ameaçavam as famílias dessas vítimas quando não pagavam as dívidas criadas pelas cafetinas. Muitas se suicidaram nas drogas e álcool por não acreditar mais na vida de tanto sofrimento, torturas. Não existia nenhuma ONG para nos defender a não ser a casa de Brenda Lee mas infelizmente ela foi assassinada pelo marido na época. Éramos expostas a sorte infelizmente, quem sobreviveu como eu venceu, mas muitas não tiveram a mesma sorte.

4 – Trabalhando na noite, um dos seus maiores desejos era ter a prótese de silicone, mas sem condições pra isso, você foi no programa do Ratinho pedir uma, competindo com outras 2 trans. O que te fez ganhar a prótese? É verdade que o apresentador gostou tanto de você que acabou indo várias vezes ao programa de TV?

Minha filosofia de vida sempre foi ser “politicamente correta” e sempre falar a verdade. As perguntas eram feitas para as 3 de forma igual, porém nas respostas eu me destaquei mais por ser verdadeira, minhas colegas responderam que eram assalariadas, cabelereira e estilista, sendo que na verdade elas eram como eu: trabalhadoras do sexo. Falei para o Ratinho que fazia programa por R$5 a R$10 e como juntaria R$ 15mil reais para pagar uma cirurgia plástica?

Relataram um conto de fadas mentiroso pois tinham sido expulsas de casa, sofreram com seus pais, e eram putas como eu. Eu disse “já que a sociedade me jogou nas esquinas me obrigando a ser puta e tirando meus direitos sociais como cidadã, queria ter minhas protéses mamárias para ficar com o corpo de acordo com minha alma, poder investir no ramo do trabalho do sexo indo para Europa, fazer filme pornô e não morrer nas mãos de cafetinas e policiais nas ruas de Sao Paulo”. Falei a verdade nada mais. 

5 – Após a prótese e a participação no prog. do Ratinho, vieram diversos convites para fazer filmes eróticos e posar para revistas pornográficas da época. Foi nesse momento que você deixou as ruas paulistanas?

Sim, me recuperei da cirurgia, fui ao SBT canal de TV onde o Ratinho tinha ido trabalhar pois quando fui pedir meus seios, seu programa era na Rede Record. Ao mostrar o resultado da cirurgia no SBT, no dia seguinte vieram várias ligações de propostas de filmes pornô, revistas pornôs femininas com edições especiais com mulheres trans. Aceitei todas as propostas e enfim estava realizando meu sonho de não precisar mais do trabalho do sexo nas ruas de São Paulo. Aceitei todos os convites, comecei a ganhar muito dinheiro, comprei um carro, estava ficando muito bem de vida…enfim realizando meus sonhos.

6- Certa vez uma trans disse que a família passa a “aceitar” melhor a orientação sexual do filho(a), quando este adquire uma situação financeira estável. Você notou isso também com a sua família? Como foi a reconciliação com o seu pai?

A vida me ensinou que a familia de um LGBT tem uma reação negativa quando decidem assumir a orientação sexual ou a identidade de gênero, não por que nos odeiam, pelo contrário, é o medo de sermos humilhados(as), assassinados(as) e nossa familia não poder nos defender. No meu caso, não precisei comprar minha familia porque eles me amavam e amam de graça, porém o machismo do meu pai, a criação que teve não foi culpa dele esse ódio, nunca deixei de amar e respeitar meu pai. Foi criado para ser machista assim como muitos homens no nosso Brasil!

Meu pai sofreu um acidente em que teve queimaduras de segundo grau, foi internado, ficou preocupado como iria pagar tudo isso e minha mãe disse ‘’lembra do filho que você odiava e expulsou a base de pancada de sua casa? Então, pagou tudo para você não sofrer, pois você é muito importante para ‘ele’ e mesmo com todo o mau que você causou na vida ‘dele’, não quer que você morra’’.

Num verão de 1999, meu pai me ligou, respondi que não queria falar com ele, pois estava magoada ainda e desliguei. Uma semana depois, fui com meu carro até Bauru-SP, cheguei em uma tarde quente, estava vestida de saia jeans, salto alto, uma blusa com um decote bem colorida, parei em frente sua casa, ali estava ele fumando seu cigarro sentado em uma cadeira, desci do carro e não me reconheceu, pois quando saí de casa era só um garoto, não acompanhou a minha transição física. Quando percebi que não havia me reconhecido, comecei a chorar, ele perguntou por que estava chorando, eu disse que era a filha que ele expulsou de casa. Ali meu pai caiu em prantos de joelho pedindo perdão, por tudo que me fez de ruim e beijava meus pés.

Levantei meu pai e disse “pára com isso, me dê um abraço, eu te amo, sempre te amei, perdão por não ser o filho que você queria que eu fosse”. Depois disso, vivemos anos de amor e alegria, infelizmente meu pai morreu em julho de 2018, vítima de um câncer.

Acervo pessoal
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7 – Houve um momento que tudo parecia perfeito na sua vida, você estava casada com um rapaz que também fazia filmes eróticos, haviam comprado juntos um apartamento e montado um negócio e o mercado do sexo havia se tornado algo do passado. Até que uma tragédia pessoal mudou tudo isso – o suicídio dele. Você comentou comigo que ele sofria homofobia em todos os ambientes por se relacionar com uma trans, você acha que foi isso que influenciou o suicídio?

Marcelo Barbosa da Silva era o meu grande amor, e será para sempre o homem da minha vida. Não só da sociedade como da família dele também havia essa indiferença que o matava por dentro, mesmo sua mãe vindo nos visitar, sentíamos um desconforto, pois queria ver seu filho com uma mulher cis e netos para ela. Muitas vezes chegava em casa parecia que tinha vindo de um ringue de boxe…cheio de hematomas, sangrando, porque tinha brigado na rua com homens homofóbicos, pois lutava defesa pessoal, tinha medo de apanhar, então treinava dia e noite. Vivíamos nosso conto de fadas de amor e sonhos de adotar uma criança, termos nossa casinha no campo no interior de SP na minha cidade, amava cavalos queria ter uma chacarazinha, cultivarmos nosso alimento, vivermos em paz, tínhamos saído do mundo do trabalho do sexo e da pornografia, tínhamos nosso próprio negócio, nosso apartamento, mas a LGBTFOBIA venceu mais uma vez. No dia 08/02/2000 Marcelo se matou enforcado.

Nunca pensei que sentiria uma parte de mim morrer, não sentia mais o chão, não escutava mais ninguém, parecia que eu estava anestesiada mesmo depois de enterrar meu amor. Semanas se passaram, meses, eu andava nas ruas, não ouvia nada, não sentia meu coração bater, era um vazio sem explicação. Ao sair nas ruas, andava procurando por Marcelo, pois achava que ia reencontrar meu amor. As noites eram longas, chorava todos os dias, meus cabelos começaram a cair, comecei a emagrecer, morrendo-viva dia após dia.

8- Foi após essa tragédia que você resolveu vender tudo e passar uns tempos na Europa né, mas precisamente na Espanha mas o que de fato aconteceu que você foi parar em Paris perdida sem conhecer ninguém e nem mesmo o idioma?

Tive um sonho com meu amor que me dizia que deveria seguir com minha vida, que um dia iríamos reviver nossa história e que no momento deveria seguir adiante, pois meus pais precisavam de mim viva – não morta. Então nesse dia, acordei outra pessoa e com a decisão de ir embora do Brasil, chamei minha família, disse que infelizmente não iria superar a morte do Marcelo, que ali iria morrer, e que iria para Europa e depois voltaria mais forte para poder seguir com minha vida. No aeroporto internacional de São Paulo, a despedida foi horrível, disse a minha mãe que as vezes não bastava virar a página de nossa vida, porque somos humanos, sempre a gente volta a ler o passado e isso pode ser ruim, nos matar, que eu deveria jogar fora o livro da minha vida e reescrever uma nova história.

Minha mãe disse que eu estava certa, que deveria seguir meu coração e saber que sempre poderia voltar, pois estariam todos me esperando de braços abertos.

Obs: o destino seria a Espanha, porém durante a conexão do voo em Paris, Giovanna foi seguindo as placas sortie/exit (saída) e acabou saindo do aeroporto e perdendo a viagem. Decidiu ficar em Paris e recomeçar do zero.

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9 – Você teve que voltar ao mercado do sexo para sobreviver em Paris, no famoso parque Bois de Boulogne, ali você fez amigas, ganhou dinheiro e o principal conseguiu virar a página em relação a perda do marido. Mas como era atuar como profissional do sexo durante o inverno parisiense que é bastante rigoroso?

Totalmente diferente do Brasil, além da violência dos homens de origem árabe e africanos que assaltavam na noite os clientes e as vezes as trabalhadoras do sexo, que também sofriam todo tipo de violência sexual e física.

Era uma fora da lei, uma emigrante sem documentos, me escondia da polícia com medo de ser deportada, tinha as trans equatorianas e colombianas marginais e cafetinas perigosas que não aceitavam as mais novas chegarem sem ser apadrinhadas por alguma delas e pagar um ponto de U$3 a 5 mil dólares. Pois cheguei com meu dinheiro e sozinha, sem cafetina, infelizmente era um tempo que a maldade da transfobia não era somente nas ruas de São Paulo.

Em 2003, o atual ministro do interior Nicolas Sarkozy, criou a lei da Racolage Passiva, que é a penalização da prostituição mas seria as trabalhadoras do sexo as penalizadas. Fui presa várias vezes e da última vez, fiquei 2 dias presa e levada com outras 10 mulheres trans para julgamento e fomos advertidas não voltar mais para as ruas para se prostituir.
Em 2007, investi no ramo de trabalhar com anúncios em revistas, jornais e não ia todos os dias trabalhar no Bois de Boulonge.

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10 – E como surgiu a chance de fazer cinema?

Foi em 2003, quando a produção do filme TIRESIA realizada por Bertrand Bonello, com os atores principais Laurent Lucas e Clara Choveaux, procuravam mulheres trans de todas as origens para uma participação. Entao uma amiga (Stella Rocha) tinha passado no casting para um papel com destaque e disse se eu queria fazer figuração e aceitei. Daí vieram outros trabalhos como Wild Side (2004), e comecei a minha carreira de atriz no cinema francês, mas não ganhava o suficente, por isso continuava como trabalhadora do sexo.

11 – Seu segundo trabalho foi no elogiado “Lado Selvagem” (Wild Side, 2004), inclusive em uma das cenas há um diálogo entre você e a trans Stella, ela falando em francês e você em português. Como foi ter feito esse filme?

Foi uma experiência de aprendizado de técnica que não tinha, pois ainda estava aprendendo a lidar com as câmeras, embora eu tivesse nascido para seguir essa carreira de atriz, mas aprendi com toda humildade o Savoir Faire (saber-fazer) do cinema. Amei, pois a história era comovente e falava também um pouco de mim quando ela (a personagem) foi rejeitada pela mãe por se assumir uma mulher trans, depois os amores que não deram certo, enfim foi uma linda história.

12 – Paralelo a carreira de atriz que estava começando a ter êxito (inclusive você tirou o registro de atriz), você continuou no Bois de Boulogne, em que momento você deixou o mercado do sexo para se dedicar somente a carreira de atriz?

Em 2009, quando tinha um contrato com o CANAL+ o canal 4 aqui na tv francesa, um programa Grooland tipo o Zorra Total da TV Globo, tinha personagens sátiros e ali quando me convidaram para fazer a abertura do programa comecei a ganhar mais dinheiro, recebendo cachê de atriz como qualquer outra famosa da época nesse canal. Muitos produtores de cinema me deram oportunidades de trabalho, não era com muito destaque, porém estava vivendo do meu sonho, abandonei de vez o trabalho do sexo já que poderia sobreviver do meu sonho que tinha se tornado realidade.

13 – Sua carreira acabou despontando, você atuou em filmes, séries, programas de TV e roubou a cena no documentário “O Voo da Beleza” (2011) sobre a vida das trans brasileiras em Paris. Ser atriz era a realização de um sonho antigo?

Como toda sagitariana, nasci artista de família de origem italiana, um povo alegre mesmo na desgraça, são sempre positivos e alegres. Meu pai e seus irmãos eram palhaços para piadas, tinham um dom de memorizar textos longos, sempre cantavam nas reuniões de família músicas antigas, sertanejas românticas, internacionais como Beatles, Abba, Bee Gees…veio o dom de familia o sangue artístico. Sempre sonhei em ser famosa, já me imaginei olhando para o espelho ganhando o César do Festival de Cannes. A arte nasceu dentro de mim como um sopro de vida, o que me faz viver e acreditar no amanhã, que um dia serei reconhecida mundialmente como a atriz Giovanna Magrini e meu passado será meu cavalo de batalha com orgulho, poder ser espelho para muitas mulheres transgêneros de poderem acreditar em seus sonhos, saber que temos nosso lugar no mundo mas para isso devemos ir a luta conquistar.

14 – Você também é militante da causa LGBTQI+, tendo atuado como voluntária em diversas ONGs, inclusive você participou de pelo menos 3 campanhas educativas para a TV, uma delas foi lançada recentemente no dia 17 último. Como foi ter participado dessa campanha? E qual a importância da data 17 de maio “Dia Internacional Contra a Homofobia”?

É uma honra ter sido escolhida a única mulher trans para representar minha comunidade nesse clipe do dia 17, poder aprender mais sobre a técnica da arte de fazer um clipe musical. Quando vemos um clipe musical não sabemos o quanto é complicado produzir uma cena, as vezes o clipe tem 3 minutos mas foram horas, dias para produzir essa magia que me contagia como um conto de fadas para mim.

A cada 16h uma mulher trans é assassinada no Brasil, no mundo muitos gays e lésbicas são torturados até a morte. Países onde a religião muçulmana predomina e satanizão a comunidade LGBTQ+. E me ponho no lugar dessas pessoas pois poderia ser eu, espero que um dia o mundo possa respeitar as pessoas, suas diversidades e viverem todos em paz e amor.

15 – Além de atriz, você também tem outras profissões, você fez um curso de modelismo e costura pelo Senac durante um período de férias no Brasil e também fez um curso na área da saúde em Paris, inclusive atualmente você esta trabalhando em um hospital daí. Fale um pouco da função que você realiza que esta relacionada com imigrantes ilegais que não falam francês e necessitam de cuidados de saúde?

Trabalho em um hospital como mediadora de saúde pública “MEDIATRICE DE SANTE” para ajudar os latino-americanos LGBT e héteros a terem acesso a saúde pública, mesmo sem documentos europeus, se tem direito a saúde pública na França. Ajudo adquirir o cartão de saúde gratuito para terem todo tipo de tratamento de saúde e dentário de graça. Defendo os direitos das pessoas transgênero, pois minha comunidade ainda é bem mais vulnerável a terem direitos sociais como asilo político, muitas sao de países muçulmanos onde existe à pena de morte para LGBTQ+. Todos têm direito a inclusão social como todo cidadão.

16 – Como você esta lidando com o isolamento social em tempos de pandemia? As trans que dependem ainda do Bois de Boulogne como estão fazendo nesse período?

Muito triste, hoje na França, mulheres trans que dependem do trabalho do sexo sofreram com o impacto do COVID 19. Algumas morreram pelo vírus, a maioria estão negociando com os donos de apartamentos para poder pagar os meses de aluguéis atrasados de 3 meses, pois o confinamento acabou dia 11/05, uns aceitaram, outros não e expulsaram muitas meninas de suas casas no início do confinamento em março. Vivendo de favor na casa de anjos que abriram as portas de suas casas, estão vivendo de doações de cestas básicas e material de higiene de ONGs que são formadas pela nossa comunidade LGBTQ+, anjos de Deus que solidarizaram com a precariedade das meninas.

17 – E como você analisa o momento político atual do Brasil?

Nunca o cidadão estará contente se não for quem ele quer como eleito, nada será bom, infelizmente na política desde que o mundo é mundo será assim. Na França, o presidente é considerado a besta do apocalipse, o presidente da Rússia comparado ao ditador Adolf Hitler, Jair Bolsonaro não seria diferente, um país que foi governado pelo PT por 14 anos mudar radicalmente para um partido « Evangélico e ditador », não daria bons resultados. Nosso presidente infelizmente não tem preparo diplomático nem pedagógico para se expressar publicamente, completamente ignorante e retrógrado, não deveria nunca ocupar o cargo de presidente. Seu maior defeito é sua ideologia religiosa onde nossa constituição é laica, não se pode pregar o nome de um só Deus e nem religião e dogmas, podendo se torna um pais talibão onde somente a religião Islâmica predomina e qualquer outra é sentenciada de pena de morte. Não se pode governar um país com suas ideologias pessoais religiosas, não pode aplicar em seus discursos versículos bíblicos, pois o que rege nosso país são artigos da constituição, nada mais. Nosso presidente brasileiro veio para poder mostrar o quanto nosso Brasil é formado por pessoas ignorantes e ditadores religiosos, ele está onde a maioria do povo assim desejou no voto. Hoje em 2020, os mesmos estão decepcionados e revoltados com essa criatura por tanta besteira falada e feita que acabou atingindo seus seguidores soldados fiéis.

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18 – Planos de um dia voltar a viver no Brasil?

Penso em voltar a viver definitivamente no Brasil daqui uns anos para montar minha ONG onde será uma cooperativa para minha comunidade transgênero. Poder dar a essas meninas uma qualidade de vida, um lar, um amanhã sem dor, sem sofrimento, poderem estudar e realizar seus sonhos. Nessa ONG, terão onde dormir, comer, festejar seus aniversários, viver em um lar como uma família. Sair das ruas da vida de prostituição, pois muitas estão ali por necessidade de sobrevivência, muitas são infectadas pelo HIV e são expulsas do seio da família por repúdio a doença. Essas hoje, vivem nas ruas como zumbis pelo crack, sempre que vou a São Paulo ou Bauru, as vejo vagando nas ruas mas não posso ainda fazer nada, pois daqui a uns 3 anos estou já projetando minha volta para poder realizar mais esse último projeto de vida e deixar um legado para minha geração futura.

19 – Por que você decidiu não mudar o nome no registro (Luis Ricardo) se é algo possível nos dias de hoje?

Não vou entrar em uma casinha que a sociedade criou para me aceitar como cidadã a mulher transgênero. Não sou feita de barro para que eu seja da forma que determina a sociedade!

Nasci mulher transgênero, devo ser aceita e respeitada, só troco o documento se for como sexo a letra T. O significado da letra M e F, é que essa pessoa nasceu com sua identidade de gênero Homem ou Mulher, aceitando seu sexo genital de acordo com seu gênero, seja cisgênero como dizem por aí heterossexuais. Não fiz a troca de sexo, respeito quem fez, mas não preciso ter vagina, nem da letra F no meu documento para ter meus direitos constitucionais respeitados seja no Brasil ou no mundo. Não estou inventando ideologia de gênero, pois existe desde que o mundo é mundo as mulheres trans, no museu do Louvre em Paris podemos ver O Hermaphroditus Dormir, é uma escultura de mármore antigo que descreve Hermaphroditus em tamanho natural, em Roma ano de 1608, foi encontrada quando as fundações da igreja foram sendo cavada. Tão evidente a imagem fala por si mesma uma mulher transgênero com um pênis deitada de bruços. Segundo pesquisadores pode ter sido esculpida em meados 155 A.C.

20 – É verdade que você pretende escrever uma biografia?

Sim, já tenho ela toda escrita, porém não encontrei ainda alguém que possa escrever bonito pois a forma que escrevi não dá para editar em um livro. Não tive filhos, pois eles dão continuidade a sua história, sempre vão lembrar de seus pais mesmo eles não existindo mais. Minha biografia seria uma forma de ser lembrada e também como auto-ajuda a essas milhares de mulheres de todas as formas e gêneros que existem no mundo, que sofrem abusos, são violadas em seus direitos, e poderão ler meu livro e ter como exemplo a minha história de superação, compaixão, força e coragem para nunca desistir de seus sonhos, pois somos maiores que eles, somos mais fortes que qualquer inimigo. Podem podar suas folhas mas se a raiz é constituída de amor e fé, sempre renascerá novas oportunidades, pois querer é poder, e acreditar em si mesmo é a única força que temos para chegar aonde a gente sonha mesmo que para muitos seja impossível.