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Saúde, educação, lazer, oportunidades de emprego e segurança são demandas comuns aos cidadãos de qualquer município, estado ou país. No caso das pessoas trans, não é diferente, exceto por um fator: eles e elas lutam diariamente para viver em uma sociedade em que o preconceito pode ser fatal.

No Brasil, de acordo com o IBGE, pessoas trans e travestis vivem até, em média, 35 anos, enquanto a expectativa de vida do restante da população chega a casa dos 75. Essa realidade é consequência de ações transfóbicas, violações de direitos, marginalização e vulnerabilidade. E é por isso que, a cada ano, essas e outras questões são levantadas e discutidas, especialmente no dia 29 de janeiro, data em que se celebra o Dia Nacional da Visibilidade Trans.

Como em boa parte dos casos, o processo de consolidação da identidade trans de Pedro Rafael Costa, 25, também foi conturbado. Ele era reconhecido enquanto “mulher lésbica”, mas foi na faculdade que passou a entender mais sobre quem era verdadeiramente. Ainda em transição, Pedro saiu de casa pela não aceitação da família, foi ameaçado de morte e passou dificuldades por não ter dinheiro para se manter, muito menos a faculdade.

“Eu entendia que eu não estava fazendo mal a ninguém sendo quem eu sou, mas que de uma certa forma eu precisava do apoio dessas pessoas. Eu tive que procurar forças em mim mesmo para poder me manter, sobreviver e seguir a vida do jeito que eu queria seguir: tendo paz”, contou.

Apesar do que passou, Pedro teve o apoio de pessoas importantes pelo caminho e conquistou o que muitas pessoas trans e travestis são impedidas de conquistar: o direito à vida e à educação superior. Hoje, ele é formado em Psicologia e trabalha com prevenção combinada ao HIV com jovens de 15 a 19 anos no PrEPara Salvador, dentro do Casarão da Diversidade, na capital baiana, espaço coordenado pela Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS), além de atender em clínicas como psicólogo, especialmente a população negra e LGBTQIA+.

“É o público que eu mais atendo por questão de vulnerabilidade, adoecimento, que eu sinto que devo trazer essa devolutiva. Eu não quero que eles passem pelo que eu passei. Eu entendo que o meu papel é cuidar dessa população”, pontuou.

Na Bahia, o Governo do Estado, através da SJDHDS, tem histórico na promoção e defesa dos direitos da população trans, reforçado por ações como o Papo T, de acolhimento, escuta e acompanhamento às pessoas trans e travestis; o curso de formação e empoderamento, Trans-Formação, em parceria com a ONU, e a distribuição de mais de 5 mil máscaras e itens de proteção pessoal para LGBTQIA+ durante a pandemia.

“Para nós, essa é uma data extremamente importante e, por isso, a secretaria participa dessa comemoração e luta em mais um ano. Trabalhamos para que as pessoas trans e travestis tenham o direito de viver e serem respeitadas em suas identidades”, afirmou Gabriel Teixeira, coordenador de Políticas LGBT da SJDHDS.

Além dessas iniciativas, a SJDHDS também mantém o Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia (CPDD-LGBT) no Casarão da Diversidade, que presta auxílio jurídico e social para gays, lésbicas, bis, travestis e transexuais. Desde o início desta semana, o CPDD está promovendo uma série de ações para marcar a Semana da Visibilidade Trans, culminando em um ato inter-religioso na plataforma Zoom nesta sexta-feira (29), com pedidos de respeito e mais amor proferidos por membros religiosos.

“Até pouco tempo, as pessoas trans, mesmo sendo LGBTQIA+, não tinham espaço nem o protagonismo devido. Por isso, nós estamos comemorando mais um janeiro da Visibilidade Trans com uma programação extensa no CPDD”, disse Renildo Barbosa, coordenador do espaço.

É justamente a luta por protagonismo que levou Ivan Santana Cunha, 42, a fundar a Associação LGBT Cores de Salinas no município de Salinas das Margaridas, cidade onde vive. Diferente de Pedro, Ivan não sofreu transfobia na família, mas, como presidente do coletivo, já acompanhou outras trans nessa situação.

Apesar de se identificar como mulher trans, Ivan mantém seu nome de batismo e se refere a si mesmo no masculino. Ele diz não se importar em como é chamado, já que nem isso nem “o órgão sexual definem a identidade de gênero da pessoa”.

“Tenho amigas trans que nunca fizeram cirurgia de resignação [para adequar o sexo anatômico ao psicológico]. São pessoas que vivem bem com seus órgãos, mas só querem ser respeitadas como elas se identificam. A gente sabe quando uma pessoa quer nos agredir verbalmente ou quer ganhar atenção às nossas custas. Eu admiro aquelas que lutam para ter o nome social na certidão porque é um direito”, frisou.

No ano passado, Ivan recebeu assistência do CPDD. Nesse período, a SJDHDS atuou para que seus direitos não fossem violados, sobretudo no que diz respeito à sua identidade.

Embora tenham subjetividades e singularidades únicas em seus processos de transgeneridade, Ivan e Pedro concordam que promover a visibilidade trans é uma questão de humanidade acima de tudo.

“Antes de carregar o nome ‘trans’ nas costas, somos seres humanos. Só ser resistência também adoece. Só ver luta também adoece. Isso não só cansa, mas mata também. Se todo mundo se acolher, independente da tribo, e enxergar as pessoas como seres humanos, as coisas do mundo não estariam do jeito que estão”, desabafou Pedro.

“Eles tentam sempre nos esconder, nos apagar e nos colocar no submundo, na marginalidade, como fizeram comigo e com várias trans. Visibilidade trans é a gente lutar todos os dias por respeito para ser visto pela sociedade como pessoas de bem, de caráter, e não como a gente é visto hoje: com toda discriminação e preconceito. Vamos fazer valer as leis que já foram conquistadas e não nos calar”, concluiu Ivan.

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